24 de abril de 2019

Música em Memphis - Beale Street, a passarela do Blues

Beale Street, a rua do Blues em Memphis
Beale Street: para a comunidade negra de Memphis, ela era a Broadway, a 5ª Avenida e Wall Street
Se você vai a Beale Street, não precisa usar flores no cabelo. Mas é bom saber que aquela aquela fieira de quarteirões ofuscada pelos letreiros de neon das casas de shows não é um parque temático musical.

Principal endereço da música em Memphis, Bele Street é um cenário histórico e cultural dos mais significativos do Século 20. 

Afinal, Beale Street é o coração da comunidade negra que botou Memphis e o Tennesse no mapa.

A rua que se reivindica — com absoluto direito — como o Lar do Blues e pista onde engatinharam o Rhythm'n'Blues e o Rock’n’Roll. 

Muita coisa mudou naquela rua, desde a chegada dos pioneiros do Blues, mas ela continua sendo o endereço da diversão embalada em 12 compassos. Se você quer ouvir música em Memphis, Beale Street será uma escala inescapável — com muitos retornos, eu aposto.

Então, se liga nessas dicas para aproveitar o melhor da Música em Memphis e de Beale Street:

Cruzamento da Beale Street com o Bulevar BB King, em Memphis
Achei meu lugar no mundo: esquina de Beale Street com Bulevar BB King 😉
Um pouquinho da história de Beale Street

Para a comunidade negra de Memphis, Beale Street foi a 5ª Avenida, a Broadway, Wall Street e o Bairro da Luz Vermelha — tudo ao mesmo tempo e muito — ao longo da primeira metade do Século 20.

Nascida com o título mais graduado de Avenida Beale, a via que iria entrar para a mitologia ocidental como o lar do Blues nasce na margem do Mississípi.

Ao longo de seus 1.800 mil metros, desde o início ela teve três setores bem demarcados: a área próxima às docas era dominada por armazéns e escritórios das firmas de comércio de algodão — Memphis era o maior entreposto do produto já antes da Guerra Civil Americana.

Beale Street, Memphis
Antes da farra: Beale Street de cara lavada, cuidando dos afazeres da manhã
A ponta Leste da rua era uma vizinhança residencial elegante, ocupada por famílias brancas — antes que uma epidemia de febre amarela, no final do Século 19, levasse quem tinha dinheiro a procurar paragens mais salubres.

Mas foi no miolo da Beale Street que a grande população afro-americana de Memphis se estabeleceu, a partir da Abolição da escravatura, constituindo uma comunidade praticamente autônoma e autossuficiente — com bancos, igrejas, escolas, comércio e entretenimento.

Sim, Beale Street era um gueto pobre, permanentemente acossado pela violência racial. Mas também era um território onde os egressos das plantações de algodão encontravam oportunidades de trabalho e tinham acesso a confortos mínimos, inimagináveis para a população negra nas fazendas da região do Mississípi.

Show do guitarrista Joe Bonamassa no Orpheum Theater de Memphis
O trecho fervido de Beale Street começa na esquina onde está o histórico Orpheum Theater. Foi lá que assisti Joe Bonamassa —momento estonteante na minha existência
Entre moradias precárias e cotidiano violento — nos anos 30, Beale Street tinha o mais alto índice de homicídios dos EUA — o ramo do entretenimento ia de vento em popa e a música era o centro de tudo.

E que música! “Músico ruim não vem pra Memphis”, resumiu BB. King no ótimo documentário A vida de Riley (eu vi no Canal Philos, da NET).

Segundo o futuro Rei do Blues, ele se sentiu muito pequenininho diante de tanta gente boa que tocava em Memphis, em sua primeira chegada à cidade, em 1946.

Sim, porque as escolas para crianças negras e suas bandas eram um celeiro inesgotável de gente talentosa e capacitada, que encontrava trabalho nos clubes noturnos da Beale Street.

Placa da Beale Street, Memphis

Nada disso, porém, impediu a decadência de Beale Street. Nos anos 70, o lugar parecia um caso perdido. Mas, novamente, a força da comunidade estava lá para encontrar um plano de revitalização.

Talvez essa revitalização tenha deixado na Rua do Blues um sotaque meio cenográfico. Mas basta entrar em qualquer casa de Beale Street e deixar a música rolar pra a alma da velha vizinhança voltar.

Beale Street - modo de usar
As atrações musicais de Beale Street estão concentradas em um trecho de 500 metros, entre o Orpheum Theter, na Main Street, e a South 4th Stret, esquina onde está a Casa Museu de W C Handy, considerado o pai do Blues profissional.

É nesses 500 metros que se acotovelam as casas de shows, cafés, lojas de souvenir, diners e outros negócios, um trecho movimentadíssimo de dia e à noite e muito bem policiado.

A música começa cedo em Beale Street. Às 11 horas da manhã já tem shows rolando e as apresentações se estendem até depois da meia-noite. 

Homenagem a Johnny Cash na Beale Street, Memphis
O velho e querido Johnny Cash jamais poderá ser acusado de blueseiro, mas também tem seu altarzinho em Beale Street
Mas é claro que as melhores atrações se apresentam à noite. Então, pode ir fazer suas visitas a museus e outros pontos de interesse de Memphis sem culpa, durante o dia, e chegar para os showsde Baele Street a partir do final da tarde.

O melhor jeito de escolher o que assistir em Beale Street é o mesmo ouvidômetro que eu usei como guia em Nova Orleans e Nashville. 

As casas, geralmente, não cobram ingressos nem couvert. Então, basta entrar, dar uma escutada na música e decidir se quer ficar ou quicar para o próximo bar.

Não esqueça da gorjeta dos músicos. Essa é a principal remuneração deles.

Calçada da fama do Blues em Beale Street, Memphis
A calçada da fama de Beale Street lembra os grandes nomes do Blues (não confunda com a calçada do Orpheum Theater, que homenageia estrelas de diversos gêneros musicais que se apresentaram em seu palco)
A  melhor apresentação que vi em Memphis (simplesmente acachapante) foi do super bluesman Joe Bonamassa, discípulo de BB King e grande estrela da guitarra de sua geração.

Não foi um show de bar, naturalmente, mas no histórico Orpheum Theater, na esquina da Beale Street com a Main Street.

Digo isso pra fazer uma recomendação: antes de viajar, preste atenção ao calendário de eventos culturais de Memphis, porque sempre tem uma estrela de primeira grandeza passando pela cidade — quem não quer tocar na Cidade do Blues, afinal? Compre ingresso com antecedência, pela internet, e se jogue 😊.

Mais uma dica: confira também a programação cultural do bairro de Cooper-Young, a vizinhança mais descolada de Memphis. Eu não tive tempo, mas da próxima vez é por lá que vou me esbaldar.

Cartazes anunciam a programação musical das casas noturnas de Beale Street, Memphis
Confira a programação musical nos anúncios em cavaletes nas calçadas e use o ouvidômetro para decidir o que vai ver
Veja também:
Onde ouvir música em Nashville - por dentro dos honky tonks
Onde ouvir música em Nova Orleans - Jazz e outras maravilhas


Beale Street na palma da mão
Se você for do tipo organizado, que gosta de tudo planejadinho, não precisa ficar à mercê desse método artesanal do ouvidômetro.

O aplicativo gratuito oferecido pela Downtown Memphis Comission informa sobre o calendário das apresentações musicais — a tempo de fazer uma pesquisinha básica na internet pra ver as referências sobre os artistas e decidir o que quer assistir.

O app também fornece informações sobre a história da Beale Street — ótimo para um tour autoguiado —, dicas de bares, lojas e restaurantes.

Beale Street app para IPhone
Beale Street app para Androide


BB King's Blues Club, Beale Street, Memphis
A BB King's Blues Club All Star Band em ação e o letreiro do clube,um dos cartões postais de Beale Street
Onde ouvir música em Beale Street

⭐BB King's Blues Club
🏠 143 Beale Street
🕒 Segundas, terças e quartas, das 11h à meia-noite. Quintas, sextas e sábados, das 11h até 1h da manhã. Domingos, das 9h à meia-noite.

Aberto em 1991 e batizado em homenagem à lenda da voz e da guitarra, o B.B. King’s Blues Club de Memphis pode até ser turístico demais — eu gostei mais do astral da filial de Nova Orleans — mas é daquele tipo de lugar que a gente tem que bater o ponto.

Essa é a casa-mãe da rede que se espalha por várias cidades americanas, uma espécie de Hard Rock Café do Blues, bem mais autêntico, com “elenco próprio”( bandas da casa), boa comida — é possível que haja gente que vá a Memphis para comer, mas este, definitivamente, não foi o meu caso — e serviço profissional (a.k.a eficiente, mas frio).

O repertório das atrações do B.B. King's blues Clube tem Blues, Rock’n’Roll, Southern Rock, Rhythm'n'Blues, Soul e Funk.

BB King's Blues Club, Beale Street, Memphis
O BB King's Blues Club sempre atrai muito público, mas a casa é grande e não há muita dificuldade de encontrar um cantinho pra ver os shows
O espaço do BB King’s Blues Club é bem grande, com esquema de balcão e mesas no salão principal e mais um mezanino. Mas, se não quiser arriscar ficar de pé, eles aceitam reservas.

O clube vive lotado, especialmente na hora das apresentações da BB King’s Blues Club All Star Band, uma das atrações cativas da casa, que geralmente encerra o programa da noite, várias noites por semana — os caras fazem mesmo um show muito competente.

Outro cara que vi no palco do BB King’s Blues Club foi Memphis Jones, que também é atração cativa e faz um show tipo “didático”, com repertório que percorre a história musical da cidade, com direito a muitas historinhas sobre as canções.

Se você entende bem inglês — com sotaque do Sul — e quer fazer um tour musical, as apresentações de Memphis Jones podem ser uma aula divertida. Ah, sim, e não se esqueça que músico ruim não vai pra Memphis, então o cara manda direitinho.


Show de Blues no Rum Boogie Cafe, em Beale Street, Memphis
Eric Hughes e banda, no palco do Rum Boogie Cafe,
um dos ótimos shows que assisti em Memphis
⭐ Rum Boogie Cafe
🏠182 Beale Street
🕒Domingos, segundas, terças e quartas, das 11h à 1h da manhã. Quintas, sextas e sábados, das 11h às 2h.
💲Depois das 19 horas, são cobrados US$ 5 de couvert, adicionados à conta.

Bati ponto no Rum Boogie Cafe nas quatro noites que passei em Memphis e foi a casa cuja programação musical mais me agradou.

Aberto em 1985, o Rum Boogie também adota o esquema de “elenco próprio” — eu gostei muito dos shows de Eric Hughes e de Vince Johnson & the Plantation Allstars —, serve comida cajun — o gumbo é bem gostoso — e ainda por cima tem áreas para fumantes.

Show no Rum Boogie Cafe de Beale Street, Memphis
O Rum Boogie Cafe tem áreas liberadas para fumantes
O Rum Boogie Cafe se orgulha de estar bem na esquina da Beale Street com a 3rd Street, que, na verdade, é um trecho urbano da mitológica Highway 61, a rodovia por onde os blueseiros chegaram a Memphis ou seguiram até Chicago, nos dois grandes êxodos que levaram 6 milhões de pessoas do Delta do Mississípi para uma vida menos miserável.

Espere ouvir um pouquinho de tudo no Rum Boogie Cafe: tem Blues, Southern Rock, Rock’n’Roll e até Country.

A parede atrás do palquinho mambembe do Rum Boogie Café está decorada com algumas relíquias, guitarras e violões que pertenceram a gente como Elvis Presley, Stevie Ray Vaughan, Bo Diddley, Joe Walsh, Carl Perkins, Booker T e Gregg Allman, só para citar alguns.

Blind Mississippi Morris, uma das maiores atrações de Beale Street, Memphis
Blind Mississippi Morris costuma se apresentar no Blues City Cafe. Ele é uma das grandes feras da gaita de Blues da atualidade
⭐Blues City Cafe
138 Beale Street

O cara que eu mais queria ver em Memphis — depois de Joe Bonamassa, of course — era o gaitista de Blues Blind Mississippi Morris, que é atração cativa do Blues City Cafe pelo menos três vezes por semana.

Morris é uma estrela em Beale Street e além, apontado como um dos grandes da harmônica da atualidade.

Letreiro do Blues City Cafe, em Beale Street, Memphis

Não deu certo (na noite que coincidiu minha estada na cidade e a apresentação dele, a casa fechou até as 22h para um evento particular e eu acabei tomando outro rumo), mas mesmo assim eu gostei da vibe do Blues City Café, um dos mais tradicionais palcos musicais da Beale Street.

Gente do quilate de BB King, Jerry Lee Lewis, Albert King, Charlie Watts (dos Rolling Stones) e o Lynrd Skynrd já deu sua canja no palco do Blues City Café.

O lugar é mais comportado, atrai um público de roqueiros e blueseiros grisalhos — muitos chegam pilotando suas Harley Davidson  — que curtem, além da música, a cozinha tipicamente sulista da casa.

Na noite em que fui ao Blues City Cafe entrei num debate interminável sobre quem merecia mais estar no Hall da Fama do Blues: eu advoguei pelo gênio irlandês Rory Gallagher, os tiozinhos das Harleys eram todos do time de Stevie Ray Vaughan.

No fim, firmamos um consenso: “Todos dois e mais Duane Allman”.

WDIA, a principal rádio de música negra de Memphis
Foto: WMC Acaction News 5
➡️Blues e Rock'n'Roll nas ondas o rádio
Inaugurada em 1947, com repertório Country & Western, a Rádio WDIA acabaria por se converter, nos anos seguintes, na principal emissora de música voltada para o público afro-americanos nos EUA e a campeã de audiência em Memphis — Elvis Presley foi um ouvinte cativo.

Em 1954, considerado o “Ano Zero” do Rock’n’Roll, as ondas da WDIA alcançavam o Delta do Mississipi, o Golfo do México e alguns estados do Meio-Oeste. 

Foi na frequência dessa rádio que a América além-Memphis ouviu BB. King pela primeira vez: o futuro Rei do Blues trabalhou como disc-jockey da emissora durante cinco anos.

A WIDIA continua no ar, orgulhosa de seu slogan "The heart and soul of Memphis" ("O coração e a alma de Memphis") e fazendo sucesso. 

Placa do Patrimônio Histórico do Tenesi assinala o local dos estúdios da rádio de música negra WIDIA, em Memphis
Placa afixada pelo serviço do Patrimônio Histórico do Tenessi em frente aos estúdios da Rádio WDIA
Os estúdios da Rádio WDIA ficam na Union Avenue, em Downtown, a quatro quadras de Beale Street (e a uma quadra do hotel onde me hospedei em Memphis). 

Dá pra sintonizar a rádio pela internet: 1070 WDIA

Além de difundir a música negra dos EUA, a WDIA tem engajamento direto com ações de promoção da cidadania, por meio de um fundo beneficente. Desde o sistema de transporte escolar para crianças negras com dificuldade de locomoção, criado nos anos 50, passando por bolsas de estudo, apoio à prática esportiva e a programas de moradia para a comunidade afro-americano.

A WDIA foi uma das primeiras instituições a trabalhar pela criação do Museu Nacional dos Direitos Civis, instalado no Lorraine Motel, local do assassinato de Martin Luther King.




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