quinta-feira, 7 de fevereiro de 2002

Argentina: não é hora para caleidoscópios

Café Dorrego, em San Telmo,
um dos mais tradicionais de Buenos Aires

Música deste post: Comes Love, Norah Jones

Buenos Aires, 7 de fevereiro de 2002,

Está chovendo horrores em Buenos Aires. A natureza deve achar pouco o que o FMI fez por aqui e agora manda esse temporal bíblico. Passa das 11 da manhã e o tradicional Café Tortoni está quase vazio, 10 mesas ocupadas, se tanto. Pouca gente disposta a pagar 3 Pesos por um expresso e pelo direito de ler o jornal em paz.

Mereço una copita de jerez. Estou encharcada. Tive que caminhar do Hotel, na Reconquista com Tucumán, até aqui -- mais de 10 quadras. Cheguei de madrugada, fui surpreendida por um feriado bancário e não consegui fazer câmbio para pagar o táxi.

Não que os portenhos estejam esnobando dólares: até ontem à noite, o peso valia um dólar. Agora, ninguém sabe quanto vai valer o dinheiro preso nos bancos, quando o movimento for normalizado, na segunda-feira. Tem gente apostando que a moeda americana vai valer três pesos.Troquei dólar a 2,10 Pesos, numa loja aqui perto (quando já estava encharcada de chuva...). Na esquina, me ofereceram 2,30.

Mesinhas do Café Dorrego no meio da praça, no verão
Buenos Aires é sufocante no verão - "Lo que mata és la humedad", dizem os porteños - mas tem a vantagem
das mesinhas do Café Dorrego no meio da praça :) 
Quando o sol abriu, segui para San Telmo. Queria um refresco da tensão sob a calma aparente do Centro. Não é só o calor. Não é a umidade. Tem alguma coisa muito pesada no ar de Buenos Aires, muito mais do que a leitura de tantos jornais me faria supor.

Percorri os antiquários na obsessão de encontrar um caleidoscópio. Ora, porque caleidoscópios formam as imagens mais lindas, que nunca mais se repetem, mas sempre são substituídas por outras, tão lindas quanto uma tarde perfeita em Porto Alegre.

Só que os tempos em Buenos Aires não estão para caleidoscópios, nem na minha querida Plaza Dorrego. As árvores estão todas aqui, o casario, o aconchego, o silêncio. Mas tem crianças pedindo esmolas. O garoto pede os amendoins que acompanham meu xerez. Depois dele, uma manada de pombos famintos atacou o que restou...

"Prohibido robar. El gobierno no accepta competencia" (é proibido roubar, o governo não aceita concorrência). A frase está num muro perto de Parque Lezama, no meu caminho para as empanadas no Bar Brtitanico. De lá, fui ao Caminito, no Bairro da Boca. Não gosto do lugar, mas estou trabalhando e faz parte da pauta checar como a área mais turística da cidade está reagindo à crise.

Adro da Igreja de San Telmo, com sua plaquinha em fileteado, d técnica decorativa tipicamente porteña
Pois é, o Caminito está desbotado, vazio -- turista tem medo de convulsões- e quase todas as casas têm uma placa de "aluga-se quarto" na fachada. O que não mudou foram os motoristas de táxi  todos falam de política com muita desenvoltura

Um deles me pergunta sobre Collor e FHC e eu digo que Collor foi pior que Menem. Ele dá um pinote: "Impossível. Nem que ele fosse o demônio!". Jorge Alberto dirige táxi em Buenos Aires, mas sonha com São Paulo, onde viveu por três anos, trabalhando na loja do cunhado. Voltou por conta da euforia, da moeda forte e de um amor pela cidade que, emburrado, deixa transparecer, mas não quer confessar. Agora está com o dinheiro preso no banco e vontade de jogar o carro contra as barricadas metálicas que protegem a Casa Rosada dos manifestantes.

Ao cair da tarde, uma manifestação reuniu cerca de 100 pessoas, em frente ao Palácio de Justicia, logo atrás do Teatro Colón. Querem o impeachment de nove juízes da Suprema Corte. Mais adiante, um grupo de jovens bate latas e sacode bandeiras vermelhas. Na Calle Defensa, enquanto caminhava de San Telmo ao Centro, duas senhoras colam cartazes feitos à mão, chamando para o panelaço de amanhã.

Mas o ponto alto desta quinta-feira foi mesmo a prisão do ex-chefe da Polícia Federal, implicado na morte de cinco manifestantes durante os protestos da madrugada de 19 para 20 de dezembro, quando ocorreu a renúncia do presidente De la Rua.

Amanhã (sexta-feira de Carnaval, para os brasileiros) tem panelaço na Praça de Maio. Jorge Alberto, o taxista, tenta me prevenir: na segunda-feira, começa a flutuar o câmbio e as pessoas vão saber, com certeza, quanto vão perder com o confisco dos depósitos. "Cuidado. Ninguém sabe o que pode acontecer nesta cidade".


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