sábado, 5 de março de 2011

Perdida na tradução: o Português de Portugal

Fachadas na Rua das Flores, Cidade do Porto
— O Senhor tem chocolate quente?
— Não, Senhora, mas posso aquecê-lo."

É impossível não se encantar com o jeito carinhoso dos portugueses brincarem com o modo brasileiro de falar. Muito mais literais do que nós, eles se divertem com o emprego mais, digamos, "sinuoso" que fazemos do idioma. Em 12 horas no Porto, senti-me como protagonista de uma interminável piada, de criação coletiva, sempre acompanhada de um sorriso maroto e contagiante.


Dura constatação: aqui no Porto, a piada de português sou eu. E olha que nem incorri em infrações das mais graves, aquelas hipérboles baianas tipo "estou morta disso ou daquilo" ou "faz uma semana que estou esperando esse metrô" —  nem quero pensar nos efeitos dessas retumbâncias.

É inacreditável a cara de anjo que eles fazem, indo à forra dos mais de 500 anos de piadas pouco sutis e sempre pejorativas que fazemos com eles, no nosso lado do Atlântico.

Casarão na Avenida dos Aliados, região do Porto moderno que começou a ser esboçada no Século 19. Abaixo, uma fonte na Praça da Liberdade


Pacientes, doces, quase ternos, prosseguem, resignados, na tarefa inglória de nos apresentar ao uso correto da última flor do lácio: "Eu queria mais um café". "Querias? Mas por que não queres mais?!", ou "Poderia me dar uma informação?". "Até mais de uma, Senhora, se houver necessidade".

E por aí vai. Depois digam que cariocas e baianos é que são os tiradores de sarro...

Fachadas da região da Baixa


A cada "brasileirismo" que deixo escapar, brilham os olhinhos dos "tripeiros" (esse é o gentílico extra-oficial do Porto)*. E como é interessante e revelador ouvir o eco do nosso manejo do idioma, devidamente criticado e anotado pelos inventores da língua original. Ainda mais com árbitros tão simpáticos, gente de fala mansa, o sorriso meio tímido, mas permanente. De uma cortesia cativante.

Minhas 12 horas no Porto são a prova de que é perfeitamente possível protagonizar e rir da mesma piada.


*Em Portugal, chama-se os nascidos no Porto de "tripeiros", em alusão ao sacrifício que teria sido feito pela população local para ajudar a armada que partiu, em 1415, para a conquista de Ceuta. A cidade teria oferecido à esquadra toda a carne disponível, ficando apenas com as tripas. Essa é apenas uma das muitas lendas do tempo das grandes conquistas e navegações, mas o fato é que um dos pratos mais célebres da culinária da cidade são as tripas à moda do Porto.

A conquista de Ceuta marcou o início da expansão marítima de Portugal. Um dos comandantes da empreitada foi o Infante D. Henrique.

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Um comentário:

  1. Essa é uma das paisagens mais emocionantes que eu tive oportunidade de ver. Estar diante do cenário de tantos romances que li na adolescência... Belíssimo!
    E vai mais uma de português. No aeroporto de Lisboa, uma brasileira a minha frente, foi interrogada: O que a senhora vem fazer no país? - Vim fazer o caminho de Santiago, respondeu.
    - Então, pode voltar porque o caminho já está feito. (rsrs)Rose

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