domingo, 31 de maio de 2015

Mirantes do Rio:
a Urca e o Forte de Copacabana

As montanhas do Rio vistas do Morro da Urca
Na condição de carioca eventual (já morei na cidade em cinco ocasiões, a primeira delas ainda bem criancinha) eu curto muito aquele olhar íntimo, quase blasê, que os residentes e frequentadores habituais conseguem diante da beleza extraordinária do Rio de Janeiro. Eu já estava super acostumada a entender o Cristo como parte da paisagem da minha rua — a Paissandu, em Laranjeiras, que aliás, desemboca no Aterro — e a receber um “bom dia” da águia do Theatro Municipal, toda vez que subia a escada rolante da estação do metrô, a caminho do trabalho.

Hoje, porém, eu volto ao Rio na condição de turista. É impressionante como a percepção muda, sem a gente querer ou se dar conta, quase que no momento exato em que se troca de CEP. Perdi a intimidade para ganhar de novo aquele olhar maravilhado que só o visitante tem do Rio — não sei se é melhor que a familiaridade, só sei que é diferente. O Rio não é mais minha casa, é o cenário para ser visto quase com sofreguidão, porque, encerrada a folga do feriado, vai voltar a ser memória.

E não há nada melhor para saciar esse olhar maravilhado que os muitos mirantes que a cidade oferece. Eu tenho dois favoritos: a Urca e o Forte de Copacabana.

A cidade vista do Forte

O Forte, na ponta Sul de Copacabana
Já fazia um tempinho que não ia à Urca ou ao Forte. Não são programas pra correria, só pra marcar na lista de atividades turísticas. São feitos para uma contemplação vagarosa, preguiçosa, mesmo – ainda mais que a passagem no Bondinho do Pão de Açúcar está pela hora da morte.

Mesmo quando o dia não está dos mais bonitos,
 a vista do Forte é encantadora
No Forte de Copacabana, é legal chegar pelo menos uma hora antes do pôr do sol, com tempo de ver a paisagem ainda com a luz natural e de conseguir uma “mesa de pista”—junto à balaustrada sobre o mar — na filial da Confeitaria Colombo. A espera pode ser longa, dependendo do dia escolhido para a visita. Em um final de semana ensolarado, prepare-se para aguardar mais de uma hora.

Enquanto aguarda sua mesa, aproveite para explorar o forte. Um pequeno museu funciona lá, mas o pedaço que eu mais gosto é a Cúpula dos Canhões, uma ponta de pedra que avança sobre o mar onde estão instalados dois canhões que compuseram a linha de defesa da Baía de Guanabara até 1987, quando a fortaleza deixou de ter funções militares.

... e o dia começa a se despedir
A noite de Copacabana vista do Forte
O Forte de Copacabana foi inaugurado em 1914, ano de eclosão da I Guerra Mundial, e, em seu tempo, foi considerado a fortificação mais poderosa da América do Sul. Jamais, porém, vivenciou um combate contra forças externas. O episódio mais famoso envolvendo a instalação militar foi o levante dos 18 do Forte, em 1922, eclosão do chamado Tenentismo — movimento da jovem oficialidade do Exército que questionava as oligarquias e as estruturas da República Velha.

A mobilização deveria ter contado com o apoio de outras instalações militares, mas só a guarnição de Copacabana sublevou-se e o forte sofreu pesado bombardeio da Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, na outra ponta da Baía. O movimento terminou com a marcha de 17 militares e um civil pela Praia de Copacabana, detida a tiros por outras unidades militares.

Entre os revoltosos estavam os então tenentes Siqueira Campos, futuro integrante da Coluna Prestes, e Eduardo Gomes, futuro brigadeiro da Aeronáutica e candidato derrotado duas vezes em eleições presidenciais: em 1945 por Eurico Gaspar Dutra e em 1950 por Getúlio Vargas.

A luz desse final de tarde estava meio vangoghiana
Confesso, porém, que os aspectos históricos do forte me encantam muito pouco, diante da contemplação possível quando estou lá. Copacabana ganha outro sentido, quando olho para ela da sombra de uma amendoeira, ouvindo o mar bater nos velhos muros da fortificação, e de uma distância exata para ainda intuir a pulsação do bairro, seu burburinho, sem, entretanto, estar imersa no passa passa de gente e automóveis.

As manhãs no Forte até que têm uma luz mais amigável para fotografar a curva da praia, seus edifícios e as montanhas que servem de moldura (o sol nasce de frente para o bairro). Mas eu sempre gostei mais de estar lá no final da tarde, quando a gente vê o sol caindo atrás da paisagem e o bairro vai, aos pouquinhos, acendendo suas luzes. 

A transição vagarosa do dia para a noite, a longa risca vermelha dos faroletes dos automóveis na Avenida Atlântica crescendo em intensidade — quem diria que poderia haver poesia em um engarrafamento? — vão desenhando seu quadro, enquanto o tom azul-lilás dos holofotes que iluminam as muralhas do forte vai se sobrepondo à luz do dia que se despede... É lindo no verão, com céu azul, mas também é perfeito quando o dia faz aquele nubladinho meia boca que, visto do forte, parece paisagem pintada por Van Gogh.


A Cúpula dos Canhões, no Forte 
Forte de Copacabana
Praça Coronel Eugênio Franco nº 1 - Posto 6, Copacabana

As estações de metrô mais próximas são a Ipanema/General Osório (a 1.400 metros) e a Cantagalo (a 1.800 metros). Se você chegar pela General Osório, pode incrementar o passeio fazendo o percurso pela Avenida Vieira Souto, até o Arpoador, e depois atravessar o Parque Garota de Ipanema. Chegando pela Cantagalo, desça a a Xavier da Silveira até a Avenida Atlântica, que também será uma linda caminhada.

O Forte está aberto à visitação de terça a domingo, das 10h às 19h30. Também abre nos feriados. Para ver o Museu Histórico do Exército e as fortificações, o horário é das 10h às 18. A Colombo do Forte funciona até as 20 horas.

O ingresso no Forte custa R$ 6, que precisam ser pagos em dinheiro. Estudantes e maiores de 60 pagam meia entrada.

Niterói, do outro lado da Baía. O edifício amarelo,
em primeiro plano, é a Escola Superior de Guerra, na Urca
Outro lugar fantástico para ver o Rio ao cair da tarde é o Morro da Urca. Sei que a preferência nacional é pela vista do alto do Pão de Açúcar, de onde se pode ver Copacabana e Ipanema, mas por puro bairrismo (como disse, minha última morada no Rio ficava a 800 metros do Aterro), gosto muito de ver esse lado da cidade lá do alto, com Niterói no quadro.

Fazia tempo que não subia até lá e fiquei surpresa com algumas novidades (pra mim, pelo menos), como os toldos colocados no que hoje parece uma praça de alimentação de shopping, no chamado “Cocuruto da Urca”, o cume do morro. Não curti muito a modernagem, menos ainda o som de lambada que estrondava de uma das lanchonetes e que levou um grupo de visitantes ao delírio.

A Avenida Rui Barbosa e o comecinho do Aterro do Flamengo
Ainda assim, a vista lá de cima continua matadora e nem a incrível quantidade de gente que subiu o bondinho na tarde de sábado feiosa conseguia quebrar o encanto – e eu achando que o sol reticente iria desestimular as multidões. Continua sendo muito legal desabar em um banco ou espreguiçadeira e esperar anoitecer, vendo a cidade acendendo as luzes aos pouquinhos.

Subir o bondinho para admirar a Baía de Guanabara é um clássico carioca desde 1912, quando o serviço foi inaugurado, ocupando a honrosa posição de terceiro teleférico do gênero a ser construído no mundo. Imagino o frisson que devia tomar conta dos visitantes dessa época.

Olha o Corcovado lá no horizonte
A fila para ir da Urca ao Pão de Açúcar estava tão grande que dessa vez resolvi deixar o irmão mais alto da Urca pra outra ocasião. A grande maioria do público vem em excursões, numa pressa que não combina com a beleza do lugar — quando você for, prefira ir por conta própria, no seu ritmo, que é muito mais legal.



O Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara
Morro da Urca - a estação do bondinho fica no Final da Avenida Pasteur (nº 520), na Praia Vermelha.

Como chegar
Não tem metrô nas proximidades — a Estação de Botafogo está a mais de 2 km, mas de lá parte o ônibus 513, que vai até à Praça General Tibúrcio, bem pertinho. O lugar é muito ruim de estacionar. Na hora de ir embora, atenção aos taxistas que tentam fechar corridas fora do taxímetro. Pagamos R$ 14 de Copacabana até lá e, na volta, apareceu um lindo se oferecendo para nos levar para o hotel por R$ 40, hahahahaha! Se isso acontecer com você, caminhe de volta pela Avenida Pasteur, que não vai ser difícil achar táxi ou pegar um ônibus.


Horários
O bondinho funciona diariamente, a partir das 8:10h (primeira subida para a Urca) às 21h (última descida da Urca para a Praia Vermelha). Os bondes partem a cada 20 minutos ou quando completam a lotação de 65 passageiros. Mesmo com filas grandes, a espera é curta. O trajeto dura cerca de dois minutos. Acho que nem quem tem medo de altura tem tempo de sentir medo.

Quanto custa
O preço do bondinho é que está de dar calafrios: R$ 62, com meia entrada para estudantes, maiores de 60 e menores de 21 (crianças até seis anos viajam grátis).

A subida no bondinho
Rio de Janeiro - todas as dicas (post índice)




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Um comentário:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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