13 de julho de 2016

Mosteiro de Alcobaça, um capítulo da História de Portugal

Claustro de D. Dinis, no Mosteiro de Alcobaça
O Claustro de D. Dinis, no Mosteiro de Alcobaça
Como pode a pedra ser tão leve? O Mosteiro de Alcobaça, a 120 km de Lisboa, parece feito de outra matéria, tal a graça com que pousa sobre a esplanada convertida em praça principal da cidade que cresceu a seu redor. É a combinação exata de delicadeza e imponência.

A primeira vez que eu vi esse mosteiro, com o sol de inverno se esparramando sobre ele, eu quase levitei.

Perto de Lisboa (120 km) e fácil de chegar, o Mosteiro de Alcobaça tem muito mais que beleza para oferecer ao visitante.

Ele é uma crônica eloquente — e de deliciosa leitura — de um capítulo decisivo da História de Portugal, a “primeira independência do país”, quando Afonso Henriques decidiu transformar sua herança, o Condado Portucalense, em uma nação independente.

E tem, claro, a memória de uma legendária história de amor, o trágico romance entre o rei Pedro I e Inês de Castro, sepultados na igreja do mosteiro.

Veja as dicas para organizar sua visita ao Mosteiro de Alcobaça:


Fachada do Mosteiro de Alcobaça, Portugal
Não se engane com os elementos barrocos na fachada da igreja: Mosteiro de Alcobaça é gótico da gema, primeiro exemplar neste estilo construído em Portugal
O que ver no Mosteiro de Alcobaça
À primeira visão, o Mosteiro de Alcobaça impacta por sua altivez, dominando completamente a vasta esplanada que se estende a seus pés, e por suas dimensões.

De uma ponta a outra do mosteiro, são mais de 200 metros de fachada de linhas puras, uma simetria que faz poucas — e precisas — concessões: só a igreja, no centro do conjunto, exibe adornos marcantes, talhados em pedra clara, uma herança de alterações barrocas realizadas no Século 18.

Igreja do Mosteiro de Alcobaça, Portugal
Ainda na porta da igreja, o imenso vão gótico chega a intimidar
Construção iniciada na segunda metade do Século 12, o Mosteiro de Alcobaça é considerado o primeiro exemplar da arte gótica em Portugal.

Basta entrar na igreja do mosteiro para reconhecer o sotaque medieval: o interior do templo — um vão que avança 100 metros porta adentro, sob uma nave central de 20 metros de altura — vai direto ao ponto, deixando para as colunas muito esguias e sem rebuscamentos a função de embasbacar o visitante.

Detalhes do Interior da Igreja do mosteiro de Alcobaça
As rosáceas enchem a igreja de luz
É no interior do Mosteiro de Alcobaça, especialmente no lindo Claustro de D. Dinis, que os detalhes afloram em um precioso rendilhado talhado em pedra, já sugerindo as marcas do gótico-tardio português.

Em Portugal, esse estilo é chamado de Manuelino e também responde pelo encanto de dois outros "narradores" essenciais da epopeia portuguesa: o Mosteiro da Batalha e o Mosteiro dos Jerónimos (Lisboa), dois bardos também muito eloquentes a nos contar a história do País. 

Túmulo de Inês de Castro no Mosteiro de Alcobaça, Portugal
Os túmulos de Pedro e Inês estão no transepto da igreja
Na Igreja do Mosteiro de Alcobaça, o amplo espaço vazio talvez seja o adorno mais expressivo.

A vastidão destaca a monumentalidade da construção e serve  de antessala para os dois túmulos ricamente esculpidos onde estão os restos mortais de Inês de Castro e Pedro I, sozinhos na amplidão do transepto.

Um altar totalmente talhado em pedra, em frente à entrada da cripta, é a única nota de cor e detalhes nesse imenso salão.

Túmulo de Inês de Castro no Mosteiro de Alcobaça, Portugal
O túmulo de Inês de Castro
A solidão dos túmulos de D. Pedro e Inês de Castro é uma visão tocante. Mas não esqueça de prestar atenção também no Panteão dos Reis, uma pequena cripta onde estão as sepulturas de outros membros da Casa de Borgonha, e na belíssima sacristia medieval por trás do altar.

A entrada no Mosteiro de Alcobaça é pela Sala dos Reis, onde estão as estátuas de duas dezenas de monarcas portugueses.

De lá, chega-se ao térreo do Claustro de D. Dinis (o rei português fundador da Universidade de Coimbra), uma daquelas belezas que fazem o coração da gente dar uma paradinha.

 Panteão dos Reis, Mosteiro de Alcobaça, Portugal
O Panteão dos Reis. Ao fundo, um altar 
Em torno do Claustro de D. Dinis estão a Sala do Capítulo, o Refeitório, a Sala dos Monges (um espaço para orações e também alojamento dos religiosos).

Também a partir do claustro se acessa a interessante Cozinha Nova, do Século 15, com sua gigantesca chaminé e o luxo da água encanada, sistema construído a partir de uma série de canais ligados aos rios Alcoa e Baça, que dão o nome à cidade. 

Panteão dos Reis e Sacristia Medieval do Mosteiro de Alcobaça, Portugal
O Panteão dos Reis e a sacristia medieval
No andar superior do mosteiro, o vasto dormitório servia de apartamento ao Abade de Alcobaça e se comunicava diretamente com a igreja, por uma escada que já não existe mais.

A abertura envidraçada que ficou no lugar da escada oferece uma visão do alto para os túmulos de Inês e Pedro.

A Sala dos Reis, no Mosteiro de Alcobaça, Portugal
A Sala dos Reis do Mosteiro de Alcobaça
Sala dos Reis, Mosteiro de Alcobaça
As estátuas dos monarcas portugueses na Sala dos Reis
Das janelas desse dormitório do abade, repare no bonito jardim do Claustro da Hospedaria, que se comunica com o antigo alojamento dos noviços.

Do dormitório dos monges, uma escadinha periclitante leva ao andar superior do Claustro de D. Dinis.

Esse é um bom lugar para ver as gárgulas de pertinho e entender que, muito mais que assustar bons e maus espíritos, essas formas mitológicas tinham a prosaica função de ajudar no escoamento da água da chuva.

Cozinha Nova do Mosteiro de Alcobaça
A Cozinha Nova e sua imensa chaminé 
Tanque de água que abastece a Cozinha Nova do Mosteiro de Alcobaça
O tanque da Cozinha Nova oferece ao mosteiro o luxo da água corrente desde o Século 15. Até hoje, é abastecido pelos rios Alcoa e Baça
Um pouco da história do Mosteiro de alcobaça
Diz a crônica oficial que o primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques, doou as terras para a construção do Mosteiro de Alcobaça como agradecimento por vitórias alcançadas contra os mouros.

O fato é que o rei Afonso — neto do rei de Castela por parte de mãe e descendente dos duques da Borgonha por parte de pai — precisava de aliados, após a ousada manobra de declarar o Condado Portucalense, vassalo da coroa castelhana, um novo país, em 1139.

Lavatório dos monges no Claustro D. Dinis, Mosteiro de Alcobaça
O Claustro de D. Dinis é o coração do mosteiro. Tem um jardim central e a seu redor estão dispostas as principais instalações usadas no dia a dia da vida monástica, como o lavatório (na foto), fonte onde os monges faziam suas abluções antes das preces e refeições
E o apoio político decisivo ao jovem Portugal veio dos monges beneditinos borgonheses da Abadia de Clairvaux, da Ordem de Cister — que estavam na crista da onda na época, com sua pregação de austeridade.

O Abade Bernard de Clairvaux, o futuro São Bernardo, era descrito como “o que não era papa, mas fazia papas”.

Arcadas do pavimento térreo do Claustro de D. Dinis, Mosteiro de Alcobaça
Pavimento térreo do Claustro de D. Dinis
Bernard  foi fundamental para convencer o pontífice de então a reconhecer Portugal como país independente, em 1179, declaração que naquele tempo valia mais que uma boa vitória no campo de batalha.

Só para a gente ter uma ideia do poder de Bernado de Clairvaux, ele é o autor das Regras Monásticas que regeram a Ordem dos Templários.

Bernard de Clairvaux também foi o cérebro por trás da Segunda Cruzada — que pode ter sido um fracasso retumbante, em termos militares, mas provocou tanta mobilização na Europa que levou pessoalmente ao Oriente o rei da França, Luiz VII, sua rainha na época, Leonor, duquesa da Aquitânia (futura mãe de Ricardo Coração de Leão) e o sacro-imperador germânico Conrado III).

Dormitório do Abade no Mosteiro de Alcobaça
O Dormitório
Os monges da Ordem de Cister chegaram a Alcobaça — uma antiga povoação romana e árabe — em 1153, no mesmo ano da morte de Bernardo de Clairvaux, e começaram a trabalhar.

Fundaram uma escola pública, cultivaram os campos com técnicas avançadas, plantando frutas, olivais e vinhedos.

Os religiosos implantaram oficinas dedicadas à arte sacra, cuidaram da saúde dos camponeses da região e construíram seu lindo Mosteiro de Alcobaça, que acabou virando o grande símbolo da primeira dinastia a reinar em Portugal independente, a Casa de Borgonha, que comandou o país por 244 anos.

Claustro da Hospedaria, Mosteiro de Alcobaça, Portugal
O Claustro da Hospedaria
Afonso Henriques governou e guerreou por 46 anos, período no qual dedicou-se a expandir o território sob seu domínio.

Do Condado Portucalense, cujos limites se compreendiam entre o Rio Lima (em cujas margens estão as cidades de Viana do Castelo e Pontes de Lima) até um pouquinho ao Sul de Coimbra, o reino de Afonso Henriques avançou na conquista de Leiria, Santarém, Lisboa, até o Alentejo, antes sob controle mouro, parte do processo que em toda a Península Ibérica foi chamado de Reconquista Cristã.

Refeitório dos monges, Mosteiro de Alcobaça
Refeitório
Alcobaça tem um significado muito maior que o meramente religioso. Foi uma força econômica, política e cultural no novo Reino de Portugal.

A Abadia de Alcobaça desenvolveu largamente a atividade agrícola, se dedicou à mineração do ferro e é apontada como responsável pelas primeiras indústrias surgidas no país.

O Mosteiro de Alcobaça tinha também o poder de emitir Cartas de Povoação, atuando como um autêntico instituto de colonização, já que definiam o número de famílias, o tamanho das glebas distribuídas e até as culturas que seriam desenvolvidas em seus vastos domínios.


 Detalhes da decoração do Claustro de D. Dinis, Mosteiro de Alcobaça
Detalhes da decoração do Claustro de D. Dinis
O caso de amor de Pedro I e Inês de Castro
Pedro I foi o penúltimo rei português da Casa de Borgonha. Antes de subir ao trono, casou-se com uma princesa castelhana, Manuela. Quando a esposa chegou a Portugal, porém, ele só teve olhos para Inês de Castro, uma das damas de companhia da futura rainha.

Em 1345, Manuela morreu de parto e deixou um herdeiro para a coroa, Fernando. Pedro passou a viver publicamente com Inês — imaginem o escândalo! — com quem teve três filhos, deixando seu pai, o ainda rei Afonso IV, de cabelo em pé.

Túmulos de Inês de Castro e Pedro I, Mosteiro de Alcobaça
Da antiga passagem do Dormitório para a Igreja o visitante tem uma visão dos túmulos
Diz a lenda que Afonso IV era gato escaldado: seu próprio pai, o rei Dinis I, pretendeu afastá-lo da sucessão para favorecer a um de seus filhos bastardos. Essa teria sido a razão de sua implacável perseguição a Inês de Castro e a sua prole: assegurar o trono para o neto, o futuro Fernando I.

Seja como for, em 1355 ele ordenou o assassinato de Inês — crime executado na Quinta das Lágrima, em Coimbra, onde ela vivia.

(Tirar Inês ao mundo determina/ Por lhe tirar o filho que tem preso. Camões, os Lusíadas, Canto III).

Detalhe do  túmulo de Pedro I de Portugal, Mosteiro de Alcobaça
Túmulo de Pedro I
Dois anos depois do assassinato de Inês, ao subir ao trono, Pedro I fez questão de que a defunta fosse exumada de seu túmulo e promoveu um ritual de beija-mão à rainha morta (ele alegava ter casado com ela em segredo).

A solenidade deve ter sido uma cena de rara bizarrice, mesmo na Idade Média (Game of Thrones é para os fracos, crianças...).

 Quanto aos assassinos de Inês, reza a lenda que tiveram seus corações arrancados do peito na presença de Pedro — relatos mais radicais dão conta de que o rei teria comido esses corações...

O corpo de Inês de Castro finalmente descansaria em um dos suntuosos túmulos que Pedro mandou talhar e instalar na nave da igreja do Mosteiro de Alcobaça, onde também foi sepultado, em 1367.

O enredo trágico do amor de Pedro I e Inês de Castro é inspiração frequente na literatura portuguesa, passando por Camões — que o incluiu em os Lusíadas, sua narrativa épica da formação da identidade portuguesa — Bocage e Alexandre Herculano. 

Detalhe do túmulo de Inês de Castro, Mosteiro de Alcobaça
Inês
Casais apaixonados ainda visitam os túmulos do casal para fazerem suas juras de amor (melhor que prender cadeado em pontes, né?).

Eu, sinceramente, jamais consegui dissociar a história de Inês de Castro e Pedro I de seu epílogo grotesco, mas adoro os versos de Camões, que li no início da adolescência e não canso de reler.

"Tu, só tu, puro amor, com força crua, 
Que os corações humanos tanto obriga, 
Deste causa à molesta morte sua, 
Como se fora pérfida inimiga." 

Segundo instruções deixadas em testamento por Pedro I, os dois sarcófagos foram dispostos frente a frente, em cada lado da nave da igreja, para que quando ambos ressuscitassem, no dia do Juízo Final, pudessem "se olhar nos olhos".

O sossego do casal não foi completo: durante a invasão das tropas de Napoleão, os túmulos foram profanados e bastante danificados. As marcas dos estragos estão lá até hoje e também fazem parte da história.

Jardim do Claustro da Hospedaria, Mosteiro de Alcobaça
Jardim do Claustro da Hospedaria
Como organizar a visita ao Mosteiro de Alcobaça
Se você gosta de acordar cedo e for objetiva, dá pra ir a Alcobaça e Batalha (onde está outro mosteiro imperdível) em um bate e volta a partir de Lisboa.

São só 122 km de distância, percurso que vai consumir no máximo uma hora e meia, a maior parte dele feito pela Rodovia A-8, um tapete de estrada.

Fachada do Mosteiro de Alcobaça

Mas não acho que o ritmo dessa viagem deva ser o de um videoclipe. A cadência dos decassílabos de Os Lusíadas cai muito melhor nesse mergulho histórico — aliás, se o poema épico de Camões acompanhar você na viagem, vai enriquecê-la lindamente.

Programe umas três horas para ver o Mosteiro de Alcobaça com calma, pois ele é bem grande, tem muitos detalhes e ambientes.

Fachada do Mosteiro de Alcobaça ao pôr do sol
Desafio seu coração a ficar imune a essa visão
Além disso, vai valer muito a pena ficar em Alcobaça para ver o cair da tarde: desafio seu coração a não dar uma paradinha diante da visão do mosteiro dourado pela luz do poente.

Pequenininha (7 mil habitantes), Alcobaça não tem muito mais para ser visto além do mosteiro e das ruínas de um castelo visigodo muito antigo, anterior ao domínio mouro, no Século 7.

Mesmo assim, pode ser boa ideia passar a noite lá para experimentar os frutos do mar — como os famosos percebes — e os doces locais, especialmente as queijadas. 

Detalhes decorativos do Mosteiro de Alcobaça e ruínas do castelo medieval de Alcobaça
Detalhe do exterior do mosteiro e a esplanada em frente ao monumento (pequenininho, no centro da foto, o castelo de Alcobaça)

Castelo Visigodo em Alcobaça, Portugal
Historiadores ainda não conseguiram estabelecer uma data de construção do castelinho visigodo de Alcobaça, mas ele tem pelo menos 14 séculos de idade
Em frente ao Mosteiro de Alcobaça, uma série de restaurantes, bares e confeitarias oferecem "mesa de pista", de cara para o lindão. Bons camarotes para admirar o mosteiro, bebericando sossegada, sem a preocupação de pegar a estrada.

Hospedagem em Alcobaça, Hotel Solar Cerca do Mosteiro
Solar Cerca do Mosteiro, um hotel adorável
Hospedagem em Alcobaça
Experimentei, amei e recomendo o bonito confortável e romântico Solar Cerca do Mosteiro, um hotel que complementa lindamente o passeio. 

Ele está instalado em uma antiga casa de campo cuidadosamente restaurada, do ladinho do mosteiro e com uma vista espetacular. 

Apesar das instalações, atendimento e café da manhã cinco estrelas, o hotel tem preços bem pagáveis: a diária na nossa suíte, para três pessoas, custou €120.

Igreja do Mosteiro de Alcobaça
A Igreja do mosteiro é dedicada a Santa Maria
Como chegar a Alcobaça
Eu fui a Alcobaça de carro, primeira etapa da minha road trip junina em Portugal. Fui direto do aeroporto de Lisboa e levei cerca de uma hora e meia no trajeto.

Também é possível ir de ônibus. A Rede Expressos tem seis frequências diárias entre Lisboa e Alcobaça.

Entre o Porto e Alcobaça são duas frequências diárias de ônibus. Para maiores informações, horários e preços, consulte o site da empresa.

Praça principal de Alcobaça, Portugal
A cidade cresceu em torno do mosteiro
Mosteiro de Alcobaça
Horários: de outubro a março, das 9h às 18h. De abril a setembro, das 9h às 19h. Fechado em 1º de Janeiro, Domingo de Páscoa, 1º de Maio, 20 de Agosto e 25 de Dezembro.

Ingresso: adultos pagam €6. Maiores de 65 e estudantes pagam meia entrada. Há um passe de €15 que dá acesso aos mosteiros de Alcobaça, Batalha e Tomar, mas só vai valer a pena se você for visitar os três.

A entrada no Mosteiro de Alcobaça é gratuita no primeiro domingo do mês. 

A bilheteria aceita cartões de crédito e também é possível comprar os ingressos com antecedência pela internet.

Sala dos Monges, Mosteiro de Alcobaça, Portugal
A Sala dos Monges

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Um comentário:

  1. Mosteiro de Alcobaça é um sonho gostava de lá morar mas com um rei gostoso e sem barbas

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