18 de outubro de 2018

Chelsea Hotel, Nova York - templo da boemia

O mitológico Chelsea está sendo reformado para virar hotel de luxo
Para os fãs de ícones boêmios, eu tenho uma boa e uma má notícia. A boa é que o legendário Chelsea Hotel, em Nova York, tem reabertura prevista para o comecinho de 2019, após quase oito anos em reformas.

A má notícia é que o velho abrigo de hippies, beatnicks, roqueiros, modernistas, simbolistas, pops, existencialistas, desafiadores da Lei Seca, inconformistas de todos os matizes e representantes de todas as vanguardas do Século 20 vai reabrir podre de chique, como um hotel de luxo — provavelmente a anos luz do orçamento de quem se interessa pelas memórias desse tipo de gente.

Entre tapumes e andaimes, ainda dá para ver a placa que recorda Leonard Cohen como morador do Chelsea
Eu sempre faço questão de passar pelo Chelsea Hotel quando vou a Nova York. O lugar é tão importante quanto qualquer bom museu do mundo — e é listado como patrimônio histórico da cidade.

Só que o acervo do "Museu Celsea" a gente tem que levar na memória: fora umas placas alusivas a hóspedes e moradores ilustres, o santuário boêmio não é muito chegado a expor suvenires.

Nesta última visita, dei de cara com andaimes e tapumes. Mas nem por isso deixei de me inebriar com o eco das farras passadas — mais de um século de farras...

Desde sua inauguração, em 1905, o Chelsea Hotel já teve quase uma dúzia de donos e manteve s instalações, serviço e reputação em uma gangorra.

Nada disso teve a menor importância: ninguém se hospedava no Chelsea pela quantidade de estrelas ou de fios nos lençóis (seriam de algodão?), nem pela qualidade do serviço de quarto.

Uma suíte do Chelsea Hotel, nos velhos tempos
O que atraía gente do calibre de Frida Kahlo, Mark Twain, Janis Joplin e Simone de Beauvoir era mesmo a atmosfera boêmia do Chelsea. Como essa mania começou é difícil de dizer, mas consta que as sucessivas administrações do Chelsea eram benevolentes com o estilo de vida da galera e com os atrasos no pagamento das contas.

Muitos desses expoentes, como o poeta Dylan Thomas e o escritor Jack Kerouak, fizeram do Chelsea uma morada permanente em Nova York — tradição que velhos boêmios mantém viva ainda hoje, mesmo com o baticum e a poeirada de uma reforma que se arrasta desde 2011.

Sim, porque tem gente morando no Chelsea Hotel, mesmo com toda a solidez de paredes, pisos e revestimentos desmanchando no ar a sua volta.

Detalhe dos balcões de ferro do Chelsea Hotel
Ainda há 48 apartamentos ocupados por moradores permanentes, amparados pela legislação do aluguel controlado e a proteção contra o despejo em certas áreas de Nova York.

Segundo uma reportagem da revista alemã Die Stern, publicada no último mês de setembro, esses inquilinos pagam cerca de US$ 1.000 por mês de aluguel. Uma pechincha no bairro de Chelsea, que está cada vez mais gentrificado e caro.

Quando você for a Nova York, coloque o Chelsea Hotel no seu roteiro. Se já o bar já estiver reaberto, aproveite e faça um brinde aos velhos moradores e hóspedes, gente que com certeza frequenta sua estante, toca discos e lista de filmes.

Moradores e hóspedes frequentes: Dylan Thomas, Mark Twain, Tennessee Williams e Jack Kerouak
As memórias do Chelsea Hotel
Ainda que você sequer tenha passado pela calçada em frente ao nº 222 da Rua 23 Oeste, em Nova York, certamente já conhece o Chelsea Hotel.

É por seus corredores e escadarias (elegantíssimas, embora maltratadas) que circulam a pequena Mathilda (Natalie Portman) e o sombrio Léon (Jean Reno) em O Profissional, filme de Luc Besson lançado em 1994 e até hoje figurinha fácil nas reprises de TV a cabo.

Burroughs, Sam Shepard, Gore Vidal e Allen Ginsberg
Inaugurado em 1905 em um edifício de estilo neogótico — bem ao gosto do período vitoriano, que já estava caindo de moda — o Chelsea Hotel entrou para a mitologia boêmia ao se consagrar como um dos maiores santuários da farra, da iconoclastia e da criatividade que já houve na face da terra.

Tudo por conta de seus hóspedes e moradores, gente que definitivamente escreveu o (melhor) enredo do Século 20.

Bukowski, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, Charles Bukowski
A fauna do Chelsea Hotel

Gosta de escritores? Pois Mark Twain, Dylan Thomas, Tennessee Williams, Jack Kerouak, William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Gore Vidal, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Charles Bukowski e Sam Shepard (que além de bom ator e gato, também batucava as 26 letrinhas) são apenas alguns dos que passaram ao menos uma temporada no Chelsea. Kerouak escreveu On the Road entre aquelas paredes.

Dennis Hopper, Stanley Kubrick e Milos Forman


Bette Davis, Humphrey Bogart e Jane Fonda
Prefere cineastas? Stanley Kubrick e Miloš Forman são alguns dos “vizinhos” do Chlesea.

Atores e atrizes? Ethan Hawke, Dennis Hopper (também diretor), Uma Thurman, Jane Fonda, Humphrey Bogart, Bette Davis, Isabella Rossellini e Liam Neeson

Ethan Hawke, Uma Thurman, Liam Neeson e Isabella Rossellini
Cher, Piaf, Patti Smith, Marianne faithfull e Madonna
Jim Morrison, Hendrix, Jeff Beck e Brian Jones. Beck está vivo e continua tocando como um deus (e eu ainda louca por ele). Os outros três fazem parte do trágico "Clube dos 27" - astros do Rock que morreram aos 27 anos
Quer astros da música? Tem a turma do Grateful Dead, Bob Marley, Brian Jones, Tom Waits, Patti Smith, Jim Morrison, Iggy Pop, Jeff Beck, Dee Dee Ramone, Marianne Faithfull, Cher, Édith Piaf, Joni Mitchell, Bob Dylan, Alice Cooper, Jimi Hendrix, Madonna, Leonard Cohen e Janis Joplin — esses dois tiveram um breve affair, narrado por Cohen na canção Chelsea Hotel #2.

Bob Marley, Jerry Garcia (do Grateful Dead), Tom Waits, Alice Cooper e Iggy Pop
Janis Joplin, Dee Dee Ramone e Bob Dylan
Se quiser artistas plásticos, teve Diego Rivera, Frida Kahlo, Jackson PollockWillem de Kooning e Andy Wharol.

Cada época teve sua safra de geniais inconformistas entre os hóspedes/moradores espalhados pelos 250 apartamentos do Chelsea Hotel. E a farra, aparentemente, nunca tinha fim.

Pollock, de Kooning, Frida, Diego e Wharol

Joni Mitchell e Leonard Cohen escreveram músicas sobre o Chelsea Hotel. A canção dela (Chelsea Morning) teria inspirado o casal Bill e Hillary Clinton a batizar sua única filha com o nome do hotel
O caso mais tétrico registrado no Chelsea Hotel foi a morte de Nancy Spungen, de 19 anos, namorada do punk rocker Sid Vicious, no dia 12 de outubro de 1978, no quarto nº 100, ocupado pelo casal.

Vicious foi preso e formalmente acusado pelo crime, mas não chegou a ser julgado, pois morreu menos de quatro meses após o assassinato de Nancy, em 2 de fevereiro de 1979.

Em liberdade condicional, ele teve uma overdose de heroína (na casa nº 63 da Bank Street, no Greenwich Village, mesma rua onde moraram Lennon e Yoko antes de mudarem para o Dakota). 

Do High Line Park ao Flatiron Building, roteirinho curto e interessante
Um roteiro para ver o Chelsea Hotel
Até minha penúltima visita a Nova York, em 1995, o bairro de Chelsea era meio caído — e animadíssimo. Lembro de um show de Soul Music da pá virada que assisti em um inferninho da Rua 21, a pouquíssimas quadras do hotel.

Voltei a Chelsea agora, em 2018, e quase não reconheço a área, com seus edifícios reformados (aluguéis caríssimos, dizem), cafés bacaninhas e lojas estilosas.

Um passeio pela Rua 23, onde está o Chelsea Hotel, pode combinar muito bem com a visita ao Highline Park. Tem um elevador que desce desse parque elevado bem na altura da rua.

Madison Square Park, no encontro da Broadway com a 5ª Avenida
Saindo do elevador, você estará na esquina da Rua 23 com 10ª Avenida, a cerca de duas quadras e meia do Chelsea Hotel.

Se quiser ir embora depois de passar pelo hotel, tem uma estação de metrô na esquina da 7ª Avenida (23rd Street Station, linhas 1 e 2), a menos de uma quadra do Chelsea.

Se preferir esticar o passeio, caminhe mais duas quadras e meia para Leste, onde a Rua 23 Oeste se junta ao cruzamento da Broadway com a 5ª Avenida. Lá estão o Madison Square Park, o famoso Flatiron Building (aquele triangular, como um ferro de passar) e uma loja do Eataly.

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