domingo, 23 de outubro de 2016

Portugal: o que fazer no Porto

A Ribeira vista de Vila Nova de Gaia - nem corações de pedra escapam da paixão pelo Porto
Porto, a “capital” do Norte português, a bela (muito bela!) que se eleva sobre uma barranca do Rio Douro e que sempre me deixa sem palavras diante de sua majestade. Sou completamente encantada por essa cidade e aposto que nem o mais empedernido coração de pedra consegue passar imune a seus encantos.

Na cidade que batizou Portugal — a partir do nome que herdou dos romanos, Portus Cale — tem muita coisa bacana pra fazer. Juro que bastaria ficar embasbacada olhando para aquele conjunto magnífico que vai subindo pelo Morro da Sé, a partir do Cais da Ribeira, para justificar a viagem.

Os telhados do Porto e a Vila Nova de Gaia (do outro lado do Rio Douro) vistos do topo da Torre dos Clérigos
Mas tem muito mais. Quem grandes monumentos? Tem a Catedral, a Igreja de São Francisco, a Igreja e a Torre dos Clérigos (e que vista, lá de cima...). Curte arquitetura? Dá pra se esbaldar pelas ladeiras namorando fachadas revestidas de azulejos. História? Que tal alguns dos cenários mais importantes nas memórias das grandes navegações?

O Porto merece pelo menos uma vida. Se o seu estoque de encarnações estiver curto, porém, sugiro que você reserve pelo menos quatro dias para a cidade e aproveite os passeios e atrações que eu organizei neste post—mas não garanto que você vá conseguir ir embora, tá?



Cais da Ribeira


O Cais da Ribeira e a ponte Luís I
Pra mim, qualquer visita ao Porto tem que começar e terminar no cais da Ribeira. No mundo que eu conheço, é raro ver um lugar tão bonito. A Ribeira tem tudo que a gente procura numa atração turística: a animação de bares e restaurantes, a vista estonteante — a gente não sabe se olha para a Ponte D. Luís, para Vila Nova de Gaia, do outro lado, para o casario antigo...

O emaranhado de casas muito antigas à beira do rio não faz o menos esforço para ser cenográfico — você vai ver pinturas descascadas, painéis de azulejos banguelas e muita roupa nos varais. E que beleza arrebatadora emana desse conjunto!

O casario da Ribeira não faz a menor questão de ser engomadinho - e é maravilhoso
Como eu vivo dizendo, nunca houve um GPS mais calibrado do que o dos gregos para encontrar belas locações para instalar suas povoações. E foram exatamente os helenos que começaram a povoar esse pedacinho da margem do Rio Douro. Mas quem colocou a Ribeira no mapa, definitivamente, foram os romanos, que tinham ali um porto desde o Século 2 a.C.

Ponte Luís I e Vila Nova de Gaia, do outro lado do rio. Lá no alto, o Mosteiro do Pilar
Os rabelos, típicos do Douro, transportavam vinho. Agora, levam turistas
Gregos e romanos usaram a Ribeira para abrigar suas embarcações e a área jamais perdeu a vocação: se hoje já não atracam lá os rabelos carregados de vinho trazido das regiões Douro acima, o lugar ainda fervilha com as bandeirolas dos barcos destinados aos turistas — os mesmos que, antes ou depois dos passeios pelo rio, lotam as mesas dos bares e restaurantes à beira do cais.

A cara da região, porém, começou a ser desenhada no Século 13, com o casario acompanhando a linha da muralha que protegia a cidade — os vestígios das fortificações ainda são bem nítidos e algumas portas ainda estão de pé, como o famoso Postigo do Carvão.

O Postigo do Carvão, uma das entradas na muralha da cidade
A estátua do Infante D. Henrique, nascido na cidade e personagem fundamental das grandes navegações 
Cada pedacinho da Ribeira tem uma história pra contar. Não deixe de ver a Casa do Infante construção medieval onde teria nascido D. Henrique, o Navegador (em 1394), a Igreja de São Nicolau, e as Alminhas da Ponte, oratório dedicado à vítimas da invasão napoleônica, em 1809.

Passeios de barco no Douro


Sente, relaxe e deixe a cidade desfilar pra você
Caminhando ao longo do cais da Ribeira, você vai ver que é farta a oferta de passeios de barco partindo dali mesmo, nos mais diversos horários. Não resista, porque é o complemento perfeito: ver a cidade enquanto desliza tranquilamente pelas águas do Douro (as cidades, porque Gaia também faz parte do apelo) é uma das grandes alegrias de qualquer estadia no Porto.

Há vários tipos de passeios partindo do Porto e de Gaia — sem contar os cruzeiros que sobem o Douro e podem durar até uma semana. O mais famoso é o Cruzeiro das Seis Pontes, com duração de cerca de uma hora. Ele parte da Ribeira e passa sob as pontes Luís I (a lindona mais famosa), Maria Pia, São João, da Arrábida (a minha favorita depois da lindona, com sua arquitetura futurista/anos 60), do Freixo e do Infante e vai até pertinho da Foz do rio.


Esse passeio custa entre € 10 e € 12, dependendo da empresa e é oferecido apenas durante o dia. É muito legal ver o Porto e Gaia desfilando seus encantos nas duas margens. Já fiz esse passeio no inverno (agasalhe-se bem, porque o ventinho é cruel) e no verão. É mesmo uma atração para o ano inteiro e não dá pra perder.

Mercado do Bolhão


O Bolhão: bom lugar para petiscar
Inaugurado em 1914 no local onde tradicionalmente funcionava uma feira livre, o edifício era bem arrojado para seu tempo, conjugando as clássicas estruturas metálicas da Belle Époque com o recentíssimo concreto armado. Mas você não vai lá para ver a arquitetura, vai para beliscar frutas frescas e secas, queijinhos vários e frios de todos os cantos de Portugal—tudo isso com uma taça de vinho da região. Tem um post detalhadinho sobre esse passeio delicioso: Mercado do Bolhão, para viajar com os cinco sentidos.

Igreja e Torre dos Clérigos
Rua de São Filipe de Nery. Visitação: diariamente, das 9h às 19. O ingresso custa  € 3. Há visitas especiais à torre, noturnas, das 19h às 23h, em alguns dias de dezembro e janeiro. Informe-se no site

A bonita fachada da Igreja dos Clérigos e a Torre (à direita)
A grande atração é a torre, que oferece 360 graus de vista magnífica para a cidade. Mas recomendo vivamente que antes de testar o fôlego e as panturrilhas na escadinha inclemente que leva até o topo desse mirante, você pare para ver a bela igreja barroca que, pra muita gente, fica como coadjuvante.

A ladeira que leva à Igreja dos Clérigos é íngreme - mas nada comparável aos 240 degraus da torre
A bela fachada da Igreja dos Clérigos, com ricos entalhes na pedra, é enriquecida pela escadaria dupla que da acesso ao adro e se entrecruza num desenho elegante. Situada no topo de uma ladeira bem portuense (que é o eufemismo para “muito íngreme”) a igreja parece pairar acima do movimento intenso de carros e pedestres. O interior do templo também é belíssimo, já com elementos rococó característicos do Século 18.

Não deixe de ver o interior da igreja, considerada um dos melhores exemplos do Barroco na cidade

Convertida no mirante mais famoso do Porto, a Torre dos Clérigos é o campanário da igreja—os sinos ainda estão lá. Tem 75 metros de altura e seu exterior em granito recoberto de entalhes é um dos cartões postais mais famosos da cidade. Para chegar ao topo, é preciso encarar 240 degraus numa espiral estreita. O fôlego vai reclamar, mas a vista lá do alto recompensará a penitência.

Livraria Lello

Lello: sempre na lista das mais bonitas do mundo
Essa preciosidade inaugurada em 1906 acabou de passar por uma reforma que a deixou tinindo — eu nem tive a chance de fotografar a famosa fachada, que ainda estava coberta de tapumes em junho, quando passei pelo Porto. 

A Lello é presença cativa em todas as listas de livrarias mais bonitas do mundo por conta de seu interior meio gótico, meio Arte Nova, uma autêntica catedral dos livros. 

Ela ganhou um post aqui na Fragata (junto com a Bertrand de Lisboa, que é a livraria mais antiga do mundo ainda em funcionamento)e lá tem todos os detalhes pra você organizar sua visita. Dá uma olhada: Lello e Bertrand, duas livrarias portuguesas que merecem entrar em seu roteiro.

Ver muitos azulejos — e um pouquinho de Arte Nova

Encantos do Porto. À direita, a Igreja de São Nicolau
Subir e descer ladeiras jamais será tão agradável quanto no Porto. A região da Baixa deve ter a maior concentração de azulejos do planeta e é simplesmente impossível não parar para fotografar cada um dos velhos casarões com seus balcões de ferro e suas fachadas azulejadas nos mais diversos padrões. Nem preciso dar endereços: é só descer a Avenida dos Aliados e começar a entrar pelas transversais. Você mesma faz seu mapa.

A região do Mercado do Bolhão é uma festa de azulejos. Acima, a Capela das Almas, quase em frente ao mercado. Abaixo, alguns exemplos menos ortodoxos e multicores no entorno do mercado


Pra mim, é uma perdição: quaisquer 200 metros viram um passeio de longo, feito para namorar detalhes. E pensar que toda essa beleza tinha um objetivo bem funcional, que era proteger as fachadas da unidade, devida à proximidade do rio. Santa funcionalidade, Batman! O resultado é uma maravilha.

Azulejo, naturalmente, remete a azul, que era originalmente a cor aplicada aos padrões e desenhos aplicados à cerâmica, em Portugal. A tradição moura e mudéjar na Espanha já trabalhava muitas outras cores, desde a Idade Média. O Porto é o paraíso dos azulejos castiços, mas também tem espaço para exemplares mais, digamos, heterodoxos e multicores.

Uma loja e uma marquise (abaixo) com claro sotaque da Arte Nova, na Rua das Carmelitas

Aproveite que você está batendo pernas e aprecie também alguns exemplares relevantes da Arte Nova (a Art Nouveau portuguesa). Embora o Porto não conte com muitos edifícios nesse estilo (como Aveiro, por exemplo), a cidade tem alguns dos mais bonitos de Portugal, como o célebre Café Majestic, na Rua de Santa Catarina.

Outra área bacana para ver Arte Nova é a Rua das Carmelitas (onde fica a Livraria Lello) e vizinhança.

Passear na Foz do Douro
A Foz: no verão, o Atlântico está menos furioso
A primeira vez que eu vi a Foz do Douro era inverno e o Atlântico não estava para brincadeiras: ondas gigantescas batiam na praia com uma fúria que chegava a intimidar – e olha que eu estava bem longe delas, no calçadão com cara de promenade de balneário dos anos 50, bem segura, do lado de cá da balaustrada.

Uma cena bonita, perfeita para entender como o “Mar Oceano” dos portugueses — que pra nós, do lado de cá, é quase sempre um delicioso playground — gerou tantas lendas e temores.


Acho que só isso já vale o passeio à Foz do Douro, uma região elegante onde os casarões centenários, alguns verdadeiros solares, ainda competem com os edifícios e onde o astral tem sempre cara de domingo.

Depois de caminhar à beira-mar nesse cenário bem mais contemporâneo, aproveite a profusão de bares e restaurantes para uma bem merecida pausa com vinho e a boa mesa portuguesa. Eu tive um almoço memorável lá, no Restaurante Cafeína. As dicas estão neste post: Porto – dicas práticas.

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