quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Liverpool:
Roteiro pela história dos Beatles
pra fazer por conta própria

Os mais velhos devem se lembrar da série em desenho animado com os Beatles, um sucesso do final dos Anos 60. O cartoon é destaque na coleção de imagens expostas no A Hard Day's Night Hotel, empreendimento da irmã de George Harrison, na esquina do Cavern Club
Para quem curte os Beatles, uma visita a Liverpool é muito pouco. Em agosto deste ano, estive na cidade pela segunda vez (a primeira tinha sido no mesmo período, em 2013) e fiquei surpresa com a quantidade de lugares que acrescentei ao mapa da minha jornada sentimental pela terra dos FabFour.

Depois de ter feito a trinca obrigatória de programas para qualquer beatlemaníaco (o museu The Beatles Story, a visita às casas de John e Paul e o Magical Mistery Tour), no ano passado, agora eu pude ir além das excursões e ver com calma outros cenários importantes. E já estou me preparando para a terceira visita, já que 2015 promete novidades bem bacanas para os fãs da banda.

O antigo Liverpool Institute, onde Paul e George estudaram, é hoje uma prestigiada escola de artes, graças o generoso patrocínio de Macca
Strawberry Field vai abrigar um café e um centro de memória dos Beatles, em 2015. Os portões originais do orfanato vão ficar expostos lá
No post anterior, dei as indicações para chegar às casas de John, Paul, George e Ringo. Neste, organizei um mapa comentado com outros lugares de Liverpool importantes na trajetória dos Beatles, já incorporando essas novidades.

A maioria dos lugares são bem centrais e dá para chegar a pé, tomando como referência a Albert Dock, onde fica o museu Beatles Story, ou a estação de Lime Street. Para os lugares mais distantes, eu coloquei indicações de ônibus (as Linhas 75, 80 e 86 cobrem praticamente todos os locais citados).

Clique nos marcadores para ver os endereços e bora viajar com os caras mais bacanas da história da música.




The Town Hall (Prefeitura) 
High Street, esquina com Dale Street, no Centro
Da sacada da Prefeitura os Beatles foram ovacionados, 
no retorno à cidade
Em 10 de julho de 1964, depois de conquistar a América, os Beatles voltaram a Liverpool para o lançamento de seu primeiro filme, A Hard Day's Night, de Richard Lester. A municipalidade os recebeu com uma solenidade na sede da Prefeitura e lhes entregou as chaves da cidade, enquanto 20 mil pessoas tomavam Castle Street, em frente ao edifício, para homenagear John, Paul, George e Ringo. 

Relatos da época falam que 200 mil pessoas, um quarto da população de Liverpool, saíram às ruas para ver os meninos, formando um cordão humano que ia do aeroporto ao centro da cidade.

Castle Street, uma das principais ruas de Liverpool,
vista do balcão da prefeitura
Dei a maior sorte de estar em Liverpool nos dias em que o Town Hall estava aberto ao público. O lugar é bem bonito (falei dele neste post), mas a melhor parte da visita foi debruçar no balcão da prefeitura, com a sensação de estar com os cotovelos na mesma balaustrada onde os Beatles se apoiaram, para acenar para a multidão...

The Cavern Club
10 Mathew Street, Centro 

Minha catedral
O Cavern é uma história feliz de vitória sobre o descuido com a memória e o patrimônio. O velho clube de jazz, aberto em 1957, acabou se transformando na verdadeira catedral da beatlemania, por ter sido a casa que consagrou a banda em Liverpool e onde Brian Epstein descobriu o grupo, em novembro de 1961. 

Lá, eles fizeram 292 apresentações. Nada disso (nem os apaixonados protestos dos fãs) impediu a demolição do Cavern, em 1973, para a construção de instalações do Merseyrail, o metrô de Liverpool. A tal estação jamais saiu da planta e o legendário porão foi reconstruído no mesmo lugar (dizem que muitos dos tijolos são originais) e reaberto em 1984.


Se você achou exagero a comparação com uma catedral, vai mudar de ideia rapidinho, assim que pisar no Cavern. O lugar (que abre às 10 da matina!), é acanhado, abafado, escuro e desconfortável. Conseguir um lugar para sentar é uma loteria e nem as prateleirinhas onde o pessoal que fica em pé apoia os copos dão conta: aquela cafua vive lotada.

São fiéis de todos os cantos do planeta, mesmerizados diante do palco minúsculo onde artistas quase anônimos raramente arriscam tocar alguma coisa que não seja do repertório dos Beatles. Depois que a gente desce aquelas escadas mal iluminadas, adeus! É quase impossível ir embora.

Cavern: pra ouvir música e cantar a plenos pulmões
Sei lá qual é a mágica (na verdade, eu sei!), mas é uma delícia passar horas meio espremida pelo bolo de amigos de infância que eu nunca vi mais gordos e jamais vou voltar a ver, gente que acha lindo um eventual cotovelo comprimindo suas costelas ou um generoso gole de uísque que escapa do copo, em um movimento mais empolgado, e que vai aterrissar em sua camisa. 

É uma confraternização de sorrisos e olhares amistosos, sem conversa, mas nada silenciosa: as gargantas estão muito ocupadas em cantar a plenos pulmões. Por mim, eu ia ao Cavern toda noite...

A "parede da fama" do Cavern homenageia 
os principais artistas que passaram pela casa
NEMS Enterprises 
6 Whitechapel, Centro
A NEMS representada no museu The Beatles Story. A loja da família Epstein não existe mais, mas o prédio onde ela funcionava ainda está em uma esquina de Whitechapel
Em 24 de janeiro de 1962, os Beatles assinaram seu primeiro contrato na sede da NEMS (North End Music Store), loja de departamentos da família Epstein que abrigou, por algum tempo, o escritório de Brian, no início de sua carreira como empresário. A NEMS não existe mais. O edifício, bastante alterado, fica na esquina com a Church Street (onde há uma loja da Forever 21).

The Jacaranda Club 
21 Slater St, Centro (entre Fleet e Steel Str)

Depois de dois anos fechado, o Jacaranda voltou à vida, agora em novembro de 2014, ampliando o repertório de noitadas dos fãs. Se as apresentações no Cavern consagraram os Beatles em Liverpool, o Jacaranda é uma espécie de berço da banda, que ensaiava e farreava por lá no comecinho da carreira. É claro que a decoração da casa é toda calcada na memória do grupo, com muitas fotos e lembranças. Estou doida para tomar um uisquinho por lá :).

The Empire Theater 
Lime Street, esquina com London Road, Centro

Empire Theater: pela régua de Freda Kelly,
os Beatles seriam grandes quando tocassem aqui
Para Freda Kelly, secretária dos Beatles, eles "seriam grandes quando tocassem no Empire Theater". O legendário teatro de Liverpool recebeu Sinatra, Bing Crossby e Sarah Bernhardt e abriu seu palco para os meninos pela primeira vez em 7 de dezembro de 1963. 

Inaugurado em 1925 (no Século 19 havia uma casa de espetáculos no mesmo local), o Empire continua em funcionamento. Vale conferir a programação no site do teatro e garantir um ingresso para ver o palco pisado pela banda ainda vivo e pulsante. 

LIPA - Liverpool Institute for Performing Arts 
Mount Street

LIPA; o tributo de Paul a Liverpool
O LIPA tem uma história muito bacana e é um testemunho do carinho e cuidado que os Beatles mantiveram por Liverpool, mesmo depois de décadas vivendo longe da cidade (George, por exemplo, quando soube que a estufa vitoriana do Sefton Park estava em ruínas, tomou a iniciativa de pagar a restauração). 

No caso do LIPA, foi Paul quem compareceu com uma doação milionária para transformar o edifício do Liverpool Institute, a escola secundária onde ele e George estudaram, em uma das mais prestigiadas escolas de Artes Cênicas da Inglaterra.


O Liverpool Institute, fundado em 1825, era uma escola de excelência. O escritor Charles Dikens, ligadíssimo à cidade, fez palestras e leituras de seus livros lá, quando o colégio ainda era se chamava Liverpool Mechanics' Institution

 Mary McCartney, mãe de Paul, não cabia em si de contentamento quando o filho foi admitido lá (a molecada da vizinhança, no bairro proletário de Speke, tratou de apelidar Macca de "pudim de escola", que devia ser a versão scouse para "coxinha"). 

O colégio foi fechado, e, nos anos 80, o velho edifício estava tremendamente maltratado. Paul, que tinha sincera preocupação com o destino do prédio, embarcou alegremente na ideia trazida pelo educador Mark Featherstone-Witty de transformar o local em uma escola de Artes Cênicas e Música.

O edifício do Liverpool Institute estava quase em ruínas,
 até a fundação do LIPA
Além de comparecer com a grana, Paul acompanha de perto as atividades do LIPA e é figurinha carimbada nas cerimônias de formatura, realizadas nos meses de julho, entregando diplomas e fazendo discursos encorajadores para a galera que conclui suas graduações em Teatro, Dança e Música.

Como chegar ao LIPA
Eu fui a pé, uma caminhada de uns 30 minutos, saindo da Albert Dock. A melhor referência é a Catedral Anglicana, que fica quase em frente. Se quiser evitar a ladeira, pegue o ônibus 75 ou o 86, em Hanover Street, no Centro. Combine com a visita às casas onde John morou com Cyn (36 Falkner Street), logo após o casamento, e à casa que ele dividiu com Stu, em Canning Street (dicas aqui).

Penny Lane
A placa no começo da rua mitológica
Já contei aqui na Fragata que Penny Lane correu sério risco de mudar de nome. Liverpool vem fazendo um esforço tremendo para purgar seu passado como porto essencial ao tráfico de africanos escravizados e a mitológica rua calha de ter sido batizada em referência a um dos principais traficantes de escravos da cidade no Século 18, um tal de James Penny.

O que impediu a mudança é que hoje ninguém mais lembra do nefasto personagem, e sim da ternura dos versos de uma das canções mais bonitas dos Beatles, uma jornada poética que alçou uma rua comum ao posto de lugar encantado.

Penny Lane nasce verdinha e sossegada, perto do Sefton Park, onde os pais de John se conheceram
Penny Lane começa bem sossegada e cercada de verde. Não é uma via larga e seus cerca de 700 metros, entre Greenbank Road e Allerton Road, não exibem nada de excepcional, nem mesmo os pontos tornados mitológicos pela canção, que, tecnicamente, já pertencem à sua continuação, a Church Road. 

Mas foi lá que eu fiz o percurso mais comovente da minha vida (duas vezes!!). No fim da rua, a garganta aperta diante do "banco da esquina", do abrigo de ônibus e da antiga barbearia citadas nos versos mágicos.

O "banqueiro da esquina", de quem riam as criancinhas, trabalhava aqui
(On the corner is a banker with a motorcar/ The little children laugh at him behind his back/ And the banker never wears a mac/In the pouring rain.../ Very strange)
O abrigo de ônibus - "the shelter in the middle of a roundabout"
O velho abrigo servia aos passageiros de duas linhas de ônibus que faziam o ponto final na rotatória. Com a fama da canção, chegou a ser transformado em um café, mas está fechado há muito tempo e agora está em reformas, para ser transformado em mais um "centro de memória" dos Beatles.

Já disse aqui e vou repetir: esse lugarzinho sem graça inspirou meus versos preferidos na vida: "Behind the shelter in the middle of a roundabout/ A pretty nurse is selling poppies from a tray/ And though she feels as if she's in a play/ She is anyway".

... e a barbearia, que agora é um "salão unissex"
Logo adiante ficava a Barbearia Bioletti's (In Penny Lane there is a barber showing photographs/Of every head he's had the pleasure to have known/And all the people that come and go/Stop and say hello). O lugar agora é um salão de cabeleireiros para homens e mulheres e chama-se Tony Slavin.

Como chegar a Penny Lane
 Para uma autêntica "experiência Beatles", vá de ônibus (era assim que eles passavam por lá). As linhas 86, 86A, 80 e 80A partem do Liverpool One (em frente à Albert Dock, no Centro) levam você direitinho até lá. Combina com uma visita à casa de Paul, em Forthlin Road. Para isso, pegue o ônibus 86, na direção de Garston.

Strawberry Field
Beaconsfield Road
But you know I know when it's a dream
Já falei bastante de Strwberry Field, outro lugar mitológico de Liverpool (neste post), depois da minha primeira visita, em 2013. Continua sendo só um portão diante de um terreno baldio coberto de mata, mas o nó na garganta é inevitável, mesmo na segunda visita.

A excursão Magical Mistery Tour, organizada pelo Cavern Club, passa por lá, com paradas para fotos. Para uma visita independente, pegue o ônibus 86C ou o 75, em Hanover Street, no Centro. Combine com a passagem por Mendips, a casa onde John morou com a tia Mimi, que é do ladinho. Mais detalhes neste post.

Saint Peter e a lápide inspiradora
Woolton
O marco zero da civilização...
Sorry, Mesopotâmia, mas, pra mim, o berço da civilização é a Paróquia de Saint Peter, em Woolton. Foi no pátio da igreja do subúrbio charmosinho, perto de Mendips, que São Ivan Vaughan apresentou John a Paul e a História começou. A data: 6 de julho de 1957 — em qualquer planeta civilizado, seria feriado.

Do outro lado da rua, fica um pequeno cemitério com a famosa lápide de uma certa Eleanor Rigby, que Paul jura que não tem nada a ver com a canção (ele admite que o nome pode ter ficado em seu subconsciente, mas é só).

Como chegar a Woolton 
Com o ônibus 75, partindo de Hanover Street, no Centro.

E o cemitério onde há uma lápide de Eleanor Rigby
E o que vem por aí
Para 2015, está prometida a abertura das visitas regulares ao Casbah Club, casa da família de Pete Best, primeiro baterista da banda e lugar essencial na história dos Beatles. Atualmente, o Casbah só recebe visitantes com hora marcada (grupos de no mínimo 15 pessoas).

Também está prometida a  abertura de um café/centro de memória em Strawberry Field, com uma exposição permanente de memorabilia dos Beatles e o portão original do velho orfanato (o que vemos hoje é uma réplica).

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Inglaterra na Fragata Surprise

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4 comentários:

  1. Fiquei emocionada só de ler o seu post ouvindo a música. Obrigada pelas dicas, vou para liverpool semana que vem e ajudou muito! :D

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    1. Que massa!! Aproveite muuuuuito a "nossa" cidade e não esqueça de passar por aqui, na volta, pra contar como foi o encontro com a terra dos meninos :)

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  2. planejando uma viagem a Liverpool, e claro lembrei que vc esteve lá ano passado. Lendo seus posts decidi ouvir Penny Lane e Eleanor Rigby. adoro como vc escreve. Beijos

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    1. Obrigada, Poliana. Tomara que vc curta muito LIverpool. A cidade é super simpática e gostosa. Bjo

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