domingo, 25 de agosto de 2002

Buenos Aires depois que a banda passou

Fórum Social da Argentina
Sete meses depois do convulsivo verão que se sucedeu à queda do presidente De la Rua, eu estou de volta a Buenos Aires. Desta vez, para cobrir o Fórum Social da Argentina.

O evento, um "filhote" do Fórum Social Mundial, concentra suas discussões na análise da crise política econômica e social enfrentada pelo país, ao mesmo tempo em que estimula a articulação e a divulgação das diversas iniciativas de mobilização e resistência.

As grandes manifestações de massas de dezembro, janeiro e fevereiro já ficaram para trás. Buenos Aires parece querer retomar uma normalidade impossível, pois o terremoto econômico devastou empregos, poupanças, modos de vida. Sem o entusiasmo quase eufórico dos protestos, a cidade está sombria, tomada por algo que lembra a depressão que vem depois das grandes turbulências.

Até por isso, é bom ver gente reunida, debatendo alternativas. Durante três dias (22 a 25 de agosto), o Fórum realiza mais de 300 atividades — palestras, oficinas e painéis. Mais de 600 organizações sociais, sindicatos, ONGs, assembléias de bairros e grupos de piqueteiros (organizações de desempregados) estão representados nas discussões.

Os eventos se concentram nos prédios das faculdades de Economia e de Medicina da Universidade de Buenos Aires, na Plaza Houssay, perto da Recoleta. No centro da praça uma grande tenda serve de auditório para assembléias e debates, enquanto, ao seu redor, dezenas de barraquinhas vendem livros, camisetas, bandeiras e jornais. Ao final do Fórum, a organização calculava que 20 mil pessoas teriam participado das atividades.

"Um outro mundo é possível"
O tom das ruas já não é tão trovejante, mas o coro não mudou: "Que se vayan todos!" é o mote do movimento — menos massivo, embora mais organizado do que em fevereiro — que discute a convocação de eleições gerais. Mas na passeata de abertura, na tarde da sexta-feira, 22 de agosto, as cerca de 10 mil pessoas estavam mais empolgadas pelo "Não à ALCA"-- a Área de Livre Comércio das Américas, proposta pelos EUA, que é a bola da vez.

Uma das estrelas da caminhada de mais de cinco quilômetros, entre a Plaza de Mayo e a Plaza Houssay, é o líder cocalero boliviano Evo Morales — há uma grande presença de lideranças sindicais e políticas latino-americanas e de militantes anônimos, vindos dos países vizinhos, para demonstrar solidariedade aos argentinos. Também estão presentes delegações africanas, asiáticas e europeias.

Jorge Ceballos, coordenador do  Movimiento Barrios de Pié
É inevitável perceber que o vigor das Asambleas Barriales parece um pouco arrefecido. Os vecinos, majoritariamente egressos da dita "maioria silenciosa", tomavam as ruas em fevereiro sob o choque do confisco de suas poupanças, das denúncias de corrupção e da indignação com a quebra do país. Hoje, as manifestações parecem reunir não mais a massa de cidadãos comuns, mas os militantes. As palavras de ordem são mais sofisticadas, as reivindicações são mais "universais" — chamar de "globalizadas" seria uma provocação. É tudo mais organizado, mas parece menos orgânico...

"Tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou", dizia Chico Buarque, lá em 1966. Há um ar de "volta aos trilhos" em Buenos Aires. O Fórum é um sucesso entre as vanguardas, mas não consegue comover a cidade ou mesmo chegar ao topo das manchetes.

Ainda assim, no fim da tarde domingo, era impossível não estar contagiada pela esperança dos hermanos. Na grande tenda de Plaza Houssay, mais de quatro mil pessoas reunidas na assembléia do Movimiento Barrios de Pié (uma articulação das assembleias de bairro) discutem propostas para o fortalecimento do mobilização, planejam atividades, articulam-se com delegações de outras cidades, regiões e países. Eles falam do futuro. Não é o futuro distante, ideal, idílico. É um amanhã para daqui a pouco, um passo de cada vez. Eles falam de coisas reais e isso tem um vigor indescritível.

Mais uma vez, vou embora de Buenos Aires completamente encantada.

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