quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Mercado de Pinheiros, para comer bem e gastar pouco em São Paulo

Mercado de Pinheiros: para comer bem e gastar pouco
Quem gosta de mercados levante a mão. E hoje o nosso assunto é o Mercado Municipal de Pinheiros, em São Paulo, queridinho dos hipsters e gourmets — e excelente opção para quem não é nem uma coisa nem outa, mas está simplesmente a fim de comer bem sem gastar muito.

Bem localizado (do ladinho do Largo da Batata), fácil de chegar e com muitas alternativas, o Mercado de Pinheiros vai desde a super pizza da Napoli Centrale, passa pela comida de rua da Comedoria Gonzales e desemboca na culinária do Mocotó Café — sucursal do badaladíssimo Restaurante Mocotó, do chef Rodrigo Oliveira. Tudo isso com a curadoria de Alex Atala, que lá instalou diversos boxes de seu Instituto Atá.

E se seu caso é fazer feira, também está valendo. A gentrificação não afastou do mercado as bancas de frutas, hortaliças, açougues e peixarias que foram a razão de ser do lugar, desde sua inauguração, na década de 70.

Uma deliciosa tarde no Mercado de Pinheiros
Por Bruno Santana

Tenho uma confissão a fazer: nunca entendi São Paulo. Os quilômetros de concreto e gente (sério, muita gente) não são exatamente a combinação que mais me enche os olhos e, ainda assim, a cidade me puxa de volta a ela como um imã, quase como se me provocasse e quisesse que eu descobrisse a resposta para o seu enigma — resposta essa que, penso eu, só é totalmente compreendida pelos paulistanos (ou talvez nem por eles).

O fato é que ao menos uma certeza sobre São Paulo eu guardo no fundo do meu coração: poucos lugares no mundo tratarão tão bem a sua boca e a sua barriga de formas tão absolutamente variadas. Digo variadas porque a própria natureza da cidade é ser plural: se em Roma você experimentará divinas amostras da comida italiana ou em Porto Alegre você provará alguns dos melhores churrascos do planeta, a capital paulista traz tudo isso e muito mais . Ou melhor, traz tudo, quase como uma versão tupiniquim do World Showcase do Epcot Center — só que centenas de vezes maior, mais caótico, menos asséptico e mais fascinante.


Com esse pensamento na minha cabeça, em uma das minhas recentes andanças em busca da verdade paulistana, é que eu fui conhecer o Mercado de Pinheiros, novo queridinho dos hipsters e gourmets por combinar sua condição histórica — como centro de abastecimento dos moradores das redondezas — com uma roupagem moderna, cheia de espaços com os chefs mais badalados da cidade e um dedo de Alex Atala na organização e manutenção do espaço.

Minha impressão geral? Nunca pensei que eu fosse dizer isso, mas temos aqui um caso único no mundo de gentrificação que deu certo. São Paulo, afinal, funciona de uma forma que nós não entendemos muito bem.

Chegar no Mercado é muito fácil — basta descer na estação Faria Lima (Linha Amarela) do Metrô, atravessar o Largo da Batata e voilá: o prédio cinzento e feioso por fora estará na sua frente.

Em relação a essa particular falta de atratividade externa, talvez seja um pouco de exagero exigir mais que isso do lugar, que foi construído em 1971 (o Mercado original, de 1910, foi derrubado pouco antes disso por conta da construção da Avenida Faria Lima) e por décadas chamado de "mercado dos caipiras" por sua característica de abrigar produtores do interior do estado.

A agradável varanda do Mercado é a melhor opção para grupos grandes — ou simplesmente para se tomar um ar fresco depois da comilança
A renovação "física" mais recente ocorreu em 2006, quando foi construída a varanda que circunda o primeiro andar. A invasão dos chefs e da comida gourmet, por sua vez, é ainda mais recente: deu seus primeiros passos somente em 2014.

Esqueça, ao entrar no espaço, a grandiosidade labiríntica do Mercadão Municipal da Rua da Cantareira — que em comum com o Mercado de Pinheiros tem só o primeiro nome. Aqui, temos uma planta retangular pequena, dividida em dois andares, que pode ser facilmente conhecida em quinze minutos caso você não tenha pretensões gastronômicas e não seja do tipo que se fascina facilmente com caixas de morangos inacreditavelmente vermelhos, especiarias que não se acha em todo canto ou mariscos frescos ainda com cheiro do mar.

Curte feiras e mercados? Dá uma olhada no monte de lugares legais mundo afora já comentados na Fragata: 
Feiras e Mercados - Índice
As cores e cheiros do andar inferior do Mercado são esfuziantes
O andar inferior é ocupado pelos empórios e hortifrutigranjeiros, além de abrigar cinco lojas do Instituto Atá, de Atala. Estes boxes são nomeados de acordo com biomas brasileiros — Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pampas — e trazem, apropriadamente, produtos característicos destas áreas. A qualidade e variedade dos produtos, de uma forma geral, é de encher os olhos (e narizes); especiarias difíceis de encontrar, como favas de baunilha ou cumaru, são dispostas ao lado de frutas e vegetais muito frescos e a preços bastante razoáveis.

Aliás, por isso falei de uma possível (?) gentrificação positiva: ainda que o Mercado tenha se transformado num palco de estrelas da gastronomia, ele ainda consegue manter sua característica de centro de abastecimento da vizinhança, com preços justos e sem afetação. Espero que assim permaneça.

Na parte de cima, temos, de um lado, boxes com açougues e peixarias deveras atraentes. Do outro, as estrelas do show: os pequenos restaurantes e cafés transados que fazem a alegria dos foodies, como eu (muito embora eu tenha horror a essa palavra). O espaço é pequeno, então é recomendável evitar os sábados ou horários de pico, quando é difícil encontrar um lugar nos balcões, nas poucas mesas ao longo dos estreitos corredores ou na varanda.

A combinação do belíssimo forno de ferro com o talento do bravo pizzaiolo produziram uma das melhores pizzas que já provei, na Napoli Centrale
Entre as presenças notáveis do local, temos a Comedoria Gonzáles, do chef boliviano Chicho Gonzales, com ceviches bastante vistosos. Meus olhos, entretanto, foram atraídos para outro local: a Napoli Centrale, pizzaria do chef Marcos Livi com a promessa de servir a ubíqua iguaria napolitana no seu estado mais puro e tradicional.

Eu não tenho objeções quanto a essa pretensão: a pizza (sempre em formato individual, perfeita para visitantes solo, como era meu caso) de massa relativamente alta, queimadinha nas bordas pelo belo forno de pedra, foi uma das melhores que já experimentei — no meu caso, na boa e velha versão margherita, com molho de tomate, mozzarella de búfala e manjericão. Por R$24, me parece um preço baixo a se pagar para uma rápida ida à Itália 😋

Pizza margherita da Napoli Centrale. Eu sei, pode babar
Meu segundo round foi no Mocotó Café, versão reduzida do célebre restaurante Mocotó, do chef Rodrigo Oliveira. Eu até fiquei tentado a provar os famosíssimos dadinhos de tapioca da casa, mas, locupletado pela pizza que tinha acabado de devorar, contentei-me com uma sobremesa nada singela.

A mousse de chocolate com chantilly de cachaça invadiu minhas narinas e papilas gustativas de uma forma arrebatadora que eu ainda sinto saudades; para acompanhar, um delicioso café filtrado de grãos especiais da Chapada Diamantina. Mais R$20 muito bem-gastos e saboreados na agradável área externa do Mercado.

Ao final, estamos felizes — eu e meu paladar. Meu único pesar foi não estar hospedado em um lugar com cozinha, o que permitiria que eu usufruísse, também, de toda a rica parte de mercearia do Mercado. Por isso mesmo, eu tenho preferido ficar em Airbnbs quando viajo: além das experiências gastronômicas nos restaurantes, bares e cafés, ter uma cozinha para você enquanto viaja é uma oportunidade a mais de conhecer o lugar, pondo a mão na massa nos seus ingredientes locais. O Mercado de Pinheiros é basicamente um convite a esse tipo de exploração.

Na varanda do Mercado, uma inesquecível sobremesa com o café filtrado e a mousse de chocolate com chantilly de cachaça do Mocotó Café
Aliás, aqui vai um lembrete importante: o Mercado em si não é (e nem pretende ser) um ponto turístico nem vale uma visita somente por sua arquitetura ou história. As atrações estão dentro dele, e, se você não for uma criatura particularmente inclinada ao lado gastronômico das experiências sensoriais, é melhor que gaste seu tempo em São Paulo nas centenas de outros lugares que a cidade tem a oferecer.

Por outro lado, se a comida está no seu coração como uma das paixões da sua vida ou se a simples possibilidade de uma boa refeição afaga seu espírito, uma visita está mais do que recomendada.

Mercado Municipal de Pinheiros
Rua Pedro Cristi, 89, Pinheiros. Metrô Faria Lima (Linha 4 - amarela) a 280 metros. Aberto de segunda a sábado, das 8h às 18h — restaurantes até as 20h.
Site oficial



Comes&Bebes - o índice de todas as dicas gastronômicas da Fragata



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