quinta-feira, 26 de março de 2015

Castelmola, o belvedere da Sicília

O pequeno balcão na parte de trás do Duomo
 é um dos grandes mirantes de Castelmola
Quem pega a estrada de Catânia para Taormina não pode deixar de notar o aglomerado de telhados e muralhas que desponta, pairando sobre a paisagem, lá pelos trinta quilômetros finais da viagem. É um impressionante conjunto que parece transbordar o cume da montanha onde se assenta, prestes a se lançar no abismo – ou a alçar voo. A visão consegue ser ainda mais eletrizante que a majestosa presença do Vulcão Etna, companheiro de viagem que se mostra o tempo todo ao viajante, pela janela panorâmica do ônibus.

Essa povoação que se apresenta ainda mais alta que as nuvens é Castelmola, uma vila medieval assentada no mesmo sítio onde os antigos habitantes de Tauromenion (hoje Taormina) ergueram a sua acrópole. Tem apenas 1.000 habitantes, um centrinho cheio de ruelas estreitíssimas, escadarias de perder a conta e uma vista para o Etna arrebatadora. Um privilegiado balcão sobre o Mar Jônico, de onde se avista, em um dia claro, a costa da Calábria.

O Golfo de Naxos e a cidade de Naxos-Giardini
vistos das ruínas do Castelo
Visitei Castelmola no primeiro dia de 2015, quando a vila ainda começava a despertar da festa de Ano Novo. A neve que caiu na região, no 31 de dezembro, sequer tinha tido tempo de derreter naquelas alturas muito frias, apesar do céu escancaradamente azul. Na Piazza San Antonio, na entrada da vila, parei no Bar San Giorgio para um vino ala mandrola (vinho de amêndoas, especialidade local e dica da Patricia, do blog Descobrindo a Sicília). Depois, confesso que quase decidi fincar os cotovelos na grade do mirante da praça e ficar lá para o resto da vida, olhando o mar.

Mais um mirante.
Este é o da Piazza San Antonio, na entrada da vila
Quando uma localidade está plantada em uma posição tão espetacular, corre o risco de ter todos os visitantes de costas para ela, olhando pra fora, de cara para o abismo, embasbacados. Mas Castelmola merece um pouquinho da sua atenção e vale o passeio meio sem rumo pelo emaranhado de bequinhos e degraus — até porque todos eles levam a outros mirantes, um mais maravilhoso que o outro :). A pequena vila pode não ter inventado a palavra belvedere, mas encarna o conceito até o último tijolinho de suas paredes.

Taormina vista de Castelmola
Um desses mirantes — forte candidato ao título de mais espetacular, fica na parte de trás do Duomo (catedral), de cara para o Etna. É divertidíssimo ouvir a sucessão de “oooohs” que cada visitante vai deixando escapar, ao contornar a quina da igreja e subir os poucos degraus que os deixam frente a frente com a maravilha. É a única coisa que cabe dizer sobre aquela visão mesmo. Volte lá na foto que abre esse post e diga se não tenho razão...

Piazza San Antonio
Só não deixe que essa hipnose lhe impeça de prestar atenção na minúscula Piazza del Duomo, quase um pátio, com seu elegante calçamento xadrez e a fachada simples da catedral, consagrada a San Nicola di Bari. O Duomo atual foi construído na década de 30 do século passado, no mesmo local onde os moleses mantiveram uma catedral desde a idade média. O edifício atual abriga algumas peças antigas e mistura elementos arquitetônicos herdados dos normandos, árabes e bizantinos.

O Duomo de Castelmola é uma construção
 da década de 30 do século passado
Segundo historiadores, já tinha gente encarapitada nas alturas da atual Castelmola até antes da chegada dos helenos, que estabeleceram no local a povoação chamada Mylai, ainda na Idade do Ferro, lá nos confins do Século 8. A posição estratégica — até hoje, de carro, é um frisson a viagem até lá em cima — jamais desanimou candidatos. A vila viveu vários cercos e experimentou o mesmo rodízio de conquistadores que parece ter sido o carma das cidades sicilianas. Cartagineses, romanos, bizantinos, árabes e normandos tiveram sua casquinha de domínio sobre aquele cume de montanha (por aquela vista, até eu seria capaz de vestir uma couraça e um elmo).

O Teatro Grego de Taormina (no alto à direita)
O local mais arrebatador de Castlelmola é o velho castelo, na parte mais alta da vila, responsável pelo batismo do lugar  "Castelo de Mola, que é o nome latinizado de Mylai. O uso militar daquele cume é muito antigo, provavelmente uma iniciativa dos romanos, que deram início às primeiras fortificações da velha acrópole (é batata: onde os gregos colocam templos e belezas, os romanos e outros belicistas adoravam colocar muralhas e bastiões).

Nesta imagem, feita do Teatro Grego, dá para ver Castelmola, encarapitada nas alturas, na extrema direita da imagem. A outra construção lá em cima, no cume ao lado, é o Castelo de Taormina
O que resta hoje do castelo, porém, é bem mais recente, uma herança dos normandos que dominaram a Sicília a partir do Século 11.Pouco resta do castelo além de alguns fragmentos de muralhas normandas, mas a paisagem lá do alto é simplesmente daquelas que a gente tem que ver, antes de morrer. São 360 graus de vertigem se derramando sobre o azul do Mar Jônico, a curva acentuada do Golfo de Naxos e os telhados de Taormina. É lá no alto que a gente fica "da altura" do Etna e tem a sensação de estar olhando nos olhos do vulcão. Uma beleza que nenhuma foto (muito menos palavras) consegue traduzir.

Do castelo restam apenas algumas muralhas normandas
Como chegar 

Castelmola fica a 5 km de Taormina pela rodovia SP 10, uma estradinha tinhosa, muuuuuuito íngreme e com uma quantidade impressionante se curvas fechadas que lhe deixam o tempo todo de cara para o abismo. Se você for dirigindo, vá com muito cuidado e tente não se distrair com a paisagem indescritível.

Visitei a vila em no 1º de Janeiro e os ônibus da Interbus, empresa que cobre trajeto, estavam operando em horário reduzido (reza a lenda, porque eu não vi nenhum), mas normalmente eles partem de hora em hora, da Rodoviária de Taormina, na Via Pirandello (geralmente, passam também por Porta Messina, em uma das extremidades do Corso Umberto). É uma viagem de 15 minutos. A passagem de ida e volta custa €3.

Ouvi contar sobre alguns seres heroicos que fazem o caminho a pé, mas nem eu tenho tantos pecados para encarar a subida. Como os ônibus estavam sumidos, fui de táxi. A corrida é tabelada em €15.
Campânia
Toscana
Vêneto

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terça-feira, 24 de março de 2015

Sicília:
O Vale dos Templos, em Agrigento

O Templo da Concórdia, o mais preservado do Vale
Imagine um extenso "degrau" de terra dourada, aos pés de uma cidade e debruçado sobre um mar muito azul. Além disso, esse pedaço especial de mundo é adornado por amendoeiras, oliveiras centenárias, pistaches, limoeiros e uma profusão de florezinhas amarelas, parecidas com margaridas. Você vai concordar comigo que um lugar assim não precisa de mais nada pra ser lindo, né? Mas esse é só o começo, pois foi lá que, há 25 séculos, o povo da colônia grega de Akragas começou a erguer um maravilhoso conjunto de templos dedicados aos deuses que trouxeram de sua terra ancestral.

O Vale dos Templos de Agrigento é um dos sítios arqueológicos mais importantes do Mediterrâneo. O conjunto de templos apresenta diferentes graus de conservação — o da Concórdia é o mais inteiro do grupo — mas é impressionante ver como a cidade guardou uma distância respeitosa desse espaço mágico, preservando a paisagem histórica de 2.500 anos. Felizes de nós, visitantes do Século 21, que ainda podemos contemplar o mar, ao longe, como os moradores da antiga Akragas, trilhar os caminhos percorridos em seus rituais sagrados e descansar à sombra de oliveiras que podem ser apenas netas das que eles cultivaram lá — algumas dessas árvores ainda de pé no Vale podem ter até 800 anos.

sábado, 21 de março de 2015

Delícias sem frescura: a cozinha da Sicília

Antica Focacceria San Francesco, em Palermo
A culinária siciliana é a cara da ilha: bonita, gostosa e direto ao ponto. Tremenda simplicidade e, ao mesmo tempo, uma conversa bem ao pé do ouvido com o sublime. Os ingredientes e os preparos mudam, mas a alma da cozinha siciliana lembra a dos gregos (antigos povoadores dessa ilha mágica): os sabores chegam inteiros ao prato, sem disfarces, véus ou maquiagem. Ela é feita de ingredientes frescos, molhos discretos e aquele capricho de comida da casa da gente.

Se os gregos dão o tom geral da mesa siciliana, convém não esquecer que essa ilha viu praticamente todas as grandes civilizações que disputaram o Mediterrâneo aportando em suas praias, na sucessão de conquistas que ajudou a forjar a personalidade única do lugar. Fenícios, romanos, cartagineses, bizantinos, árabes, normandos e aragoneses trouxeram suas frotas e exércitos e, de quebra, deixaram seu temperinho na culinária local. Mas os famosos limões (e cítricos, em geral), as exuberantes berinjelas, os tomates suculentos e o dourado do açafrão são herança do clima e brotam daquele solo cor de areia na maior generosidade. E tem, claro, os peixes e frutos do mar, os cordeiros...

Comer na Sicília é sentar à mesa com os deuses —  mas daqueles deuses bem gregos, sem cerimônias. E o melhor é que os preços estão ao alcance de qualquer mortal. Confira alguns pratos que eu provei por lá e amei:

domingo, 15 de março de 2015

Imperdível: o Teatro Massimo, em Palermo


Já que no post anterior eu falei da beleza do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, vamos voltar à Sicília (ando perdendo o sono com o tanto de posts que estou devendo dessa viagem) no mesmo tom.

Na surpreendentemente bela Palermo, a capital siciliana, tem muita coisa bacana pra ver e uma das mais impressionantes é o Teatro Massimo, uma casa de ópera inaugurada em 1897, a maior da Itália e terceira maior da Europa, atrás apenas da Opera Garnier de Paris e da Staatsoper de Viena. Dei azar de estar na cidade num período de folga das apresentações no teatro (comecinho de janeiro), mas felizmente,  as visitas guiadas rolam todos os dias do ano e eu pude me deslumbrar com o magnífico interior dessa maravilha siciliana.

sábado, 14 de março de 2015

Rio de Janeiro:
Uma noite no Theatro Municipal


A escadaria principal do teatro
Música deste post: Va, pensiero (Coro dos Escravos Hebreus), de Giuseppe Verdi

Nunca contei aqui no blog como foi a minha despedida do Rio de Janeiro, quando deixei a cidade, em 2011, para voltar a morar em Brasília. O motivo é que eu julgava ter perdido pra sempre as fotos daquela noite – minha câmera desapareceu na mudança. Por sorte eu tinha baixado as imagens em um pendrive que acabei de encontrar (\o/). Vocês nem imaginam como estou saltitante.

Eu me despedi do Rio de Janeiro de um jeito quase mágico, no Theatro Municipal, uma casa tão bonita que a gente chega a ficar com pena, na hora que as luzes se apagam para o espetáculo começar. No caso, a ópera Nabuco, de Giuseppe Verdi. E aquela foi uma noite muito, muito especial.