sexta-feira, 1 de julho de 2011

Aventuras gastronômicas: erros e acertos

Balcão da Brasserie L'Atlas:
dá para olhar a presa nos olhos, antes da refeição
Tenho uma imensa curiosidade gastronômica e só não gosto de duas coisas: fígado e comida mal feita. Uma refeição memorável não precisa de ambiente requintado ou de um grande chef. Acho que o astral conta tanto ou mais que o tempero. Sempre comi maravilhosamente em Paris, mas a melhor lembrança gustativa que tenho da cidade é de uma tarde que passei na Brasserie L’Atlas, em Saint Germain-de-Prés, quebrando perninhas de caranguejo com um quebra-nozes.

A farra era ir até o imenso tabuleiro coberto de gelo onde eles deixam os tourteaux, em plena calçada, escolher a vítima (vivinha da silva) e vê-la retornar, devidamente cozida e deliciosa, enquanto eu tomava vinho e lia “Por quem os Sinos Dobram” pela quarta ou quinta vez.

(Se ficou com vontade, a L'Atlas Brasserie fica no nº11 da Rue de Buci, Saint-Germain-de-Prés, Paris)

Listei, a seguir, algumas aventuras gastronômicas divertidas. Algumas eu adorei. Outras valeram pela experiência.

1-  Acarajé em São Paulo
Eu morava em Sampa e suponho  que isso seja uma circunstância atenuante para o tresloucado gesto — abstinência é fogo! O cheiro do dendê veio de longe e me pegou de jeito, em pleno Parque do Ibirapuera. Se você gosta de farinha de trigo com gosto de nada, fique à vontade. Caso contrário, aprenda o que todos os baianos nascem sabendo: acarajé, fora do Recôncavo, é comida de gringo, de masoquista ou de exilado em desespero.

Comício em Xapuri (AC), 1990. No palanque, Lula, 
Marina Silva e lideranças seringueiras

2- Rabada no tucupi em Xapuri
A primeira rabada a gente não esquece, ainda mais se for saboreada à sombra das árvores frondosas da praça principal de Xapuri (AC), num prato de alumínio equilibrado sobre os joelhos. Foi em 1990, no intervalo de um comício na terra de Chico Mendes. No palanque estavam muitos companheiros do líder seringueiro, morto dois anos antes. Eu sempre tinha torcido o nariz para rabada, mas o cheiro do tucupi excitou a minha curiosidade gustativa. Anotei as aspas para a matéria, fiz as fotos e corri para a barraquinha que servia o prato. Virei fã de carteirinha — aliás, sou louca pelo Acre.

3- Pastel de siri em Praga
Foi um momento de privação dos sentidos. Eu estava com fome e morta de preguiça de procurar um restaurante com uma cara minimamente decente. Entrei no primeiro chinês que apareceu, em Malostranské Náměstí. Até aí, tudo bem. Restaurante chinês é sempre uma mão na roda quando bate a crise de criatividade gastronômica numa viagem. Mas precisava pedir pastel de siri? A massa era grossa, cheia de óleo e o recheio, claro, era de kani, aquela abominação praticada com restos de peixes e mariscos. Inesquecivelmente aaaaargh!

4- Big Mac em Roma
Não tenho preconceito contra fast food. Faz menos de dois meses que comi o meu Quarterão trienal — isso mesmo, degusto um a cada três anos, na maior felicidade. Mas, vergonha das vergonhas, confesso que sucumbi a um Big Mac a uma quadra de distância da Scalinata di Spagna. Pura preguiça, de novo. O gosto era rigorosamente igual ao de qualquer Big Mac. Horrível é lembrar de todas as alcachofras à judia e tripas à romana que eu desprezei para encarar o sanduba.

Entrevistando Umbelina, professora da comunidade Macuxi da Maloca do Bismark, minha anfitriã na Raposa-Serra do Sol 
(Roraima, setembro de 1993. Foto de Luiz Fernandes).

5- Caxiri na Raposa-Serra do Sol
Em setembro de 1993, integrei o “escalão precursor” de mais uma das Caravanas da Cidadania, que levavam o então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva aos rincões mais distantes do país. Dos 40 dias na Amazônia, lembro com especial carinho de Umbelina, a professora Macuxi que me recebeu como amiga de infância em sua casa de taipa, na Maloca do Bismark,  reserva indígena da Raposa-Serra do Sol, em Roraima.

O Caxiri é uma bebida fermentada, geralmente da mandioca, que pode ou não ter algum teor alcoólico. O que Umbelina nos serviu, num ritual de boas vindas, era feito de batata roxa, meio azedinho, refrescado pela moringa de barro — uma bênção, no calor de quase 40 graus.

Houve um tempo em que a preparação do Caxiri era bem parecida com a do cauim, bebida de milho feita pelos povos do litoral do Sudeste: a mandioca era mastigada pelas mulheres da tribo e cuspida numa gamela. A saliva providenciava a fermentação. Hoje, é mais comum fazerem um beiju e deixá-lo na água, para fermentar.

Não perguntei a Umbelina como ela preparou o Caxiri, mas tomei uns quatro copinhos. Na volta para Boa Vista, meus companheiros de jornada quase me largaram na estrada quando contei sobre o método tradicional de preparação da bebida: “Você deixou a gente beber?!”. Eu, porém, adorei.

Águas Calientes, Peru, cresceu em torno da estação
 do trem que leva os turistas a Machu Picchu


6- Cuy em Águas Calientes

Desculpem o mau jeito, mas não há outra forma de explicar: cuy é um rato. Deve ser limpinho, vive nas montanhas andinas e é muitíssimo apreciado pelo povo Quéchua — eis porque resolvi experimentar. É um prato chique na Cordilheira, mas o bicho não consegue deixar de ter focinho de rato, bigodes de rato e unhas de rato. Até aí tudo bem, cada um é o que é. Dose é que o restaurante onde decidi degustar o roedor traz o bicho para a mesa inteirinho (incluídas unhas, bigodes e focinho). Uma visão dos infernos. 

Abracei minha curiosidade antropológica e tratei de destrinchar o Níquel Náusea, que jazia em decúbito dorsal sobre a travessa. Relevei até o fato de ele estar com a boca aberta, exibindo os incisivos — na verdade, um e meio, pois além de tudo o bicho tinha um dente quebrado...— mas o que não deu para encarar, mesmo, foi o tempero. Sem sal, sem gosto, a carninha gordurosa era intragável. Haja pisco para afogar a frustração.


7- Sanduíche de tubarão em Maracas Bay
"Sanduíche" é informalidade minha. O petisco se chama shark and bake e é simplesmente um espetáculo: carne de tubarão empanada, servida dentro de um roti (bolinho frito de massa de batata), com molho à escolha do freguês — recomendo o de tamarindo. Aliás, só o roti já vale festa. Esse primo distante do acarajé é comido em todas as esquinas de Trinidad e Tobago, com recheios de peixe, frango com curry (hummmm) e vegetais. Ah, e a praia de Maracas também é muito bacaninha. Já contei sobre ela aqui na Fragata.

8- Sorvete de feijão vermelho em Port of Spain
Quem procura o Caribe-clichê dificilmente gosta de Trinidad, mas eu adoro essa ilha a 12 quilômetros da costa venezuelana, especialmente pelo festival de cores, cheiros e sabores de sua capital, Port of Spain. Os temperos indianos, africanos e chineses estão impregnados no ar da cidade. O sorvete de feijão vermelho é chinês. Tem horas que parece jambo, horas que parece groselha. Um dos sabores mais divertidos que já provei.

San Telmo: além da cozinha badalada, 
aqui também se serve locro

9- Sopa de Locro em Buenos Aires
Talvez o meu prato preferido na cidade, depois das empanadas do Bar Britanico. Os melhores lugares para experimentar o prato são os botequinhos quase sem placa na porta dos bairros mais simples da cidade, mas as bodeguinhas de San Telmo e da região do Parque Lezama também são uma boa pedida. Considerado "comida de pobre", por suas origens indígenas, o Locro é um ensopado a base de milho branco, feijão branco, carnes, batata e batata doce — se você lembrou de puchero, tem lá sua semelhança. Simples e perfeito, especialmente no frio.

Para ver todas as comidas e bebidas citadas aqui no blog, acesse Comes&Bebes - Índice

Índice de posts sobre feiras e mercados 

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6 comentários:

  1. Maravilha - pelo menos aqui um bom jornalismo - bjs

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  2. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para a #Viajosfera, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Natalie - Boia

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  3. A colocação do acarajé foi perfeita! Outro dia, em Porto Seguo, caí a besteira de tentar comer um. Frito em óleo (e não dendê) foi simplesmente bizonho!
    Aprendi a lição: acarajé e abará no máximo até Cachoeira e São Félix. Depois disso, só com muiiito critério.

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    Respostas
    1. Eu aprendi a lição, mas ainda dou uma escorregadas :) Pra minha sorte, tem um acarajé bem razoável aqui na minha quadra, em Brasília. Mas nada se compara ao acarajé do Recôncavo.

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