sábado, 5 de março de 2011

Cidade do Porto, terra de navegadores


Música deste post: Os Argonautas, Caetano Veloso 

Quando eu era criança, não entendia a razão de ter que frequentar uma escola chata e cheia de números, quando gente mais sortuda pôde frequentar a tal Escola de Sagres, que ensinava a navegar.

Deve ser culpa do meu antepassado pirata — o holandês van der Borg, que os mais velhos da família sempre se esforçaram para descrever como um aristocrata muito fino, mas cuja alma bucaneira eu sempre intuí.

O fato é que eu só pensava em ir para o mar— tirando, é claro, o breve hiato em que encasquetei de me alistar na legião estrangeira e a fase mais ou menos recorrente (até hoje) de sonhar com cidades perdidas e escavar o quintal.
"Os Lusíadas", Canto V, no monumento ao Infante
Mas o melhor da Escola de Sagres ainda estava por vir: a descoberta de que a tal escola não existiu — tem coisa melhor que isso, para uma criança trancafiada na tediosa sala de aula?

O Infante D. Henrique, filho desta Cidade do Porto, era o líder da confraria de Sagres: grão-mestre da Ordem de Cristo, teria reunido o conhecimento náutico da época e estimulado os avanços técnicos que permitiram a grande aventura de lançar-se ao mar e descobrir o novo.

O Douro e o Porto vistos de Vila  Nova de Gaia
Bem que eu queria ter convivido com a turma do Infante: gente do mundo inteiro, pilotos, cartógrafos, astrônomos — judeus e muçulmanos, inclusive — repetindo para os conhecimentos do mar o que foi a Escola de Tradutores de Toledo (outra que não "existiu") para o conhecimento filosófico, três séculos antes.

(Não vou discutir aqui as motivações, nem os massacres e as intolerâncias. Navegar, para o Infante, era uma Cruzada, mas este é só um blog de viagens...).

A Ponte Luís I, um rabelo e 
Vila Nova de Gaia, do outro lado do Douro
Por tudo isso, é emocionante descer a Rua das Flores e dar de cara com o monumento ao Infante, apontando para o mar, a poucos passos do Cais da Ribeira. Descendo a ladeira em frente, está a casa onde ele nasceu, hoje um museu, que lamentei muito não ter podido explorar por horas a fio.

Mas a melhor homenagem que eu poderia ter feito ao Navegador foi tomar um barco no Cais da Ribeira e percorrer o Douro até a foz, no Atlântico, onde dezenas de velas branquinhas e centenas de gaivotas e fragatas lembravam que viver é levantar âncora, soltar as amarras e abraçar o inesperado.

O Infante contempla sua cidade do alto de seu pedestal
PS: Depois que eu cresci, descobri que o conhecimento matemático era essencial à navegação e talvez eu devesse ter prestado mais atenção às aulas chatas. Mas, aí já era tarde e logo depois inventaram o GPS...

Endereços e Horários

Casa do Infante
Rua da Alfândega n° 10
Edifício do Século XIII, um dos mais antigos da cidade. D. Henrique teria nascido aqui, em 1394. Sediou a antiga Alfândega do Porto e hoje abriga o Arquivo Histórico Municipal. O seu acervo inclui manuscritos, pergaminhos e iluminuras. No museu que funciona no local estão expostos objetos encontrados em escavações arqueológicas e uma maquete Porto Medieval.
Entrada: 2 Euros. Visitação: de terça a sábado, das 10h às 12:30h e das 14h às 17:30. Domingos, das 14h às 17:30h.

A Igreja do Corpo Santo, em Massarelos, pertencia à Ordem de Cristo, organização que substituiu a Ordem dos Templários e foi muito forte em Portugal e teve o Infante D. Henrique como primeiro grão-mestre

Monumento a D. Henrique
No final da Rua Ferreira Borges, na praça do antigo Mercado Ferreira Borges.

Passeio de barco no Douro- Veja neste post aqui

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