quinta-feira, 27 de julho de 2017

Buenos Aires: a memória boêmia dos
cafés, bares e confeitarias "notáveis"

Las Violetas, inaugurada em 1884
O que preserva a memória e o patrimônio de uma cidade não é formol, é o uso cotidiano, a integração à vida real. E Buenos Aires tem a encantadora teimosia de manter vivos seus bares, cafés e confeitarias históricos — que, naquelas bandas, representam muito mais do que lugares onde se toma um trago ou se faz um lanche, mas sim pontos de encontro de ideias, movimentos artísticos e políticos.

Não é raro encontrar em Buenos Aires estabelecimentos (acho que eu deveria dizer instituições) com mais de um século de existência e que persistem — vivos e nada cenográficos — fazendo parte da vida da cidade. Eu, é claro, me esbaldo nessa tradição a cada temporada portenha e sempre bato o ponto em lugares como o Bar Británico, Café Dorrego (que agora se chama “Café y Bar Plaza Dorrego”) e a Confeitaria Las Violetas.

Neste post você vai encontrar um roteirinho com seis desses lugares históricos. Siga o mapa e divirta-se.

A política dos “bares notáveis”
Se moradores e turistas fazem sua parte na preservação, continuando a frequentar os bares, cafés, bilhares e confeitarias históricas, a Prefeitura de Buenos Aires também dá uma forcinha, com a política de reconhecer e apoiar os chamados “bares notáveis”, 73 estabelecimentos considerados os mais representativos da cidade.

Não chega a ser um tombamento, mas é quase, já que essas casas recebem apoio oficial—como o investimento que ajudou a restaurar e reabrir Las Violetas, no início dos anos 2000. Os critérios para entrar na lista vão muito além da antiguidade. Os 73 Bares Notáveis de Buenos Aires são reconhecidos pelo seu valor arquitetônico, histórico e cultural e pela sua presença na história viva da cidade, de um bairro ou de uma comunidade.

Ser inscrito na lista não significa vida eterna, que o diga o tradicionalíssimo Café Richmond, na Calle Florida, que servia a melhor milanesa que comi em Buenos Aires, fechado em 2011. Mas pode ser a porta para a preservação, como se vê na história de Las Violetas e do Bar Británico. Esperemos que seja também o futuro da querida Confitería Ideal, point de famosas milongas, fechada desde o ano passado para reforma.


Bares, confeitarias e cafés de Buenos Aires
para colocar na sua lista




Confeitaria Las Violetas
Avenida Rivadavia 3899 (esquina com Medrano), Almagro. A estação Castro Barros do metrô (Linha A) fica a menos de uma quadra. Diariamente, das 6h à 1h da manhã. Aceita American Express.

Antes de tomar posse de sua mesa, tem a fila na porta
Tão bonita quanto o Tortoni (a decoração das duas casas foi concebida pelo mesmo arquiteto) Las Violetas é muito menos turística do que o famoso café da Avenida de Mayo. Isso não quer dizer, porém, que você vai se livrar da fila antes de se sentar em uma de suas mesas, à sombra de pilastras esbeltas e cercada por belos vitrais evocativos da Belle Époque.

É que essa confeitaria, inaugurada em 1884, continua sendo a preferida das senhorinhas portenhas, que comparecem em peso com seus casaquinhos de cachemir para o chá da tarde entre amigas — estive lá numa tarde de quarta-feira e precisei esperar cerca de 20 minutos por uma mesa.

Maria Callas no chá da tarde
O cardápio oferece uma grande variedade de doces e salgados, para quem quer só lanchar, e pratos quentes para uma refeição mais “séria”. Como cheguei na hora do chá, escolhi o menu (completíssimo) chamado Maria Callas, uma alentada bandeja com sanduíches, scones, torradas, geleias, tortas e docinhos, acompanhada por chá, chocolate (minha escolha) ou café. Tudo bem gostoso. Custa 400 pesos (R$ 70) e serve três pessoas com folgas.



Bar Británico
Avenida Brasil 399 (esquina com Defensa), San Telmo. Aberto diariamente das 6 da manhã às 3 da madrugada. Não aceita cartões.

Fala se não é fofo
Aposto que há uma penca de lugares no mundo, cidades inteiras, que não carregam nem um décimo do enredo do Bar Británico. Sou fã de carteirinha desse pedacinho da história de Buenos Aires e pra mim não existe passar pela cidade sem bater o ponto por lá, provar as célebres empanadas da casa e matar umas horinhas lendo o jornal e comentando o noticiário com os ocupantes das mesas vizinhas.

Fundado no comecinho do Século 20, o Británico foi batizado em alusão aos trabalhadores da ferrovia que partia da Plaza Constitución, ali pertinho, muitos deles ingleses, como a empresa que operava a linha de trens.

O menu do dia sempre oferece opções interessantes a bons preços
Cenário (e personagem, por que não?) de filmes como Diários de Motocicleta e até de um livro de Ernesto Sabato — escritor que foi assíduo frequentador da boemia de San Telmo —, o Británico fez história como refúgio de farristas e intelectuais que travaram encarniçadas batalhas verbais sobre política e arte em tertúlias que varavam a madrugada, em um tempo que o velho bar jamais cerrava suas portas. Hoje, mais comportado, como convém a um senhor centenário, funciona só até as três da madruga.

O Británico não escapou à perseguição das diversas ditaduras que assombraram a Argentina — durante a Guerra das Malvinas, em 1982, quando a Argentina tentou retomar a posse do arquipélago ocupado pelos ingleses desde as Guerras Napoleônicas, chegou a ser obrigado a mudar de nome para não “homenagear o inimigo”.

Pra mim, não existe passar por Buenos Aires sem pedir a benção à empanada do Británico 
Mas a grande batalha travada por este venerando bar foi pela própria sobrevivência. Em 2006, o dono do imóvel onde está instalado decidiu despejar o Británico, mas deu de cara com a firme mobilização de moradores de San Telmo, frequentadores em geral—um elenco que incluía artistas famosos e políticos proeminentes. O despejo durou quase um ano, mas o bar ressurgiu restaurado e tão vivo quanto antes.

Vale como farra, como experiência antropológica ou pra anotar no currículo acadêmico. Só não deixe de ir. Ah, as empanadas continuam gostosas.


Café Dorrego
Defensa 1098 (esquina com Humberto I), San Telmo. De segunda sábado, das 8h às 3h da manhã. Aos domingos, das 8h à meia-noite. Não aceita cartões.

Meu primeiro amor em Buenos Aires foi o charme antiguinho do Dorrego
Plantado no coração de San Telmo, o Dorrego foi meu primeiro amor em Buenos Aires. O boteco que se orgulha de ter servido de palco para uma legendária tertúlia protagonizada pelos escritores Jorge Luis Borges e Ernesto Sábato (imortalizada em uma foto exibida em lugar de honra) tem pelo menos 130 anos de idade, sempre reunindo gente interessante.

O Dorrego entrou na boemia como um armazém que vendia bebidas
Point de boêmios, vanguardistas, sonhadores (e até alguns chatos de se julgam tudo isso ao mesmo tempo), o Dorrego começou a vida como armazém de secos e molhados, fato que ainda pode ser reconhecido da decoração, especialmente nas caixas de madeira que armazenavam produtos a granel, ainda penduradas em uma das paredes. O mobiliário ainda é o original de quando o lugar se transformou em bar.

Quando não está muito frio, há serviço também em mesas distribuídas pela Praça Dorrego, à sombra de árvores centenárias. Mas nada se compara a bebericar um cálice de xerez no salãozinho acanhado, com seu piso xadrez, mesas gastas e cadeiras meio bambas.


 
Café La Biela
Avenida Presidente Manuel Quintana 596 (em frente ao Cemitério da Recoleta). Diariamente, das 7h às 2h da manhã. Aceita Visa, Mastercard e American Express.

La Biela, homenagem aos ases do volante
Decano dos cafés históricos de Buenos Aires, o La Biela funciona desde 1850, quando a Recoleta era ainda um bairro afastado do centro, prestes a se tornar refúgio das famílias mais ricas da cidade, que se mudavam de San Telmo para evitar os mosquitos e a epidemia de febre amarela que atormentava os portenhos.

Fundado como Café La Viridita e posteriormente rebatizado como Aero Bar (em referência aos pilotos da aviação civil que formavam parte da sua clientela) ganhou o nome de La Biela (“A Biela) quando já tinha 100 aninhos de idade, graças a outros comandantes de máquinas velozes, os automobilistas que, liderados pelo legendário Juan Manoel Fangio — cinco vezes campeão de Fórmula 1—fizeram de lá o seu QG.

Bastou o frio dar uma treguazinha, olha lá o povo ocupando a área externa no café
Além dos ases do volante (Emerson Fittipaldi e Jackie Stewart entre eles), também recebia visitas dos escritores Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares.

Eu gosto mais de La Biela no verão, quando se pode sentar à sombra de uma frondosíssima árvore — a copa é tão vasta que diversos galhos já receberam apoios metálicos para não desabar — e observar o vai e vem dos turistas que visitam o Cemitério da Recoleta.

O salão do La Biela
Apesar de estar localizado em um dos bairros mais chiques de Buenos Aires e de cara para um disputado ponto turístico—o cemitério — La Biela mantém preços honestíssimos e serviço atencioso. O generoso cálice de xerez ou porto estava custando 90 pesos (pouco menos de R$ 15).

Como estava hospedada bem pertinho, sempre dava uma passadinha e até jantei lá uma noite. Pedi a milanesa de ternera, que estava apenas comestível (a do Lamas, no Rio, é infinitamente melhor), mas a conta não pesou no orçamento: 260 pesos (R$ 43).



Café Tortoni
Avenida de Mayo 825 (entre Piedras e Tacuarí. A estação de metrô Piedras, da Linha A, tem uma saída bem em frente ao café). De segunda a sábado, das 8h à 1h da manhã. Aos domingos, das 9h à 1h. Aceita Visa, Mastercard e American Express.

O concorrido e irresistível Tortoni
Favorito de dez entre dez forasteiros que visitam Buenos Aires, o Tortoni está sentindo a o impacto do turismo excessivo em seus belos salões. A fila permanente na porta já não permite que os frequentadores possam pedir um café e deixar o tempo correr lendo o jornal—o que é, afinal, a grande graça de se frequentar um café de verdade.

Você chega, senta, faz o pedido e, se começar a demorar muito, já vai ser discretamente pressionada pelos garçons para consumir mais alguma coisa ou bater em retirada. Uma pena, porque o Tortoni é um dos lugares mais bonitos para uma pausa relaxada em Buenos Aires.


Apesar da “linha de montagem” resultante do excesso de frequentadores, eu não abro mão de dar uma passadinha no Café Tortoni quando vou a Buenos Aires. Adoro sua decoração escancaradamente Belle Époque, seus mármores— os verdadeiros e os falsos — seus vitrais e a pompa com que os garçons mais velhinhos ainda atendem a clientela.

Fundado em 1858, o Tortoni está instalado no atual endereço desde 1880. No começo do século passado, foi sede da legendária La Peña, uma associação mais ou menos formal que se dedicava a promover concertos, saraus, recitais de poesia e debates políticos, filosóficos e artísticos — com a presença de gente do quilate da poeta Alfonsina Storni, o pianista Arthur Rubinstein, o escritor Luigi Pirandello, o filósofo José Ortega y Gasset e... Jorge Luis Borges (já reparou que Borges aparece na história de quase todos os cafés deste post? Ô, boêmio...😊).

Os famosos vitrais do Tortoni
Enquanto as atividades de La Peña aconteciam na Bodega (o porão do Tortoni), o salão fervilhava com celebridades como Gardel, Fangio e García Lorca.


  

Café el Hipopótamo 
Avenida Brasil 401 (esquina com Defensa). Diariamente, das 7h às 3h da manhã (sextas e sábados, estica até as 4h). Aceita American Express.



O fato de estar localizado na calçada em frente ao Británico talvez roube muito da cena do Hipopótamo, mas esse bar fundado em 1909 também bate um bolão no quesito boteco-histórico-charmoso-e-cheio-de-histórias.

Vou menos lá do que gostaria quando estou na cidade, mas ele é um dos meus queridinhos portenhos, uma das certezas de que a farra vai longe, com seu largo horário de funcionamento, também até as três da manhã.

Assim como o Dorrego,o Hipopótamo também entrou na boemia como armazém onde se vendiam bebidas. Aos poucos, os gêneros a granel foram dando espaço para a farra e pronto, eis mais um bar para a lista de notáveis. Dizem que era o favorito de Ernesto Sabato. Em tempos mais recentes, o cineasta Juan José Campanella, de O Segredo dos seus Olhos e Luna de Alvellaneda é uma das celebridades portenhas que bate o ponto por lá.



Café do Teatro Colón
Cerrito 628. O acesso ao café é a entrada de carruagens, nas laterais do teatro, pela Viamonte ou pela Tucumán. Funciona nos mesmos horários da bilheteria, que fica no mesmo espaço: de segunda a sábado, das 10h às 20h. Domingos, até as 17h.

O café conserva a decoração original
Este café é o único deste post que não está na lista oficial dos notáveis reconhecidos pela Prefeitura de Buenos Aires. Ele está instalado na antiga entrada das carruagens, na lateral do Colón, construída para que os elegantes não precisassem tomar chuva ao chegar para os espetáculos. Esse acesso também tinha uma espécie de passagem secreta que permitia às viúvas e enlutadas em geral entrarem no teatro sem o olhar escrutinador da sociedade sobre elas — mesmo de luto, quem resiste a um concerto, né?

Depois de garantir meu ingresso para o concerto em homenagem aos 100 anos de Violeta Parra, merecida pausa. À direita, detalhe do piso do café
O café preserva os pisos, lustres, balcão e mobiliário originais da época da inauguração do Colón, em 1908 e é um ótimo lugar para uma paradinha antes de assistir a um espetáculo ou após a visita guiada ao magnífico teatro. Não espere muito dos itens de confeitaria, mas vale pedir uma taça de vinho e curtir a atmosfera.

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Um comentário:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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