23 de maio de 2018

A Nova York de John Lennon


Será que eu já contei pra vocês que sou beatlemaníaca? (muitos risos) Os Beatles — e John Lennon, especialmente — são uma referência essencial na minha vida. No dia a dia, eu ouço muito a música deles, leio sobre a banda, pesquiso raridades. Como viajante, tenho sempre um prazer especial em visitar algum lugar ligado à história dos Fab4.

É por isso que todas as minhas visitas a Nova York começam em Strawberry Fields, singelo monumento no Central Park dedicado à memória de Lennon. É um lugar especial, mas não é o único a me deixar com um nó na garganta. Porque a verdade é que Nova York e o mundo estão cheios de “cantinhos Beatles”. E eu vou mostrar alguns deles aqui neste post.

Bora embarcar nessa jornada sentimental? Let me take you down, ‘cause I’m going to Strawberry Fields e outros lugares que não podem ficar fora do mapa de quem curte a melhor banda de todos os tempos.

☑️ John Lennon em Nova York


O memorial dedicado a Lennon fica quase em frente ao apartamento onde ele vivia
⭐ Strawberry Fields
Trilha sonora: Strawberry Fields Forever

Cada visita a Nova York é única e irrepetível. Mas as minhas — todas, sempre — começam em Strawberry Fields. Neste cantinho do Central Park, na altura da Rua 72 Oeste, Yoko Ono construiu um discreto memorial para John Lennon, assassinado na noite de 8 de dezembro de 1980, na entrada do Edifício Dakota, quase em frente, onde o casal vivia com o filho Sean.

O lugar não tem nada de retumbante — é só um mosaico em preto e branco onde está inscrita a palavra Imagine, título da canção mais conhecida de John — mas é o marco mais visível e acessível da presença de Lennon na cidade que ele amou e escolheu como lar.

A estação da 72 Oeste é o acesso mais prático a Strawberry Fields
O clima de Strawberry Fields já foi mais contemplativo. Minha visita mais recente, agora em março, foi a primeira, depois da invenção dos celulares com câmera e dos tiradores de selfies. Havia um certo frenesi que não combinava muito com a ideia original de Yoko — criar um recanto sossegado, destinado à reflexão. Mas daí eu lembrei que John era pacifista, respirei fundo e abstraí 😊.

➡️Como chegar a Strawberry Fields: a estação de metrô West 72nd St está bem em frente.

⭐ The St. Regis Hotel
2 East 55th Street, esquina com 5a Avenida
Trilha sonora: Jealous Guy

Quando atravessaram a poça (o Atlântico) com armas e bagagens, em 1971, John e Yoko viveram um tempo nesse hotel requintado, voltado para a avenida mais famosa de Nova York.

⭐105 Bank Street, Greenwich Village
Trilha sonora: Cold Turkey

Em outubro de 1971, John e Yoko alugaram um apartamento no Greenwich Village — o dono do imóvel era Joe Butler, da banda Lovin Spoonful. O bairro, velho reduto de artistas, boêmios e alternativos, prometia ser o recanto perfeito para o casal, que passou a ter vizinhos do quilate de Bob Dylan.

O Village parecia ser a vizinhança perfeita para John e Yoko
O apê ficava no terceiro andar de um predinho construído no Século 19, com direito a um terraço ajardinado na cobertura. Foi lá que Lennon e Yoko finalizaram as canções do álbum Some Time in New York City (meu favorito, embora tenha sido fiasco de público), lançado em junho de 1972.

O período não foi muito feliz para o casal. Lennon era alvo de uma caçada promovida pelo FBI, que queria deportá-lo como “comunista”. Yoko tentava desesperadamente localizar a filha, Kyoko Ono Cox, então com nove anos, sequestrada pelo pai — criada por uma seita cristã fundamentalista, a menina só voltaria a encontrar a mãe após a morte de John, em 1980.

O inferno astral só piorou após um assalto ao apartamento — John e Yoko, supostamente chapados, não puderam fazer muito para impedir a rapina de móveis e objetos. O episódio selou a decisão do casal de se mudar. O endereço escolhido foi o Dakota.

Além de John e Yoko, os 730 metros de extensão de Bank Street tiveram muitos outros moradores famosos, como a atriz Lauren Bacall (que também morou no Dakota), os escritores John dos Passos e Patricia Highsmith e o punk rocker Sid Vicious, dos Sex Pistols, que morreu de overdose no nº 63 da rua, em 1979.

O Dakota: já consegui fotografar, mais ainda não dou conta de chegar muito perto
⭐ The Dakota
1 W 72nd St, esquina com Central Park West
Trilha sonora: Watching The Wheels

Eu tenho sentimentos contraditórios em relação a esse edifício luxuoso que foi o lar de John — e é, ainda hoje, de Yoko — entre 1973 e dezembro de 1980. Por um lado, acho tocante imaginar Lennon assando pão caseiro e cuidando do filho, Sean, por trás da fachada neogótica imortalizada por Roman Polanski em O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1969).

Foi no Dakota que John, finalmente, encontrou a paz doméstica que buscou a vida inteira. Mas também foi lá, na entrada Sul do edifício, que aquele demente disparou cinco tiros em Lennon (vocês sabem que eu não escrevo o nome do sujeito, pra não dar a publicidade que ele tanto queria).

Em seis visitas a Nova York, jamais consegui pisar na calçada do prédio — e as fotos que você vê neste post foram as primeiras que tive ânimo de fazer do edifício.

Barraca de "lembrancinhas de Lennon" na saída do parque em frente ao Dakota
Inaugurado em 1884, o Dakota é um endereço exclusivíssimo e tradicional residência de ricos e famosos.

Lá viveram as estrelas de cinema Lauren Bacall, Judy Garland, a mitológica Lilian Gish — protagonista de O Nascimento de uma Nação (The Birth of a Nation, David Wark Griffith, 1915), considerado marco fundador do cinema narrativo, mas que é uma ode à Ku Klux Klan e vai ficar sem link aqui nesta citação.

A lista de moradores ainda inclui os também atores José Ferrer, Boris Karloff (o mais célebre dos intérpretes dos monstros de Frankenstein) e Jack Palance, o maestro Leonard Bernstein, a cantora Roberta Flack, e o bailarino e coreógrafo Rudolf Nureyev, entre outros.

Em anos mais recentes, os moradores do Dakota resolveram endurecer as regras para os candidatos a moradores do prédio — a lei americana permite isso — e o condomínio impediu que o casal de atores Melanie Griffith e Antonio Banderas comprassem um apartamento lá. A cantora Carly Simon também foi barrada pela seleta vizinhança.

⭐ The Hit Factory
353 West 48th Street, 6º andar
Trilha sonora: (JustLike) Starting Over

Estúdio onde foi gravado o álbum Double Fantasy, em 1980,o último de John. Atualmente, o lugar abriga outro estúdio, o Sear Sound.

Em 1974, ao lado de Elton John, Lennon fez o maior show de sua carreira pós-Beatles no Madison Square Garden
(Rich Mitchell/ Wikimedia Commons)
⭐ Madison Square Garden
4 Pennsylvania Plaza
Trilha sonora: Whatever gets you through the night

Local do maior show pós-Beatles da carreira de John Lennon, em novembro de 1974, na companhia de Elton John. Ele estava no topo das paradas com Whatever gets you through the night, do álbum Walls and Bridges.

Famoso por sediar lutas de Muhhammad Ali, jogos da NBA e de hóquei, o Garden também acolheu eventos mitológicos da música, como o Concerto para Bangladesh, promovido por George Harrison e Ravi Shankar, em 1971, The Song Remains the Same, do Led Zeppelin, em 1973 (ambos viraram filmes e, se você ainda não viu, largue este post e vá correndo procurar na internet), e Wish You Were Here, do Pink Floyd, em 1974.

Eric Clapton, que faz aniversário no mesmo dia que eu (mas não é por isso que eu o amo 😀), vai tocar lá nos dias 5 e 6 de outubro de 2018.



⭐ Hotel Delmonico
502 Park Avenue
Trilha sonora:  I Want to Hold YourHand

 Os Beatles estavam hospedados neste classiquíssimo hotel, inaugurado em 1929, quando receberam a visita de Bob Dylan. Conta a lenda que foi nesse encontro que o autor de Like a Rolling Stone teria apresentado o primeiro baseado aos Fab4.

Segundo relatos, Dylan acreditava que os meninos já seriam maconheiros experimentados, por ter entendido errado um verso de I Want to Hold Your Hand  – em vez de “I can’t hide” (“não posso esconder/disfarçar”) ele ouviu “I get high" (eu fico doidão”).

Sempre achei essa história deliciosa, mas bem inverossímil. Primeiro, porque farras homéricas com algum tipo de droga não eram estranhas aos Beatles — basta lembrar das duas temporadas em Hamburgo, Alemanha.

Segundo, porque Paul se refere a “escrever música e fumar maconha” no cachimbo do pai, Jim McCartney, com o resto dos rapazes, nas tardes que ensaiavam em sua casa de Forthlin Road, em Liverpool.

Seja lá qual for a verdade, o fato é que Dylan e os Beatles fizeram um tremendo fumacê no Delmonico, para provável desespero do empresário da banda, Brian Epstein, que tinha um trabalho infame para mantê-los penteados e dentro de seus terninhos de bons rapazes.

O Hotel Delmonico não existe mais. O edifício foi comprado e transformado em um condomínio de apartamentos de luxo pela família de Donald Trump.

O legendário Shea, em foto de 2007 
(Metsfan84/WikimediaCommons)
⭐ The Shea Stadium
Trilha sonora: I Feel Fine - (ao vivo no Shea Stadium)

Cenário do maior momento dos Beatles em Nova York, esse estádio de beisebol, no distrito do Queens, não existe mais. Foi demolido em 2009 para dar lugar ao estacionamento de uma arena esportiva mais moderna, a Citi Field.

O espírito do Shea, porém, é imortal. Foi lá, em agosto de 1965, que os Beatles inauguraram a era de grandes shows em estádios. Uma apoteose, com um público de 55 mil pessoas, recorde que demorou a ser batido.

A apresentação foi lançada em vídeo e clipes desse show, hoje, são figurinhas fáceis no youtube.

O concerto no Shea Stadium é parte importante da narrativa de Eight Days a Week, um documentário maravilhosos sobre a vida dos Beatles nas turnês e toda a loucura da Beatlemania, que levou os meninos a desistirem de apresentações ao vivo em 1966. Tem no Netflix.

Lennon e Bowie gravaram Fame no Eletric Lady Studios
(Jhsounds/Wikimedia Commons)
⭐ Electric Lady Studios
52 W 8th St, Greenwich Village
Trilha sonora: Imagine (David Bowie, ao vivo)

Neste estúdio, David Bowie e John Lennon se reuniram para compor e gravar o single Fame, em janeiro de 1975.

⭐ Tavern on the Green
1 Tavern on the Green, 67th Street, esquina com Central Park West
Trilha sonora: Beautiful Boy

John costumava levar o filho, Sean, a este simpaticíssimo restaurante do Central Park. Os dois celebraram alguns aniversários lá — ambos nasceram em 9 de outubro.

O Plaza: pouso frequente dos Beatles e palco de um barraco entre John e George
⭐ The Plaza Hotel
768 5th Avenue, esquina com Central Park South
Trilha sonora: We can work it out

 Este hotel era um dos pousos frequentes dos Beatles em Nova York. Em dezembro de 1974, quatro anos após a separação da banda, o Plaza foi palco de uma reunião onde John, Paul e George deveriam finalmente assinar os papéis de dissolução da Apple, empresa criada pelo grupo em 1968 para gerir os negócios do grupo e também uma gravadora — responsável por lançar James Taylor, por exemplo. Ringo, que estava em Londres, já havia assinado a documentação.

John, porém, não deu as caras. Por telefone, mandou a então namorada May Pang dizer que “a conjunção astral não era favorável”. Diante da insistência de George, ele acabou mandando entregar um balão de gás com uma plaquinha: “Ouça este balão”.


A partir daí, as lendas dão conta de um bate boca medonho (por telefone) entre George e John. Em uma entrevista à Playboy, em 1984, Paul confirma história do balão, a fúria de George e o barraco telefônico.

O fato, porém, é que em 20 de dezembro, alguns dias após a briga, John, Paul e George tiveram seu último (e carinhoso) encontro público em uma boate nova-iorquina, na festa de encerramento da turnê Dark Horse, de Harrison.

⭐454 East 52 Street
Trilha sonora: What you got

Durante o tal “fim de semana perdido”— o período entre 1973 e 1974, quando Lennon estava separado de Yoko — ele viveu em um apartamento de cobertura neste endereço, com a namorada May Pang.

No terraço deste apê foi feita a famosa sequência de fotos de Lennon com a camiseta “New York City”. O autor das imagens é o respeitado fotógrafo do Rock Bob Gruen, que era amigo de John.

Se o mundo fosse perfeito, este post seria ilustrado por uma dessas fotos, mas a licença de publicação custa US$ 400, preço justo, mas alto demais para este humilde bloguinho 😊. Anyway, você pode ver as imagens clicando aqui.

O Central Park era o "jardim" da família Ono/Lennon nos últimos anos de John
Algumas fontes deste post
Já perdi a conta de todos os livros, revistas, jornais, vídeos e sites que consultei, ao longo da vida, para saber mais sobre os Beatles e, especialmente, sobre John Lennon. Muitas informações deste post foram citadas de memória e a partir de anotações feitas para reportagens anteriores. 

Como repórter responsável checa várias vezes o que publica, conferi cada uma das informações publicadas aqui. Nesta tarefa, contei com preciosas postagens desses três blogs:

➡️ Daytonian in Manhattan - dedicado a resgatar a história de edifícios emblemáticos da ilha.

➡️ ittenhurst Park – este blog investiga e registra a história da célebre mansão de Berkshire, Inglaterra, onde John Lennon viveu entre 1969 e 1971 e também traz dados biográficos interessantes sobre John e Yoko.

➡️ The Beatles Bible – site cheio de dados biográficos e curiosidades sobre os Beatles.


☑️ Os Beatles na Fragata Surprise


Liverpool: roteiro dos Beatles (pra fazer por conta própria)
Liverpool: como chegar às casas do Beatles
Liverpool: meu magical mistery tour
Liverpool: 3 programas obrigatórios para beatlemaníacos


Londres para beatlemaníacos: a travessia de Abbey Road



Praga: o "Muro Lennon", em Mala Strána


Celebração entre amigos: o show de Ringo no Rio
Paul McCartney ao vivo: It's only (?!) Rock'n'Roll and I loooooove it

☑️ Outras dicas de Nova York
6 dias em Nova York – roteiro de um reencontro
Nova York - dicas práticas
Hospedagem em Nova York - hotel Pod 39
Onde comer - e o que comer - em Nova York
5 museus imperdíveis em Nova York
Trilha sonora para Nova York

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