sexta-feira, 1 de julho de 2016

Porto: café com estilo no Majestic e Guarany

Café Majestic e Café Guarany, duas experiências deliciosas no Porto
Art-Nouveau ou Art Déco? Apenas 400 metros separam as duas soluções desse doce dilema — pelo menos pra mim, fã das duas escolas — quando estou no Porto e bate a vontade de tomar café em grande estilo. Duas soluções porque não é preciso escolher: basta alternar visitas entre a fulgurância Belle Époque do Café Majestic e as irresistíveis linhas retas do Café Guarany, dois ícones boêmios da vida portuense no início do Século 20 que continuam a encantar moradores e visitantes.

O Majestic é um caso de “Belle Époque tardia” — foi inaugurado em 1921, quando a “bela época” já havia sido levada pelos ventos da 1ª Guerra Mundial — mas o edifício que abriga o café, de 1916, é um castiço exemplar da Arte Nova (a Art-Nouveau portuguesa). O Guarany é pura Art Déco, com aquela objetividade elegante que tanto me encanta.

A fachada Belle Époque do Café Majestic e a elegância Art Déco do Café Guarany (abaixo). Só 400 metros separam esses dois ícones da boemia portuense
No salão do Guarany, o célebre Índio, do escultor Henrique Moreira
Sim, são duas atrações turísticas imperdíveis do Porto. Mas a melhor notícia é que o Majestic e o Guarany também batem um bolão no que realmente importa quando se vai a um café: o serviço é bom, a bica (cafezinho) é irretocável e as comidinhas são bem interessantes — a começar pela legendária rabanada com doce de gemas, polvilhada por nozes e frutas secas, marca registrada do Majestic que passou a ser servida também no Guarany, que agora pertence à mesma família.

Então, anote na sua lista de coisas pra fazer no Porto uma passada por esses dois cafés. Garanto que não vai se arrepender.

Café Majestic
Rua Santa Catarina nº 112. De segunda a sábado, das 9:30h às 23:30h. Metrô Bolhão (300 m) ou Aliados (450 m).

O Majestic está sempre movimentado por uma mescla de turistas e locais
A história oficial do Majestic conta que ele nasceu como Café Elite, um espaço exclusivo para sócios na Rua de Santa Catarina, “passarela” da sociedade elegante portuense. Mas o astral dos roaring twenties (os “loucos anos 20”, como quer a lenda) não combinava muito com tanta segregação — além do mais, quem sustenta cafés, bares, botequins e assemelhados planeta afora são os boêmios, não a elite — e ele rapidamente teve que se reinventar, mudando de nome e de regras para abrir os braços aos poetas, literatos, estudantes, jornalistas, políticos e notívagos de todos os matizes que o transformariam em uma referência.

O Majestic é lindo a qualquer hora do dia. Se você for à noite, porém, vai ganhar o bônus de parar na calçada oposta para admirar a luz dourada que brota dos cristais de sua esfuziante fachada em mármore — por 15 segundos, vai ser capaz de imaginar o burburinho de bebedores de absinto e melindrosas fumando em longas piteiras, lá dentro. Ao atravessar a porta e dar de cara com os painéis de madeiras nobres, as mesas de mármore, os espelhos, veludos, entalhes, estiques e lustres de alabastro, cuidado pra não acreditar na fantasia :)


O obscurantismo da ditadura salazarista acabaria cobrando seu preço ao esfuziante Majestic, que entrou em um longo período de declínio, a partir do final da 2ª Guerra. Apenas na década de 90, após cuidadosa reforma, o café voltaria a funcionar em todo seu esplendor.

Na noite em que fui ao Café Majestic, cheguei pouco depois das 21h e ele ainda fervilhava de gente, uma mescla de portuenses e turistas. Pedi uma tábua de queijos, presunto e salpicão (embutido típico da região de Trás-os-Montes, feito de lombo de porco defumado, temperado com vinho e outros condimentos) para acompanhar a taça de vinho do Douro. Para arrematar, torta de amêndoa acompanhada por um cálice de porto. Noite perfeita.



Café Guarany
Avenida dos Aliados 85/89. Diariamente, das 9h à meia noite. O Metrô Aliados está a menos de 100 metros.
O salão do Guarany
Eu tinha uma dívida com o Café Guarany. No final de 2012, tinha me hospedado no mesmo prédio onde ele está instalado, no charmoso Hotel Aliados, mas não tive tempo de dar uma passadinha por lá. Reparei essa falha agora e fiquei boba com a beleza do lugar.

Adoro os traços objetivos, os tons claros e a recusa aos excessos da Art Déco e uma parada no Guarany no meio de uma manhã de primavera, com a luz atravessando seus janelões, faz mais pela apreciação desse estilo decorativo/arquitetônico do que a leitura de uma prateleira inteira de livros sobre o tema. Nesse horário, o público ainda é escasso e a sensação é perfeita: o sossego e o silêncio ficam mais intensos ao abrigo daquelas linhas retas.

Os Senhores da Amazônia, painel da artista Graça Morais, foi instalado no salão do Guarany na reforma de 2003
O Café Guarany foi inaugurado em 1933, e seu nome é uma clara referência ao café do Brasil que fumegava nas incontáveis xícaras dos estabelecimentos elegantes que se espalhavam pela Avenida dos Aliados e por toda a região da Baixa, no Porto. Uma escultura em mármore (O Índio, de Henrique Moreira), ao lado da porta principal do café, completava a homenagem —hoje acrescida do painel Os Senhores da Amazônia, da pintora portuguesa Graça Morais.

A própria avenida onde está o Café Guarany é um símbolo da modernidade sonhada no início do Século 20, aberta em 1916 em substituição a um conjunto de ruazinhas tortuosas e que viria a ser margeada por um belo conjunto de edifícios em estilo eclético, como o que abriga o café.

Para além dos meus devaneios estético-nostálgicos, devo dizer que o café do Guarany estava irrepreensível e que a famosa rabanada já chegou à mesa tão tentadora que até esqueci de fotografá-la. Você vai ter que ir até lá para vê-la cara a cara. E garanto que vai adorar.

O Café Guarany (repare os guarda-sóis à esquerda) funciona no térreo do Hotel Aliados, em um dos bonitos edifícios em estilo eclético da região


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Um comentário:

  1. Amei os dois e desejo retornar. São lindos e nos fazem entrar muito no clima do local. BjO!!!

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