terça-feira, 25 de julho de 2017

Comer em Buenos Aires - novas aventuras


Medialunas, parrilla e empanadas. Para o mosaico ficar perfeito, só faltaram as milanesas, outro prato típico portenho que me mata

Buenos Aires sempre foi sinônimo de boa mesa. Uma das grandes atrações da capital argentina é sua vasta oferta de bons restaurantes, cafés, confeitarias, sorveterias e balcões anônimos onde se encontra desde a refeição ligeira — empanadas e medialunas puxando a fila — a pratos requintados. E a histórica vantagem das moedas brasileiras sobre o dinheiro dos hermanos torna a farra ainda mais apetitosa, já que os preços não costumam matar ninguém de susto.

Nesta temporada porteña, tinha feito planos mirabolantes para aproveitar a culinária local. Logo na primeira noite, porém, uma experiência muito ruim em um restaurante badalado (o italiano Piegari, na Recova, uma espécie de shopping center gastronômico, na Recoleta, onde o jantar resultou em uma intoxicação alimentar), me fez mudar a direção da minha exploração gustativa pela cidade.

Restaurante Puerta del Inca, em Montserrrat
Em vez dos medalhões afamados, resolvi experimentar casas mais simples, frequentadas pelos moradores locais no dia a dia. O resultado da minha experiência foi bem compensador: comidinha caseira, saborosa, sem frescura e a preços impressionantes, de tão acessíveis.

Antes de falar dos restaurantes, porém, deixa eu fazer um alerta: os cartões de crédito parecem estar meio fora de moda na cidade. Encontrei uma quantidade significativa de lugares — especialmente menores e mais simples — onde o pagamento é “solo em efectivo” (só em dinheiro vivo). Fique ligada, portanto, não custa perguntar antes de fazer o pedido se a casa aceita cartão.

Da uma olhada nos restaurantes que experimentei e curti nesta passagem por Buenos Aires:


Leia também: Buenos Aires: a memória boêmia dos cafés, bares e confeitarias "notáveis"

Três achados na Recoleta

Como en Casa
Avenida Presidente Manuel Quintana 2 (esquina com Libertad), Recoleta. De domingo a terça, das 8h às 21h.De quarta a sábado, das 8h à meia noite. Aceita cartões (Visa e American).

Como en Casa: pra se sentir em casa mesmo
Minha melhor refeição nesta temporada em Buenos Aires foi neste restaurante que parece ser o queridinho dos moradores mais cool do bairro.

A qualquer hora que eu passasse por lá, havia sempre mais de uma mesa de amigos em papos animados regados a vinho e comidinhas. É claro que como vizinha provisória, eu teria que experimentá-lo. E adorei.

Eu cheguei cedo, antes da casa lotar. À direita, os ótimos angnoloti do meu jantar
Musiquinha discreta, vinhozinho em taça e atendimento simpático. Fui na hora do jantar. Cheguei cedo (umas 20 horas) e a casa começou a lotar em seguida, mas não espere uma balada. O público é adulto, trinta e muitos em diante.

Pedi uma das sugestões do chefe, agnoloti de salmão e camarão com molho de manteiga e ervas, prato delicioso. Com a taça de vinho, a refeição ficou em 248 pesos (R$ 45).


Dos Escudos Café
Avenida Pres. Manuel Quintana 210 (esquina com Montevideo), Recoleta. Diariamente, das 7:30h às 20:30h (aos domingos, fecha 30 minutos mais cedo).



Meu point no café da manhã
Outro lugar que decidi experimentar por testemunhar o permanente movimento. O café da Avenida Quintana é “descendente" de uma padaria/confeitaria famosa, com mais de 70 anos de tradição (virando a esquina, na Calle Montevideo, funciona uma filial dessa padaria).

Bom lugar para um café, um almoço rápido ou um lanche no final da tarde. São muitas opções de tortas, petit fours, doces e pães e a medialuna bate um bolão. Virou meu point de café da manhã. Jamais gastei mais do que 150 (R$ 27) pesos lá.


Las Delícias
Avenida Presidente Manuel Quintana 380 (entre Rodriguéz Peña e Montevideo), Recoleta. Diariamente, das 7h à 1:45 da madrugada. Aceita cartões de crédito (Visa, Master e American).



Se você quiser saber onde jantam e se divertem os velhinhos do bairro, precisa passar neste restaurante que vive lotado de gente de cabelos brancos e muita conversa para colocar em dia. O lugar usa o subtítulo de “Club Recoleta” e é o que parece mesmo: um clube de velhos amigos, em mesas animadas desde a hora do café da manhã até tarde da noite. Toda vez que eu passava pela porta, dava vontade de entrar.

Finalmente, na minha última noite em Buenos Aires, fui lá conferir que encantos teria um lugar tão simples e sem qualquer frescura aparente para estar sempre tão movimentado. 

Cordeiro patagônico, pudim de leite e o astral de um clube de vizinhos
Parece que o segredo é mesmo a convivência, a relação de vizinhança e a boemia possível no Século 21 para quem já viveu tempos mais cordiais. Lembra os velhos bares do Rio, onde os frequentadores desafiam o passar do tempo falando de política, de (bons) livros e de cinema sem efeitos especiais.

Tão simpático que a comida nem precisava ser boa. Mas é. Pedi vinho (Malbec, lógico) para acompanhar meu prato gigante de cordeiro patagônico assado, acompanhado de batatas. Simples e gostoso. A conta, com um singelo pudim de leite de sobremesa, ficou em 360 pesos (R$ 65).

Duas boas opções no Microcentro

Puerta del Inca
Bolívar 373 (entre Moreno e Belgrano), Montserrat. De segunda a sábado, do meio-dia à meia-noite. Aceita Mastercard.


Puerta del Inca: bonito e agradável
A meio caminho entre a Praça de Mayo e o bairro de San Telmo, este restaurante funciona em um antigo casarão restaurado.

O salão elegante, de pé direito muito alto, tem um tom rústico, quase industrial e, durante o dia, farta luz natural. Foi essa beleza despojada que me chamou a atenção e — já que era hora do almoço — resolvi experimentá-lo.


Esse ceviche estava ótimo. E a tortinha desconstruída também 
A inspiração peruana está estampada no nome, mas o Puerta del Inca também põe um pezinho na Itália pra executar sua cocina de mar ("cozinha de mar") com muitas opções de peixes e massas com frutos do mar no cardápio.

Almôndegas sem carne, mas muito saborosas
Na hora do almoço, serve menu de três passos, com uma bebida, ao preço fixo de 280 (R$ 50). Escolhi as almôndegas de abóbora com ricota de entrada e o ceviche com camarões de prato principal, os dois bem interessantes. Para fechar, a torta de limão “desconstruída”, servida no potinho — um toque modernoso, que não comprometeu em nada a gostosura do doce.

O serviço é eficiente e simpático, o preço é uma pechincha e o lugar é tão bonito e agradável que até deu vontade de pedir mais alguma coisa, só pra esticar a permanência.


Adorado Café&Bar
Bolívar 347 (entre Moreno e Belgrano), Montserrat. De segunda a sábado das 8h às 20h. Aos domingos, a partir do meio dia. Aceita todos os cartões. Tem um “irmão” em Palermo, na Calle Nicarágua 5856.


Outra boa opção para quem está passeando pelo Microcentro ou a caminho de San Telmo. Só tente chegar cedo, pois fica lotado na hora do almoço.

O público é jovem, com cara de que estuda ou trabalha nas imediações. Um lugar para provar comida caseira com um toque moderninho — a casa se orgulha de só usar ingredientes fresquinhos, de produtores próximos, e de elaborar integralmente todas as opções do cardápio.

Ciabatta perfeita no bom sanduíche de milanesa
A ênfase é nos pratos rápidos e leves, como as saladas e os wraps. Os sanduíches no pão tipo bagel fazem o maior sucesso. Pedi o sanduba de milanesa na ciabatta (deliciosa!) com saladinha e aprovei com louvor. Ótimo almoço por 200 pesos (R$ 36).

Pra gastar muito pouco

La Pulpería
Uriarte 1667 (entre Honduras e El Salvador), Palermo. De terça a domingo, das 8h às 20h. Não aceita cartões.

Bom, simpático e barato: La Pulpería
Descobri esse restaurante pequenininho e com jeitão alternativo pelo aplicativo Yelp. Fica a dois passos da Plaza Cortázar (também conhecida como Plaza Serrrano), onde aos sábados rola a feirinha de artesanato e designers de Palermo — um programa que eu continuo curtindo demais, mas que acabou inflacionando os preços dos restaurantes e bares próximos, onde estão cobrando 50 pesos (R$ 9) a latinha de Coca-Cola.

La Pulpería prometia ser bom e barato. As recomendações que li no Yelp não mentiram: o lugar é muito simples, mas a comida é muito saborosa. O menu varia de acordo com a feira do dia e as opções disponíveis são anotadas a mão, em uma folhinha de papel.

Escolhi o pastel de papas, um escondidinho de carne moída muito suculenta e bem temperada coberto com purê de batatas. O prato estava muito gostoso e deu até vontade de repetir, rss. Ah, e a conta ficou em 120 pesos (R$ 22).


Gran Pizzería Los Talentos
Defensa 902 (esquina com Estados Unidos), San Telmo. De terça a quinta, das 8h às 23:30h. Às sextas e sábados, também abre às 8h e não tem hora para fechar. Domingos, das 9h às 23h. Fechado às segundas. Não aceita cartões de crédito ou débito.



Salão retrô, serviço no balcão e a típica pizza portenha
Se você não implica com pizza de massa grossa, como é tradicional em Buenos Aires, esse é um bom lugar para uma pausa despretensiosa em San Telmo gastando muito pouco. O letreiro na porta anuncia com orgulho que a casa está em ação desde 1949 e tudo em Los Talentos mantém a carinha retrô (de verdade, não essas contrafações hipsters que estão na moda).

Não há serviço de mesa. Você faz o pedido no caixa, paga, recebe sua senha e aguarda ser chamada ao balcão para recolher os acepipes.

Pra quem está viajando só é um achado, pois serve pizza al taglio por um preço imbatível: 25 pesos a fatia (R$ 4,50). As empanadas são assadas no mesmo forno a lenha onde vão as redondas.

Para combinar com os museus


Marcelo Dolce
Avenida Figueroa Alcorta, 3415, Palermo (no Museu de Arte Latino-Americana, Malba). Diariamente, das 12h às 16h. Aceita todos os cartões.


Polenta com ragù depois de ver o Abaporu

Inaugurado em 2013, o novo restaurante do Malba pertence a um chef badalado que tem outras duas casas dedicadas à cozinha italiana em Puerto Madero e Recoleta.

O terraço externo, de frente para o verde da Praça República do Peru, é bastante agradável para beliscar os itens de confeitaria e pratos ligeiros. O salão interno, envidraçado e com decoração moderna e sóbria, fica no meio do caminho entre o clássico refeitório de museu e o restaurante descolado.

Pedi a polenta com ragù de cordeiro, que estava bastante saborosa (o prato é enorme, não consegui dar conta dele inteiro). Os preços não chegam a ser convidativos (o que dizer de uma Coca-Cola a 80 pesos, ou R$ 14,50?), o atendimento é impessoal, mas gostei da comida e, principalmente, da comodidade de almoçar no museu depois da visita às exposições. Minha conta ficou em 460 pesos (R$ 84).

Novecento Bellas Artes
Avenida Figueroa Alcorta 2270, Recoleta, atrás do Museu de Belas Artes. Diariamente, das 12h às 23h.

Moderninho, bom atendimento e do ladinho do museu de Belas Artes
A rede Novecento tem casas em Nova York (a primeira), Argentina (mais duas em Buenos Aires), Uruguai e México.

A unidade Bellas Artes fica bem atrás do museu, no espaço há que há mais de uma década abrigava o Café Modena, com decoração toda dedicada à Ferrari — hoje transformado em Mercedes Haus, celebrando a marca de automóveis alemã.

Empanadinhas bem gostosas
Como o Museu de Belas Artes tem entrada gratuita, em sempre bati ponto nesse lugar, fazendo aquelas pausas que adoro quando vou a um museu. O Novecento está bem bonitão, o atendimento é simpaticíssimo e muito eficiente. O ambiente é elegante, em um pavilhão envidraçado cercado de verde.

O cardápio tem desde beliscos simples, como empanadas, sopas e saladas, a pratos de parrilla, peixes e massas. Como eu estava sem muita fome — tinha tomado um bom café da manhã e estava cedo para almoçar — fiquei apenas nas empanadas de carne, bem gostosinhas (custam 55 pesos cada, ou R$ 10).


Parrilla

El Mirasol del Puerto
Alicia Moreau de Justo 202 - Dique 4, Puerto Madero. Diariamente, do meio-dia às 2 da manhã. Aceita todos os cartões de crédito.

Jugosa, quem resiste?
Estava sentindo falta das carnes argentinas neste post? Ah, mas elas não iriam me escapar de jeito nenhum — logo eu, uma carnívora quase neandertal 😁. Fui de parrilla logo no meu primeiro almoço portenho e o lugar escolhido foi a filial de Puerto Madero do restaurante El Mirasol.

O lugar tem uma pegada convencional, com a elegância que se espera das casas de Puerto Madero, e parece ser point para o almoço de domingo em família: a maioria das mesas estava povoada por pelo menos três gerações. Apesar da lotação quase esgotada, o serviço foi muito ágil e profissional.

Pedi picanha, que chegou à mesa macia e suculenta, no ponto exato da minha paixão: dourada por fora, sangrenta por dentro — jugosa, como se diz por lá . Para acompanhar, papas (batatas) fritas, é claro — taí uma coisa que os argentinos fazem muito bem. 

O lugar não pode ser considerado barato, mas não destoa dos preços de Brasília ou São Paulo: com os drinks, o almoço ficou em 600 pesos (R$ 110).


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