segunda-feira, 30 de novembro de 2015

São Paulo - um passeio no Centrão

Edifício Banespa (centro), uma das logomarcas de Sampa
Fazia muito tempo que eu não dava uma voltinha pelo Centrão de São Paulo, região que fez parte do meu dia a dia, quando trabalhei lá perto, nos anos 90. A área mudou um bocado de lá pra cá — pra pior e pra melhor, dependendo do quesito —, mas ainda é bem interessante desbravar o centro histórico possível de uma cidade tão dedicada ao culto ao "progresso" e ao "futuro" que jamais economizou na marreta e no trator.

Obrigada a meu amigo Eduardo Piza, que me guiou em parte deste reencontro.

De metrô a gente chega rapidinho no Centrão. À esquerda, a Catedral homenageada nos semáforos da área
Da Avenida Paulista, região onde estava hospedada, até a Praça da Sé, início do meu passeio, são só 15 minutinhos de metrô (se você não pegar a hora do rush, é capaz até de viajar sentada, como foi meu caso). A Estação da Sé, ponto de conexão entre as duas maiores linhas de metrô da cidade, até que estava medicada, quase calminha, sem lembrar nem de longe o pandemônio que ficou na minha memória. Logo na saída da estação já dava para ver minha primeira parada no Centrão, a Catedral da Sé.

Se tem um estilo arquitetônico que me irrita é o tal do neogótico, que tem sempre um tom fake de coisa medieval produzida a séculos de distância da Idade Média. Mesmo assim, tenho um carinho imenso pela Catedral Metropolitana de São Paulo, Catedral da Sé para os íntimos. Inaugurada em 1954, durante as comemorações do 4º Centenário da cidade, ela está no mesmo local onde os primeiros moradores assentaram a Matriz de São Paulo de Piratininga, no Século 16.

Catedral: feições neogóticas e sempre de portas abertas para
 o coração da cidade. A Praça da Sé é o marco zero de Sampa
É fácil perdoar aquelas agulhas e ogivas anacrônicas quando a gente lembra do papel que essa igreja teve em tempos difíceis, como foram os anos 70 e 80, e de como o então cardeal arcebispo da cidade, D. Paulo Evaristo Arns, acolhia os movimentos democráticos em momentos decisivos, como na missa de corpo presente de Santo Dias da Silva, operário morto pela polícia durante uma manifestação, e no culto ecumênico por Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela repressão política durante uma sessão de tortura.

Só isso já faz da Catedral da Sé um marco essencial em nossa história e não consigo evitar de me comover um pouquinho, todas as vezes que entro lá.

Detalhes do portal e do interior da Catedral
Da Catedral da Sé, descendo em direção ao Solar da Marquesa, vale fazer um pequeno desvio à esquerda para ver o primeiro arranha-céu de Sampa. O Edifício Guinle, de 1913, é um castiço exemplar do Jugendstill (a art nouveau vienense) no coração da pauliceia e uma das obras pioneiras no uso do concreto armado na cidade.

Edifício Guinle, o primeiro arranha-céu
A poucos passos daí, na Rua José Bonifácio, observe o Edifício Triângulo, de 1955, um irmão menos famoso do Copan, também projetado por Oscar Niemeyer, um dos marcos da verticalização do Centrão, na década de 50. Um dos destaques da obra é o painel de Di Cavalcanti que adorna a entrada — bastante machucado pela má conservação, mas ainda assim interessante.

O painel de Di Cavalcanti está bem maltratado, apesar de ser um bem tombado
Solar da Marquesa
O Solar da Marquesa, na antiga Rua do Carmo, é um raro sobrevivente dos imóveis do Século 18 em São Paulo, com paredes de taipa de pilão ainda de pé, em seu andar superior. Talvez o edifício deva sua preservação a uma moradora ilustre, a Marquesa de Santos, que viveu no imóvel entre 1834 e 1867.

Domitila de Castro, grande amor do imperador Pedro I, fez do Palacete do Carmo uma mini corte, animada por festas, tertúlias e saraus concorridíssimos. O curioso é que depois da marquesa o solar virou Palácio Episcopal, uma guinada de 180 graus em sua ocupação baladeira.

De lá, basta subir uma ladeirinha suave para desembocar no Pátio do Colégio, marco do nascimento de São Paulo. Foi neste local que os jesuítas — Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, entre eles — iniciaram  a povoação da cidade para catequizar os indígenas do Planalto de Piratininga. 

O Colégio dos Jesuítas, origem da povoação colonial 
Fazia décadas que não entrava no antigo colégio dos padres e fiquei surpresa em encontrar um lugar agradável, bom para uma pausa no meio da muvuca do Centrão.

No interior do edifício, o pátio arborizado abriga um café simpático, que serve pratos simples, petiscos e um famoso pão feito com base em uma receita do Século 16, que teria sido deixada por Anchieta. Ao lado do café, não deixe de reparar na parede de taipa de pilão do Século 16 — difícil de fotografar, por conta do revestimento de vidro que a protege das intempéries.

Café do Pátio do Colégio, bom lugar para uma pausa
O pátio interno do Colégio
Reserve um tempinho para ver o Museu de Arte Sacra que funciona no Colégio dos Jesuítas. O acervo é pequeno, cobrindo do Século 16 ao 19, mas tem peças interessantíssimas, como as famosas paulistinhas, pequenas imagens de santos feitas em barro, feitas com técnica e estética desenvolvidas na região de Piratininga. É proibido fotografar o acervo do museu, por isso você vai ter que ir lá pra ver como são :).

Eu adoro a arquitetura do Centrão de São Paulo
Outra peça muito interessante exposta no museu é uma maquete de São Paulo no Século 16, onde é possível identificar as povoações indígenas, as ocupações coloniais e principalmente o relevo de Sampa, que a gente até percebe quando se mete andar a pé pela cidade, mas que está completamente diluído visualmente pelo adensamento das construções — e acredite, naquela época Piratininga era muito verde e cortada por vários cursos d’água.

O Edifício do Banespa visto por cima do telhado do Colégio dos Jesuítas
O horizonte do meu roteiro tinha uma pontuação bem conhecida. Bastava levantar a vista para dar de cara com o Edifício do Banespa (antigo Banco do Estado de São Paulo, que foi privatizado e não existe mais). O prédio, uma das logomarcas mais fortes de Sampa, foi inaugurado na década de 40 e chegou a ser o mais alto da cidade por mais de 10 anos — são 160 metros de altura, 35 andares.

Se você reparar bem, vai ver que ele lembra o mais icônico dos arranha-céus do Século 20, o Empire State, de Nova York. A semelhança é proposital — espírito da euforia de uma época em que São Paulo florescia e tentava seguir os passos da então maior metrópole do planeta.

Hoje, Sampa tem 50% mais gente que Nova York—12 milhões, contra 8 milhões de seu espelho do Norte, embora as duas empatem nas regiões metropolitanas, com 20 milhões de habitantes cada uma — mas a capital paulista paga caro por não ter imitado seu espelho do Norte em outros quesitos, como o investimento em mobilidade, por exemplo.

Pena é que a Torre Banespa, no topo do edifício, esteja fechada para reformas. A vista lá de cima é impressionante.
Um passeio pelo Centrão de Sampa é ótimo para garimpar detalhes
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Endereços e horários
Catedral Metropolitana de São Paulo 
Praça da Sé, Metrô Sé. Diariamente, das 8h às 19h. Aos sábados, fecha às 17h.
Solar da Marquesa
Rua Roberto Símonsen nº 136. De terça a domingo, das 9h às 17h.
Pátio do Colégio
Praça Pateo do Collegio nº 2 . De terça a domingo, das 9h às 17h. O Café fecha às 16:30h.
Edifício Banespa
Rua João Brícola nº 24,  Metrô São Bento.




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