6 de junho de 2018

O que ver no Museu Nacional de Belas Artes

Salão dedicado à pintura brasileira do Século 19, no MNBA
Ele não tem uma Mona Lisa, uma Guernica. Nem mesmo um Abaporu, a obra-símbolo do nosso Modernismo que brilha em Buenos Aires. Mas o que não falta é o que ver no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro.

Ele é a visita indispensável para quem quer compreender os caminhos trilhados pela arte brasileira, especialmente a pintura — e mesmo sem guernicas e monas lisas no acervo, me deixa sempre com uma pontinha de orgulho e os olhos muito bem saciados.

O Museu Nacional de Belas Artes é um velho amigo cuja casa eu frequentei com assiduidade. Um vizinho de trabalho que me contava histórias de um país que tateou um bocado nas pegadas alheias até explodir na genialidade de Candido Portinari, Di Cavalcanti, Lasar Segall e Tarsila do Amaral.

Yes, nós temos mulheres na pintura - e elas são geniais, como provam o Autorretrato, de Tarsila do Amaral (esq) e a Costureira, de Djanira
Ah, sim, porque temos Tarsila, Djanira, Tomie Ohtake, Anita Malfatti. Uma constelação de mulheres talentosas e reconhecidas que surpreende e desafia a tradição machista do Brasil — e isso eu também aprendi no Museu Nacional de Belas Artes.

Este post é um convite: visite o meu velho amigo. O Museu Nacional de Belas Artes fica na Cinelândia, Centro do Rio, com metrô e VLT na porta e ingressos a preços camaradas (R$ 8) — ficou sem desculpas, né? Então vambora passear no MNBA:

A preocupação com o desmatamento já aparecia na tela Vista de Um Mato Virgem Que Se Está Reduzindo a Carvão, pintada em 1879 por Félix Émile Taunay
O forte do MNBA são as obras de artistas brasileiros do Século 19 e Século 20. O museu tem mais de 70 mil peças e conta com sessões dedicadas à arte de arte europeia e africana, exemplares de arte sacra colonial e arte contemporânea. Mas é a coleção de pintura brasileira desses dois períodos que torna o seu acervo tão especial — considerado o mais importante do país.

Essa parte da pinacoteca está organizada em duas grandes sessões (Coleção do Século 19 e Galeria de Arte Brasileira Moderna e Contemporânea, essa disposta em dois andares do museu) exatamente para que o visitante possa percorrer essa linha do tempo, apreciando as variações de estilo, mas também da temática — observar as mudanças no que era considerado “assunto” para uma tela, com o passar do tempo, é uma grande aula de história social.

Duas visões d'A primeira Missa no Brasil. Acima, a obra de Victor Meirelles, de 1861. Abaixo, a versão de Candido Portinari, de 1948


⭐ O Século 19 no Museu Nacional de Belas Artes
A pintura brasileira do Século 19 tinha um apego imenso aos “grandes fatos”. O espaço para as cenas do cotidiano existe — como provam as obras de Debret e de vários de seus companheiros da Missão Francesa que aportou no Brasil em 1816 — mas a estrela das telas é a efeméride e é muito raro ver o povo dentro daquelas molduras, a não ser como figuração.

Duas exceções que chamam a atenção são os quadros Retrato do Intrépido Marinheiro Simão, Carvoeiro do Vapor Pernambucana (1853), de José Correia de Lima, e Retrato de Manuel Correia dos Santos, Mestre de uma Sumaca (1839), de August Muller.

Em meio a cenas de coroações, desembarques reais e poses solenes de altos dignitários em trajes de gala, é surpreendente encontrar o rosto negro de Simão e o torso nu e meio suado do marujo que conduz sua embarcação.

A Batalha dos Guararapes, tela monumental que Victor Meirelles levou quatro anos para concluir (1875-1879)
Também é surpreendente encontrar o desmatamento como preocupação do barão Félix Émile Taunay, professor da Academia Imperial de Belas Artes, como prova a tela Vista de Um Mato Virgem Que Se Está Reduzindo a Carvão, pintada em 1879.

Os destaques da coleção do Século 19 são obras que a gente já conhece desde os primeiros livros escolares. São cenas históricas, tão ao gosto do neoclassicismo em voga naquele tempo. Quem nunca viu uma reprodução de A Primeira Missa no Brasil ou d'A Batalha dos Guararapes, ambas de Victor Meirelles, ou de A Batalha do Avaí, de Pedro Américo?

A Batalha do Avaí, de Pedro Américo (1877) - tão grande que quase não cabe no quadro da minha câmera 😊
Ao lado dessas cenas épicas aparecem as idealizações de um passado idílico, tão ao gosto do romantismo, outra escola que marcou o século 19. 

Como no Brasil não tivemos cavaleiros andantes que matassem dragões para homenagear em nossas telas — e em nossa literatura — os heróis da terra são os indígenas, como a Iracema pintada em 1884 por José Maria de Medeiros, ou o Último Tamoio, obra de Rodolfo Amoedo.

E o baiano Amoedo entra em cena na hora certa: quando a gente começa a achar a pintura brasileira do Século 19 um pouquinho empertigada demais — e era mesmo, em geral — sua tela Estudo de Mulher é como um sopro de vento forte que varre a pólvora das batalhas penduradas em volta e nos leva para uma alcova, uma cena íntima e cheia de luz.

Pedro Américo: A Carioca (1882) e Rabequista Árabe (1884)
Estudo de Mulher (1884), do baiano Rodolfo Amoedo, meu quadro preferido na coleção do Século 19
O Último Tamoio (1883), também de Amoedo

Parece que é uma senha, pois, a partir daí, até mesmo os circunspectos Victor Meirelles e Pedro Américo começam a revelar sua face menos grandiloquente. Gosto especialmente de A Carioca e de Rabequista Árabe, ambas de Américo — que continua acadêmico pra caramba, mas já mais perto do cotidiano.

Além do meu conterrâneo Rodolfo Amoedo, outro cara que dá gosto ver na galeria do Século 19 do MNBA é Eliseu Visconti —que o maior crítico de arte do Brasil, Mário Pedrosa, descreveu como “o nosso primeiro moderno”.

A academia vê o povo brasileiro: Retrato do Intrépido Marinheiro Simão, Carvoeiro do Vapor Pernambucana (1853), de José Correia de Lima, e Retrato de Manuel Correia dos Santos, Mestre de uma Sumaca (1839), de August Muller 

Jean-Baptiste Debret: Estudo para Sagração de Dom Pedro I
Visconti, italiano que imigrou menino, saiu dos cafundós de um cafezal para se tornar um dos pintores mais importantes do país, o maior impressionista que essas terras produziram — além de ter tido um flerte seríssimo com a Art Nouveau, sendo considerado o introdutor desse estilo no Brasil. 

O acervo do MNBA tem várias obras dele. A mais famosa é Gioventù (“Juventude), mas eu também gosto imensamente de Recompensa de São Sebastião.

Eliseu Visconti também se destacou como designer/decorador e foi responsável pelas pinturas que decoram o Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Eliseu Visconti, "nosso primeiro modernista": Gioventù (1898), considerada sua obra-prima, e o escancarado flerte com a art nouveau em Recompensa de São Sebastião
⭐O Século 20 no MNBA
Não há complexo de vira-latas que resista a uma tela de Tarsila do Amaral, essa gênia da raça, artista que cabe perfeitamente em qualquer grande museu do mundo  — como a mostra que estava bombando  no MoMA, em Nova York, até o começo deste mês.

Ela é autora de coisas arrebatadoras como O Boi na Floresta (do MAM-BA), O Abaporu (do Malba) e do belíssimo Autorretrato (também conhecido como Le Manteau Rouge), tela que é um dos destaques da Galeria de Arte Brasileira Moderna e Contemporânea do Museu Nacional de Belas Artes. 

Café, de Candido Portinari (1935)

Só o Autorretrato de Tarsila já valeria uma visitinha ao MNBA, mas tem muito mais para ver entre as 170 obras de arte brasileira moderna e contemporânea do museu. Meu xodó é o trabalho dos artistas do Século 20, que fica exposto no térreo do Museu. Os contemporâneos ficam no primeiro andar.

Veja primeiro a sessão dedicada ao Século 19, depois desça as escadas para entrar em outro país, tecido a partir de todas as rupturas pregadas especialmente a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 e quando voaram pela janela os cânones acadêmicos, as temáticas dos salões elegantes e as camisas de força de uma europeização forçada e descabida. Tem como não amar o Modernismo Brasileiro?

A brejeirice das Bandeirinhas, de Volpi (1969), e a angústia de Êxodo, de Lasar Segall (1949)
Colonos, de Di Cavalcanti (1944)
Entre os nossos modernos, eu morro por Candido Portinari. A obra mais conhecida dele no acervo do MNBA é Café, considerada um prenúncio do grande muralista que ele acabaria se provando — como atestam os painéis de Guerra e Paz, que decoram a sede da ONU e que eu vi em restauro, no Theatro Municipal do Rio, em 2010. Mas o que dizer da versão de Portinari para A Primeira Missa no Brasil?

Outra paixão descabelada na minha vida é Lasar Segall, que está representado no MNBA pela tela Êxodo — a angústia daqueles rostos é indescritível. Mas também tem Di Cavalcanti, Volpi, Pancetti, Guignard... Um deleite.

Dia de Verão (1920), de Georgina Albuquerque, e Vaidade (1913), de Angelina Agostini

9301 (1993), de Fayga Ostrower, e Os Jogos e os Enigmas (1956), de Maria Leontina
Uma coisa que me deixa extremamente feliz quando visito essa sessão do MNBA é a quantidade de mulheres entre os grandes artistas representados no acervo. Você já reparou como são raras as mulheres pintoras com quadros expostos em grandes museus? 

Pois no Brasil não tem disso não — e a coleção do Museu Nacional de Belas Artes prova isso: lá estão Tarsila do Amaral, Djanira, Maria Bonomi, Ana Bella Geiger, Zélia Salgado, Angelina Agostini, Georgina Albuquerque, Beatriz Milhazes, Maria Leontina, Tomie Ohtake... Uma mulherada genial que uma hora dessas vai ganhar um post exclusivo aqui na Fragata (junto com as mexicanas, que também são muitas e espetaculares).

Detalhe do piso do saguão do MNBA
Na minha visita mais recente ao MNBA, em maio, a galeria de Arte Moderna estava fechada para reparos. Segundo apurei com os funcionários, a reabertura seria agora em junho.

➡️ Museu Nacional de Belas Artes
Avenida Rio Branco nº 199, Cinelândia, Rio de Janeiro
Aberto de terça a sexta, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 13h às 18h.
Entrada: R$ 8,00 (estudantes, professores e maiores de 60 pagam meia). Ingresso família (para até 4 membros de uma mesma família): R$ 8,00. Grátis aos domingos.

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