24 de março de 2018

Cusco: Inti Raymi, a festa do Sol

A chegada do Inca é o ponto alto da festa
Atualizado em março de 2018
No Nordeste brasileiro, o 24 de Junho é dedicado às fogueiras de São João, tradição herdada dos portugueses, uma cristianização de celebrações ancestrais do Solstício de Verão. No nosso Hemisfério Sul, porém, a data marca o Solstício de Inverno, o dia mais curto do ano, data que para muitas das civilizações pré-colombianas era marcada por oferendas e homenagens ao sol.

Em Cusco, o Inti Raymi, ou Festa do Sol, foi a mais importante celebração para o povo Quéchua (incas), o momento em que Apu Punchao Inca, o Deus Sol, está no ponto mais distante da terra e precisa ser cativado e convencido a retornar a seus filhos, simbolizando o recomeço, o início de um novo ciclo.

Reprimida pela colonização espanhola, a celebração só foi retomada na década de 40 
Assistir à celebração do Inti Raymi em Cusco é uma experiência inesquecível. A festa, marcada por cantos danças e desfiles rituais, foi extinta a partir da invasão espanhola, no Século 16. Mas os ritos foram preservados na tradição oral do povo da Cordilheira e, a partir da década de 40 do Século 20, começaram a ser reconstituídos, num esforço apoiado por historiadores, arqueólogos e antropólogos.

Neste post tem todas as dicas para você participar da maior festa do povo inca, realizada todos os anos em Cusco, no dia 24 de junho. Na minha quarta visita à cidade, agora em fevereiro de 2018, reuni as informações fresquinhas sobre a festa deste ano, para ajudar seu planejamento.


☑️ Como é o Inti Raymi
Assisti às celebrações do Inti Raymi em 2003, na minha segunda viagem a Cusco. Foi emocionante ver as tradições indígenas tão fortes, apesar dos 500 anos de massacre e europeização dos povos originais das Américas.

Foi a instituição do “Dia del Cusco”, em 1944, que ajudou a ressuscitar a Festa do Sol. Desde então, a comemoração cresce a cada ano, atraindo gente do mundo inteiro à antiga capital dos Incas. A cidade ferve nesses dias de junho: hotéis e pousadas lotados, ruas fechadas pelos desfiles cívicos e religiosos, multidões por todos os cantos.

As danças e cânticos da cerimônia foram reconstituídos 
com base na tradição oral e em alguns relatos escritos 
dos Séculos 15 e 16
A festa do Inti Raymi é o ponto alto das celebrações do “Dia del Cusco” (também chamado de “Dia do Indígena” ou “Dia do Camponês, que no Peru são praticamente sinônimos). A data cívica é um tributo, principalmente, ao orgulho quéchua, povo que não faz cerimônia para chamar de invasão a “descoberta” da América — como está expresso na placa alusiva ao 12 de outubro de 1492, fixada em Hauqaypata (a Plaza de Armas).

O 24 de junho começa no Qorikancha, o Templo do Sol, que ressurgiu sob a Igreja de São Domingos, devastada pelo terremoto de 1954 — muitas das construções espanholas desabaram com o abalo, revelando as edificações incas que lhes serviram de alicerce.
Desfile no Centro de Cusco
Depois da cerimônia no Templo do Sol, há um grande desfile cívico que parte de Hauqaypata e reúne delegações de centenas de povoados da Cordilheira, cada grupo mais orgulhoso de suas vestimentas tradicionais. 

Eles cantam e dançam por toda a cidade. É um carnaval animado, movido a chicha (bebida feita de milho, oferecida ao Deus Sol), flautas e tambores.

O Qorikancha, Templo do Sol, foi transformado na Igreja de Santo Domingo. Um terremoto derrubou as reformas feitas pelos espanhóis, revelando as paredes incas, que resistiram ao abalo
O interior do Templo do Sol, na parte transformada em claustro da Igreja de São Domingos 
No meio da tarde, começam todos a subir a íngreme encosta pela calçada inca que leva ao Templo de Sacsayhuaman. É lá, no alto de uma das montanhas que circundam a a cidade, que acontece a parte mais esperada da festa, a representação coreografada do Inti Raymi, a louvação ao Deus Sol.

O roteiro da apresentação tenta restabelecer o que teria sido o ritual, antes da chegada dos espanhóis. Nas arquibancadas, a maioria da plateia é de turistas, mas cerca de 100 mil pessoas cercam a antiga fortaleza, sentadas no chão, nas pequenas elevações em torno do local. É um espetáculo bonito, bem coreografado, num cenário maravilhoso — Sacsayhuaman, sozinho, já é um espetáculo.
A esplanada do Templo de Sacsayhuaman funciona 
como um imenso teatro para a celebração
☑️ Como participar da Festa do Sol em Cusco
Não deixe para comprar os ingressos para a celebração em Sacsayhuaman em cima da hora, pois são apenas 3.800 lugares nas arquibancadas.

Dá para comprar o ingresso pela internet, pelo site http://www.intiraymi.pe/ . A arquibancada é dividida em três setores: verde, laranja e azul.

O setor verde é o mais barato e fica na parte de trás da área em que se realiza o espetáculo (você vai ver tudo, mas os atores e dançarinos estão de costas para você). O ingresso para essa área custa US$ 199.

Na época da festa, Cusco fica lotada, mas adorável
O setor laranja, o mais caro, tem ingressos a US$ 259 e pega toda a lateral da área da celebração. Oferece uma ótima visão da festa. Foi neste setor que fiquei quando assisti à festa, em 2003 (mas naquela época era uma pechincha, custava apenas US$ 45 😊).

O setor azul, com ingressos a US$ 249, fica de frente para o palco.

As agências de turismo de Cusco também vendem um pacote que dá acesso a todas as etapas da celebração do Inti Raymi, começando às 8h no Qorikancha (Templo do Sol), passando pelos festejos na Plaza de Armas e seguindo, à tarde, para Sacsayhuaman.
A esplanada de Sacsayhuaman, vista do alto do templo. 
Do outro lado, a encosta que serve de arquibancada informal
☑️ Opção econômica para ver o Inti Raymi
Se quiser economizar bastante e ainda confraternizar com a população local, há um ingresso mais em conta, o Economy Mountain View, que custa US$ 59. Você verá a cerimônia de um ponto mais distante (a 55 metros do palco), na encosta em frente a Sacsayhuaman. É lá que o povo de Cusco e redondezas assiste a festa (para os locais, os ingressos são vendidos a preços quase simbólicos).

Todas as categorias de ingressos, inclusive a econômica, incluem transporte ida e volta entre seu hotel e Sacsayhuaman, guia e um lanche.

Sacsayhuaman
☑️ Como organizar a viagem a Cusco no período do Inti Raymi
Se você estiver indo pela primeira vez a Cusco, reserve alguns dias depois do Inti Raymi para ver a cidade, pois monumentos imperdíveis como a Catedral e o Qorikancha terão a visitação limitada, em função dos preparativos para a festa.

Nos dias que antecedem a festa, prepare-se para encontrar com lotação máxima nos hotéis, filas nos melhores restaurantes, ruas fechadas ao tráfego de veículo (péssimo para quem recorre aos táxis para driblar a dificuldade de subir ladeiras na altitude) e preços bem mais altos que os da baixa estação. Mas a cidade fica tão alegre que compensa as multidões. 

O sincretismo cusquenho em um cruzeiro no bairro de San Blás
 e o requinte de uma parede inca no Qorikancha
Faça reservas com antecedência e tenha paciência com as filas (como eu disse acima, deixe para ver a cidade depois do Inti Raymi).

Em 2003, comprei as entradas logo que cheguei à cidade, três dias antes da cerimônia. Hoje, não recomendo esse risco.

Se você ficou com vontade de assistir a festa de Inti Raymi, aproveite e dê uma olhada nos posts sobre as minhas quatro viagens ao Peru, para planejar algumas esticadas:
Todas as dicas de viagem ao Peru - post-índice

A paisagem do altiplano, no caminho de Puno para Cusco
Puno e o Titicaca
De Puno a Cusco: como é a viagem no ônibus turístico (e as cidades que visitamos no caminho)

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12 comentários:

  1. Sensacional, Cyntia.

    Nossos vizinhos festejando a vida em auto estilo, num ritual milenar.

    Um abraço!

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  2. sério que Quéchua é o DEUS do Sol??! Massa demais! Não sabia!!! Bela festa. Abraços.

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    1. Não, Marcos, Quéchua é o povo que nós chamamos de "incas". Na verdade, Inca é como se chamava o imperador deles, o título. O Deus Sol é Inti :)

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  3. Oi Cyntia!
    Queria tirar uma dúvida. Estou planejando ficar em Cusco de 19 a 24/6. Queria ver as manifestações culturais da festa do sol, mas nao pretendo comprar a apresentação principal. A festa do dia 24 dura o dia todo? Acha que se eu colocar meu voo para final da tarde vou perder muito? Nos dias que antecedem o 24 também tem festa na cidade?
    Obrigada

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    1. Oi, Renata, Cusco fica muito movimentada nos dias que antecedem o Inti Raymi e há vários eventos celebrando a data, mas o grande dia, mesmo, é o 24. Uma desvantagem de ver a cidade nos dias que antecedem a festa é que alguns lugares imperdíveis (como a Catedral e o Qorikancha) são fechados à visitação, para a preparação das cerimônias, mas não saberia lhe dizer qual a antecedência disso. Pode ser que chegando dia 19 você consiga visitá-los.
      Mesmo que você não compre o ingresso pra ver a celebração na arquibancada, vale a pena dar um pulo no Saqswayamán para ver a festa em uma das encostas que cercam o templo. Se você marcar a passagem para o final da tarde, não conseguirá fazer isso. Você não tem como ir embora de Cusco no dia seguinte?
      Só alerto para uma coisa: as passagens aéreas partindo de manhã cedo de Cusco costumam ser muito mais baratas que os bilhetes marcados para depois do meio dia. O motivo é que o aeroporto de Cusco dificilmente tinha teto para decolagens de manhã, por conta das nuvens.Quer dizer: você comprava o bilhete para logo cedo, acordava, corria pra o aeroporto e ficava lá, mofando. Isso pode ter mudado, com a instalação de novos aparelhos de controle de voo, mas nas três vezes que estive em Cusco (2002, 2003 e 2010), o aeroporto fechou de manhã :)

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  4. Voltar no dia 25/6 vai apertar o nosso roteiro, sobretudo considerando essas possibilidades de atraso, pois chegando em Lima já vamos viajar para Ica de onibus. Vi um voo da Lan que sai de la 24/6 18h45, então daria para ver a maior parte da festa. Dai dormiriamos em Lima e pegariamos o primeiro onibus para Ica no dia 25/6. Infelizmente, roteiro tem dessas coisas...

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    1. Bem, Renata, acho que você vai ver bastante movimento, mesmo não assistindo ao espetáculo do Inti Raymi. Aproveite Cusco, é um dos meus lugares favoritos no mundo. Bjo

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  5. Oi Cíntia, tudo bom? Adorei seus relatos! :) Vou para Lima no dia 13/06, chegarei bem tarde e volto no dia 26/06 às 23h. Vc acha que nesse período dá para fazer bem Lima-Cusco (MP, Festa do Sol no dia 24 e Vale Sagrado) e Puno (Lago Titicaca)? Vc sugere algo em especial? Saberia me dizer qual melhor itinerário? Grata! Abraços, Jalusa

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    1. Oi, Jalusa, 13 dias é um período bem bacana, para o roteiro que você quer fazer. Por conta da sua data de regresso ser tão próxima do retorno ao Brasil, o melhor é fazer Lima - Puno - Cusco/Machu Picchu - Lima

      Puno não tem aeroporto regular. Você teria que voar para Juliaca, que está a uma hora de distância.

      De Puno, tem o trem ou ônibus turístico, para chegar a Cusco.

      De Cusco a Machu Picchu, se você não for fazer a trilha inca, só tem o trem. Compre a entrada para MPicchu com antecedência, porque agora há limite de visitantes por dia.

      Os bilhetes para o Inti Raymi também precisam ser comprados com antecedência.

      Essa é uma viagem adorável. Aproveite muito :)

      abs

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  6. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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  7. Agora deu-me a saudade. Eu estive no Inti Raymi em 2005 (como o tempo passa rápido!!!) e na época fiquei fascinado com tudo o que vi. Obrigado por me fazer recordar aqueles dias.

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