sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Praça de Maio,
a casa da alma argentina

A praça, o Obelisco e a Casa Rosada:
 um cenário e muitas histórias
Música deste post: Libertango, Astor Piazzola

Fim de tarde de sexta-feira e mais um protesto irrompe na Praça de Maio. São cerca de 100 manifestantes, todos muito jovens, com as faixas e cartazes de praxe, denunciando a tortura e o assassinato... de milhares de cães, recolhidos pela carrocinha da Prefeitura de Buenos Aires. “Zoonosis = carcel para animales”, afirma o panfleto xerocado, distribuído pelo grupo.

Com todo respeito aos cãezinhos sem dono — nada me enternece mais do que cara de cachorro carente — mas encarei a manifestação como um sinal alvissareiro: na primeira vez que vim a Buenos Aires, em 1978, a Praça era “não-recomendada” aos turistas, por conta de um grupo de mulheres de lenços brancos na cabeça, que clamavam por notícias de seus filhos desaparecidos. Em plena ditadura e apenas um mês depois da conquista da Copa do Mundo, a Argentina oficial de então queria esconder do mundo a coragem e a ira santa daquelas Madres que marcaram o país para sempre.

Sinal dos tempos: agora a manifestação denuncia maus-tratos a animais...

Muitos anos depois, numa sexta-feira de Carnaval, vi a Praça de Maio ferver nos panelaços contra o curralito, logo após a deposição do presidente De La Rua.

E muitas outras histórias passaram por essa praça, porque a Praça de Maio é a sede da alma argentina.

Foi lá, no Prédio do Cabildo, que irrompeu a Revolução de 1810, primeiro movimento pela independência do país. Foi lá, também, que Evita inflamou multidões, que Maradona foi proclamado deus e que todos os governos souberam exatamente qual era a opinião dos portenhos a seu respeito.

O Cabildo, local da proclamação da independência...
... e a Catedral católica: mutos signos em 20 mil metros quadrados
Hoje, os defensores dos direitos dos animais dividem as atenções, democraticamente, com os e ex-militares que reivindicam ser reconhecidos como ex-combatentes da Guerra das Malvinas (1982) e mantêm um acampamento na Praça, desde fevereiro de 2008.

Enquanto rola a manifestação, tem gente que namora, papeia...
Militares reivindicam status de ex-combatentes da Guerra das Malvinas
O acampamento dos ex-combatentes está há três anos na praça
A sede do governo é logo ali, na Casa Rosada. A História está em toda parte. Mas não há nada de solene aqui: turistas tiram fotos, portenhos passam apressados, manifestantes vem e vão com suas bandeiras.

Não é a mais bonita, nem a mais aprazível, mas a Plaza de Mayo é a minha praça preferida, apesar de seu espaço meio inóspito, sem sombra, um descampado cercado de tráfego frenético por todos os lados. É um forno no verão, um ventódromo no inverno. 

Mas quem resiste, sabendo que é aqui que esta cidade sem papas na língua se expressa, que esse povo aguerrido solta os bichos e que o coração portenho se derrama nas celebrações?





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Um comentário:

  1. Linda crônica, querida. Mas, pra ficar perfeita pra mim, a trilha sonora havia de ser o Preludio al año 3001, que dice: "renaceré {...) de un sideral subterráneo, Plaza de Mayo a Saturno, o de una bronca de obreros en el sur"...
    Beijos, saudades.

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