quinta-feira, 7 de novembro de 2013

No Rio, como os locais

Posto 6: a praia da vizinhança, desde 1962
Estreei como moradora do Rio de Janeiro com um ano e meio de idade. De lá para cá, já tive a alegria de viver na cidade em temporadas diversas (a última delas entre 2009 e 2011), mas confesso minha absoluta incapacidade de encarar toda aquela beleza com o olhar blasê que se espera de uma local. O Rio me encanta, me embasbaca e me hipnotiza, mesmo quando é apenas o cenário de uma tarefa prosaica, tipo ir à padaria ou correr para o metrô, atrasada para o trabalho.

No último fim de semana, fui matar a saudade da cidade. Não planejei nada retumbante, queria apenas a sensação de "volta para casa" que eu vou ter, para o resto da vida, sempre que pisar no Rio. Não me arrisco a fazer um manual sobre como "dominar os paranauês" da carioquice, mas vou compartilhar algumas estratégias que uso pra me sentir em casa no Rio de Janeiro — sem perder o encantamento, jamais.


Jamais vou cansar deste desenho
O roteiro despretensioso e as locações bem conhecidas contribuíram para construir um enredo muito caseiro. Fiquei hospedada na casa de uma amiga, em Copacabana, bairro onde morei pela primeira vez em 1962, na Rua Santa Clara.

Copa foi testemunha do meu primeiro "caldo" no mar e forneceu o sol que produziu as minhas primeiras sardas. Tive um adorável reencontro com aquele jeito low profile da área, com o prazer de bater a sandália rasteirinha nas pedras portuguesas das calçadas meio sem destino, só desfrutando da alegria de ficar à beira mar. Exatamente como fazem os cariocas, a cada minuto de folga.

Despretensioso e dos deuses: o arroz de mariscos do Caranguejo
Porque o segredo de curtir o Rio de Janeiro como um local é andar a pé, jogar a agenda fora e deixar a cidade acontecer. Por mais banal que seja, o que vier sempre será um espetáculo, afinal, o Rio é o Rio.

Como o arroz de mariscos do Caranguejo, restaurante meio boteco, tradicionalíssimo em Copacabana. Passei lá pensando apenas em chope e pastel (a combinação soa paulistana, mas o recheio de caranguejo é carioquíssimo).

O potencial almoço desembarcando na calçada
A fome apertou, porém, e tudo virou um banquete, com lulas, camarões e polvos, cozidos no ponto certinho, e um arroz saboroso como só se encontra nas casas de inspiração portuguesa do Rio de Janeiro. De quebra, a gente ainda dá de cara com os peixes chegando fresquinhos, de Angra dos Reis, e desembarcando na calçada, sem a menor cerimônia (eles também são cariocas, né?)

Estar no Rio como um local é aproveitar a passadinha pelo eterno burburinho da Avenida Nossa Senhora de Copacabana para conferir a programação do Cine Roxi, no letreiro luminoso. Acho cinema de rua um luxo, nesses tempos repletos de salinhas de shopping, com telinhas acanhadas e incompatíveis com o delicioso ritual de comprar o ingresso, esperar no foyer, subir escadas, atravessar corredores, já entrando no clima.

Cinema de rua é um luxo...
Depois de um bom tempo em reforma, o velho cinemão do bairro está um brinco, dividido em três salas, é verdade, mas com muito de seu glamour preservado.

Outro luxo bem local de Copacabana é comprar pão para o café da manhã do dia seguinte na Guerin. No caso, uma bela duma baguette e um pain au chocolat que quase fazem a gente se sentir local em...Paris.

Pequena e cheia de tentações
Claro que dá para comprar o pão de manhã, mas é muito melhor ir lá na véspera e aproveitar a desculpa para fazer a festa com macarons e tortinhas daquelas de rasgar a roupa. A tartelette de amoras, por exemplo, estava de uivar para a lua. Minha amiga Monica também delirou com o mil folhas com creme. Já minha amiga Claudia jura que o melhor da casa é a bomba de chocolate...

Meio padaria, meio confeitaria, a Guerin não tem frescura. Pequena, com alguns banquinhos em um dos cantos, o atendimento é direto no caixa, onde você faz seu pedido, paga e pega as compras no balcão. Mas dá para tomar um café apoiada numa das mesinhas acanhadas e saborear algumas das tentações da casa, se sentindo a mais feliz das mortais.

Mas se a ideia é brincar de ser local, é claro que não pode faltar o binômio praia e boteco. Para isso, está lá o Posto 6, o trecho mais querido de Copacabana, que já me viu desfilar de duas peças de babadinhos, quadriculado em vichy azul claro, aos cinco anos de idade. De lá para cá, muita coisa mudou naquele pedaço, inclusive a largura da faixa de areia, ampliada por uma dragagem,  no final dos Anos 60 — eu era pequenininha, mas lembro das máquinas trabalhando.

A iguaria mais desencanada do planeta
O Posto 6 é desencaneichon total, território de biquíni e havaianas — no máximo um camisetão para atravessar a rua. O que você não quiser carregar, a praia fornece: aluguel de guarda sol e cadeirinha, cerveja gelada nas barracas, biquíni (!), óculos de sol e protetor solar oferecidos pelos ambulantes, chuveiro pra quem não quer  encarar o mar gelado...

E, claro, as comidinhas de praia, como o pastel de carne, o queijo assado e essa verdadeira instituição carioca que são os Biscoitos Globo (pronuncia-se bishcoitossh), de polvilho, doces ou salgados, simples, diretos e inesquecíveis. No Rio, sou capaz de ir à praia e não entrar no mar. Mas jamais volto para casa sem prestar minhas homenagens a essa que é a iguaria mais desencanada do planeta.

O Bunda de Fora, em Copa: longa vida aos botequins cariocas!
 No capítulo boteco, quanto mais obscuro e anônimo, melhor. Boteco carioca que vira moda pode até ficar mais alinhado e asseado, mas perde toda a graça. O bom botequim é aquele que reúne os vizinhos (ai, que saudade do meu, na Praça São Salvador, em Laranjeiras, a dois passos de casa...), onde o garçom sabe seu nome e, se vacilar, te traz a conta anotada num pedacinho de papel de embrulho cor de rosa.

Por recomendação da minha amiga Monica, experimentei o Bunda de Fora, na Rua Souza Lima, e super aprovei. No letreiro, sei lá por que, ele usa o codinome de Café e Bar Aboim, mas no cardápio e até no guardanapo, assume o nome civil na maior desenvoltura. Serve um pastel de carne de responsa e um lombinho de porco assado de primeiríssima. É só chegar, sentar num tamborete instalado na calçada e começar a farra.

Outro boteco muitíssimo aprovado é o Panamá, na Rua Domingos Ferreira, no chamado "Baixo Copa" (trecho entre as ruas Bolívar e Miguel Lemos, atrás da Nossa Senhora de Copacabana). Serve cerveja geladíssima, caipirinha muito bem feita e um pernil assado de uivar para a lua. Como quem vê cara não vê coração, o banheiro do Panamá é limpíssimo, tipo casa da gente. E os preços são pra lá de honestos.

Por falar em pernil e lombinho de porco, os mineiros que me perdoem, mas ninguém assa esse bicho melhor que os cariocas. Sem os requintes da cozinha mineira, com apresentação e preparo típicos de casa de avó, o porco que se come nos botecos do Rio mereceria um tratado gastronômico.

Saboroso e suculento, é a prova do quão sublime consegue ser a despretensão — especialmente quando aparece cercada de pão francês e acompanhada por uma rodela de abacaxi. O sanduba de pernil mais famoso do Rio é o do Cervantes, que já coroou muitas das minhas madrugadas boêmias, mas pode acreditar que há similares na maioria dos bares da cidade.

Cinzeiro portátil: não saia de casa sem ele
Para andar pelo Rio com cara de local, é de bom tom munir-se do acessório da moda (entre os fumantes, naturalmente), que é o cinzeiro de bolso, guindado ao posto de equipamento de primeira necessidade, com a entrada em vigor das pesadas multas para quem joga lixo na rua.

Palito de fósforo, papel de bala e bituca de cigarro jogados no chão estão custando R$ 157. (Se o detrito for uma latinha de cerveja, o infrator morre em R$ 392). O resultado é que calçadas cariocas estão irreconhecíveis, de tão limpinhas. Se você, como eu, tem o péssimo hábito de fumar, compre seu cinzeiro portátil nas lojinhas de quinquilharias da Rua Miguel Lemos e seja feliz: custam R$ 10 e dá para usar como chaveiro :)


Endereços

O Caranguejo 
Rua Barata Ribeiro n º 771, Copacabana, na esquina com a Rua Xavier da Silveira (Metrô Cantagalo)

É famoso pelos pastéis de caranguejo, embora o cardápio de inspiração portuguesa tenha muitos atrativos. Simples, com ares de boteco, anda meio assanhadinho nos preços, mas ainda é uma ótima pedida.

Cinema Roxy 
Avenida Nossa Senhora de Copacabana nº 945, entre as ruas Bolívar e Xavier da Silveira (Metrô Cantagalo)

, depois da reforma, passou a ser operado pela rede Kinoplex, mas conserva a cara de cinema de antigamente.

Boulangerie Guerin 
Avenida Nossa Senhora de Copacabana nº 920 (Metrô Cantagalo)

Uma das atrações da casa é a parede de vidro que permite ao cliente contemplar a fabricação das guloseimas que logo chegarão ao balcão. A massa das tartelettes, levíssima, é pura covardia, pois deixa espaço no estômago para a gente comer meia dúzia.

Cervantes 
Rua Prado Júnior nº 335 (Metrô Arcoverde)

 Fundado na Década de 50, é uma instituição de Copacabana. Seu salão é bem arrumadinho, mas nada se compara ao prazer de traçar um sanduba de pernil com abacaxi, no meio da madrugada, debruçada no balcão que dá para a Rua Barata Ribeiro como fazem os locais. Minha amiga Maria faz altas recomendações à batata frita da casa.


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8 comentários:

  1. Revivi nossos passos de rasteirinhas nas pedrinhas portuguesas de Copa, amei!!!!

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    1. Temos que repetir a farra, Moniquinha. Tem coisa melhor que o Rio? Beijo

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  2. Que bom ver a minha cidade através dos seus olhos.
    Ótimo post!
    Beijos

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    1. Sua cidade é um espetáculo, Jorge. Adoooooro, morro de saudade. Beijos

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  3. Nem sei o que dizer. Post lindo, maneiroooo, super carioca...Me fez voltar ao Rio e querer muito passear por suas ruas. Ainda bem que o Rio me espera em janeiro e vou "voltar para casa" com tu. Ai, saudade!

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    1. Janeiro no Rio, Rosa??? Ai, que saudade!!! Trocamos, né? Eu vou para a Espanha, passar frio. Bjs

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  4. Gostei desse post! Diferente de tudo o que é costume porque são dicas pessoais.

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    1. Obrigada, Elsa. Sempre é bom descobrir pedacinhos das cidades que não estão nos guias. O melhor para isso é bater pernas e manter os olhos atentos. Abs

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