sábado, 16 de julho de 2016

A fantástica fábrica de pastéis de Belém

Nada tem mais "gosto de Portugal"
A casquinha firme, que se desmancha em mil camadinhas crocantes na mordida, o creminho feito de leite e gemas na consistência exata... Portugal é uma terra de infinitos sabores sedutores, mas nada tem mais gosto de Portugal do que um pastel de nata recém-saído do forno, cheiroso e quentinho. Acho que nem o Velho do Restelo resistiria.

O personagem de Os Lusíadas entrou para a história como a epítome do pessimismo e do mau humor, uma espécie de antepassado humano de Hardy, a Hiena — “Num vai dar certo, Lippy”, lembram?— ao assistir à partida da frota de Vasco da Gama declamando os piores augúrios. Pois é ali mesmo no Restelo (o antigo nome de Belém) que desde 1837 está instalado o templo do pastel de nata, a legendária Fábrica de Pastéis de Belém.


 Acredite, o sabor do Pastel de Belém é mesmo diferente dos outros exemplares de pastéis de nata que você vai encontrar em tudo quanto é canto pela terrinha. A receita é secreta e foi urdida há muito tempo, na cozinha do Mosteiro dos Jerónimos. Hoje, apenas cinco pessoas conhecem o passo a passo dessa alquimia. E para ter acesso ao segredo da fórmula, é preciso assinar um termo de compromisso com o sigilo.

Uma reportagem no jornal português Correio da Manhã revela que até espionagem industrial já foi tentada para desvendar a receita dos pastéis de Belém — um grupo de chineses disfarçados de repórteres tentaram se apossar de uma porção do creme que recheia o doce, antes que ele fosse ao forno, para posteriores análises de laboratório. Foram flagrados antes de se apossarem do mapa da mina e devidamente expulsos da cozinha.

Um salão da Fábrica de Pastéis de Belém: meia hora antes, a fila estava enorme
Uma visão sublime
Foi a política que tirou o doce sublime da cozinha do Mosteiro dos Jerónimos, colocando-o na rota da consagração como atração turística top de linha em Portugal. Em 1834, extinção das ordens religiosas no país, fruto da Revolução Liberal, desalojou os pastéis do espaço de devoção para jogá-los na esfera profana da caixa registradora.

Em 1837, a Fábrica de Pastéis de Belém começou a funcionar em um casarão próximo ao mosteiro—instalações que já cresceram um bocado, incorporando sobrados vizinhos, como dá para perceber na disposição mais ou menos labiríntica de seus salões e na variedade de padrões dos azulejos que recobrem as fachadas e paredes internas do "templo do pastel".

O assédio ao balcão: todo mundo quer a sua porçãozinha de felicidade
A fábrica hoje tem 150 empregados e vende 20 mil pastéis de Belém por dia. O 500 lugares dos salões não dão pra quem quer: experimente chegar lá em um fim de semana de verão pra ver o tamanho desalentador da fila que se espicha pela calçada. 

São duas filas, na verdade. Uma, para comprar os pasteis direto no balcão. A outra para conseguir um lugarzinho em uma das mesas. 

Eu recomendo fortemente a segunda opção, ainda que seja a mais demorada (nós esperamos quase uma hora para conseguirmos entrar), pois comer pastel de Belém é coisa que se faz com calma, saboreando cada bocadinho, suspirando e já sinalizando ao garçom para trazer mais uma fornada.

É permitido bisbilhotar a cozinha, mas a receita é segredo muito bem guardado
Não esqueça de temperar o bichinho com canela — tem quem recomende colocar também um pouquinho de açúcar, mas aí eu acho exagero. Basta uma mordida pra fazer a gente levitar. 

Fábrica de Pastéis de Belém
Rua de Belém nº 84 a 92. Diariamente, das 8h às 23h. 


Quanto custa
Bica (cafezinho, ótimo, por sinal) - €0,80
Sandes (sanduíches) – a partir de €1,50
Biscoitos (de laranja, limão...) – a partir de €3 por 200 gramas
Pastel de nata - €1,15

Do lado da Fábrica de Pastéis de Belém tem uma hamburgueria excelente. Dá uma olhada nesse post:
Surpresa: hambúrguer português bate um bolão. Três lugares para praticar o sacrilégio

De 1837 para cá a fábrica cresceu um bocado, incorporando imóveis vizinho, cada um com seu padrão de azulejos

Como chegar
O jeito mais poético é tomar o Electrico 15E (o bonde da linha linha Praça da Figueira-Algés) que passa no Terreiro do Paço (Praça do Comércio) e no Cais da Ribeira. A passagem custa €2,85.

As linhas de ônibus 727 (passa na Praça Marques de Pombal), 728 (passa na Estação Oriente, Parque da Nações e Praça do Comércio), 729 e 751 têm paradas em Belém. A passagem custa €1,40.

Para quem está de carro, há estacionamento público (pago) quase em frente à Fábrica de Pastéis de Belém. Nos fins de semana, quando a muvuca é grande e as vagas escasseiam, recorra ao estacionamento subterrâneo do Centro Cultural Belém. 


Um comentário:

  1. Cyntia, adorei esse post. De fato, os pastéis de Belém são deliciosos e incomparáveis. Quando fui, em maio de 2014, não peguei muuuita fila não e consegui sentar pra poder apreciá-los com calma e o amor que eles merecem, rs.

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