sábado, 14 de março de 2015

Rio de Janeiro:
Uma noite no Theatro Municipal


A escadaria principal do teatro
Música deste post: Va, pensiero (Coro dos Escravos Hebreus), de Giuseppe Verdi

Nunca contei aqui no blog como foi a minha despedida do Rio de Janeiro, quando deixei a cidade, em 2011, para voltar a morar em Brasília. O motivo é que eu julgava ter perdido pra sempre as fotos daquela noite – minha câmera desapareceu na mudança. Por sorte eu tinha baixado as imagens em um pendrive que acabei de encontrar (\o/). Vocês nem imaginam como estou saltitante.

Eu me despedi do Rio de Janeiro de um jeito quase mágico, no Theatro Municipal, uma casa tão bonita que a gente chega a ficar com pena, na hora que as luzes se apagam para o espetáculo começar. No caso, a ópera Nabuco, de Giuseppe Verdi. E aquela foi uma noite muito, muito especial.

Me acostumei a ver o Municipal assim,
misturado ao cotidiano da cidade
Fazia tempo que o Theatro Municipal, com th e tudo, tinha deixado de ser um monumento, pra mim. Era ele — na verdade, a águia dourada que pontifica sobre a Cinelândia, encarapitada na cúpula monumental do edifício — a primeira visão que eu tinha, todo dia, subindo as escadas rolantes do metrô, a caminho do trabalho. Apesar da pose da portentosa ave, ficamos íntimas. Nos dias em que eu estava particularmente feliz, era capaz de jurar que a águia tinha me dado um tchauzinho, lá do alto. E o Municipal acabou se entranhando tanto na minha paisagem cotidiana que eu quase esquecia como ele é espetacular.

Quase tinha esquecido do quanto ele é lindo...
Eu já o conhecia por dentro, mas a proximidade diária prega peças na memória. Foi bom entrar no teatro com aquele meio nó na garganta (da despedida). Eu vivo morrendo de saudade do encantamento que certas coisas me provocaram ao primeiro contato e o Municipal teve a generosidade de me provocar o mesmo enlevo da primeira vez que o vi. E não sei quem é que não fica boba com aquelas escadarias de mármore, a exuberância daqueles tetos e a delicadeza de seus vitrais...

Inaugurado em 1909, o Theatro Municipal é um dos grandes marcos de um Rio "moderno" que emergia a partir da Proclamação da República. Inspirado na Ópera Garnier, de Paris, recebeu em seu palco grandes companhias estrangeiras e estrelas do quilate de Maria Callas, Arturo Toscanini, Sarah Bernhartd, Heitor Villa-Lobos e  Igor Stravinsky.

Na última reforma (entre 2009 e 2010), readquiriu o esplendor que os anos vinham lhe roubando. Desde então, vem mantendo uma programação regular de concertos, óperas e balés e a interessante política de garantir, em todas as apresentações, ingressos a preços populares para as galerias (na casa dos R$ 20)  não vai ser por falta de grana, portanto, que você vai deixar de ver essa maravilha por dentro, percorrer seus salões es escadarias e, ainda por cima, ouvir boa música.

Detalhe do teto e o vitral sobre a escadaria principal

Não satisfeito, o Municipal ainda tem essa outra escadaria linda...
Mas o que mais me encantou naquela noite no Municipal foi o público que apinhava as galerias. Tinha gente de todas as idades, vestida de todos os jeitos, demonstrando os mais variados graus de intimidade com o ritual de assistir a uma ópera. Quando a cortina subiu, todos nós mergulhamos juntos e profundamente na mágica que rolava no palco.

Na poltrona ao lado da minha estava uma senhora bem idosa, vestida com muita simplicidade, que ganhou meu coração. Antes do espetáculo começar, ela me confidenciou que era sua primeira ópera — tinha ido por insistência do filho — e que estava com medo de "não entender nada". Hoje em dia a maioria das casas de ópera projeta legendas para que o público compreenda o que está sendo cantado e encenado, mas acho que nem precisava. No meio do primeiro ato, minha vizinha de poltrona já estava flutuando.

Eu assisti à ópera na galeria — meio longinho do palco,
 mas é ótimo para fotografar :)
A ópera Nabuco, estreada em 1842, conta a história dos judeus escravizados na Babilônia e tem um trecho muito conhecido, o Va, Pensiero, ou Coro dos Escravos Hebreus, que já foi usado como tema de abertura de novela (Os Imigrantes, que a Rede Bandeirantes levou ao ar em 1981/82) e até como hino de partido político. É uma melodia poderosa e profundamente comovente. Pois quando foi cantado o Va, Pensiero (clique para ouvir), o teatro simplesmente veio abaixo, talvez a reação mais emocionada que já vi em uma plateia (e eu vi Paul McCartney ao vivo quatro vezes, tá?).

Enquanto o Municipal lotado aplaudia, minha companheira da poltrona ao lado chorava como um bebê. Me deu um dos sorrisos mais bonitos que já ganhei na vida e um abraço apertado. Depois, enxugando as minhas próprias lágrimas, eu só conseguia me fazer uma pergunta: "Será que eu tenho mesmo que ir embora do Rio de Janeiro?"




Informações práticas

Espetáculos
É bem tranquilo comprar ingressos pela internet para assistir a um espetáculo no Municipal. Consulte a programação no site do teatro. Geralmente, dá para escolher entre receber as entradas em casa ou retirá-las na bilheteria, um pouco antes da apresentação.

Visitas guiadas
Caso a pauta do teatro não case com sua agenda, você ainda pode vê-lo por dentro nas visitas guiadas oferecidas de terça a sexta-feira, às 12h, 14h, 15h e 16 horas, e aos sábados e domingos, às 11h, 12h e 13 horas. É preciso chegar um pouquinho antes do horário para pegar uma senha, pois há um limite de 50 pessoas por visita. Os ingressos custam R$ 10 (R$ 5 a meia entrada). O percurso dura 45 minutos.

Como chegar
O jeito mais prático é de metrô. Uma das saídas da Estação Cinelândia fica bem em frente ao Municipal. Se o espetáculo acabar depois das 23h, quando o metrô para de funcionar, é bem fácil conseguir táxi na área, que também é bem servida por ônibus. 

Theatro Municipal do Rio de Janeiro - Praça Floriano (Cinelândia) s/n.

Do lado de fora, o maestro Carlos Gomes
 contempla o burburinho da Cinelândia
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