terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Os viajantes, as crises
e a vida real

Grafite próximo à Universidade de Coimbra, uma paródia amarga da canção símbolo da democracia portuguesa
Jamais vou conseguir entender gente que atravessa metade do planeta para contemplar o próprio umbigo. É aquele tipo de viajante que tem um orgasmo quando descobre "um bar em Paris que faz uma caipirinha espetacular", ou que parece ter ganhado na loteria ao encontrar um restaurante da Rua 46, em Nova Iorque, que serve feijoada. 

Lembro de um casal desesperado, no Aeroporto JFK, porque ia perder o voo charter para Salvador (o mesmo no qual eu viajaria): o marido tinha conseguido uma intoxicação alimentar, degustando exatamente a tal feijoada da "Rua dos Brasileiros", e não tinha condições de embarcar. Juro que tentei, mas não consegui ficar muito solidária.

Piquete grevista — e debaixo de chuva — dos trabalhadores do Parador de Los Reyes Católicos, a hospedaria mais famosa de Santiago de Compostela
Uma variante desse perfil é o turista avestruz, assim designado não por comer de tudo — curiosidade gustativa é uma coisa legal — mas porque enfia a cabeça na coleção de postais e percorre os destinos completamente indiferente à vida real que se desenrola ao seu redor, muito preocupado em ticar itens numa lista de atrações. Nos casos mais graves, recolhem-se em resorts assépticos, preservados de qualquer contato com a população e a realidade locais.
"Revolta Popular. Greve Geral", convoca a faixa afixada em Nafplio, no Peloponeso
(setembro de 2012)
Antes de embarcar para a Grécia, nas férias de setembro, algumas pessoas me perguntaram se eu não tinha medo de ter a viagem prejudicada pelos frequentes protestos contra a política de austeridade que está cobrando a conta da crise internacional dos trabalhadores do país. E ouvi coisa bem parecida agora, quando fui passar o fim de ano em Portugal e na Galícia.

Minha resposta foi sempre a mesma: para mim, o contato com a vida real é a melhor experiência de qualquer jornada. A gente não precisa ir procurar emoções em áreas de guerra, por exemplo (ando louca para conhecer Damasco, mas não vai ser agora), mas é bobagem deixar de ir a lugares maravilhosos por medo de passeatas — que, aliás, costumam acontecer em horas e locais pré determinados e dificilmente cruzarão o nosso caminho, se não procurarmos por elas.

Grafite em Belém, Portugal
Evitar o gás lacrimogêneo, OK. O que não se justifica é ficar alheio ao ambiente, como se o mundo fosse apenas uma galeria morta de acidentes geográficos e monumentos de pedra e cal a serem contemplados. É parte essencial da experiência de viajante acompanhar um pouquinho do noticiário, conversar com as pessoas sobre o tempo, a política e o futebol. Na Grécia, por exemplo, lamentei imensamente que a barreira do idioma tenha me impedido de vivenciar os acontecimentos mais de perto.

Passeata do Dia Internacional da Mulher, em Barcelona, 2011
Este grupo a caminho de um protesto, na Rua Augusta, em Lisboa, incorporou até Papai Noel
Uma das melhores experiências de viagem da minha vida foi em Buenos Aires, em plena convulsão social após a queda do presidente De La Rúa, em 2002. Quando os jovens parisienses quase reeditaram o Maio de 68, protestando contra um projeto de flexibilização das leis trabalhistas, em 2006, eu estava lá e acompanhei de perto as manifestações. Vibrei com a derrota da proposta como se fosse uma Libertadores do São Paulinho. Em Barcelona, não pensei duas vezes em me integrar a uma passeata feminista no 8 de Março.

Adorei a objetividade da galera de Évora
Não alterei meus planos para acompanhar ao vivo as grandes manifestações da greve geral do último 26 de setembro, em Atenas  — eu estava em Nafplio e quase perdi o barco para as ilha de Hidra e Spétses, pois os ônibus da KTEL que me levariam ao Porto de Tollos aderiram à paralisação. Se tivesse perdido o passeio, talvez tivesse ido a Argos, a 11 km de Nafplio, onde houve um ato público dos grevistas da Argólida, demonstrando minha solidariedade.

Protesto em frente à Generalitat de Catalunya
 (sede do govoverno), em Barcelona, março de 2011
A crise na Europa está braba, mesmo. Em países como a Grécia, a Espanha e Portugal (por coincidência, meus destinos de viagem mais recentes — atualização: em agosto de 2014, também estive na Irlanda, onde a quebradeira foi braba e cujos efeitos estão custando a passar), as pessoas estão perdendo o emprego, os benefícios sociais e a esperança. Não é justo que também percam os visitantes — é bom lembrar que o turismo tem um papel significativo nessas economias — ainda mais quando esses destinos continuam lindos, cordiais e fascinantes.

Coimbra: protesto contra a Troika — a Comissão Europeia,
 o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional (FMI), os três organismos que negociam com os países
 europeus em crise e têm imposto condições draconianas
 para o resgate financeiro dos endividados
Se você está planejando ir a Portugal neste janeiro, leve em conta que uma série de mobilizações podem afetar um pouquinho as suas férias, mas nada que mereça uma mudança de rota. No próximo dia 17, por exemplo, os ferroviários convocaram uma grande manifestação, em Lisboa, contra a reestruturação das empresas do setor e cortes salariais anunciados.

Além disso, o trabalhadores da CP (a empresa pública Comboios de Portugal) e da Refer vêm realizando uma “greve parcial”, suspendendo suas atividades nos dias de descanso semanal e feriados. É um protesto contra a uma alteração no Código do Trabalho, recentemente aprovada, que reduziu em 50% a gratificação das horas trabalhadas nos feriados. Desde o dia 2 de janeiro — e até o dia 31 — o Sindicato Nacional dos Maquinistas (SMAQ) vem convocando paralisações no serviço, reduzindo as frequências nas principais linhas.


Coimbra
Na Espanha, os empregados da rede Paradores de Turismo têm paralisado suas atividade em protesto contra o chamado Expediente de Regulación de Empleo (ERE), que pretende mudar os termos dos contratos de trabalho e realizar um amplo corte de pessoal (a empresa chegou a falar em 14% do efetivo total), fechamento de hotéis (alguns definitivamente, outros por alguns meses, na baixa estação), para fazer frente à queda da taxa média de ocupação, que era de 70%, em 2007, para 52%, no ano passado.

Outdoor na entrada da Cidade do Porto
Esses são apenas exemplos de situações que eu vi de perto, como a greve de trens em Portugal, no Dia de Natal (que me proporcionou a bela surpresa de um dia em Setúbal) e a manifestação de trabalhadores do Parador de Santiago de Compostela, no 31 de dezembro. Longe de serem um transtorno, são episódios da vida real. Exatamente essa vida que a gente busca desvendar um pouquinho, nos locais que visita. Demonstrar interesse pelas pessoas dos lugares que visitamos é parte essencial dessa experiência.

A Europa na Fragata Surprise

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10 comentários:

  1. Eu fui a Buenos Aires em 2009 e boa parte do prazer da viagem foi tirar fotos das mais variadas e criativas pichações políticas que já vi :)

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  2. Uma das coisas que mais gosto de fazer é conversar com as pessoas, ouvir as histórias delas. Em Buenos Aires, por exemplo, a resenha política dos motoristas de táxi é uma parte imperdível da viagem..

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  3. Não dá para estar, sem estar. Para mim, ir e não perceber o local, é como não ter ido. Peguei a Greve Geral em Lisboa em nov/2012 e várias manifestações na Espanha e acabaram sendo pontos altos e inesperados da viagem. Gosto de perceber o momento daquela população, daquela cultura, além de fazer comparações históricas com nossa realidade. Abraços.

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    1. Paula,
      Manifestações políticas, especialmente as grandes mobilizações populares, só enriquecem a viagem.
      Pior são outras ocorrências. Tenho dois atentados do ETA "no currículo" (o estacionamento do Terminal 4 Aeroporto de Barajas foi pelos ares poucas horas depois de eu ter chegado a Madri, em dez/2006. Em 2005, explodiram um estacionamento em Santiago de Compostela quando eu estava fazendo o caminho).
      Também estava em Roma quando um quebra quebra generalizado, a partir da morte de um torcedor da Lazio pela polícia, literalmente botou fogo na cidade. Também já peguei um quebra quebra em Lima, contra a visita de George Bush.

      No começo deste mês, estreei no capítulo Desastres Naturais, com um temporal bem na minha chegada a Quito, com direito a queda de barreiras e interdição do acesso ao aeroporto por algumas horas.

      O fundamental é tirar de letra.
      abs

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  4. Penso o mesmo, mas é uma pena que a maioria dos brasileiros não pense assim.
    Acabei de chegar de Cuba e algo me chamou bastante a atenção lá: rodamos o país inteiro sem encontrar nenhum brasileiro, só que o aeroporto de Havana (tanto na ida, quanto na volta) estava lotado de brazucas. Fomos tentar entender e o que observamos é que a maioria dos brasileiros fazia apenas o roteiro entre Varadeiro e Cayo Largo e, no máximo, passavam alguns diazinhos em Havana pra dizer que foram. Infelizmente, não conhecem como vivem os cubanos, ou seja, não conhecem Cuba.
    Pra mim, conhecer um país é viver como os nativos: enfrentar os mesmo perrengues, compartilhar experiências e, principalmente, ouvir o que tem a dizer...

    Seu blog é ótimo! Estou encantada! :)

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    1. Obrigada, Ana!
      Pois é, não consigo entender a atração pelos roteiros esterilizados, distantes da realidade local. Beijo

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  5. Para mim em uma viagem o mais importante é me misturar com as pessoas, então não gosto do tipo de viagem que se vê tudo através dos vidros de um carro alugado com ar condicionado ou taxi. Gosto de entrar nos transportes publicos e ver como as pessoas vivem no dia a dia ou mesmo como os locais aproveitam dos pontos turisticos de seu proprio pais.
    Passei 21 dias na China andando para cima e para baixo, andando de trens noturnos em vagões normais (pois os vagões-dormitorios jah estavam completos reservados pelas agências de turismo), ou seja, 10 horas confinada com centenas de chineses e posso dizer que de toda essa experiência os chineses são adoraveis. Porém tenho amigos que fizeram o tipo de viagem "asseptica", sem nenhum contato com os locais, e ai voltaram com uma imagem horrivel dos chineses pois uma ou duas vezes foram "maltratados" quando foram largados 5 minutos sozinhos para compras! Claro que sempre podemos nos deparar com uma pessoa chata, mas eu acho que o problema é em 99% dos casos do turista, que chega com a sua forma de ser e não se interessa em entender e respeitar os locais e acaba cometendo alguma gaffe muito feia do ponto de vista local... Na China é muito comum o turista ocidental chegar "se acahando" pois ele tem a grana e quer pagar o menor preço possivel e menosprezar o chinês, que para ele estah muito abaixo. Ou então na França, (onde moro), os turistas (principalmente brasileiros) chegam atropelando para pedir uma informação, sem dizer primeiro "bom dia", "desculpa interrompe-lo" e quer que o local que estah no metrô atrasado para ir para o trabalho (e as vezes nem é francês, mas um estrangeiro que mora aqui) seja todo sorrisos e boa vontade...

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    1. Pois é, Milena, a melhor experiência de uma viagem é ver a vida real :)

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  6. Estive na Turquia, ano passado, pegamos uma manifestação pesada, queria chegar mais perto por curiosidade, mas o melhor mesmo foi nos abrigarmos, porque a coisa foi feia e quase perdemos o vôo

    Sempre tenho interesse em saber o que se passa nos países que visito e ter contato com os locais a respeito do momento atual, com as diversas opiniões

    Vi as pixações nas fotos, algumas achei ridiculas, sem propósito e burras, mas ainda assim valem a pena dar uma olhada

    Chega a ser hilário ver partidos políticos ostentando símbolo de foice e martelo, algo ai explica a crise europeia nos paises do sul, governados um bom tempo por socialistras e socias -democratas

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    1. Viajando ou em casa, prezado Anônimo, é sempre enriquecedor tentar ouvir o que diz o outro, sem descartar pontos de vista de de saída, rotulando-os de "ridículos", "sem propósito" ou "burros". O mundo fica bem maior e interessante.

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