domingo, 30 de julho de 2017

Buenos Aires, a cidade das livrarias

El Ateneo Grand Splendid, a mais famosa. Algumas estimativas dizem que recebe 1 milhão de visitantes por ano
Reza a lenda que Buenos Aires tem mais livrarias que o Brasil inteiro. Em termos quantitativos, a afirmação fica mesmo no campo do mito — o Brasil tem 3.095 livrarias, contra 734 da capital argentina, segundo um levantamento realizado em 2014. A metrópole dos hermanos, porém, é a campeã mundial na relação livrarias por habitantes: uma para cada 3.800 moradores, de acordo com o World Cities Cultural Forum.

O resultado dessa fartura é que não conheço melhor lugar no mundo para garimpar livros do que Buenos Aires. Cada visita é um mundo de descobertas de novos e velhos autores que vão se somando aos meus caminhões de amores literários, o prazer de sentir o cheiro do papel impresso praticamente em cada esquina, a pechincha dos sebos — e o permanente pânico de incorrer no excesso de bagagem, na hora de voltar pra casa 😂.

Clásica y Moderna: 80 anos de tradição
e um bar que entrou para a lista dos notáveis de Buenos Aires
O amor pelos livros é um traço fundamental na identidade dos portenhos e percorrer suas maravilhosas livrarias é uma experiência cultural e antropológica tão essencial quanto ir a uma milonga ou frequentar um de seus históricos cafés. Que o digam as multidões de turistas que passam pela El Ateneo Grand Splendid todas as semanas.

Nesta passagem por Buenos Aires, agora em julho, dediquei um dia inteirinho a fuçar livrarias. As mais bacanas eu reuni neste post, que é pra você se inspirar e aproveitar — e fazer umas comprinhas, por que não? Bora passear? Dá uma olhada no mapinha abaixo para se localizar 😊.



Gosta de livros e livrarias? Aposto que você vai curtir esses posts:
O Bairro das Letras, em Madri: memórias de grandes escritores e lindas livrarias/antiquários

Lello e Bertrand, duas livrarias portuguesas que merecem entrar em seu roteiro
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Montevidéu: a tradição da Livraria Mais Puro Verso

5 livrarias imperdíveis em Buenos Aires

El Ateneo Grand Splendid
Avenida Santa Fé 1860, Recoleta (entre Callao e Riobamba), Metrô Callao, Linha D (atenção, pois há outra estação chamada Callao na Linha B). De segunda a quinta, das 9h às 22h. Sextas e sábados, até meia-noite. Aos domingos, do meio-dia às 22h.

Os 120 mil títulos do acervo não conseguem competir com a beleza do velho teatro
El Ateneo Grand Splendid é um daqueles casos raros de livraria que virou atração turística. Também, pudera. Instalada em um belíssimo teatro de 1919, a bichinha é tão fotogênica que o visitante quase abstrai suas estantes — e olha que a casa tem um acervo portentoso: são 120 mil títulos em oferta, além de CDs e DVDs, expostos em 2.600 metros quadrados.

Detalhes da fachada do Grand Splendid, inaugurado em 1919


A beleza em tom Belle Époque tardia do Grand Splendid sempre coloca essa filial da rede El Ateneo nas listas de livrarias mais bonitas do mundo e basta prestar um pouquinho de atenção para perceber que uma parcela expressiva dos visitantes está mais interessada em fotografar o esplendor de sua decoração perfeitamente preservada, como a cúpula pintada por Nazareno Orlandi, os douramentos que volteiam pelos camarotes e galerias do teatro, seus lustres e veludos.


A cortina de veludo do palco ainda está lá

As galerias do teatro agora acomodam livros

Os camarotes foram convertidos em salas de leitura

Os antigos camarotes do teatro foram convertidos em salas de leitura onde se pode folhear os livros à vontade. No palco — onde Carlos Gardel se apresentou em diversas ocasiões — funciona um café (a empanada não vale a pena). No subsolo há um setor exclusivo para crianças.


No palco do teatro agora funciona um café


No quesito garimpo e compras, eu acho a Grand Splendid muito parecida com uma megastore (o que, de fato, ela é). O acervo é vasto, sim, e a equipe é prestativa. Mas o clima é impessoal e não estimula muito a descoberta — se você perguntar por determinado autor, os funcionários vão localizar as obras em estoque em um computador, mas não vão esticar a conversa, apresentando outras possibilidades ou recomendando obras e escritores, como acontece em livrarias menores e mais “íntimas”.

 
Clásica y Moderna
Avenida Callao 892, Recoleta (entre Paraguay e Córdoba), Metro Callao, Linha D. De segunda a sábado, das 9h à 1h da manhã. 


Enquanto forem folheados e experimentados, esses livros permanecem vivos
Prestes a completar 80 anos, “Clásica”, como a chamam os habitués, é muito mais que uma livraria, é um pequeno centro cultural que promove espetáculos musicais, recitais de poesia e debates, além de ser a sede de um charmoso café/restaurante que está inscrito na lista oficial de “bares notáveis” mantida pela Prefeitura de Buenos Aires.

Inaugurada em 1938, já herdeira de uma tradição livreira iniciada em 1916, a cargo da família Poblet, Clásica y Moderna já nasceu com vocação para ponto de encontro e rapidamente se converteu na sede de animadas tertúlias literárias. Na década de 50, o lugar fervilhava de debates políticos e boemia, tradição interrompida pelas sucessivas ditaduras mas rapidamente retomada com a redemocratização, nos anos 80.

O café-restaurante da Clásica está na lista de notáveis de Buenos Aires
Como toda boa livraria, Clásica tem aquele ar meio abarrotado e ligeiramente desarrumado de um lugar onde os livros não fazem pose nas prateleiras — no estéril alinhamento perfeito das megastores. Os exemplares se esparramam pelo piso, mesas e assentos disponíveis, com cara de que foram apalpados, folheados, experimentados. No espaço apertado, os títulos de literatura ocupam o térreo e a não-ficção, com foco em historia, cinema e ciências humanas, se acomoda no mezanino.

Um diferencial de Clásica é o atendimento. A funcionária que me atendeu parecia conhecer tanto de literatura argentina que saí de lá com a sensação de que tinha assistido a uma aula. Não esperava menos de uma livraria que chegou ao ponto de abrir uma escola de extensão cultural para ministrar cursos na área de humanidades.


De Ávila
Adolfo Alsina 500, Montserrat (esquina com Bolívar), Metrô Bolívar, Linha E, ou Perú e Plaza de Mayo, Linha A. De segunda a sexta, das 8:30h às 20h. Aos sábados, das 10h às 15h.

A antiga Librería del Colegio foi a primeira a funcionar em Buenos Aires
A antiga Librería del Colegio, hoje De Ávila, é a livraria mais antiga de Buenos Aires, criada ainda no Século18. Começou como uma botica (farmácia) que se viu de na contingência de vender livros e jornais, já que sua vizinhança com a Plaza Mayor (hoje Praça de Mayo) da cidade colonial a colocava no meio do burburinho político da futura insurreição pela independência do país e a sede por informações era grande na vizinhança.

A dois passos da Praça de Mayo, De Ávila sempre rende uma visitinha instigante
O edifício original da livraria foi demolido em 1926 e substituído pela sede atual, na mesma esquina, onde eu tive a sensação de ser recebida por uma torrente de livros — novos, usados, raros, relevantes ou corriqueiros.

Prateleiras, mesas, bancadas, gôndolas giratórias, vale tudo para acomodar o acervo. A especialidade da casa são as edições raras de livros e revistas e há uma larga seção dedicada à literatura e aos costumes dos pampas.

Acredite, apesar do visual meio tsunami, há lógica nesse emaranhado 
No subsolo, em meio a uma profusão de mesas e tabuleiros de livros em oferta, funciona um café literário. Quando for à De Ávila, vá com tempo, porque o garimpo lá é animado.


El Rufián Melancólico
Bolívar 857, San Telmo (entre Independencia e Estados Unidos), Metrô Independencia, Linha E. De terça a domingo, das 10h às 20h. Segundas, a partir das 14:30h.

Um sebo para grandes garimpos
 Se eu disse que toda boa livraria precisa de um certo ar de caos controlado, El Rufián Melancólico deve estar entre as melhores do mundo. Aqui, estamos a anos luz daqueles ambientes onde os livros se perfilam em posição de sentido para serem passados em revista pelos fregueses. Não, pelo contrário, eles parecem se acotovelar e montar nos ombros dos outros, como na geral de um estádio de antigamente.

A livraria -um sebo, na verdade- é pequenininha. O espaço para circulação é mínimo e rapidamente o visitante entra no clima, trombando com livros, esculturas (o dono é artista plástico), velhos vinis e pôsteres irreverentes. É como um cânion muito estreito formado por prateleiras meio bambas onde se acumulam livros raros, empoeirados e instigantes.

O lugar tem um pezinho no Cemitério dos Livros Esquecidos, como narrado na trilogia de Zafón. Um lugar para ir e se deixar levar pela mão pelo turbilhão de lombadas à espera de um novo dono. O Rufián é para apaixonados.

A casa mantém um blog sobre livros (claro) e outros temas: Librería El Fufián Melancólico.


Cúspide
Florida 629 (entre Tucumán e Viamonte), metrô Florida, Linha B, ou Lavalle, Linha C. Tem outros 11 endereços em Buenos Aires, como nas Galerias Pacífico e no Recoleta Mall, e em outras cidades. 


A Cúspide tem algumas dezenas de lojas espalhadas pelas principais cidades argentinas — só na cidade de Buenos Aires são 11. Profissionais e organizadas, as unidades da rede fogem da impessoalidade que diferencia o mero comércio de livros do ofício livreiro com um atendimento impecável. Os funcionários são muito bem informados e sempre têm uma boa sugestão de leitura.

Essa característica não é um mero detalhe. A minha tendência, ao entrar em uma livraria organizada e convencional seria ir direto ao que estivesse buscando, com aquela objetividade de quem leva uma lista de compras ao supermercado. Mas é só engatar um dedo de prosa com os vendedores de Cúspide e já me baixa aquele espírito garimpeiro que costumo reservar para sebos obscuros e caóticos.

Cúspide é a prova de que nem sempre é preciso ser uma livraria "artesanal" para oferecer uma ótima experiência ao cliente.

O que já li desse garimpo recente  


Estou cada dia mais fã da escritora Claudia Piñeiro, que eu já conhecia do ótimo Las viudas de los jueves, cáustico retrato dos "bem sucedidos" recolhidos a seus condomínios privê. Também gostei muito de Elena sabe. Nesta temporada portenha, devorei o melancólico Una suerte pequeña e e já estou no finalzinho de Las maldiciones, um thriller sobre os bastidores da "nova política".

Já o jornalista Rodolfo Walsh é daquelas descobertas arrebatadoras. Operación Masacre é uma reportagem investigativa — arrancada, contra tudo e contra todos, da paixão e da disciplina de um grande repórter — sobre o assassinato de cidadão comuns na esteira da repressão a uma tentativa de sublevação contra a ditadura militar (mais uma...) em curso no país em 1956.

Um grandíssimo livro que me absorveu completamente, a ponto de quase não querer sair do hotel. Escrito nove anos antes de A Sangue Frio, de Truman Capote, o livro de Walsh é pioneiro do "romance-reportagem" que celebrizou a obra do americano, onde a crua realidade é narrada sem maquiagem, mas em grande estilo. Walsh foi assassinado em 1977 pela ditadura liderada por Jorge Rafael Videla.

As obras de Claudia Piñeiro e Rodolfo Walsh já têm tradução em português.

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