segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Buenos aires europeia:
roteiro pela Avenida de Mayo

O antigo Hotel Paris, no nº 1161, um dos expoentes art nouveau da Avenida de Mayo
Passear pela Avenida de Mayo é um dos meus programas preferidos em Buenos Aires, admirando o charme de sua arquitetura. Esse é um roteiro que não canso de repetir e recomendo. Nesta volta à cidade, em julho, o passeio ficou ainda mais bacana com a visita guiada ao Palácio Barolo, um dos edifícios mais famosos da avenida e que agora pode ser explorado em um tour que termina em sua torre, a 100 metros de altura.

Ela não é cenário de um tango famoso, como a Corrientes em A media luz, mas é a mais emblemática das vias portenhas, cartão de visitas de uma cidade que quis se despedir do Século 19 celebrando sua pujança econômica, a expressão local de uma época em que o Ocidente estava enamorado pelo “progresso” e pela modernidade. 

Veja quanta coisa legal você vai ver na Avenida de Mayo: 

A avenida refletida na fachada do Palácio Barolo
Visita guiada ao Palácio Barolo
A construção é um delírio neogótico bancado por um ricaço italiano, o pecuarista Luís Barolo, onde toda uma simbologia calcada em A Divina Comédia, de Dante Alighieri, foi usada como cânone arquitetônico. O Barolo foi inaugurado em 1926 e recentemente restaurado e devolvido a seu esplendor.

Barolo e o arquiteto Mario Palanti, seu conterrâneo, eram fãs de Dante e chegaram a sonhar em trazer seus restos mortais do poeta para a Argentina, já que a Itália vivia tempos conturbados após a I Guerra Mundial. O edifício, candidato a mausoléu do poeta, está dividido em três partes: inferno, purgatório e céu, como o poema. Quanto mais se sobe, menos decoração — a vaidade terrena — e mais luz natural ilumina os ambientes.

(Palanti também fez um edifício gêmeo do Barolo em Montevidéu, o Palácio Salvo, inaugurado em 1928, na esquina da Avenida 18 de Julio com a Praça Independeência.)
Detalhes do interior do Palácio Barolo, que pode ser percorrido em visitas guiadas
Os 100 metros de altura do Palácio Barolo — que extrapolam o gabarito original da Avenida de Mayo e só foram liberados mediante uma licença especial e compensação em dinheiro exigida pela prefeitura—representam os 100 cantos de A Divina Comédia. A cúpula do edifício foi inspirada em um templo hindu dedicado ao amor, representando a reunião de Dante e Beatriz no paraíso.


Simbologias à parte, o interior do Barolo é muito bonito, especialmente no “inferno”, com toda sua decoração e citações à maçonaria. A subida até o mirante da torre e ao farol — uma gaiolinha envidraçada com uma vista fantástica, mas que é capaz de apavorar que tenha fobia de altura—compensam a simplicidade dos andares superiores, “a caminho do paraíso”.


As visitas são realizadas às segundas, quartas, quintas, sextas e sábados às 10h, 12h, 14h, 17h, 18 e 19 horas. Duram cerca de 60 minutos e custam 245 pesos por pessoa (R$ 43). É imprescindível reservar antes, pois os grupos têm vagas limitadas em um máximo de 25 pessoas.

Também é importante saber que a subida à torre do edifício é feita por uma escadinha (seis lances) em caracol bem acanhada. Pode ser penoso para pessoas com dificuldade de locomoção.


Há também visitas noturnas que podem ser combinadas com espetáculos de tango, concertos de violoncelo e até jantar, sempre com degustação de vinhos. O grande momento promete ser a subida ao farol do Barolo, que é aceso e ilumina pontos específicos da cidade, para delírio de quem se comprime no topo envidraçado da torre onde ele está instalado.

As visitas noturnas são realizadas às segundas, quartas, quintas, sextas e sábados e custam entre 350 e 600 (R$ 62 e R$ 105) pesos, dependendo do dia e da modalidade. Saiba mais sobre os tours no Palácio Barolo.

As manifestações políticas também são uma tradição da Avenida de Mayo
Um pouquinho de História
Antes do tombamento de 1997, o tempo e as mudanças da moda fizeram seus estragos na Avenida de Mayo, mas ainda hoje é possível compreender a imponência do conjunto que queria expressar a “Argentina moderna” do final do Século 19. É muito interessante palmilhar esse corredor de edifícios elegantes, um mosaico estilístico composto por construções neoclássicas, ecléticas, art nouveau e até um exemplar da art déco.

O caminho percorrido por Buenos Aires entre sua condição de aldeia colonial até o posto de metrópole do Hemisfério Sul passou pela Avenida de Mayo, o primeiro bulevar da América do Sul.

No térreo do edifício nº 953 da Avenida de Mayo funcionou uma famosa casa de instrumentos musicais

A antiga sede do jornal Crítica tem a única fachada art déco da avenida. Hoje o edifício abriga repartições da Polícia Federal Argentina
Desde sua inauguração, em 1894, a avenida atraiu o que havia de mais elegante e contemporâneo para as margens de seus pouco menos de 2 km de extensão. Hotéis de luxo, lojas caras, residências requintadas, escritórios de políticos e advogados poderosos, redações de jornais, teatros, cafés... O novo bulevar virou o ponto de encontro de intelectuais, artistas e socialites da época.

A nova via foi inspirada na grande reforma urbanística aplicada em Paris pelo Barão Haussmann na segunda metade do Século 19. O prefeito Alvear queria dotar a cidade com um cartão de visitas cosmopolita — na época, isso era sinônimo de “europeu”. E lá se foram abaixo vários quarteirões de construções coloniais.

Antigo Hotel Majestic, edifício de 1905, no nº 1301
Mas antes de botar a mão na massa, a prefeitura cortou um dobrado com os donos dos imóveis desapropriados. Se em Paris os desalojados pela reforma do Barão foram os pobres que ocupavam maltratadas construções medievais, em Buenos Aires a nova avenida passaria literalmente pelo quintal dos ricos que mantinham suas mansões e chácaras naquele trecho de terra entre as avenidas Rivadavia e Hipólito Yrigoyen.

Por esse motivo, o sonhado bulevar portenho levou uma década para sair do papel: o projeto foi aprovado em 1884, as primeiras demolições foram feitas em 1888 e a inauguração da Avenida de Mayo só ocorreu em 1894 — para expressar o peso simbólico da obra, as demolições começaram em um 25 de maio e a inauguração foi celebrada em um 9 de julho, as datas das “duas independências” do país.

Nenhuma a menos: simbolicamente a avenida ganha o nome de Maria Belén Morán, vítima de mais um feminicídio na Argentina
Desde sua inauguração, a avenida é palco de manifestações políticas e é bem possível que você encontre alguma concentração desse tipo por lá — em julho, com a cidade em ritmo de férias, topei com duas, em dias diferentes.

Os argentinos são, em geral, muito politizados e mobilizados e costumam expressar seus descontentamentos e demandas em protestos de rua que costumam ser barulhentos, mas pacíficos. Se você topar com uma dessas concentrações, fique tranquila. Só participa quem quer e a vida segue. 

A cidade vista do topo do Palácio Barolo, e o reflexo invertido no farol que instalado no alto da torre

Terraços "secretos" bem atraentes vistos da torre do Palácio Barolo
Como chegar à Avenida de Mayo
O centenário bulevar teve a primazia de ser servido pela primeira linha de metrô de Buenos Aires, inaugurada em 1913. Por baixo da avenida, circula a Linha A do Subte (de “subterrâneo”), com seis estações (Plaza de Mayo, Peru, Piedras, Lima, Saenz Peña e Congreso). A Linha C tem a estação Avenida de Mayo, interligada à estação Lima.

As cúpulas vermelhas das torres do Edifício La  Inmobiliaria vistas do terraço do Palácio Barolo. Na foto à esquerda, repare no edifício do Congresso Nacional, ao fundo
O que ver na Avenida de Mayo

A Avenida de Mayo começa na Praça de Mayo, onde estão a Casa Rosada (sede da Presidência da República), o Obelisco do 25 de Maio (data da instalação do primeiro governo independente da Espanha no país), o Cabildo (antiga sede dos governos coloniais) e a Catedral. Os dois quilômetros do bulevar levam até o edifício do Congresso Nacional, onde funciona o Parlamento Argentino.

No trajeto entre as sedes do Executivo e do Legislativo, tem muita coisa interessante. Mas é preciso olhar para cima, pois os pavimentos térreos dos imponentes edifícios estão ocupados por comércios muitas vezes sem graça e alguns até caidinhos.

Palácio Barolo, "inspirado" na Divina Comédia, de Dante 

Eu prefiro começar meu passeio no lado do Congresso, porque a Praça de Mayo tem muita coisa para ver e gosto de me demorar mais por lá. Para quem inicia a caminhada na “ponta legislativa” da avenida, uma das primeiras atrações é o Palácio Barolo. Antes dele, porém, preste atenção ao Edifício La Inmobiliaria, que ganhou esse nome da empresa de seguros que era sua proprietária.


Seguindo em direção à Praça de Mayo, os primeiros destaques são a sede do jornal Crítica, único exemplar art déco do bulevar, inaugurado em 1927 (no número 1333, hoje usado pela Polícia Federal Argentina) e o antigo Hotel Majestic, de 1905, no número 1301.

Mais adiante está o Teatro Avenida (nº 1222), um sobrevivente da época em que o bulevar fervilhava de casas de espetáculo. O teatro é de 1908 e apresentava montagens de zarzuela, um tipo de opereta popularíssima na Espanha.

O palco do Avenida também recebia dramas: Bodas de Sangue, de García Lorca, foi encenado lá, com supervisão do autor. Depois que Lorca foi assassinado na Espanha, pelo franquismo, o teatro acolheu a estreia mundial de sua obra-prima, A Casa de Bernarda Alba em 1945.

O Teatro Avenida, de 1908

Na sequência vêm o Bar Los 36 Billares (nº 1265), inscrito na lista de bares notáveis pela Prefeitura de Buenos Aires, o antigo Hotel Paris, um escândalo de beleza art nouveau, o Hotel Castelar, contemporâneo da época de ouro da Avenida de Mayo que sobrevive em grande estilo. 

Mais adiante, a antiga sede da Casa América, loja de instrumentos musicais, o legendário Café Tortoni, onde você certamente vai querer fazer uma pausa. E não deixe de prestar a atenção ao Palácio Vera, considerado o edifício art nouveau mais importante da cidade (fica no número 769).

O Edifício La Prensa, hoje Casa de la Cultura, e o Palácio Municipal (dir), antiga sede da Prefeitura de Buenos Aires
Saiba mais sobre os cafés e bares históricos neste post:
Buenos Aires: a memória boêmia dos cafés, bares e confeitarias "notáveis"

Encerrando o passeio, já no quarteirão vizinho à Praça de Mayo, você vai ver a Casa de Cultura, no edifício de 1898 que foi sede do jornal La Prensa, e o Palácio Municipal, de 1893, antiga sede da Prefeitura de Buenos Aires.

Pronto, você chegou à Praça de Mayo, que é assunto para outro post 😉.
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Comer&beber

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