domingo, 18 de agosto de 2013

Liverpool:
meu magical mistery tour

Uma esquina essencial na minha vida: 
o cruzamento de Menlove Avenue, onde morava Lennon, 
com Beaconsfield Road, onde ficava Strawberry Field
Eu ainda estava atravessando o País de Gales, no trem que me levou de Bath a Liverpool, quando comecei a sentir a mesma euforia indescritível de quando ouvi certos acordes de gaita, ainda vestindo o uniforme do jardim de infância. Até hoje, com todo o meu engajamento político, 1964 não é o ano do golpe militar, mas o ano em que eu ouvi I Should Have Known Better pela primeira vez.

Gosto de um monte de coisas — escritas, pintadas, esculpidas, fotografadas, filmadas, tocadas, cozidas, fritas, sonhadas... Coisas que ajudaram a me inventar como gente. De todos os incontáveis encontros definidores que tive na vida, porém, nenhum foi mais definitivo e essencial do que a descoberta dos Beatles — in my life, I’ve loved them more.
Nó na garganta, beneath the blue suburban skies...
Como é que a gente explica isso para quem tem menos de 50 anos e não teve a oportunidade de ouvir os Beatles enquanto eles ainda eram uma banda (ainda que A Banda) e não um mito? Como é que se descreve a felicidade de ter existido no mesmo tempo que eles ocupavam as páginas dos jornais diários, e não as antologias das melhores expressões da raça humana?

Esse era o meu dilema, enquanto eu tentava abrir uma barreira no inglês meio trôpego das duas garotas russas que viajaram comigo, a partir de Crew, para a cidade dos FabFour.

Este antigo abrigo 
(o predinho branco, à esquerda, na foto tirada do ônibus), 
em Penny Lane, inspirou os meus versos favoritos:
"Behind the shelter in the middle of a roundabout
A pretty nurse is selling poppies from a tray
And though she feels as if she's in a play
She is anyway"
Não que a minha condição de contemporânea dos Beatles me fizesse mais especial. É tanta gente, de tantos lugares do mundo, de todas as faixas de idade, correndo atrás das lembranças da banda, que até perdi parcela considerável do meu precioso “senso se individualidade”, misturada àquela multidão de adoradores dos meninos.

Aliás, nem me perguntem sobre restaurantes em Liverpool: eu simplesmente não lembro de ter comido nada na cidade (embora eu suponha que sim, em algum intervalo entre os rituais de adoração e as libações com Jameson nas noites do Cavern Club).

Entrar nas casas onde John e Paul moraram
foi uma das coisas mais emocionantes da minha vida
Mas também o que é que vocês queriam, numa cidade dessas? A gente já começa chegando na Estação Ferroviária de Lime Street, onde a Maggie Mae andou aprontando das dela até ser tirada de circulação. E quem se importa que ela never walk down Lime Street any more, como eles cantam na única canção em que citam o nome de Liverpool?

Liverpool ao cair da noite, da janela do meu quarto de hotel
Porto essencial à Grã-Bretanha, desde o Século XVI, terra do time que tem 18 títulos do Campeonato Inglês e cinco títulos da Liga dos Campeões da UEFA e dona de pelo menos três museus de primeira (o World Museum, o Museum of Liverpool e a Tate Liverpool, "filial" da Tate Gallery), Liverpool nem tenta disfarçar que é, acima de tudo, a cidade dos Beatles.

As referências a eles estão por toda parte, e a gente tropeça nelas até sem querer — eu me hospedei no histórico Adelphi Hotel, que era o favorito de Charles Dickens, só para descobrir que Julia Stanley, mãe de John, trabalhou lá como camareira...

E não é que a danadinha da cidade é bem bonita? 
A Albert Dock de manhã cedinho
A cidade é muito mais verde do que eu imaginava, com largas avenidas arborizadas, alguns belos parques (o maior deles, o Sefton Park, foi onde Julia e Alfred Lennon se conheceram. Ela achou o chapéu dele ridículo e ele o atirou no lago) e um projeto de revitalização das antigas docas muito bem sucedido, com área toda transformada em um complexo de comércio, lazer, escritórios e residências.

A parte mais famosa desse conjunto é o Waterfront, as antigas docas do porto, cheias de história, mas que hoje são mais conhecidas como o lugar onde fica o The Beatles Story (na Albert Dock, cheia de restaurantes e lojinhas) e de onde partem os ônibus do Magical Mistery Tour (veja o post anterior).
Este é o marco zero: foi na feira da Paróquia de Woolton, em 6 de julho de 1957, que John e Paul foram apresentados por Ivan Vaughan...
Na Albert Dock estão instalados também o Museum of Liverpool e o Museu da Escravidão, um reconhecimento e uma tentativa de expiação do papel da cidade no tráfico de pessoas até o Século XIX — aliás, Penny Lane foi batizada em homenagem a um traficante de escravos do Século XVIII, chamado James Penny. O nome da via só não foi mudado porque hoje remete à bela canção.

As antigas docas também são o lar da Tate Liverpool, que tem entrada gratuita para as exposições permanentes, com Picasso, Braque e Jason Pollok no acervo, e estava com uma mostra especial de Chagall por esses dias — que eu ignorei solenemente, para vocês terem uma ideia do meu estado de obsessão...


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Vitrine dedicada aos Quarrymen, banda que foi o embrião dos Beatles, no The Beatles Story
Dicas práticas
Como chegar
My ticket to ride :)
Da Estação de Euston, em Londres, a Lime Street, em Liverpool, partem trens de hora em hora (atenção, pois nem todos são diretos) e a viagem mais curta é feita em duas horas e 15 minutos. O melhor preço que encontrei, para voltar de Liverpool à capital, foi de £76, mas dá para encontrar tarifas mais baratas, especialmente pesquisando e comprando com antecedência.

Quando comprei meu bilhete em Lime Street para voltar a Londres (no mesmo dia do embarque), havia ofertas de até £39, mas só até Leyton Midland. A atendente da estação, super gentil, avisou que eu ia penar com ônibus e caminhada para chegar a uma estação de metrô a partir de Leyton até o Centro de Londres. Para quem está sem bagagem, porém, pode ser uma boa pedida fazer esse percurso.

Ovelhinhas e castelos no meu caminho
 entre Bath e Liverpool
Eu cheguei a Liverpool vinda de Bath, uma viagem de quatro horas, com duas trocas de trem (em Newport, no País de Gales, e em Crewe, Cheshire). Adorei a paisagem do caminho, decorada pelo lilás das urzes que crescem à beira dos trilhos (qual é o romance inglês que não tem urzes e charnecas?), salpicada de ovelhinhas de cara preta e até um castelo. O bilhete de Bath a Liverpool custou £27, comprado no começo de junho.

Onde Ficar
Da próxima vez, vou me hospedar no Yellow Submarine ancorado, na Albert Dock. Cabem até oito pessoas 
Eu fiquei hospedada no Adelphi Hotel, uma antigo marco da cidade, fundado em 1826. Vou falar dele com calma em outro post, que ele merece, mas, por praticidade, acho que teria sido melhor ter ficado na área da Albert Dock, que tem muitas opções, com diversos preços (até um Formule One, que promete diárias de £29).

Uma alternativa que achei bem atraente foi o Yellow Submarine, ancorado bem pertinho do The Beatles Story, e que é administrado pelo Cavern Club e custa £175 cada diária. Não vi por dentro, mas convém dar uma checada no site deles, clicando aqui.

O "Muro da Fama", em frente ao Cavern Club, registra todos os artistas e bandas que passaram por aquele palco mitológico

Mais sobre Liverpool
Dicas práticas
Três programas obrigatórios para beatlemaníacos
Hotel Adelphi, um mito da cidade
Como chegar às casas de John, Paul, George e Ringo
Liverpool dos Beatles: Um mapa sentimental e alguns motivos para voltar
Liverpool além dos Beatles





A Inglaterra na Fragata Surprise
Bath


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11 comentários:

  1. Oi, Cynthia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia

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  2. Oi, Cynthia!
    Pena que a gente não se encontrou, né?
    Mas olha, adorei seu post de Liverpool!!! Ficou bem explicadinho! Básico obrigatório para quem ama os Beatles!

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    1. Oi, Clarissa, que pena mesmo. No dia que "falamos", eu já estava me despedindo de Londres, a caminho de Winchester (que cidade fofa!). Pirei com Liverpool. Como é que eu fui esperar tanto ara ir até lá?? Bj

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  3. Oi Cyntia, que coisa linda esse post! Juro que quase chorei com vc descrevendo sua emoção ao ver os locais e lembrar dos veross. Fiquei com inveja pq não vivi os Beatles como banda. Eu nasci em 1983, John já tinha até se ido, ó que triste. Mas eles são pra mim uma banda tb "descoberta" e me lembro da prieiura vez que vi uma foto de Paul em um jornal, perguntei quem era, ouvi um "os the beatles" e fui atras de um cd. Tinha 11 anos.
    Em 2009 eu fui com meu namorado, agora marido, a Liverpool. Fomos a partir de Londres, num bate-volta, e até hoje esse dia me parece um sonho, meio mágico, meio "será que foi verdade" ? rs
    Tem post no meu blog sobre o "meu dia" se quiser dar uma lida na visita de uma pessoa que nao os conheceu como banda hehe
    vi que vc fez o tour do national trust, queria saber se na casa de paul ainda é um "sósia" que atende rs
    Eu quero mt voltar a liveprool, irei com certeza na proxima ida a europa, pois quero maaais rs. eu nao pude passear em strawberry fields, por exemplo, pq chovia muuuuito no dia.
    suas fotos estao lindas com sol!
    bjs,

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    1. Jackie, o melhor dos Beatles é que eles pertencem a todo mundo, e vai ser assim por muitas e muitas gerações, ainda. Aposto que daqui a cem anos as multidões em busca das lembranças deles em Liverpool serão ainda maiores :)
      O sósia de Paul já não trabalha mais na casa (acho que ele é o cara que morava lá, né?)
      Vou dar uma olhada no seu post, com certeza. O endereço do seu blog está lincado com seu perfil do google? Se não, manda pra mim.
      Bj

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    2. Ah, acho que não tá no perfil do google não, é viajesim.com

      Cara, qd o sósia abriu a porta, óbvio que eu sabia que não era o Paul, mas juro que quase desmaiei, emoção demais rs
      bjs,

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    3. Tá sim, eu achei o post. Bem legal, por sinal.
      Se um sósia abrisse a porta pra mim, eu acho que teria um treco, rsss

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  4. Eles são universais, mas esse texto é único Cyntia. Emocionante, além de muito útil. O primeiro parágrafo é de arrepiar!! Amei. E como sou louca por imagens, só tenho a dizer que estão espetaculares. Beijo!!

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    1. Muito obrigada, Paula. Vc é sempre muito generosa com a Fragata e sua autora. Superbeijo e que vc também possa delirar com Liverpool.

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  5. Quanta poesia!
    Tive a sorte de crescer ouvindo Beatles, graças aos meus pais, apaixonados pela banda. Seu relato é daqueles que dá vontade de colocar a mochila nas costas e pegar o primeiro avião pra terra dos meninos "cabeludos", tamanha delicadeza e emoção na descrição dos lugares.
    Tentarei incluir a corrida de Liverpool nos meus planos corredores de 2014 e aproveitar pra conhecer a cidade onde a magia começou :)

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    1. Meu conselho, Natalia: vá sim! Além de terra dos Beatles, Liverpool é uma cidade muito bonita e interessante. Bj

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