quarta-feira, 5 de abril de 2017

4 dias no Rio - uma temporada em Botafogo

Botafogo está longe do topo do ranking turístico — mas é o dono desta paisagem
Quando a gente planeja turistar no Rio, dificilmente pensa em Botafogo, área mais lembrada por seu time de futebol do que por suas atrações. Nos meus tempos de carioca provisória, porém, eu aproveitei demais o bairro de restaurantes simples e anônimos, botequins quase secretos, ótimos cinemas e uma paisagem de cair o queixo — onde você acham que fica aquela enseada traçada a compasso que se abre para a visão espetacular da Urca, do Pão de Açúcar e da Baía de Guanabara?

A vantagem de Botafogo talvez seja essa mesma: discreto e nada muvucado pelo turismo de massas, ele tem um clima animado, sem perder a vibe de vida cotidiana. Pra mim, era sinônimo de lazer: bastava descer do metrô uma estação depois da minha (eu morava na Rua Paissandu, no Flamengo), depois do trabalho, e lá estava eu a caminho de uma farrinha despretensiosa ou de um cineminha de responsa.

Botafogo: numa esquina qualquer da vida real, o cartão postal aparece sem ser anunciado
Passei quatro dias adoráveis hospedada em Botafogo, na semana passada. Fui ao Rio para comemorar meu aniversário (na quinta-feira) e para ver os shows de James Taylor e Elton John (no sábado). Curti muito o reencontro com o bairro, meu velho e querido vizinho, e aproveitei para organizar umas dicas pra você também aproveitar o os encantos botafoguenses.

Os outros posts desta viagem: 

Hospedagem em Botafogo - as vantagens do bairro e minha avaliação sobre o Novotel


Onde comer bem em Botafogo e vizinhança


Casarão do Século 19, sede do Museu Villa Lobos, na Rua Sorocaba, atualmente fechado para reformas
O trânsito agitado do bairro não entrega a idade, mas Botafogo nasceu junto com o Rio de Janeiro, no Século 16, em terras doadas por Estácio de Sá a um de seus parceiros de empresa colonial. Até a chegada da família real portuguesa, em 1808, ele ficou lá, quietinho, uma área rural a uma distância razoável (para o tempo das carruagens) do Centro antigo.

Foi Carlota Joaquina, futura rainha, quem inaugurou a elegância da área, mandando construir um palacete na hoje Rua Marquês de Abrantes, para morar bem longe do Paço e do marido, D. João. Você pode alegar que a Marques de Abrantes, mais conhecida (por mim, pelo menos 😇) como “a Rua do Lamas”, fica no Flamengo. Mas ela deságua no bairro – e o Flamengo sequer era um bairro, em 1810.

Botafogo visto do Morro da Urca. Ao fundo, o Corcovado
Botafogo, a partir daí, virou moda, um refúgio para os nobres e endinheirados do Século 19 que queriam viver longe das ruas sujas do Centro.

Se você leu Machado de Assis, certamente já passeou com ele pelas ruas do bairro onde viveram os gêmeos Esaú e Jacó e Pedro Rubião (de Quincas Borba). Tambem era lá que ficava o colégio interno de onde a recatada Helena foi tirada, aos 16 anos, para conhecer o amor e (será que era mesmo?) o incesto. O escritor, aliás, está sepultado em Botafogo, no Cemitério São João Batista.


O que fazer em Botafogo 

Terraço do shopping: deslumbramento grátis
Babar com a vista do Botafogo Praia Shopping
Quer descortinar uma vista linda sem ter que sofrer e suar a camiseta em uma trilha cascuda ou escadaria? Então você precisa dar um pulo no 8º andar deste shopping center estrategicamente plantado diante da Enseada de Botafogo, de cara para o Pão de Açúcar e o comecinho do Aterro do Flamengo.

Quando eu morava no Rio, sempre dava uma passada por lá para namorar o visual apaixonante — eu morava bem pertinho, no Flamengo. Hoje, o lugar voltou a ser um “programa de viagem” que eu muito recomendo.

O shopping abre das 10h às 22 horas, de segunda a sábado, e das 12 às 21 horas, aos domingos. O acesso é livre e, naturalmente, gratuito. Você só gasta dinheiro se quiser 😃. O endereço é Praia de Botafogo nº 400.

Cenas botafoguenses: o Aterro (sim, ele começa no bairro) e a Enseada vista do Morro da Urca

Assistir a um bom filme
Outro programa que era “de lei” nos meus tempos de carioca era aproveitar a boa programação de filmes da Estação Botafogo (hoje Estação Net) e do Espaço Itaú de Cinema. Esqueça essa história de que ir ao cinema durante uma viagem é perda de tempo. Cinema é sempre um prazer, ainda mais quando a gente tem a chance de ver uma obra que já está fora ou nem vai entrar no circuito comercial.

A Estação Botafogo foi inaugurada em 1985 e virou uma pequena meca para cinéfilos do Rio ou de passagem pela cidade por sua programação de filmes de arte. Muita gente boa aprendeu a gostar de cinema assistindo às sessões da Estação. São três salas de projeção, além de uma videolocadora e um café — onde você pode esticar o programa com o clássico papo cabeça pós filme. Ou não... 😉

Outro lugar bacana para conferir lançamentos e ver produções que vão passar longe do circuito comercial (e da programação da TV a cabo) é o Espaço Itaú de Cinema, inaugurado em 2005. Fui frequentadora assídua, daquelas de ir uma vez por semana, no mínimo, e até hoje tento bater o ponto lá, nas passagens pelo Rio. Tem uma livraria muito bacana, com muitos título dedicados à Sétima Arte, e um café simpático (eu amava o bem-casado servido lá).

Estação Botafogo
Rua Voluntários da Pátria nº 88. Ingressos a partir de R$ 22 (inteira).

Espaço Itaú de Cinema
Praia de Botafogo, 316. Ingressos (inteira): segunda e terça, R$ 28, quarta, R$ 22, de quinta a domingo, R$ 34.

Quer um motivo para incluir os filmes no seu roteiro? Leia este post:
Viagens e Cinema - uma combinação deliciosa



Relaxar nos jardins da Casa de Rui Barbosa


Cercada pelo burburinho da Rua São Clemente, a antiga chácara do Século 19 é um encanto quase escondido de quem passa apressado pela área. O lugar abriga a Fundação Casa de Rui Barbosa, um centro de pesquisas, biblioteca, museu e arquivo.

O casarão neoclássico está imerso em um frondoso jardim, 9 mil metros quadrados de um oásis de silêncio e frescor, muito procurado pelas mães do bairro para passear e brincar com suas crianças — em algumas horas do dia, há quase engarrafamento de carrinhos de bebê.

Sempre que posso, tiro um tempinho para ler no sossego daqueles jardins, especialmente nos dias mais quentes. É como mergulhar em outro século e outro Rio.


Rui Barbosa viveu na chácara entre 1895, quando retornou do exílio na Inglaterra, até 1923, ano de sua morte. Em 1930, comprada pelo governo federal, foi aberta ao público como o primeiro museu-casa do Brasil. O imóvel é apontado como o mais antigo do bairro de Botafogo ainda de pé. A casa foi construída em 1850. 

Entre os ambientes preservados estão o quarto de vestir de Maria Augusta, mulher de Rui, o quarto do casal, o banheiro, a sala íntima, a sala de almoço, o gabinete e a biblioteca.

Casa de Rui Barbosa
Rua São Clemente nº 134. Os jardins ficam abertos de segunda a sexta, das 8h às 18h. Sábados e domingos, das 9h às 18h. O museu-casa funciona de terça a sexta-feira, das 10h às 17:30h. Entrada gratuita.


Passear no Aterro




O Aterro pode ser do Flamengo, mas ele começa (ou termina) em Botafogo. Para quem está no bairro, é só seguir para o Norte, depois da curva da Enseada de Botafogo, e lá está o belo conjunto paisagístico, cultural e de lazer concebido por Affonso Eduardo Reidy.

Em 1,2 milhão de metros quadrados, há um pouco de tudo por lá: quadras de esportes, museus (o MAM e o Museu Carmem Miranda), o imenso Monumento ao Soldado Desconhecido (o Monumento aos Pracinhas) e casas de espetáculo.

A instigante arquitetura do Museu de Arte Moderna (MAM), projeto de Affonso Eduardo Reidy
Os traços finais do Aterro saíram da prancheta da arquiteta Lota Macedo Soares — recentemente retratada no filme Flores Raras. O paisagismo tem a marca do genial Burle-Marx, que usou plantas de todas as partes do mundo para compor um conjunto exuberante e belíssimo.

A Enseada de Botafogo (esq), os edifícios da Avenida Rui Barbosa, endereços caros e disputados (centro) e o Aterro, vistos do Morro da Urca
Tive a felicidade de morar a menos de um quilômetro do parque quando aconteceu a florada das coryphas, palmeiras originárias do Sri Lanka que só desabrocham uma vez, entre 40 e 80 anos de idade. Um espetáculo com mais de um milhão de flores em cada exemplar.

Caminhar pelo Aterro é um programa gostoso (só evite fazer isso à noite) e grátis que é a cara do Rio de Janeiro. A praia costuma lotar nos fins de semana, mas eu não recomendo que você mergulhe naquelas águas, muito poluídas.


Esticadas pelas redondezas
Botafogo fica em uma posição estratégica para quem quer curtir os encantos do Rio. Da estação do metrô do bairro, você estará a apenas uma parada de Copacabana (Estação Cardeal Arcoverde) e a quatro paradas de Ipanema/Arpoador (Estação General Osório).

Além disso, estará a apenas 5 km do Jardim Botânico, a 4 km do Parque Lage e da Lagoa Rodrigo de Freitas e a 8 km do novo Boulevard Olímpico, complexo de museus e atrações na antiga zona portuária, revitalizada para os jogos. O Bairro da Urca, a Praia Vermelha e o Bondinho do Pão de Açúcar estão a cerca de 3 km.

Olha só esses passeios que super combinam com a hospedagem em Botafogo:

Mergulhar na maré calminha da Praia Vermelha


A paisagem e as águas calmas são os grandes trunfos da Praia Vermelha
Pequena e aconchegada entre os morros da Urca e o Babilônia, essa enseada de águas mansas e profundas era a minha piscina preferida no Rio de Janeiro. Para quem está em Botafogo, ela é o banho de mar mais próximo – infelizmente, o Flamengo e a enseada de Botafogo são figurinhas carimbadas na lista de praias impróprias.

Não espere um desfile de corpos sarados nem nada muito chique. A paisagem e as águas geladinhas são o grande trunfo da Praia Vermelha. Prefira ir com a maré baixa, para poder boiar tranquila, sem o solavanco das marolas, e para aproveitar a faixa de areia mais vasta. A praia costuma ficar lotada de famílias nos fins de semana e feriados e, quando a maré sobe, encurta muito o espaço para esticar a canga ou acomodar a cadeirinha. 

A Praia Vermelha vista do Morro da Urca
Essa praia não tem quiosques, como as mais badaladas, mas é possível alugar guarda-sol e cadeiras em pequenas barracas, que também vendem bebidas. Se bater uma fominha, sempre tem um ambulante vendendo sanduíches, salgados e, claro, os indefectíveis Biscoitos Globo, a comida oficial das praias cariocas.

Como chegar: da Enseada de Botafogo à Praia Vermelha são apenas 3 km de distância. Recomendo que você vá de Uber (um gasto na casa dos R$ 8) ou táxi, pois não há ônibus diretos ligando os dois pontos e seria preciso fazer baldeação perto da Avenida Pasteur.

O charmoso bairro da Urca


A Urca é sossegada e tem essa vista linda para Botafogo e o Aterro
Se você olha no mapa, vai ver que o bairro fica em uma península, ocupando uma faixa de terra à beira-mar e escondida atrás dos morros da Urca e do Pão de Açúcar. Isso significa que só vai à Urca quem quer ir até lá, pois a área não é passagem para lugar nenhum.


Essa característica garante um sossego raro na Zona Sul do Rio e que combina muito bem com as ruas fartamente arborizadas, onde predominam os sobrados e prédios baixos, de três ou quatro andares.

No bairro predominam os prédios baixinhos e os sobrados. As fachadas em enxaimel são comuns na Urca 
Se você gosta de arquitetura, aposto que vai curtir ainda mais o bairro, onde persistem muitas casas e prédios de apartamentos em estilo Art Déco e fachadas em enxaimel (com traves de madeira aparentes, como é típico da Normandia), que devem ter sido moda na Urca, já que aparecem com bastante frequência.


A prainha do antigo Cassino da Urca
Gosto de caminhar pela Urca à beira-mar, de me maravilhar com a vista do outro lado da Baía de Guanabara — o bairro fica de cara para a Enseada de Botafogo e o comecinho do Aterro. É de lei encerrar meu passeio repetindo um programa clássico e imperdível, que é paradinha na mureta do Bar Urca para tomar uma cerveja sempre muito gelada, acompanhada de bolinhos de bacalhau sempre perfeitos e uma casquinha de siri bastante respeitável.

Como chegar: o Bar Urca fica a 4 km da Enseada de Botafogo. O ônibus 581 (Circular), que passa na Avenida Lauro Sodré, tem uma parada em frente à famosa mureta. De táxi ou Uber você gasta pouco e poupa a caminhada até o ponto de passagem do ônibus.


Ver o Rio do alto, na Urca e no Pão de Açúcar


Toda a beleza do Rio vista do alto do Pão de Açúcar
Depois de tanto suspirar com a vista da Enseada de Botafogo para os morros da Urca e do Pão de Açúcar, é quase inevitável o desejo de “atravessar o espelho” e contemplar a paisagem reversa, que é o Rio visto do alto de seus cumes mais famosos.

Não fosse o preço salgado (R$ 76), eu recomendaria a subida à Urca e ao Pão de Açúcar como um programa para ser feito sempre. Já comentei aqui no blog como é bonito assistir ao pôr do sol lá no alto e depois ver a cidade aos nossos pés desenhando suas curvas nas luzes de mercúrio que vão acendendo aos poucos.

É um programa para ver muito do Rio, da Baía de Guanabara das montanhas. Lindo além das palavras.


A Baía de Guanabara vista da Urca
Bondinho do Pão de Açúcar
Estação de embarque: Avenida Pasteur nº 520, Urca. Diariamente, das 8h às 20 horas. Bilhetes: R$ 76  R$ 80 (adultos). Crianças até 6 anos viajam grátis. Passageiros entre 7 e 21 anos e com mais de 65 anos pagam meia, assim como nascidos e residentes no Rio de Janeiro (leve um documento que comprove essa condição).

Como chegar: A estação do Bondinho está a 3 km da Enseada de Botafogo. Assim como no passeio à Praia Vermelha, recomendo que você vá de Uber ou de táxi.

Saiba mais sobre esse passeio: Mirantes do Rio - a Urca e o Forte de Copacabana


Curtir o verde do Parque Lage


O jardim de inspiração europeia é ótimo para um piquenique
Quantas metrópoles no planeta desfrutam do privilégio de ter uma floresta no coração de seu traçado urbano? O Rio tem a Floresta da Tijuca e, pra mim, o melhor lugar para curtir o sossego e o frescor daquela exuberância é o Parque Lage. São 52 hectares de mata aos pés do Corcovado— com vista para o Cristo e trilha para chegar ao alto do morro.

Vista para o Corcovado a o célebre cenário de Terra em Transe
O Parque Lage é mais conhecido por seu casarão em estilo eclético, com uma piscina no pátio central, onde Glauber Rocha filmou algumas cenas de Terra em Transe, filme que deu um nó nas cabeças de 1967, ano de sua realização.

Em torno do palacete, jardins de inspiração europeia ainda abrigam a memória do paisagismo implantado pelo inglês John Tyndale, na primeira metade do Século 19, com vários clichês do Romantismo — uma gruta artificial, as ruínas fake de uma velha torre...



A origem do parque foi um engenho de açúcar, cujas terras chegavam às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, mas seu auge foram mesmo os anos 20 do Século passado, quando a cantora lírica Gabriella Besanzoni, casada com o dono da propriedade, promovia concorridíssimos saraus no casarão. 

O Parque Lage combina com piquenique, passeio por trilhas e relax à sombra. Um programa gostoso é tomar o café da manhã de domingo no Bistrô Plage, que funciona no pátio central do casarão.

Como chegar: a entrada do parque fica na Rua Jardim Botânico nº 414. Pegue o ônibus 109 na Rua São Clemente, em Botafogo, que ele deixa você na porta. Abre diariamente, das 8h às 17h (até às 18h durante o horário de verão). O bistrô funciona das 9h às 23 horas (sábado, só a partir das 13h).


O Lago dos Patos

Do aeroporto a Botafogo

O Aeroporto Santo Dumont é vizinho de Botafogo. São menos de 8 km de distância, que você pode percorrer de táxi (R$ 38), Uber (R$ 13) ou ônibus especial (R$ 16).

Se quiser gastar ainda menos, pegue o VLT (bonde) até a Cinelândia e, de lá, siga de metrô até o bairro. Você vai gastar R$ 8,10 (R$ 3,80 no VLT + R$ 4,10  R$ 4,30 no metrô).


Compre o cartão pré-pago Bilhete Único Carioca (R$ 3) na estação do VLT. Ele vale para todos os meios de transporte público do Rio e pode ser carregado com o valor que você quiser e usado em todas as viagens.

Do Galeão para Botafogo, a alternativa mais em conta é o ônibus especial (R$ 16), que passa pela Praia de Botafogo.


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2 comentários:

  1. Olá
    Já pode atualizar que o ingresso do Pão de Açúcar passou pra 80! O metrô 4,30.

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    Respostas
    1. Caramba, o Rio tá rápido no gatilho!! :)

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