terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Minhas melhores memórias de Lisboa

"Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna".
(Mar Português, Fernando Pessoa. Na foto, a Torre de Belém)
Por um triz eu não escorrego na tentação de chamar este post de "Lisboa em pessoa", mas decidi evitar qualquer risco de um trocadilho  — se não me falha a memória, esse título já está na capa de um guia da cidade que folheei no aeroporto e que pretende ser exatamente uma coletânea de roteiros por cenários frequentados pelo autor de Mar Português. O poeta realmente esteve comigo nesse encontro com a capital portuguesa, mas foram tantos os velhos amigos que me acompanharam por lá que não seria justo.

O espírito, porém, é bem esse. “Em pessoa”, no caso, refere-se à descoberta de uma cidade que antes se escondia de mim numa semelhança desconcertante com meus dois cenários mais queridos, Salvador e o Rio. Na minha primeira visita, de tanto reconhecer nela as minhas cidades, deixei de conhecer Lisboa de verdade. Felizmente, existem as segundas chances, pelo menos para os lugares, e, enfim, vi a capital portuguesa frente a frente, sem intermediações ou interferências.

Sete-Sóis conheceu Blimunda num auto de fé no Rossio, 
conta Saramago, em um dos meus romances preferidos,
O Memorial do Convento 
O curioso é que esse encontro com Lisboa, despido das referências de outros cenários, teve muito mais de reencontro que de descoberta. Foi um delicioso reconhecimento de toda a vasta memória que eu já carregava da cidade (dela mesma, não emprestada).

Referências que me acompanharam a vida toda, um pouco pela mão de Pessoa e outros autores. Outro tanto pela lenda — Olissipo, fundada por Odisseu? — e muito, muito, muito pela história. Mas eu sempre acreditei mesmo que as melhores memórias de  viagem são aquelas que já acompanham a gente antes da partida...

A Igreja de Santa Maria, no Mosteiro dos Jerónimos

É claro que as referências que encontrei agora já estavam todas lá, desde a primeira visita. Eu é que passei o tempo todo encontrando Salvador, Ouro Preto, o Rio e Olinda por toda parte. E não é só porque a arquitetura das nossas cidades coloniais recria janelas, balcões e telhados lisboetas. Também tem o relevo, as ladeiras e, naquele verão de 2005, um Tejo tão azul que parecia o mar dos trópicos.

Desta vez, porém, já curada do espanto de encontrar traços tão familiares, pude me concentrar em outras lembranças:  aventuras marítimas,  aulas de História do Brasil  e relatos boêmios fin de siècle. Percorrer aquelas ruas era  rever velhos amigos, voltar para aquela casa que os livros constroem na minha imaginação.

Túmulo de Vasco da Gama, 
"o forte capitão, que a tamanhas empresas se oferece, 
de soberbo e de altivo coração"
(Luiz de Camões, Os Lusíadas - Canto I)
Para quem sempre adorou os Lusíadas (um dos livros de aventuras mais emocionantes que já li), é arrepiante ver, lado a lado, os túmulos de Vasco da Gama e de Camões, na Igreja de Santa Maria, no Mosteiro dos Jerónimos. Lá também está o túmulo — vazio — de D. Sebastião, o rei que, falhando em retornar, talvez tenha contribuído decisivamente para carimbar a melancolia na alma lusitana.

Fiquei triste porque desta vez só pude ver a igreja. O mosteiro estava fechado (era segunda-feira e véspera de Natal, ainda por cima). Gostaria de rever o túmulo de Fernando Pessoa, a lápide riscada em linha reta, num forte contraste com os traços intrincados da decoração do claustro. Os versos do heterônimo Ricardo Reis são seu único adorno — cá pra nós, precisava mais?

Camões (esq) e Pessoa: os dois grandes repousam nos Jerónimos
Tá lá escrito:

"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."

O mosteiro ganhou um post só pra ele aqui na Fragata:
O Mosteiro dos Jerónimos e as grandes aventuras marítimas

Mosteiro dos Jerónimos
Fernando Pessoa me deu um trabalho danado: encasquetei de tomar uma dose de absinto no Chiado, em sua homenagem, mas parece que a bebida saiu mesmo de moda. Com o peso da sacola de livros comprados na FNAC (nos Armazéns do Chiado) insistindo em me demover da empreitada, acabei me conformando com um conhaque, aliás, perfeito para a noite gelada de antevéspera de Natal.

A livraria mais antiga do planeta ainda em funcionamento fica no Chiado. Veja este post:
Lello e Bertrand, duas livrarias portuguesas que merecem entrar em seu roteiro


Fachada na Praça Luís de Camões e os Armazéns do Chiado
Mesmo sem absinto, uma caminhada sem pressa pelo Chiado é absolutamente indispensável. Na minha primeira visita a Lisboa, passei praticamente todo o tempo por lá, tentando reconhecer a atmosfera respirada em tantas leituras.

Uma passada pelo café A Brasileira é obrigatória. Nem tanto para fazer a clássica foto-mico com a estátua de Fernando Pessoa, pelamordedeus. Mas porque esse é o café mais antigo de Lisboa ainda em funcionamento. Vale também contemplar o que talvez seja a área mais fotogênica da cidade, a Praça Luís de Camões.

O quartel do Largo do Carmo, onde o ditador Marcelo Caetano se rendeu ao Capitão Salgueiro Maia, em 1974. Uma placa no chão da praça é a lembrança singela de um dia memorável
O Chiado é elegante, descolado e, ao mesmo tempo, tem uma cara de virada de século irresistível. Além disso, abriga o cenário mais importante da minha memória favorita de Lisboa. Foi no Largo do Carmo que o chefe do governo autoritário, Marcelo Caetano, rendeu-se à coluna de tanques da Escola Prática de Cavalaria, comandada pelo capitão Salgueiro Maia, pondo fim a 48 anos de ditadura salazarista.

Os mais jovens conheceram um pouco dos acontecimentos do 25 de abril de 1974 assistindo ao filme de Maria de Medeiros, Os Capitães de Abril  (quem não viu está perdendo um filmaço). Eu, porém, assisti à Revolução dos Cravos em capítulos diários, nos telejornais da época, com uma emoção que até hoje me volta inteirinha quando leio sobre o tema ou vejo algum documentário.

Bom mesmo é sentar à sombra do Carmo e ouvir o silêncio da praça
Sem partidarismos, acho o Largo do Carmo o lugar mais bonito de Lisboa, especialmente quando a gente chega lá pelo Elevador de Santa Justa, atravessa a passarela ao lado das ruínas da igreja e do convento e desemboca na praça sossegada, com seu velho chafariz.

O Convento Carmo é uma visita imperdível em Lisboa. Veja o post:
Tesouro de Portugal - o Convento do Carmo

É passeio para se fazer sem pressa, de preferência na companhia de um livrinho, para sentar à sombra da velha fachada gótica e esquecer do burburinho que deixou lá na Baixa.

Dicas práticas



Mosteiro dos Jerónimos 
Praça do Império 1400, Belém. De terça a domingo, das 10h às 18:30h (no inverno só até as 17:30h). Ingressos: € 7 (só o mosteiro), € 10 (mosteiro + Torre de Belém) e € 13 (mosteiro + torre + Palácio Nacional da Ajuda). A entrada na Igreja de Santa Maria é gratuita.


Esse tesouro do Século XVI talvez seja o principal monumento ao apogeu do Império Português. Construído por determinação de D. Manuel I (rei de Portugal  quando o Brasil foi descoberto), foi pago com as riquezas trazidas pelos navegadores das terras conquistadas, o que está expresso na rebuscada decoração que reproduz elementos náuticos. Um espetáculo. A melhor maneira de chegar é com o Elétrico (bonde) 15, partindo do Terreiro do Paço.

Torre de Belém



Depois da visita ao Mosteiro, basta uma curta caminhada, cruzando os Jardins da Praça do Império (preste atenção à multidão de gaivotas se esbaldando na fonte) para se chegar ao Padrão dos Descobrimentos e, um pouco mais adiante, à linda torre do Século XV, parte das antigas defesas do estuário do Tejo. Para uma fã de histórias do mar, como eu, é um monumento arrepiante, verdadeiro ícone das grandes navegações.

O Tejo e a Ponte Luís de Camões
Café A Brasileira
Rua Garrett n° 120, Largo do Chiado. Inaugurado em 1905. O sucesso inicial da casa deveu-se ao café e outros produtos importados do Brasil. Ponto de encontro de artistas, políticos e intelectuais, hoje vive cheio de turistas, mas não perdeu o charme.

Elevador de Santa Justa



É o "Elevador Lacerda" de Lisboa, ligando a Baixa (a Rua de Santa Justa, travessa da Augusta) ao Carmo. Inaugurado em 1902, sua estrutura em ferro tem uma encantadora cara da Belle Époque. Mais que um meio de transporte, é um mirante espetacular para a Baixa e o Castelo de São Jorge. Funciona das 7h às 23h (no inverno, até as 22h). A tarifa ida e volta é de €5 (ou € 1,50, se quiser apenas acesso ao mirante).

Convento e Igreja do Carmo
O conjunto do Século 15 é um dos poucos remanescentes do gótico na cidade e a principal testemunha do estrago causado pelo terremoto de 1755, que o deixou em ruínas. É um dos lugares mais lindos de Lisboa, mantido em ruínas, o que aumenta sua carga dramática.

A parte que resistiu à catástrofe abrigaria, tempos depois, o quartel onde Marcelo Caetano tentou resistir ao movimento democrático do 25 de Abril. Outra parte do edifício foi convertida no Museu de Arqueologia, simplesmente imperdível.

O Carmo e a vista para o Castelo de São Jorge

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6 comentários:

  1. Lisboa é fantástica, adoro essa cidade!!!!
    Parabéns pelo post.....

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    1. Obrigada, Bruno! Lisboa é mesmo uma cidade apaixonante. Abs

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  2. O seu texto e o melhor de todos os blogs de viagem. Mais que informacao, transpira a emocao no relato dos lugares visitados. Pessoa, Saramago, Lobo Antunes e especialmente Eca de Queiros e os Maias ja seriam pretexto para conhecer Portugalem maio, seguindo a rota da Fragrata Surprise. Abracos, Jacy

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    1. Jacy, muito obrigada por seu carinho, comigo e com a Fragata. É muito legal saber que os relatos inspiram outros viajantes, pois essa é a finalidade principal do blog. Comentários como seu me dão força pra continuar a escrever A Fragata Surprise, mesmo com o tempo cada vez mais apertado. Super beijo

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  3. Olá Cyntia!Tudo bem?
    Estou lendo e relendo as postagens sobre Lisboa.
    ainda ficou muito por ser visto.
    Desta vez pretendo ir no Mosteiros do Jerónimos, e andar no elevador da Santa Justa.
    Poderei comparar a Lisboa de dezembro (inverno), com a Lisboa de junho!
    A Fragata é Demais!
    Um grande abraço.
    Ana Silvia

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    1. Obrigada, Ana :)
      Eu acho que Portugal não esgota nunca. Tanto é que vou voltar lá, agora em junho :)

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