domingo, 20 de janeiro de 2013

Cidade do Porto:
aos pouquinhos, eu vou ficando...

Chega de ficar. O Porto é para namorar sério...
(Vista da estação do teleférico de Vila Nova de Gaia) 
Ainda não foi desta vez, mas faz muito tempo que ando querendo um relacionamento mais estável com a Cidade do Porto. Não só porque ela é linda de cair o queixo, mas, principalmente pela felicidade gratuita que ela me inspira, toda vez que bato o olho naquele casario que desce em cascata pela colina até à beira do Douro.

A boa notícia é que, desta vez, já foram 24 horas (estou indo aos pouquinhos: na primeira vez foram só duas horas, esperando um trem. Depois, só uma passagem, a bordo de um ônibus. E, por fim, 12 horas deliciosas, esperando uma conexão para Barcelona). Essas ficadinhas progressivas cada vez mais fortalecem minha convicção: o Porto é pra namorar sério, com direito a anúncio no Facebook e tudo.

Embarcações típicas da região do Douro, os rabelos eram desenhados para acomodar as barricas do Vinho do Porto. Hoje, eles acrescentam charme à paisagem
Do mundo que eu conheço, vi poucos lugares capazes de competir com a beleza dessa cidade, com o Douro a seus pés. Não importa o ângulo do sol, ela brilha e derrama as cores do casario da Ribeira nas águas do rio, sob um céu sempre cortado por gaivotas muito atrevidas. No final da tarde, o pio das aves marinhas acrescenta um toque a mais de encanto a um quadro que beira a perfeição.

Uma boa maneira de ver a cidade é a bordo de um dos muitos barcos que oferecem passeios turísticos pelo rio. Eles partem do Cais da Ribeira e navegam até quase a Foz do Douro, passando por todas as seis pontes que ligam as duas margens. Outra maneira soberba de admirar a Cidade do Porto é dar uma volta no Teleférico de Vila Nova de Gaia é uma espécie de mirante móvel para esse visual de arrepiar.

Debruçado sobre o Douro, no alto da encosta, o Mosteiro da Serra do Pilar, em Vila Nova de Gaia, é muito mais célebre por episódios militares que religiosos 
O percurso do teleférico tem pouco mais de 500 metros, acompanhando a margem do Douro. As gaiolinhas envidraçadas ligam o Cais de Gaia à cabeceira da Ponte Luis I, aos pés do Mosteiro da Serra do Pilar. Os cinco minutinhos a bordo do teleférico valem cada centavo do ingresso. Ainda mais se o passeio for ao cair da tarde, quando as duas cidades começam a acender as luzes.


Não que eu precise de mais motivos para engatar de vez esse caso de amor mais estável com a cidade, mas gosto de fazer listinhas mentais. Por exemplo, faz muito tempo que ando planejando um roteiro para ver os cenários da chamada Guerra Peninsular, a invasão francesa da Península Ibérica (não esqueçam que a Fragata Surprise original é ex-combatente das Guerras Napoleônicas).

A beleza e a história do Porto ajudaram muito a inspirar esse projeto. Palco de encarniçada resistência às investidas de Napoleão, a cidade foi a primeira a se levantar contra a ocupação francesa, em 1808.

Baixo relevo das Alminhas da Ponte, no Cais da Ribeira
No ano seguinte, na chamada "segunda invasão", o Porto enfrentou com bravura a ofensiva comandada pelo Marechal Soult. Ao cair, a cidade pagou o preço de uma pilhagem feroz. Dez mil pessoas morreram na defesa do Porto, sem contar os talvez milhares de afogados na tentativa de buscar refúgio em Vila Nova de Gaia, onde contingentes britânicos e portugueses resistiam no Mosteiro da Serra do Pilar. Na travessia do Douro, a antiga Ponte das Barcas cedeu.

O episódio é lembrado por um monumento singelo, no Cais da Ribeira, chamado de Alminhas da Ponte. Alminhas são pequenos monumentos religiosos de tradição muito antiga, originados nos altares colocados nas encruzilhadas para os deuses protetores dos caminhos — como as capelinhas que estão por toda parte, na Grécia.

Em Portugal, geralmente representam as almas que sofrem no Purgatório, a espera da salvação (a chegada do viajante a seu destino?). As Alminhas da Ponte mostram uma cena bem mais dantesca que isso, com a cavalaria francesa caindo sobre a população em fuga e os fugitivos caindo nas águas geladas do rio.

As gaivotas mandam no céu do Porto e não fazem cerimônia nem com o filho mais ilustre da cidade, o Infante D. Henrique 

Mas posso garantir que tenho motivos muito menos melancólicos para embalar minha permanência no Porto. Aqui mesmo, no Cais da Ribeira (onde tento não cair no Douro em meio a sofisticadas acrobacias para fotografar os rasantes das gaivotas), o olfato me chama. 

É impossível passar em frente aos muitos restaurantes da área sem ter pecaminosos pensamentos envolvendo azeite de oliva, batatas e todos os tipos de frutos do mar. Só peço licença para falar do capítulo gastronômico em outro post, pois a mesa portuguesa merece mais espaço.

O Infante aponta o mar: "Navegar é preciso". Hoje, o Porto navega o Douro também por deleite. Os passeios de barco até a foz do rio são uma uma forma espetacular de ver a cidade
A Cidade do Porto tem beleza e história (não esqueçamos que foi aqui que eclodiu a Revolução Liberal, que começou a enterrar a monarquia absoluta em Portugal). Coração de uma área metropolitana com 1,3 milhão de habitantes, preserva uma cordialidade que salta aos olhos. Tem o café mais bonito de Portugal (o Majestic, lindão, mesmo!), livrarias maravilhosas, a memória do Infante... e o Vinho do Porto, claro, que ninguém é de ferro. 

Mas acho que eu nem preciso racionalizar tanto. Em relação às cidades, sou que nem os gatos com as pessoas: a escolha é imediata e irreversível. Escolhi o Porto no primeiro olhar. De tanto ficar, um dia eu fico de vez.

A Ponte Luis I, logomarca da cidade. Ao fundo, o Mosteiro da Serra do Pilar
Dicas práticas

Teleférico de Gaia
Diariamente, das 10h às 20h (no inverno, só até as 18h). Os bilhetes custam €5 (só ida) e €8 ( ida e volta). Para quem está no Cais da Ribeira, no Porto, dá para chegar à Estação Alta do Teleférico atravessando a pé a Ponte Luis I, pela passagem mais baixa, onde também circulam os carros. O ponto de partida fica bem ao lado da cabeceira da ponte.

Eu sugiro, porém que você faça o "super roteiro intermodal", com direito a vistas super bonitas: saia do Cais da Ribeira pelo Funicular dos Guindais e cruze a pé a célebre ponte metálica pela parte mais alta. Os mais preguiçosos vão gostar de saber que o metrô também passa lá pelo alto da ponte (a vista será a mesma, mas a emoção e o ventinho, não). Para ir de metrô, pegue o trem na Estação São Bento e desça na parada de Jardim do Morro (linha amarela, sentido Santo Ovídio).

Aproveite o passeio de teleférico para dar uma volta no Cais e no Mercado de Gaia.

Cais da Ribeira


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