sábado, 22 de janeiro de 2011

Mi Buenos Aires Querido

Casarão da Praça Dorrego, em San Telmo, o bairro mais antigo de Buenos Aires
Jamais consegui chegar perto da ideia de ter "esgotado" Buenos Aires, mesmo já contando uma dezena de visitas à cidade. Buenos Aires é tão intensa e interessante que é possível passear por uma cidade "diferente" a cada viagem.

Mesmo assim, tem programas na cidade que eu sempre repito, porque adoro. Acho que cada visitante freqüente tem sua lista de favoritos por lá. A minha lista de coisas queridinhas em Buenos Aires é esta:

Café Dorrego
Esquina de Defensa com Humberto Primo, Plaza Dorrego, San Telmo
Nos dias mais quentes, é legal ficar nas mesinhas da praça. Mas experimentar a atmosfera enfumaçada do Café Dorrego é uma experiência antropológica
Já comentei em outro post: é um Top 10 na lista dos "Meus Lugares no Mundo", com as paredes descascadas, mesinhas meio bambas e a atmosfera permanentemente enfumaçada — embora a proibição de fumar, vigente desde 2007, seja rigorosamente respeitada.

Com o tempo mais ameno, pode-se optar pelas mesinhas colocadas na praça, mas gosto mesmo é do astral do pequeno salão. Sempre numa mesa "de janela", pra olhar a vida passar, curtindo o clima sem afetação, uma espécie de “tempo suspenso” que pode ser qualquer época, desde que cordial. Só fuja dos domingos, quando lota por conta da Feira de Antiguidades de San Telmo.

Bar Britanico
Avenida Brasil 399, em frente ao Parque Lezama

Este é outra paixão, com o mesmo astral despretensioso do Café Dorrego e a quatro quadras, seguindo a Calle Defensa. Não bastasse o clima caseiro, de bairro, onde senhores de colete e chapéu sentam lado a lado com a garotada descolada, ainda serve empanadas irresistíveis.

Pablo Ziegler
Simplesmente maravilhoso este pianista que integrou o quinteto de Piazzolla (entre 1978-89) e é um dos expoentes do Nuevo Tango, colocando essa expressão da alma argentina e o melhor do Jazz nos mesmos acordes. Seus oito discos (até agora) são todos maravilhosos. O meu preferido é “Bajo Cero”, com o New Tango Duo, de 2003 — “Flor de Lino” é um tango-valsa-jazzístico de deixar a respiração suspensa, de tão belo.

Fileteado
Uma banca de revistas muito estilosa com sua decoração em fileteado, em San Telmo
Sou absolutamente encantada por este estilo decorativo totalmente portenho. As cores berrantes, espirais e cornucópias estão renascendo, desde a primeira década dos anos 2000, graças a um concurso de ornamentação de fachadas promovido pelo Museu Casa de Gardel.

Talvez seja o nosso equivalente à arte dos pára-choques de caminhão — não por acaso, surgiu no Século XIX como decoração de carroças. Hoje, está por toda a parte, especialmente em San Telmo e Abasto, nas fachadas dos bares e casas, nos letreiros de lojas e peças decorativas.

Fileteado nas fachadas de San Telmo
Museu Casa Carlos Gardel
Calle Jean Jaures nº 735, Abasto. Metrô Carlos Gardel, linha B

Dias de semana (fecha às terças) das 11h às 18h. Sábados, domingos e feriados das 10h às 19h, entrada: 1 Peso (grátis às quartas). 

Tem fotos, partituras, filmes e objetos que pertenceram a Carlos Gardel, mas o melhor desta casa, onde o cantor viveu entre 1927 e 1933, são as senhorinhas apaixonadas que freqüentam e ajudam a cuidar do lugar. Adoro conversar com elas, que mostram, cheias de orgulho, pequenos recuerdos de Gardel, cantarolam tangos e nos deixam pensando na mágica deste artista, tão vivo e tão adorado 75 anos depois de sua morte.

Restaurantes Sorrento
Avenida Corrientes, nº 668, entre Florida e Maipú, em Montserrat e Avenida. Alicia M. De Justo nº 410, Puerto Madero

Digam o que quiserem os modernos, mas uma ida a Buenos Aires sem provar os frutos do mar do Sorrento sempre fica pela metade. Na tradicional sede do Centro, aberta ainda no Século XIX, o almoço é sempre lotado. A sede de Puerto Madero é mais elegante, com um terraço que oferece lindas vistas do Rio da Prata. Eu tento variar, mas sou louca pelas vieiras e não resisto a arrematar a refeição com a mais gigantesca taça de sorvete de zabaione do planeta.

Milonga na Associación Casa de Galicia, em San Telmo. As milongas são bailes de tango onde gente comum evolui pelo salão, muito mais interessantes que os shows coreografados para turistas
Milonga na rua, atividade paralela da feirinha de antiguidades de San Telmo
Milonga vespertina da Confiteria Ideal
Calle Suipacha nº 380, entre Corrientes e Sarmiento
Primeiro, porque a confeitaria é linda. Inaugurada em 1912, é Belle Époque dos pés à cabeça, com o toque exato de decadência que a impede de parecer um parque temático. Segundo, porque as milongas das tardes, durante a semana, atraem muitos velhinhos, que já não dão conta de enfrentar a night, mas dançam divinamente, sem afetações ou paetês, por puro amor ao tango.

É para sentar e assistir, com uma taça de vinho ou uma xícara de chocolate e depois voltar pra casa cantarolando, de alma leve.

Parque Lezama

Dizem que Buenos Aires nasceu aqui, fundada por Pedro de Mendoza em 1536. O bacana deste parque, que começa no encontro da Calle Defensa com Avenida Brasil e que se derrama até Passeo Colón, é o "astral de vizinhança", silencioso, preguiçoso e verde. Tem uma feirinha de artesanato aos domingos, mas bom mesmo é caminhar por aqui nas horas calmas de sábado, depois ou antes de uma passada no Bar Britanico.


O Museu Histórico Nacional da Argentina, no Parque Lezama
O jardim do museu e as árvores centenárias do parque. No verão, não tem lugar mais agradával em Buenos Aires


No Parque Lezama funciona o Museu Histórico Nacional da Argentina, com foco na independência do país e instalado na antiga mansão da família Lezama, que foi dona de toda essa área. O acervo reúne objetos que pertenceram aos líderes independentistas arqgentinos, como San Martín e Belgrano. Vale uma visita.

Museu Histórico Nacional da Argentina - Calle Defensa nº 1652. Aberto de quarta a domingo, das 11h às 18h (dias de semana) e das 11h às 19 nos fins de semana. Entrada: 20 pesos. Grátis às quartas-feiras.

Feira da Plaza Serrano
Plaza Julio Cortázar, Palermo
Já faz alguns anos que esta mistura de mercado de artesanato, design e peças vintage desbancou a tradicional Feira de San Telmo na minha preferência, talvez até por estar menos apinhada de turistas, ou porque eu ainda consiga encontrar mesa nos bares do entorno sem precisar chegar às cinco da manhã, ou mesmo porque o clima do bairro anda combinando mais comigo — nunca vou trair San Telmo, juro, mas já não sou tão monogâmica. Aos sábados.

Lina's Tango Guesthouse
Calle Estados Unidos nº 780, entre Piedras e Chacabuco

Em matéria de hospedagem, esta pousada, pra mim, é a campeã de Buenos Aires — e olha que já me hospedei até no Madero, quando era Sofitel. O lugar é fofo, com um pátio interno adorável, cheio de plantas e um clima de casa-da-gente.

E Lina é a anfitriã perfeita, não apenas uma dona de pousada: ela realmente faz companhia, convida para as milongas e bate longos papos, enquanto passa um café, naqueles finzinho de tarde entre o bate-pernas das compras e passeios e a preparação para a noite portenha.

Os hóspedes, do mundo inteiro, tomam café da manhã juntos, na mesa da sala, e você acaba descobrindo que o Tango está virando mania na Coréia do Sul e na Nova Zelândia — o público da pousada é composto, basicamente, de tangueiros-descolados de todo o planeta.

Tem cinco quartos, a maioria com banheiro privativo, e diárias entre US$ 45 e US$ 70.

Página 12 e Olé
O primeiro é o melhor jornal diário da Argentina — mais inteligente e sem aquele ranço conservador que azeda a leitura. O segundo é o escracho indispensável, um diário esportivo com um senso de humor à beira do deboche, transbordando inteligência e bom jornalismo — eles adoram pegar no pé do futebol brasileiro, mas, para ser justa, é preciso admitir que o Olé detona todo mundo, democraticamente. Recomendo os dois, para começar bem o dia. De preferência, acompanhados de chocolate quente, churros e medias-lunas, os inigualáveis croissants portenhos que mereciam um post só para eles.

Café Tortoni: o programa de rádio transmitido do porão era bizarro e muito engraçado
La Venganza será terible
O programa de rádio de Alejandro Dolina é transmitido ao vivo, a partir da meia noite, pela Radio Nacional, de segunda a sexta, com platéia (Auditório da Rádio Nacional, Calle Maipú nº 555, entre Tucumán Lavalle).

É uma sátira impiedosa a rigorosamente tudo que acontece na Argentina — se seu castelhlano não estiver bem afiado, você vai perder metade das piadas. Imprescindível para saber qual o efeito dos noticiários sobre os portenhos. Fui ver ao vivo em 2004, quando ainda era transmitido do porão do Café Tortoni.


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Um comentário:

  1. devia ter lido o seu blog antes de ter ido a buenos. teria me batido menos. embora tenha curtido de montão e feito minhas próprias descobertas. quero ir lá de novo...

    Mary

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