sábado, 24 de agosto de 2002

Impávido que nem Muhammad Ali


Bandeira do Povo Mapuche
Tarde de sábado chuvosa e fria. No anfiteatro da Faculdade de Medicina de Buenos Aires, cerca de 150 pessoas participam de um debate sobre a área de Livre Comércio das Américas- Alca, coordenado pelo sociólogo argentino José Seoane, dirigente do Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO).

No imenso auditório, somos todos militantes, pingados, em pequenos grupos, hiatos entre os muitos assentos vazios. O Fórum Social da Argentina parece irremediavelmente contaminado pelo desencanto que impregna o ar de Buenos Aires neste mês de agosto, sete meses depois do terremoto institucional, econômico, político e social que levou uma nação inteira às ruas.

Variam os sotaques — fala-se até portunhol — e a faixa etária. Mas não muda o tom articulado e a intimidade com o jargão: 150 espécimes da vanguarda branca, escolarizada e cosmopolita. Aqui dentro, não há povo. Os piqueteiros e líderes comunitários, identificados com as Assembleias de Bairros, preferem a enorme tenda de lona, armada na praça do Campus Universitário.

A maioria da platéia é muito jovem, mas também há os veteranos de outras refregas contra o capitalismo. Os conferencistas se sucedem. Denunciam a política de desindustrialização dos países latino-americanos, os modelos econômicos draconianos impostos pelo Fundo Monetário Internacional, o desmonte dos serviços públicos, a terra-arrasada da obediência ao ajuste fiscal... Enfim: ingerência estrangeira, imposição de modelos, exploração.

A contundência das palavras não abafa o clima geral de modorra no velho anfiteatro. Até que um homem velho, de pele curtida e olhar enfadado, levanta-se no auditório e toma a palavra. O moderador pede que ele aguarde o fim das palestras para se manifestar e ele retruca: "Estou esperando há 500 anos".

É uma liderança Mapuche, povo indígena da região da Patagônia: “Os estrangeiros vêm, levam suas riquezas, usam vocês como mão de obra barata, impõem uma forma de organização política e social. O que há de novo? Meu povo vive isso desde que os europeus chegaram aqui"

Quinze segundos de silêncio. Depois, a ovação. Lembrei dos versos de Caetano: “Surpreenderá a todos, não por ser exótico/ Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto/ Quando terá sido o óbvio”.


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3 comentários:

  1. Maravilhoso, não é mesmo? É de sabedoria que precisamos, minha linda. E ela não vem das cadeira das universidades.

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  2. Cynthia, amo seus textos. Quando crescer, quero escrever como você! Sempre que venho no seu blog, me perco nas leituras...

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