quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A casa de Che Guevara
em Caraguatay, Argentina

A entrada do museu e uma touceira de caraguatá
A Ruta Nacional 12 é principal via de ligação entre o Norte e o Sul da Província de Misiones, aquele pedaço de terra argentina que se espreme entre o Brasil e o Paraguai, conhecido internacionalmente pela porção hermana das Cataratas do Iguaçu e pelas ruínas de algumas reduções jesuíticas (as Missões que dão o nome à região).

Quando peguei essa estrada, estava exatamente em busca daquela história que remonta ao início da colonização europeia no continente. Mal sabia eu que iria me encontrar com um personagem muito mais próximo de mim, no tempo e nas afinidades: Ernesto Che Guevara viveu ali.

A casinha modesta onde Che passou seus dois primeiros anos de vida foi demolida pela ditadura argentina, nos anos 70. Só ficaram os alicerces, cobertos pela vegetação


Apenas uma singela placa marca o entroncamento da Ruta 12 com a estradinha de terra que leva ao antigo sítio onde os pais do Che iniciaram sua vida de casados e onde o futuro guerrilheiro passou seus dois primeiros anos. Quem vem distraído nem nota o caminho, meio escondido por construções muito simples, na margem oposta do acesso à cidade de Caraguatay.

Após cinco quilômetros de pista de terra, com trechos muito claudicantes, chega-se ao sítio onde o casal Guevara se estabeleceu em 1927, em parte para buscar uma fonte de renda, mas também para fugir ao falatório decorrente da gravidez de Célia de la Serna, anterior a seu casamento com Ernesto Guevara Lynch.

Naquele pedaço de terra sobre a barranca do Rio Paraná, os pais do Che construíram uma casinha de madeira sobre alicerces de pedra e se dedicaram ao cultivo da erva mate, atividade econômica que começou a ser organizada em esquema mais "industrial" naquela época. O casal chegou pelo rio, em uma embarcação construída por Ernesto pai, que também tinha artes de engenheiro naval e tentou manter um pequeno estaleiro na propriedade, para fornecer barcos para o transporte de cargas na região.


A casa que abriga o museu foi construída pelos novos proprietários do sítio. A família Guevara mudou-se em 1931, pois a umidade da região era péssima para a asma do pequeno Ernesto
Ernesto Che não nasceu na propriedade, então batizada de La Misionera. A região, bastante isolada, não dispunha de um hospital. Quando a hora do parto foi se aproximando, o casal decidiu descer o rio para Buenos Aires, em busca de mais assistência. Não deu tempo de chegar e o primogênito dos Guevara nasceu em Rosário, onde seus pais aportaram às pressas, em maio de 1928 — o Che tem duas datas de nascimento, 14 de maio e 14 de junho, um artifício para tentar disfarçar a gravidez pré-matrimonial.

Na mata fechada, onde Ernesto pai cultivava a erva mate, e nas margens do Rio Paraná, onde Célia, exímia nadadora, se exercitava todos os dias, Che aprendeu a andar. O clima úmido do lugar, porém, agravava a asma que atormentaria o futuro guerrilheiro desde os primeiros meses de vida até sua morte, em La Higuera, na Bolívia, em 1967.

Árvores plantadas por Camilo, Aleyda e Célia Guevara,
filhos do Che, na entrada do sítio

O acervo do museu é modesto, composto principalmente de livros e fotografias e objetos doados por visitantes. À esquerda, lembranças de povos pelos quais o Che lutou: a whipala (bandeira dos povos indígenas bolivianos) e a bandeira de Cuba, além da bandeira da Frente Sandinista de Libertação Nacional, da Nicarágua

A asma do pequeno Ernesto e as dificuldades para fazer prosperar os negócios acabaram convencendo o casal Guevara a abandonar La Misionera, em 1931, rumo ao clima muito mais salubre de Córdoba.

O sítio foi vendido e ficou esquecido pela história, mas não passou despercebido à ditadura que se instalou na Argentina em 1976: os militares trataram de mandar demolir a pequena casa de madeira onde o Che passou seus primeiros anos de vida. Hoje restam apenas os alicerces cobertos pela vegetação.

Sala dedicada aos 56 cidadãos da província de Misiones desaparecidos durante a ditadura argentina, na década de 70
Só em 2006 o primeiro lar do Che deixaria o anonimato, com a inauguração do Parque Provincial Ernesto Guevara de la Serna. Com cerca de 23 hectares, a área abriga um pequeno museu de acervo muito modesto, mas comovente, pois é composto principalmente de doações de amigos, contemporâneos e admiradores.

Lá está um lenço doado por Delia, viúva de Alberto Granado, o companheiro do Che na mitológica viagem de motocicleta pela América do Sul (narrada nos diários do Che e transformada no filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles). Ou um facão típico do corte de cana em Cuba. Cubanos e bolivianos, povos que o Che lutou para ajudar a libertar, estão representados por suas bandeiras — no caso dos bolivianos, pela whipala, a bandeira das nações indígenas daquele país.

O principal da exposição são livros (e como se escreveu sobre o Che) e fotografias. Uma das salas do museu é dedicada aos 56 jovens misioneros desaparecidos durante a ditadura.

O Rio Paraná visto das ruínas da casinha da família Guevara
Percorrer o pequeno museu e a exuberante mata que o cerca fica muito mais interessante graças a Hector, o guarda-parques responsável pelo local. Com seus vinte e tantos anos e uma boa vontade infinita, ele conduz os visitantes pelas memórias do lugar com a maestria de um contador de histórias veterano. Um caso clássico de gente que gosta do que faz.

O caraguatá, nativo da região, é uma espécie de abacaxi. Hoje se sabe que a planta tem propriedades que ajudam a aplacar as crises de asma, doença que afligiu o Che desde criancinha

É impressionante a quantidade e variedade de borboletas que habitam a mata em torno da casa
A casa do Che em Caraguatay pode ser uma escala interessante de um roteiro às missões jesuíticas da Argentina. É uma oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a história do nosso continente e dos grandes movimentos políticos do Século 20. Não espere um nada grandioso, mas, como eu sempre digo aqui na Fragata, os maiores monumentos não costumam ser feitos de pedra e cal. Eu fiquei arrepiada a cada passo que dei por lá.

Como viajei
Eu não fazia a menor ideia da existência dessa casa do Che. Foi Roberto, o motorista que me levou à missão jesuítica de  San Ignacio Miní, que me contou sobre o local e fez questão de parar lá, na volta do passeio. Fiquei extremamente grata pela dica.

Aliás, super recomendo os serviços de Roberto, um espanhol que já rodou o mundo inteiro escalando montanhas e mergulhando, tem muita história pra contar e, claro, dirige com toda segurança. Você pode fazer contato com ele pelo telefones 45-91527133 (Vivo), 45-99808198 (Tim) ou 45-30289679.

Como chegar
Uma placa na beira da Ruta 12 marca a entrada
 para a primeira casa do Che
Parque Provincial Ernesto Che Guevara está a 143 km de Foz do Iguaçu, na Ruta 12, província de Misiones, na Argentina. Para quem vem do Brasil, a entrada fica à direita da pista, marcada por uma placa meio difícil de ver para quem vem dessa direção. Fique atento à sinalização que indica a cidade de Caraguatay para não passar direto.

Não é preciso entrar na cidade de Caraguatay, que fica do outro lado da pista, à esquerda de quem vem do Brasil.

A partir da Ruta 12, é preciso percorrer mais 5 km
 de estrada de barro
A Capela de Santa Ana foi construída pela família que comprou as terras após a mudança dos Guevara
Da Ruta 12 até a casa do Che são mais cinco quilômetros de estrada de terra. Segundo os locais, a estradinha fica intransitável no período mais pesado de chuvas. Leve isso em consideração quando for programar sua visita.

O Museu Casa de Che Guevara pode ser visitado diariamente, das 9h às 18h, com entrada gratuita.

Mais sobre esta viagem

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6 comentários:

  1. Que belo achado, Cynthia!
    Parece que o Che conseguiu mesmo deixar um pedacinho dele em cada canto dessa América Latina.
    Esse lugar já entrou na minha lista!
    Abraços,
    Ana Christ

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    Respostas
    1. Fiquei felicíssima com a visita, Ana. é um programa legal pra quem está em Foz. Bjo

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  2. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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  3. Tenho certeza que vc só conhece a história romantizada de Che Guevara.

    Se achar importante, pesquise mais e, certamente nunca irá ostentar uma camiseta ou qualquer souvenir com a estampa desse sujeito...

    Parabéns pelo conteúdo geral do blog.

    Rodrigo

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    Respostas
    1. Conheço bastante bem e admiro a história de Che Guevara, Rodrigo. Você tem uma opinião, eu tenho outra. Não serei arrogante de creditar a sua opinião divergente a qualquer desconhecimento ou falta de pesquisa. Obrigada por acessar a Fragata.

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