sábado, 17 de março de 2018

Lima - o que fazer no Centro Histórico

Centro Histórico de Lima: os famosos balcões entalhados do Palácio Arquiepiscopal, as torres da Catedral e, à direita, a Casa da Literatura Peruana
Um dos passeios mais interessantes de Lima é percorrer seu Centro Histórico, um dos maiores das Américas, em busca das memórias coloniais e dos primeiros dias da República. A Catedral, o Convento de São Francisco, o palácio presidencial e a sede histórica da Arquidiocese são alguns dos narradores dessa história.

A capital peruana é — literal e metaforicamente — a amálgama de “várias Limas”. O metrópole de 9 milhões de habitantes é a reunião de vários distritos com administrações próprias. E é também a síntese das feições e culturas de cada uma dessas municipalidades: do arzinho boêmio fin-de-siècle de Barranco à contemporaneidade de Miraflores, da elegância de San Isidro ao jeitinho quase de cidade de interior de Pueblo Libre.

A "Casa de Pizarro", o Palácio Presidencial, sede do governo nacional e residência dos chefes de Estado 
É no Centro Histórico, o “Cercado de Lima”, como se diz por lá—numa alusão à antiga povoação amuralhada dos primeiros tempos da colonização — que se ouve mais forte o “sotaque urbanístico” herdado da cidade espanhola: uma praça principal cercada pelas sedes dos poderes seculares e religioso e de onde se irradiavam as vias e fluía a vida cotidiana da povoação.

Nas primeiras décadas do Século 20, o desejo de modernização alterou um bocado as feições do Centro Histórico, mas os ecos da colônia ainda estão por lá e rendem um roteiro bem bacaninha. Bora passear, então 😉.

A cada vez que vou a Lima, vejo mais casarões restaurados no Centro Histórico, como este da foto. A fundo, a Igreja de São Francisco 
Como chegar ao Centro Histórico de Lima
Vá de uber. Se você estiver hospedada em Miraflores (o que é largamente provável), a corrida fica na casa dos 15 soles. De Barranco até lá, vai gastar um pouquinho mais, de 18 a 20 soles.

Quando ir ao Centro Histórico de Lima
A área é muito bem policiada e tem movimento mesmo nos fins de semana, ao contrário de outros centros latino-americanos que "morrem" quando o comércio fecha.

Ir no sábado ou no domingo tem a vantagem de pegar menos trânsito para chegar. Prefira o sábado, para poder visitar a Catedral.

Se for durante a semana, evite as segundas-feiras, quando a Casa da Literatura e o Museu Bodega y Quadra estão fechados.

O que ver no Centro Histórico de Lima

Praça de Armas de Lima, o coração da cidade colonial
Plaza de Armas
A Plaza de Armas (ou Plaza Mayor) é o coração da Lima colonial, como é praxe nas cidades espanholas nas Américas. Foi aqui que os conquistadores iniciaram sua povoação, em 1535, e (novamente, como de praxe) plantaram as sedes/símbolos dos poderes religioso (a Catedral e o Palácio da Arquidiocese) e político (o Palácio do Governo).

Pra mim, o Palácio da Arquidiocese é a construção mais impressionante da praça, graças a seus dois espetaculares balcões de madeira entalhada. Essa, entretanto, não é a construção original dos tempos da colônia. Embora ocupe o mesmo local designado pelo conquistador Francisco Pizarro para abrigar a sede do arcebispado, o edifício que vemos atualmente data do finalzinho do Século 19 — o prédio colonial, maltratado pelo tempo e muito descaracterizado, foi demolido nessa época.

Os famosos balcões do Palácio do Arcebispado de Lima


O Palácio do Governo do Peru também ocupa o mesmo terreno escolhido por Pizarro para a construção de seu alcácer — e onde antes viveu o kuraq (chefe político) da antiga povoação inca. Mas após seis terremotos, quatro ataques militares e três incêndios, não resta nada da residência original do conquistador e o que vemos hoje é um edifício de inaugurado em 1938, com traços barrocos.

O palácio ainda é a sede do governo e residência oficial do presidente da República do Peru. Se calhar de você estar visitando o Centro Histórico de Lima em um domingo, como foi o meu caso nesta viagem mais recente, aproveite para ver a cerimônia da troca da guarda, a cargo do regimento de cavalaria Glorioso Húsares de Junín, unidade militar formada pelo general San Martin, herói da independência peruana.


Catedral de Lima
Jirón Carabaya 15001, Plaza de Armas. De segunda a sábado, das 9h às 17h. Aos domingos, só abre para missas. Para fazer a visita guiada (super recomendo), contrate um profissional credenciado. Eles oferecem os serviços na entrada da igreja. O preço é combinado na hora. A entrada na Catedral é gratuita. O Museu de Arte Sacra pode ser visto de segunda a sexta das 9h às 17h e aos sábados das 10h às 13 e a entrada custa 10 soles.


A Catedral de Lima levou 200 anos para ficar totalmente pronta. Seu interior abriga uma coleção importante de arte sacra colonial
A Catedral de Lima é muito mais bonita por dentro do que por fora. Ela foi construída entre os séculos 16 e 18 sobre um templo dedicado ao Puma, uma das principais divindades incas — a representação da vida terrena, como o condor representa a vida celestial e a serpente expressa o inframundo, o oculto, a vida após a morte.

Já fiz duas visitas guiadas à Catedral e teria feito uma terceira, se não tivesse inventado de ir ao Centro Histórico em um domingo, quando a igreja não está acessível aos turistas—em fevereiro, ela não abre nem para missas nesse dia. O templo é um verdadeiro compêndio de arte sacra colonial espanhola, com uma coleção impressionante de telas, especialmente da escola cusquenha de pintura, e imagens que adornam suas quase 20 capelas.


A Catedral é o único edifício da Plaza de Armas que se mantém de pé desde o tempo da colônia, embora sua fachada tenha sofrido muitas alterações ao longo do tempo. O conquistador Francisco Pizarro está sepultado no interior da igreja.


Museu e Catacumbas de São Francisco
Plazuela San Francisco (esquina Jirones, Ancash y Lampa). Diariamente, das 9h às 20:15h. Entrada 15 soles (estudantes pagam 8 soles). A Igreja pode ser visitada diariamente, das 7h às 11h e das 16h às 20h. Site > http://museocatacumbas.com/


São Francisco: as catacumbas atraem muita gente, mas a biblioteca é o grande espetáculo
O Convento de São Francisco (Monasterio de San Francisco el Grande) é famosos por suas catacumbas, onde se estima que pelo menos 20 mil limenhos tenham sido sepultados. Eu confesso que fico meio aflita de percorrer aquele subterrâneo meio labiríntico — pode ser encanação minha, mas sempre acho que vou ter uma crise de asma em lugares desse tipo. Os turistas normais, porém, adoram.

Eu prefiro desafiar minha asma diante dos 25 mil volumes e 6 mil pergaminhos que fazem muito mais do que juntar poeira na espetacular biblioteca do convento, uma das mais lindas que já vi na minha vidinha de amante de bibliotecas.

Missa de domingo na Igreja de São Francisco
Construída no Século 17, o lugar é pra morrer de paixão, com suas paredes totalmente revestidas por estantes em madeiras nobres, mesas de trabalho originais e escadas em caracol dispostas em rigorosa simetria levando aos mezaninos onde estão, claro, mais livros. Pena que não pode ser fotografada, mas dá uma olhada neste post sobre minha visita de 2010, que tem um cartão postal escaneado.

No Museu de São Francisco, preste atenção às pinturas e à biblioteca 
Outro motivo para você visitar o Convento de São Francisco é sua magnífica coleção de pinturas da escola cusquenha, como a famosa Santa Ceia atribuída a Diego de la Puente, que incorpora uma série de elementos indígenas à cena e ingredientes peruanos no cardápio servido a Cristo e seus discípulos, como o rocoto (pimenta) o aji (pimentão) e a batata, com o cuy de prato principal. 

Preste atenção à Sala Museo O Profundis, onde estão 11 telas produzidas no ateliê do mestre flamengo Pieter Paul Rubens.

Casa da Literatura, divulgação e celebração dos autores peruanos


Casa de la Literatura Peruana
Jirón Ancash 207. De terça a domingo, das 10h às 19h. Entrada gratuita.

Os incas não conheciam a escrita (tese que pode ser desmentida quando se conseguir decodificar os qipus, cordões cheios de nós que, ao que já se sabe, serviam para registrar números e quantidades). A tradição literária peruana, porém, é muito mais vasta do que a conhecida obra de Mario Vargas Llosa — escritor que eu adoro, embora lamente o político reaça que ele virou.

Pra não me deixar mentir, aí estão Garcilaso de la Vega, filho de um militar espanhol e de uma princesa inca, cujos relatos produzidos no Século 16 são um testemunho poderoso e lírico das tradições herdadas dos povos da Cordilheira, passando por José Carlos Mariátegui, Manuel Scorza e tantos outros.

Sob o belo vitral ou na varanda com vista para o rio (abaixo), tem sempre alguém aproveitando para colocar a leitura em dia


Essa tradição é devidamente celebrada na Casa da Literatura peruana, um simpático centro cultural inaugurado na década passada, na antiga estação de trem de Desamparados. Além da biblioteca com mais de 20 mil volumes e uma coleção de vídeos e periódicos, a casa promove exposições, debates e palestras sobre obras e autores.

O edifício da antiga estação de trens, francamente Belle Époque, foi primorosamente restaurado. Na varanda na parte posterior, com vista para o Rio Rímac e o Parque das Muralhas (onde estão os vestígios das velhas fortificações da cidade colonial), dá gosto ver a meninada estudando e lendo os escritores de sua terra.

Bodega y Quadra: o visitante pode passear pelas diversas dependências de um antigo conjunto de construções coloniais
Museu Bodega y Quadra
Jirón Ancash 213. De terça a domingo, das 10h às 18h. Entrada: 4 soles

Bem pertinho da Igreja de São Francisco, esse museu (novinho, pra mim, que não ia a Lima desde 2010) foi inaugurado em 2012, no antigo casarão do armador Juan Francisco de Bodega y Quadra, que combinava descobertas e comércio em suas navegações pelos sete mares — ele teria sido o primeiro a chegar ao território hoje conhecido como Vancouver, no Canadá.

Mais de 500 peças foram encontradas durante escavações no terreno do casarão do Século 19, erguido sobre construções coloniais, são objetos datados desde o período pré-hispânico até utensílios elegantes, como cobiçadas porcelanas chinesas, e até joias. Parte desse acervo está em exposição no museu.

Plataformas sobre as escavações permitem ao visitante percorrer as escavações arqueológicas e identificar seus diversos usos. Visitinha bem legal.

Fonte em frente à Igreja de São Francisco

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2 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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