19 de julho de 2017

Um roteiro pela Roma Antiga

Coliseu, Roma
O Coliseu visto da subida para o Monte Palatino
Um dos grandes fascínios de Roma é a superposição de camadas históricas que desfilam para nós, à flor da terra, por onde quer que a gente ande.

Roma tem quase três mil anos de história muito juntos e misturados — basta caminhar uma quadra para topar com a Antiguidade animadamente dialogando com o Século 21, o Barroco de braços dados com o Renascimento, virando a esquina e dando tchauzinho para a Idade Média do outro lado da rua.

Para não me distrair com a superposição de eras que me fazem viajar pra frente para trás no encantador túnel do tempo que são as ruas romanas, sempre gosto de começar a ver esse mosaico histórico fazendo um roteiro pela Roma Antiga.

Coluna de Marco Aurélio, na Via del Corso, Roma
Quando andar pelas ruas de Roma, não esqueça de olhar para o alto. Esta é a Coluna de Marco Aurélio, erguida pelo imperador Cômodo para homenagear as vitórias do pai (que, dizem, ele envenenou)
Monumentos como o Coliseu, o Fórum, o Palatino, o Mercado de Trajano, o Fórum Boário e o antigo Campo Marzio rendem ótimos passeios e contam a história fascinante da cidade como centro de um dos maiores impérios do Ocidente, a capital de metade do mundo por mais de meio milênio.

Montei um roteiro pela Roma Antiga bem disciplinado, passando por alguns dos sítios mais importantes do período  — da República e do Império — para seguir na minha passagem mais recente por lá. Siga o mapa e vamos dar um pulinho no tempo dos césares:


Obelisco Montecitorio, Roma
Obelisco Montecitorio, do Século 6 a.C., pilhado pelo Imperador Augusto na guerra contra Cleópatra e Marco Antônio, no Egito

Mapa de atrações da Roma Antiga
Veja no mapa que as atrações da Roma Antiga não são muito distantes umas das outras. O Coliseu, o Fórum, o Palatino e o Mercado de Trajano, marcados em laranja, são os lugares onde é preciso pagar ingresso e que vão demandar mais tempo de visita.

As demais atrações são gratuitas e podem ser vistas em um passeio a pé.

Clique nos ícones para ver imagens de cada atração.



Roteiro pela Roma Antiga

⭐ Coliseu 
Piazza del Colosseo, 1 (Metrô Colosseo)

Aberto diariamente (exceto 25/12, 1º/1 e 1º/5) a partir das 8:30h. O encerramento varia de acordo com a época do ano (às 16:30h no auge do inverno e às 19:30h no alto do verão. Veja os detalhes aqui). Entrada € 12, combinada com Fórum e Palatino e válida por dois dias.

Tem muita gente que vai a Roma e não vê o papa, mas acho bem difícil alguém passar pela capital italiana e não ver o Coliseu.

O legendário anfiteatro foi construído no primeiro século de nossa era e se tornou o ícone maior do poder da civilização romana.

Não é à toa que o Coliseu é a segunda atração mais concorrida de toda a Itália (só perde para o Pantheon, que não cobra ingresso).

Ele recebe 6,4 milhões de visitantes todos os anos — pra você ter uma ideia, isso é quase o mesmo número de turistas estrangeiros que o Brasil recebeu em 2016 (6,6 milhões).


Coliseu, Roma
Sempre haverá uma fila, mas ver o Coliseu por dentro é emocionante
Dito isso, você já sabe o que esperar de uma visita ao Coliseu: vai ter sempre muita gente, além de você, querendo ver o colosso por dentro.

A solução é comprar o ingresso para o Coliseu com antecedência, pela internet, com hora marcada, pra não chorar na fila quilométrica e permanente.

Essa modalidade custa € 16, € 4 a mais do que você pagaria na bilheteria, mas compensa.

Coliseu, Roma

Dois mil anos e muita agitação podem ter castigado o Coliseu, mas não diminuem o espetáculo de vê-lo cara a cara — a saída da Estação Colosseo do Metrô, de cara para o gol, é uma emoção que não arrefece, mesmo depois de algumas reprises.

O fascínio não é só estético. A mística desse anfiteatro — alimentada não só de história, mas de literatura, cinema, fantasia e religião — é realmente poderosa.

Calcula-se que pelo menos meio milhão de pessoas tenham morrido na arena do Coliseu.

Gladiadores, prisioneiros de guerra, inimigos de Roma e subversivos em geral deixaram seu sangue naquele palco em combates até a morte.

Os espetáculos no Coliseu eram variados: lutas de humanos contra feras, batalhas navais, representações mitológicas e qualquer outro enredo que rendesse entretenimento às massas ululantes que lotavam as arquibancadas — e conviessem aos poderosos das tribunas.

Coliseu e Arco de Constantino, Roma
O Arco de Constantino, as colunas da Via Sacra (ao fundo) e o Coliseu
O Coliseu é um legado da Dinastia Flávia (os césares Vespasiano, Tito e Domiciano), que reinou em Roma e devolveu a estabilidade à metrópole e ao império depois do período especialmente conturbado que se seguiu à queda de Nero.

Portanto, aquelas cenas de Nero e Calígula mandando gente para a morte no Coliseu que você vê no cinema são um anacronismo, já que o anfiteatro é posterior aos reinados de ambos.

Ah, e os historiadores colocam em dúvida se a arena do Coliseu algum dia foi usada para martírios de cristãos.

Coliseu, Roma

Mesmo após a queda do Império Romano, o Coliseu continuou em uso como espaço recreativo até o Século 6. No século anterior, já haviam sido proibidos os jogos que resultassem em mortes humanas.

Depois disso, o Coliseu foi dilapidado, com muitos de seus blocos de pedra e adornos de mármore retirados para servir a outras construções. Também serviu como cortiço, instalação militar e como local de culto cristão.

Fórum Romano
A Via Sacra, principal avenida do Fórum, era ladeada por colunas e pelos principais edifícios. Na foto, o Templo de Saturno (cantinho esquerdo), o Palácio do Campidólio (no alto), o Arco de Constantino (com o Altar da Pátria ao fundo)
⭐ Fórum Romano
Largo della Salara Vecchia 5/6. Metrô Colosseo

Diariamente, a partir das 8:30h. O horário de encerramento depende da época do ano, confira aqui

O ingresso para o Fórum Romano, combinado com o Coliseu e o Palatino, custa € 12 e tem validade de dois dias. 

Meu primeiro alerta: o Fórum Romano é um mundo. Cada vez que vou a Roma, acabo descobrindo alguma coisa que ainda não tinha visto por lá.

Se é sua primeira visita, reserve o dia para o Fórum, combinando com a subida ao Monte Palatino.

Além de ter muita coisa para ver no Fórum Romano — prepare-se para caminhar bastante — você precisará de algumas pausas. Se for na época de calor, não esqueça o chapéu e o suprimento de água.

Pronto, agora que já cuidamos da parte prática, bora mergulhar nesse fascinante testemunho do esplendor da civilização romana.

Vou falar aqui apenas dos pontos que visitei nesta última passagem pelo Fórum Romano. Quando você for, leve um bom mapa e estude um pouquinho sobre o lugar, para compreender melhor o que vai ver.

Arco de Constantino, no Fórum Romano
O Arco de Constantino, na entrada do Fórum. À direita, o Coliseu
➡️ Um pouquinho da história do Fórum Romano
Os fóruns são as versões romanas da ágora grega, o coração da vida política, social e comercial das cidades.

Já que Roma foi por mais de meio milênio a metrópole do Ocidente, é bem razoável dizer que o Fórum era o centro disso tudo — não vou chamar “isso tudo” de império pra não confundir: as conquistas romanas começaram ainda durante a República. 

Via Sacra, no Fórum Romano
A Via Sacra
O poder de Roma como um império (no sentido de um poder que se estende por uma vasta porção territorial e se impões sobre diversos povos), já existia antes de Roma retornar à monarquia como forma de governo, em 27 a.C.

O Fórum Romano reúne, portanto, edifícios das duas épocas, República (509 a.C. – 27 a.C.) e do Império (27 a.C. – 476 d.C, no Ocidente), além de alguns exemplares do tempo dos reis, bastante modificados nesses períodos posteriores.

➡️O que ver no Fórum Romano
⭐ O Templo de Saturno
Do período da República Romana, um dos destaques no Fórum Romano é o Templo de Saturno.

Ele fica em uma das pontas da Via Sacra, a principal avenida do Fórum, onde eram realizados os festivais religiosos e os triunfos, desfiles de celebração das grandes vitórias militares — a grande consagração dos generais romanos.

Templo de Saturno, Fórum Romano
O Templo de Saturno, construção do período Republicano e uma das mais importantes do Fórum
Na verdade, o Templo de Saturno é ainda mais antigo que a República Romana. Segundo os arqueólogos, o início de sua construção seria datado no período do reinado de Tarquínio, o Soberbo (535 a.C. até 509 a.C), o último rei de Roma.

Dedicado ao deus do Tempo (Saturno era equivalente ao Cronos dos gregos), o Templo de Saturno ganhou importância no período republicano como depósito do tesouro romano, dos arquivos estatais e do padrão oficial de pesos e medidas.

Templo de Saturno, Fórum Romano
O Templo de Saturno fotografado da balaustrada do Campidoglio
Durante a República e o Império, o Templo de Saturno passou por pelo menos duas reconstruções.

A última dessas obras foi decorrente de um incêndio — esse é o motivo da inscrição que ainda se lê em seu frontão: Senatus Populusque Romanus incendio consumptum restituit ("O Senado e o Povo de Roma restauraram o que o fogo consumiu").


Afrescos na Basílica de Santa Maria Antiqua, Fórum Romano
Afrescos na Basílica de Santa Maria Antiqua
⭐Basílica de Santa Maria Antiqua
Nesta passagem mais recente pelo Fórum Romano, finalmente tive oportunidade de visitar a Basílica de Santa Maria Antiqua, que ficou fechada ao público até 2012.

A história da basílica é fascinante. Acredita-se que sua origem tenha sido alguma espécie de “portaria”, um acesso monumental ao Monte Palatino, onde vivia a nata da elite romana, ou talvez um alojamento de guardas.

O túnel em rampa íngreme que ligava a basílica ao Palatino ainda está lá.

Túnel de acesso ao Monte Palatino na Basílica de Santa Maria Antiqua, Fórum Romano
O túnel de acesso ao Palatino
Afrescos na Basílica de Santa Maria Antiqua, Fórum Romano
Santa Maria Antiqua é o mais antigo e mais importante monumento cristão no Fórum Romano
No Século 5 de nossa era, a basílica foi reformada e transformada em uma igreja cristã, dedicada a Nossa Senhora. 

A Basílica de Santa Maria Antqua é o mais antigo e importante monumento cristão nas dependências do Fórum Romano.

Diversas camadas de afrescos revestem as paredes da Basílica de Santa Maria Antiqua e narram a trajetória estética ditada pelas diversas culturas que predominaram em Roma até o Século 9, quando um terremoto soterrou a igreja.

Há desde vestígios de pinturas pagãs a diversos estilos de arte sacra cristã nos ornamentos da basílica.

Basílica de Santa Maria Antiqua, Fórum Romano
O edifício passou cerca de mil anos soterrado, depois de um terremoto
Basílica de Santa Maria Antiqua, Fórum Romano
Sem a entrada da luz do sol por tantos séculos, os afrescos da basílica estão muito preservados
Após o terremoto, a Basílica Santa Maria Antica permaneceu lacrada pelos destroços até o Século 20, quando foi escavada para revelar uma das maiores e mais importantes coleções de arte romana e bizantina da Itália.

Sem a interferência da luz, essas pinturas apresentam um estado de conservação impressionante. Na década de 80, o lugar foi fechado ao público para evitar danos aos afrescos e só foi reaberto em 2012.

Santa Maria Antiqua é um espetáculo e merece ir para o topo de sua lista de atrações no Fórum Romano.


Basílica de Santa Maria Antiqua, Fórum Romano
A Basílica de Santa Maria Antiqua só foi reaberta ao público em 2012

Basílica de Santa Maria Antiqua, Fórum Romano

⭐ Arco de Constantino
Inaugurado no ano 315 da nossa era, esse arco triunfal é uma celebração das vitórias do Imperador Constantino, o primeiro a professar o Cristianismo entre os governantes de Roma — daí as cruzes que se vê entalhadas no mármore.

Senhor da Britânia, Gália, Germânia e Hispânia, Constantino era um dos governantes do já fracionado Império Romano, que ele tinha a ambição de reunificar. 

Arco de Constantino, Fórum Romano
O Arco de Constantino celebra as vitórias do primeiro imperador romano a professar o Cristianismo
Depois de mudar a sede de sua corte da cidade de Augusta dos Tréveros (atual Trier, na Alemanha, cidade natal de Karl Marx) para Bizâncio (rebatizada como Constantinopla, em sua homenagem), Constantino partiu para a conquista de Roma.

Em 312, Constantino venceu Magêncio, que reinava em Roma, pondo fim a 18 anos de batalhas nas quais ele disputou a posição de monarca supremo do Império Romano.

Esta batalha decisiva de Constantino contra Magêncio foi travada nas imediações da Ponte Mílvia (sobre o Tibre, 7 km ao Norte do Centro de roma).

Constantino teria visto uma cruz em chamas e a inscrição In hoc signo vinces ("sob este símbolo, vencerás"), o que, reza a lenda, teria levado o imperador à conversão ao Cristianismo.


Casa das Vestais, Fórum Romano
Estátuas das vestais 
⭐ Casa das Vestais 
Resta pouco deste palácio que deve ter sido imponente em sua época (os arqueólogos afirmam que o edifício tinha três andares e mais de 50 cômodos).

O que se vê, atualmente, são vestígios da construção e algumas estátuas de vestais que, originalmente, adornavam o pórtico do edifício.

A Casa das Vestais era a morada das sacerdotisas de Vesta, a deusa do lar, um culto primordial na sociedade romana desde a República. 

Casa das Vestais, Fórum Romano

Apenas mulheres podiam exercer o sacerdócio como vestais. Eram sempre seis, escolhidas ainda na infância para a função de guardiãs do fogo sagrado (a representação do lar, da intimidade e da segurança em torno da lareira doméstica).

As vestais deviam permanecer virgens durante os 30 anos que passariam a serviço da divindade e eram intocáveis — atentar contra a pureza das vestais era uma agressão aos deuses.

Fórum Romano: Templo de Castor e Pólux e Templo de Antonino Pio e Faustina
As três colunas que restam do Templo de Castor e Pólux, do Século 5 a.C., e o pórtico do Templo de Antonino Pio e Faustina, dentro do qual foi construída uma igreja dedicada a São Lourenço, na Idade Média  

Monte Palatino, Roma
O sossego é apenas um dos encantos do Monte Palatino
⭐ Monte Palatino
Via di San Gregorio 30. Aberto diariamente, a partir das 8:30h. O encerramento varia de acordo com a estação do ano (veja aqui). Entrada € 12, combinada com o Fórum e o Coliseu, com dois dias de validade.

Uma das sete colinas de Roma, o Monte Palatino é a origem mitológica da cidade. Foi lá que teriam nascido os gêmeos Rômulo e Remo e encontrados pela loba que os criou e alimentou.

Os irmãos podem pertencer à lenda, mas achados arqueológicos da vida real comprovam que a povoação de Roma pode mesmo ter começado no Monte Palatino, um morro coberto por ciprestes e hoje tomado por um agradável silêncio e suave cheiro de pinho.

Palácio do Imperador Augusto no Monte Palatino, Roma
O Palácio de Augusto, no Palatino

Palácio dos Imperadores, Monte Palatino
Os "palácios dos imperadores", conjunto de construções do Monte Palatino vistas do Circo Massimo (em primeiro plano), o antigo palco de competições esportivas até hoje usado para grandes celebrações em Roma
Com o Fórum Romano a seus pés, o Palatino foi o berço e a morada dos patrícios romanos mais proeminentes.

O imperador Augusto nasceu e viveu lá — as ruínas de seu palácio estão entre as mais impressionantes e bem preservadas do conjunto arqueológico. Seus sucessores Tibério, Calígula e Domiciano também escolheram o Monte Palatino como moradia.

O Palatino, pra mim, é um dos passeios mais encantadores de Roma. Gosto de caminhar pelas trilhas entre as ruínas, imaginar o que seria um tranquilo bairro residencial no apogeu da civilização romana, fazer longas pausas, sentadinha à sombra, curtindo o sossego do lugar, que contrasta fortemente com a eterna muvuca do Fórum Romano.

Monte Palatino, Roma

➡️ Audioguia do Fórum Romano e Monte Palatino
A sinalização e as informações no Monte Palatino e no Fórum Romano não são das melhores. Recomendo que você leve um bom mapa quando fizer sua visita.

Uma boa ideia é alugar um audioguia que cobre também os dois sítios. Infelizmente, as explicações não estão disponíveis em português.

Os idiomas oferecidos no audioguia são italiano, inglês, francês, espanhol, alemão, japonês, russo, chinês e árabe. Custa € 5 e a narrativa completa dura duas horas.

O site oficial dos sítios arqueológicos de Roma fala de um vídeo-guia com opção de narração em português, mas não informa o preço. Quando procurei para alugar, agora em janeiro 2017, o serviço não estava disponível, mas não custa você se informar na bilheteria.

Ínsula de Aracoeli, Roma
Um "conjunto habitacional" do Império Romano
⭐ Ínsula de Aracoeli
Piazza D'Aracoeli. 

O edifício pode ser visto da rua. No interior da ínsula são permitidas apenas visitas guiadas, com agendamento obrigatório. Faça contato pelo e-mail info@060608.it ou pelo telefone 060608 (diariamente, das 9h às 19h).

Depois de ver o extraordinário no Coliseu, Fórum e Palatino, que tal uma dose de cotidiano? 

A ideia de vida doméstica, trivial e rotineira em pleno Império Romano é o que mais me encanta cada vez que faço uma parada diante da Insula de Aracoeli, um exemplo das habitações populares do período.

Insula” (literalmente, “ilha”, uma analogia a “quarteirão”) designava um tipo de moradia barato, entre a casa de cômodos e o conjunto habitacional.

As insulae se tornou comuns a partir do final da República Romana e das grandes conquistas territoriais. Era uma forma de resolver o déficit habitacional em Roma, decorrente do crescimento da cidade.

Domus, a palavra latina usada para “casa”, refere-se à moradia particular.

A Ínsula de Aracoeli pode ter abrigado até 380 moradores, segundo os arqueólogos.

Ínsula de Aracoeli, Roma
O afresco medieval representa o enterro de Cristo. À direita: o térreo e o primeiro andar da Ínsula de Aracoeli estão 9 metros abaixo da rua atual
Foi o imperador Augusto quem baixou as normas construtivas desse tipo de prédio. Uma ínsula não podia ultrapassar os 21 metros de altura (o que faz da Roma Imperial uma cidade com gabarito similar ao do Plano Piloto, em Brasília, e seus edifícios de seis andares).

A Ínsula de Aracoeli foi redescoberta no comecinho do Século 20, na demolição de um bairro medieval que se esparramava aos pés do Monte Campidoglio (Capitólio).

Esse bairro foi varrido da paisagem urbana nas reformas empreendidas por Mussolini para ressaltar a grandeza da “Máquina de Escrever”, o megalomaníaco “Altar da Pátria” — a construção de Roma que, como vocês já sabem, jamais conseguiu conquistar minha afeição.

A ínsula fica quase colada à encosta de onde se ergue a "Máquina de Escrever".

Ínsula de Aracoeli, Roma
A fachada da ínsula. Ao fundo, o Altar da Pátria e a Igreja de Santa Maria em Aracoeli
Do conjunto da Ínsula de Aracoeli restam quatro pavimentos de um prédio e mais dois de outro.

O campanário românico e o afresco sacro que se vê em um nicho na fachada são acréscimos medievais herdados da Igreja de San Biaggio de Mercato, construída por cima da edificação imperial — em Roma, nada se perdia e as antigas construções iam sendo incorporadas às mais recentes, sem a menor cerimônia.

Não é raro ouvir falar de casas que usam a antiga muralha como uma de suas paredes.

Mercado de Trajano, Roma
O Mercado de Trajano, um "conjunto de escritórios"
⭐ Mercado de Trajano
Via IV Novembre nº 94 (Metrô Colosseo). Diariamente, das 9:30h às 19:30h. Entrada: € 11,50.

Construído no Século 2 d.C e contemporâneo do Fórum de Trajano, o “mercado” ganhou este nome pela subdivisão de seu interior em pequenos compartimentos, semelhantes a lojas — o que deu origem à lenda de que este teria sido um “shopping center” da antiguidade.

O mais provável, porém, é que o Mercado de Trajano fosse usado como um conjunto de escritórios.

Com a queda do Império Romano, o Mercado de Trajano acabou usado como instalação militar, como se vê em algumas torres construídas na Idade Média e na estrutura identificada como Castelo dos Cavaleiros de Malta.

Ao longo do tempo, o Mercado de Trajano foi sendo ocupado como moradia, um apinhado conjunto habitacional que perdurou até o Século 19.

Circo Máximo, Roma
O Circo Máximo e, à direita, os Palácios dos Imperadores, no Palatino
⭐ Circo Máximo
Metrô Circo Massimo

Arena destinada às competições esportivas e corridas de carros de guerra (bigas e quadrigas) o Circo Máximo já estava em uso desde o tempo dos reis etruscos.

Foi Júlio César quem determinou uma grande reforma no local, ampliando sua capacidade para 250 mil  espectadores e consagrando-o como a grande área de entretenimento da Roma Antiga.

Não resta muito das edificações do Circo Máximo, hoje um descampado coberto de grama no vale entre os montes Palatino e Aventino.

Os romanos, porém, continuam a realizar suas grandes celebrações no Circo Máximo — como as festas de Ano Novo e as comemorações das vitórias da Azzura, a seleção italiana de futebol.

Largo de Torre Argentina, Roma
Os gatos de Torre Argentina
⭐ Campo Marzio
No tempo da República Romana, essa região em frente ao Tibre e fora das muralhas era dedicada ao culto de Marte (Campo Marzio = Campo de Marte), deus da guerra.

Era lá que os soldados de Roma se reuniam na primavera, antes de marcharem para as batalhas, e aonde retornavam para comemorar as vitórias em celebrações religiosas.

 Aos poucos, o Campo Marzio foi ganhando uma série de templos construídos por generais vitoriosos para imortalizar suas conquistas.

Pantheon, Roma
O Pantheon é simplesmente espetacular
Entre os edifícios mais notáveis do Campo Marzio estavam o Teatro de Pompeu (Século 1 a.C, no atual Largo de Torre Argentina), que abrigou as reuniões do Senado Romano. Foi nas escadarias desse edifício que Júlio César caiu morto a punhaladas.

Outras construções notáveis do Campo Marzio são a Septa (onde se realizavam as eleições), o Pórtico de Otávia e o Ara Pacis (Altar da Paz).

Termas, mausoléus e outros edifícios completavam o conjunto do Campo Marzio, entre eles o Pantheon, o impressionante templo que ainda hoje comove visitantes do mundo inteiro.

Na Idade Média, devido ao colapso do abastecimento de água resultante da destruição dos aquedutos, o Campo de Marte se tornou a área mais populosa de Roma, devido á sua proximidade com o Rio Tibre. Isso alterou drasticamente as feições da área.


Pantheon, Roma
Pantheon: 7 milhões de visitantes por ano
➡️ O que ver no Campo Marzio
⭐ Pantheon
Piazza della Rotonda. Diariamente, das 9h às 19:30h. Entrada gratuita

O monumento mais visitado (e um dos mais espetaculares) da Itália, o Pantheon atrai mais de 7 milhões de turistas por ano.

Essa construção ainda deslumbrante era o grande "templo de todos os deuses", fundado em 27 a.C (oficialmente, o primeiro ano do Império) para reunir os cultos a todas as divindades, não só locais, mas de todos os povos submetidos a Roma.

Desde o Século 7 o Pantheon foi convertido em igreja católica.

Leia mais sobre o Pantheon aqui: Roma, cada igreja é um museu

Teatro de Marcello, Roma
O teatro dedicado a Marcello, filho de Otávia e sobrinho de Augusto. Ele havia sido indicado como herdeiro do Imperador , mas  morreu antes do tio
⭐ Teatro di Marcello e Pórtico de Otávia
Essas duas obras encomendadas pelo imperador Augusto homenageiam sua irmã, Otávia, e seu sobrinho, Marcelo.

Do Pórtico de Otávia resta apenas a estrutura central, com a entrada monumental. O edifício era bem maior, destinado a diversas atividades. Abrigava obras de arte, uma biblioteca, templos e até uma escola.

Pórtico de Otávia, Roma
O Pórtico de Otávia fica bem na entrada do Ghetto, área destinada aos judeus na Idade Média. Na época do Império, a imponente construção  abrigava templos, biblioteca e até uma escola
O Teatro di Marcello, bem conservado, ocupa o local do antigo Circo Flamínio, onde se realizavam corridas de bigas.

Mais sobre o Pórtico de Otávia e o Teatro di Marcello neste post: 
5 passeios em Roma: receita de paixão

⭐ Largo de Torre Argentina

Um conjunto de quatro templos da época da República – e uma população incontável de gatos de rua, gordos e muito fleumáticos — são a principal atração desse sítio arqueológico à margem do trânsito nervoso do Corso Vittorio Emanuelle II.

O mais antigo dos edifícios do atual Largo de Torre Argentina data provavelmente do Século 4 a.C. e era dedicado a Ferônia, deusa da fertilidade. Próximos a eles estão os vestígios do Teatro de Pompeu.

Templos do Largo de Torre Argentina, Roma
Largo de Torre Argentina: foi aqui que Brutos assassinou Júlio César
⭐ Fórum Boário
Se você já esteve em Roma, é bem provável que já tenha andado por aqui, ainda que não associe “o nome à pessoa”.

O Fórum Boário é aquele pedacinho da cidade mais conhecido pelas filas insanas de gente que quer colocar a mão na Boca da Verdade, no adro da Igreja de Santa Maria in Cosmedin

É lá que estão dois dos monumentos mais conservados do tempo da República Romana, os templos de Portuno e de Hércules Vencedor, ambos na atual Piazza della Bocca della Verità

Praça da Boca da Verdade, Roma, antigo Fórum Boário
O Fórum Boário hoje é mais famoso pela Boca da Verdade, na Igreja de Santa Maria in Cosmedin (campanário à esquerda), mas guarda duas preciosidades do tempo da República, os templos de Hércules (à direita) e de Portuno
Muitos séculos atrás, era no Foro Boário que funcionava o mercado de gado e de carne em Roma, aproveitando a proximidade de um velho porto do Tibre.

Os antigos romanos tinham uma lenda para o lugar, envolvendo Hércules em pessoa.

Teria sido lá que o herói teria realizado seu 10º trabalho, matado o gigante Gerião, de seis braços e seis asas e tomado seus bois (os restos de um altar celebrando esse feito ainda podem ser vistos na Igreja de Santa Maria in Cosmedin).

Templo de Hércules, Roma


➡️ O que ver no Fórum Boário

⭐ Templo de Hercules Vítor (Vencedor)
Só pode ser visto por dentro no 1º e 3º domingo de cada mês, mediante agendamento. Para reservar, ligue para 0039 06 39967700. O ingresso custa € 5,50 + € 2,00 pela reserva.

De planta circular e sustentado por 20 colunas, o Templo de Hércules é obra de artistas gregos e foi erguido no Século 2 a.C. (o templo de mármore mais antigo ainda de pé em Roma).

Hércules Vencedor era o padroeiro dos comerciantes do Fórum Boário.

Na Idade Média, chegou a ser transformado em igreja católica e herdou dessa destinação alguns afrescos pré-renascentistas que adornam seu interior.

Templo de Portuno, Roma
O templo dedicado a Portuno data do Século 4 a.C.
⭐ Templo de Portuno
Portuno era o deus das navegações fluviais — uma espécie de Netuno de água doce, para os romanos — e padroeiro dos barqueiros e portuários que trabalhavam no transporte e na descarga das mercadorias que chegavam pelo Rio Tibre para abastecer o Fórum Boário.

O Templo de Portuno é ainda mais antigo que o Templo de Hércules (datado do Século 3 ou 4 a.C.), o que torna ainda mais impressionante seu estado de conservação.

A preservação do Templo de Portuno se deve, em grande parte, a seu uso como igreja católica desde o Século 9 de nossa era.

Seu interior também está decorado com afrescos, esses do período bizantino. O interior do templo atualmente está fechado à visitação.

Mais sobre Roma

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