quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Sábado no Mercadão da Cantareira

Mercado Municipal de São Paulo
Se Sampa me ensinou a gostar de feiras, como contei no post anterior, Piracicaba me ensinou a gostar de mercados. Foi em 1980, eu estava na cidade participando do 32º Congresso da UNE. Na época, era comum fazermos mutirões para vender os jornais das nossas organizações políticas. O meu era a Tribuna da Luta Operária (TLO) e o local escolhido foi o Mercado Municipal, lotado na manhã de sábado.

Nem lembro se consegui vender toda a minha cota de TLOs, mas jamais esqueci as jabuticabas reluzentes, que quase não cabiam na casca, de tão gordas. Enquanto devorava um quilo das preciosas em menos de uma hora, ia sendo iniciada na devoção à infinidade de cores, cheiros e texturas dos mercados, que eu conhecia basicamente das leituras das Mil e Uma Noites.

Congresso da UNE, Piracicaba, 1980:
no meio da militância, tinha as jabuticabas
Uma década depois de Piracicaba, morando em São Paulo, descobri o Mercado Municipal, na Rua da Cantareira, uma festa para os cinco sentidos. Foi a época do encantamento pelos temperos, quando ficava horas contemplando-os, todos juntos, num quadro inebriante. Adorava a sugestão de terras distantes em cada cheiro. Voltava a ser a criança dona de um estojo de lápis-de-cor com 72 peças, pouco ligando para meu inexistente talento para o desenho — até hoje, arrisco-me pouco além do alho, da páprica e do manjericão no trato com as panelas.

A semana podia ter sido estressante, o tempo podia estar horroroso e meu time podia perder no domingo, mas um sabadão no Mercado Municipal—a sensação de contemplar um pátio de caravanserai, uma encruzilhada de produtos de todos os cantos — compensava tudo.

Detalhe dos famosos vitrais do Mercadão
Depois do Mercadão vieram outras descobertas sedutoras. O Ver-o-Peso de Belém e o Mercado das Bruxas de La Paz. O chope do Marco Zero e a língua ensopada do Gambrinus, no Mercado Público de Porto Alegre. A profusão de bichos vivos (até bode!) e o frango ao molho pardo do Mercado Central de Belo Horizonte. A Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, e o Mercat de la Boqueria, de Barcelona...


Foram muitos anos de ausência até que voltei ao Mercadão de Sampa, no comecinho do último agosto. Descobri que as visitas de sábado agora são um programa concorrido: a partir do meio dia, a espera por uma mesa em um dos bares e restaurantes da “Praça de Alimentação” pode chegar a duas horas e a fila do famoso sanduíche de mortadela é literalmente quilométrica.

O Mercadão está mais chique. Pela organização, pelos os produtos à venda e pelos frequentadores de sábado, parece mais uma gigantesca delicatessen. Os famosos vitrais e a bela arquitetura (o projeto é do escritório do arquiteto Ramos de Azevedo, o mesmo do Theatro Municipal) ganharam uma reforma. O serviço nos restaurantes e bares parece mais profissional e tudo está mais limpo e arrumado.
A arquitetura do Mercadão é muito bacana
A essência, porém, não mudou: quem acha São Paulo uma cidade cinza e insossa precisa sentir as cores, cheiros e sons do Mercadão. Impossível não se apaixonar

Mercado Municipal de São Paulo
Rua da Cantareira nº 360

Nem pense em ir de carro, a não ser que você esteja pagando promessa. A melhor maneira de chegar é pegar o Metrô até a estação São Bento (Linha Azul) e descer a Ladeira Porto Geral até a Rua da Cantareira. No caminho, você vai cruzar com a Rua 25 de Março e todo célebre o movimento dessa área de comércio popular da cidade. A Estação da Luz também fica perto, mas o trajeto de lá até o Mercado passa por uma área meio barra-pesada.

A entrada do "caravanserai" e a praça de alimentação do Mercadão
Fazer uma farra no Mercado, com direito a petiscar nas barracas de frutas e depois sentar para tomar chope e provar os tira-gostos dos restaurantes, não é lá muito barato. Nosso grupo (de bons bebedores) gastou em torno de R$ 60 por pessoa, mas levamos quase cinco horas no "reconhecimento do terreno". Independente do restaurante que você escolha, não deixe de provar o legendário sanduíche de mortadela, com 300 gramas de recheio: é de rasgar a roupa!

Caravanserai (atendendo a pedidos...) eram as estalagens que abrigavam as caravanas de mercadores ao longo da Rota da Seda e de outras estradas do oriente. Pontos de encontro de gente e mercadorias que se cruzavam pelos caminhos. Os caravanserai não eram mercados (souqs), mas eu gosto de pensar em mercados como pátios de caravanserais pela ideia de movimento.

Para descobrir feiras e mercados mundo a fora, clique aqui 
Para ver todas as comidas e bebidas citadas aqui no blog, acesse Comes&Bebes - Índice



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2 comentários:

  1. achei uma delícia de surpresa, e nem tão recente -pq é permanente 'Brgd pelas boas lembranças q o passeio nos traz!
    by the way, 'perdeu:
    http://wp.me/p1t4iE-mrK

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    Respostas
    1. Lembrar é gostoso, Alvaro - e é legal estar sempre fazendo alguma coisa divertida, pra lembrar mais adiante :)

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