domingo, 13 de março de 2016

Bate e volta de Foz do Iguaçu
à Missão Jesuítica de San Ignacio Miní

A "catedral" de San Ignacio, construção que domina
 a praça principal da antiga missão
Como é gostoso poder finalmente colocar a minha bandeirinha em um lugar que passei décadas querendo conhecer. As ruínas das missões jesuíticas estavam na minha lista há um tempão e, finalmente, desencantaram: aproveitei o feriadão de Carnaval em Foz do Iguaçu para visitar justamente uma das mais bonitas, San Ignacio Miní, na Argentina.

Organizar esse bate e volta acabou sendo mais fácil do que eu imaginava, apesar da distância, cerca de 250 km, e da vedação ao uso de carro alugado — as locadoras não permitem que a gente os leve tão longe da fronteira. O que posso dizer é a beleza de San Ignacio Miní compensa com sobras cada quilômetro de estrada percorrido. A imagem da arquitetura Barroco-Guarani, cercada por árvores de copas generosas, e as memórias que nos acompanham durante o passeio formam um conjunto poderoso e deslumbrante.

Seguramente, uma das maiores atrações que já vi no nosso continente. Confira minhas dicas e prepare-se para ir. Garanto que você vai amar.


Um pouquinho de história
O pressuposto é ruim — converter povos indígenas aos usos, costumes e crenças europeias, sem o menor respeito por suas tradições e imaginário — mas é inegável que, no contexto da época, as missões jesuíticas que floresceram no Cone Sul, entre os séculos 17 e 18, expressavam uma utopia, a aposta da Companhia de Jesus em construir comunidades autônomas e autossuficientes entre os Guaranis, a quem as empresas coloniais só conseguiam enxergar como mão de obra a ser escravizada.

Os jesuítas viam os indígenas como uma espécie de filhos do Éden, dotados de uma pureza de folha em branco onde seria possível redigir o script de um “homem novo”, devoto e livre das máculas da sociedade de então.

Nas construções de San Ignacio foi muito utilizada uma pedra local, o asperón rojo, um tipo de arenito de tom avermelhado

Uma característica marcante dos detalhes decorativos é a representação de motivos florais e de animais da região, como as abundantes borboletas 
Nas missões, ou reduções jesuíticas, falavam-se os idiomas da terra, as tarefas eram divididas e a produção compartilhada com toda a comunidade. A mentalidade dominante não era nada fã dessa iniciativa dos jesuítas, mas ao logo de quase 100 anos eles conseguiram estender o modelo para diversas partes do Novo Mundo, até que a Companhia de Jesus fosse banida da Espanha, depois de Portugal, até ser declarada proscrita pelo poder papal.


A dissolução da ordem jesuíta foi a senha para as invasões e extermínio das missões, comandadas pelos grandes senhores de terras e traficantes de escravos — como na história contada no belo filme A Missão, de Roland Joffè, de 1986.

San Ignacio Miní
San Ignacio Miní foi fundada no final do Século 17, a menos de três quilômetros das margens do Rio Paraná – houve uma primeira tentativa de se estabelecer essa redução mais ao Norte, em território que hoje pertence ao Brasil, mas a primeira povoação não vingou, em decorrência dos ataques dos bandeirantes. Ao longo de 150 anos, San Ignacio prosperou.

Conjunto de moradias de San Ignacio Miní
As oficinas
O espaço das moradias seguia um arruamento retilíneo e bem organizado
A estrutura da missão se dividia em espaços de trabalho — oficinas, pomar, horta e outras plantações—, moradia e de evangelização e culto — o Colégio dos Jesuítas, a igreja e as capelas. Sua praça central — a Plaza Mayor — ainda hoje impressiona pelas dimensões e é dominada pelos restos do pórtico da grande igreja, ou “catedral”, como alguns se referem. Era em torno dessa praça que estavam o Cabildo (sede da junta governativa) as moradias dos dirigentes da comunidade e dos moradores mais proeminentes.

O sistema de governo era misto, com uma espécie de junta civil, formada exclusivamente por indígenas, responsável por cuidar das “questões terrenas”, e uma comissão formada pelos jesuítas, que cuidava das questões relativas à doutrina, à observância dos preceitos religiosos e das regras morais.

A Praça Maior
Uma capela na entrada da Praça Maior
A "catedral"
San Ignacio foi atacada e incendiada por tropas paraguaias em 1817 (o país já era independente). Os sobreviventes se dispersaram pela região ou foram tomados como escravos.

 A região passou décadas completamente esquecida, até começar a ser colonizada, no início do Século 20, por empreendimentos voltados para a produção de erva mate — foi assim que os pais de Che Guevara vieram parar na região, em 1928. A nova cidade de San Ignacio formou-se em torno das ruínas (e não, sobre elas, felizmente) e hoje reúne menos de 7 mil moradores.

O Pátio do Colégio dos Jesuítas,
fechado nos quatro lados, como um claustro

As dependências do Colégio
Como chegar a San Ignacio Miní
As ruínas ficam bem no centro da cidade de San Ignacio, a 254 km de Foz do Iguaçu, 240 km de Puerto Iguazú e 64 km de Posadas. Atravessando a fronteira do Brasil com a Argentina, siga pela Ruta 12. Há um posto de pedágio na altura de Colonia Victoria (cerca de 100 km depois de Foz). Carros de passeio pagam 20 pesos.

Para atravessar a fronteira Brasil-Argentina é preciso apresentar passaporte ou RG. A carteira de motorista também é aceita (mas, como não é lei, eu não arriscaria ir só com ela).

Pórticos voltados para o Pátio do Colégio


San Ignacio é considerada o mais relevante exemplo da arte Barroca-Guarani
De carro
Locadoras brasileiras não permitem que você leve o carro alugado além de 50 km da fronteira, portanto, essa não é uma opção para ir a San Ignacio. É preciso estar com automóvel próprio ou contratar um transfer. 

Nos dois casos, é imprescindível fazer a Carta Verde, seguro obrigatório para veículos que ingressam em países do Mercosul (o equivalente ao seguro que fazemos no Brasil para garantir danos causados a terceiros). O preço varia de acordo com a quantidade de dias de validade. Locadoras de Foz oferecem pacotes com três dias de validade da Carta Verde a R$ 95.

Acesso do Pátio do Colégio para a "catedral"
Espaço interno da igreja

Excursões
Os hotéis de Foz oferecem um tour para a Missão de San Ignacio na casa dos R$ 140 por pessoa. As vans partem de manhã cedinho e voltam no final do dia. No hotel onde me hospedei (o San Martin), era necessário fechar um grupo com um mínimo de oito pessoas para a realização do passeio.

Como viajei
Contratei um transfer privado (R$ 570). É salgado, mas pra mim valeu muito a pena, por toda a vontade que eu tinha de conhecer a missão. Quem me levou foi Roberto González, super boa praça, ótimo papo e motorista cuidadoso. Foi graças a ele que descobri a casa de Che Guevara em Caraguatay, onde parei no caminho de volta a Foz para uma visita. Recomendo muito o serviço de Roberto. Os contatos dele são os telefones 45-91527133 (Vivo), 45-99808198 (Tim) ou 45-30289679.

O interior da "catedral"

A visita
O ingresso às ruínas de San Ignacio Miní custa 130 pesos, para brasileiros (e demais cidadãos do Mercosul). Crianças até seis anos não pagam entrada. O espetáculo de som e luz, realizado diariamente, a partir das 19 horas (ou às 20h, no verão. Se chover, a apresentação é suspensa) também custa 130 pesos.

O local é um misto de grandes descampados (como a Plaza Mayor da Missão) com áreas sombreadas por árvores centenárias, onde banquinhos de madeira convidam para uma pausa. Não há qualquer serviço de lanchonete no interior dar ruínas, portanto, leve seu suprimento de água (acredite, se for verão, você vai precisar muuuuuito).

A estrutura do lugar é muito simples. Os sanitários ficam logo na entrada das ruínas, logo depois da bilheteria. São limpos e bem cuidados. O Museu da Missão de San Ignacio estava fechado para reformas, infelizmente.

Atrás do colégio ficava uma grande área de cultivo

O museu, atualmente fechado para reformas, e o mapa das ruínas


Quanto tempo
Calcule pelo menos três horas e meia para ir, outro tanto para voltar, mais outras três horas para ver a área com calma, parando para descansar, ouvindo o silêncio quase celestial que impera nas ruínas. E lembre-se que tem o museu, onde estão expostas peças resgatadas das ruínas e onde se pode compreender melhor o contexto histórico das missões jesuíticas.

Se você tiver mais tempo, durma na cidade para assistir ao espetáculo de som e luz, muito elogiado. 

Recomendo, ainda, uma parada no sítio onde viviam os pais de Che Guevara quando ele nasceu. É um museusinho singelo, mas muito interessante. Fica no caminho entre Foz e San Ignacio, na altura da cidade de Caraguatay. Para mais informações, leia este post:
A casa de Che Guevara em Caraguatay, Argentina


Outras dicas de Foz do Iguaçu e região
Minha avaliação: Free Shop de Puerto Iguazu


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8 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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  2. Uma outra opção é alugar um carro em Puerto Iguazu, do lado argentino - aí não há a vedação de 50 km.

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    Respostas
    1. Verdade, Dani, mas achei essa alternativa meio trabalhosa demais pra pegar e devolver o carro.

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    2. Verdade, Dani, mas achei essa alternativa meio trabalhosa demais pra pegar e devolver o carro.

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  3. Que lindo...quanta história neste lugar. No RS tem os 7 Povos das Missões, que eu não conheço. Que vergonha, né?!
    Adorei o post. Eu que amo história achei ele demais! Beijos

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    Respostas
    1. Também estou me devendo essa visita à Missão gaúcha, Ana. Morro de vontade, mas ainda não deu certo. Uma hora, acontece :)

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  4. Oi Cyntia.
    Faz alguns dias você me deu uma dica no Dubbi de como ir até as Missões Paraguaias a partir de Posadas.
    Estou embarcando nos próximos dias e montei uma rota de Salta até Posadas, de onde irei conhecer as Missões.
    Agradeço a dica e estou aproveitando para ler o teu relato das Missões
    beijo

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