3 de janeiro de 2011

O charme retrô de Montevidéu

Lanchonete na Ciudad Vieja de Montevidéu
Lanchonete na Ciudad Vieja de Montevidéu: cartão de visitas dos anos 50

Faz algumas décadas que o Uruguai deixou de ser a “Suíça da América Latina”. As pegadas da antiga pujança, porém, sobrevivem nas ruas largas e nos edifícios elegantes de Montevidéu, com a clara marca das últimas décadas do Século 19 e das primeiras do Século 20.

As feições da capital uruguaia parecem congeladas num tempo em que senhoras usavam luvas e cavalheiros usavam chapéu.

Banca de engraxate na Plaza Independencia, Montevidéu
Banca de engraxate na Plaza Independencia
Uns dizem que é pura nostalgia. Outros acreditam que foi a simples falta de dinheiro para “modernizar” a paisagem urbana de Montevidéu.

Eu prefiro acreditar que foi por apego à memória e até pela capacidade de rir de si mesmos que los orientales preservaram o charme retrô de sua capital.

Barrio Sur, Montevidéu
Um toque contemporâneo nessas fachadas antiguinhas do Barrio Sur

É inevitável suspeitar que parte dos adereços do passado estão ali como expressão de uma certa auto-ironia: "Já que nós vêem assim, vamos escancarar". Como os Cadillacs em Cuba — antes, marca do bloqueio econômico e da impossibilidade de importar carros novos, hoje ícones do país.

Mas as fachadas centenárias, os automóveis “de colecionador” e a cortesia impecável são traços que fazem de Montevidéu uma cidade única — e sincera.

Museu Torres-García, Montevidéu
A fachada atr-déco do Museu Torres-García, na Calle Sarandí

O charme retrô de Montevidéu é um encanto a mais em uma cidade que vai se revelando aos poucos ao visitante. Um perigo: a gente chega distraída e, quando se dá conta, já está fisgada.

Veja as dicas para curtir (e fotografar muito) os encantos vintage de Montevidéu:

Teatro Solís, Montevidéu
Teatro Solís, eco da Belle Époque em Montevidéu

Onde ver o charme retrô de Montevidéu


A rigor, o sotaque dos anos 20 aos 50 está por toda parte em Montevidéu. As lanchonetes parecem saídas de um filme do imediato pós-guerra, é super comum ver famílias que se divertem juntas — avós, filhos e netos adolescentes — e os casais que chegam, muito bem vestidos e de braços dados para a sessão de cinema, na noite de domingo na Avenida 18 de Julio,

Uma característica adorável de Montevidéu é que todas as pessoas ainda têm rosto e um leve cumprimento de cabeça para o desconhecido com quem cruzamos o olhar é de rigueur.

Montevidéu: Art Nouveu na Cidade Velha e art-déco no Barrio Sur
Art Nouveu na Cidade Velha e art-déco no Barrio Sur: o charme retrô de Montevidéu está por toda parte

Quiosque de jornais em Montevidéu
Os quiosques de revistas e jornais de Montevidéu também têm um sotaque francamente Belle Époque. Este fica na esquina da Calle Ejido com Avenida 18 de Julio, em frente à "catedral" do chivito, a lanchonete La Pasiva — outro baita ícone retrô

Montevidéu é uma cidade doce, que ainda pode colocar cadeiras na calçada ou levá-las ao Parque Rodó, onde os grupos de amigos assistem pacientemente o lento entardecer sub-tropical, numa conversa mansa e sem estardalhaço.

É verdade que Montevidéu tem lá suas esquisitices: antes de começar o filme, os cinemas exibem uma gravação avisando que uma lei municipal proíbe fumar, fazer barulho e cobrir a cabeça (??!!) durante a projeção...

Montevidéu: Calle Ituzaingó e Catedral
A Cidade Velha é o núcleo original da povoação de Montevidéu. Embora a maioria dos edifícios do bairro já tenham a cara do comecinho do Século 20, as memórias da área vão um pouquinho mais longe, como a Calle Ituzaingó, que lembra a batalha dos uruguaios contra os luso-brasileiros, pela libertação da Província Cisplatina, e a Catedral (à direita), que é do Século 18

Mas o que são pequenas excentricidades, comparadas com a profusão de árvores nas ruas, os belos plátanos que formam túneis refrescantes em cada uma das transversais da Avenida 18 de Julio? Ou com um trânsito cordial e a certeza de caminhar sem medo por toda a cidade?

Em que outra capital das Américas ainda se pode sentar num banco de praça, sem neuras, para ler o jornal?

Plaza Constituición, ou Plaza Matriz, onde fica a Catedral de Montevidéu
O sossego da Plaza Constituición, ou Plaza Matriz, onde fica a Catedral de Montevidéu

Que ninguém imagine, porém, uma cidade provinciana ou deserta: a noite de Montevidéu ferve nos bares, restaurantes e casas noturnas. O som das ruas está mais para Rock’n’Roll que para litanias saudosas.

Clubes de jazz, livrarias espetaculares e alguns bons museus mostram que, uma vez cosmopolitas, os orientais não perderam o hábito.

Montevidéu é a prova de que as metrópoles também podem ter a placidez reconfortante que, no fundo, todas as cidades mereciam.

Puerta de la Ciudadela, Montevidéu
A face da Puerta de la Ciudadela voltada para a Montevidéu "nova", na Plaza Independencia

Plaza Independencia
A expressão é clichê, mas é a pura verdade: a Plaza Independencia é o coração de Montevidéu.

A praça mais importante da cidade ocupa o espaço da antiga Cidadela, uma importante fortaleza espanhola, do Século 18, que defendia as muralhas da Montevidéu colonial.


Puerta de la Ciudadela, Montevidéu
A face Oeste da Puerta de la Ciudadela, voltada para a Cidade Velha. À direita, a rua de pedestres Sarandí

Da velha fortaleza, resta apenas a Puerta de la Ciudadela, antigo acesso à cidade amuralhada. Hoje, o portão marca a fronteira entre a Ciudad Vieja (“Cidade Velha”, ou Centro Histórico), a Oeste, e a Montevidéu elegante do final do Século 19 e início do Século 20, com sua larga e arborizada Avenida 18 de Julio, que desfila para o Leste.

Na Plaza Independencia estão alguns dos monumentos mais conhecidos de Montevidéu. No centro da praça estão o monumento e o mausoléu de José Artigas, herói nacional uruguaio que combateu pela independência de seu país. Foi inaugurado em 1923.

Monumento a José Artigas em Montevidéu
Monumento a José Artigas

Também se alinham em torno da praça a modernosa Torre Ejecutiva, sede do governo do Uruguai, o Palácio Estévez (de 1874, hoje sede do Museu da Casa de Governo), antiga sede da Presidência da República, e o Palácio Salvo (1925), gêmeo do Palácio Barolo de Buenos Aires.

O lindo Teatro Solís (de 1856) completa o conjunto, um pouco mais recuado do retângulo da praça.


Fachadas da Cidade Velha de Montevidéu
Fachadas da Cidade Velha de Montevidéu

Ciudad Vieja
A Cidade Velha de Montevidéu ganhou um post só pra ela, mas adianto aqui que o bairro é um passeio muito gostoso. Da Puerta de la Ciudadela, a rua de pedestres Sarandí é o eixo para a exploração da área.

O Porto de Montevidéu visto de um terraço da Calle Sarandí
O Porto de Montevidéu visto de um terraço da Calle Sarandí


Lá estão o Museu Torres-Garcia, artista que eu adoro (quem lê a Fragata já está careca de saber disso 😊), a Plaza Constituición, onde fica a Catedral de Montevidéu e que também abriga uma simpática feirinha de antiguidades, o antigo Cabildo (hoje Museu e Arquivo Histórico Municipal) e o Museu Histórico Nacional.

Um passeio pela Ciudad Vieja de Montevidéu geralmente termina no tentador Mercado do Porto, onde você pode (e deve) experimentar a autêntica parrilla uruguaia.


Barrio Sur, Montevidéu
O Barrio Sur preserva muitas casas térreas do início da ocupação da área

Barrio Sur
À beira do Rio da Prata, o Barrio Sur é o principal reduto do Candombe, o ritmo africano que caracteriza o animado Carnaval de Montevidéu, uma festa que chega a 40 dias de duração.

O Barrio Sur foi a primeira povoação fora das muralhas de Montevidéu e recebeu uma grande quantidade de descendentes de africanos, especialmente a partir da Abolição da Escravatura no Uruguai, em 1842 (quase meio século antes do Brasil).

Abrigados nos conventillos — tipo de moradia em que várias famílias ocupam cômodos de um mesmo imóvel, como nossos cortiços —, os afro-uruguaios preservaram suas tradições e fizeram uma música irresistível, organizados nas Comparsas Lubolas (confrarias de Candombe).


Barrio Sur, Motevidéu
Fala se não dá vontade de morar em uma fofura dessas 😊

Apesar de atrair gente do mundo inteiro para ver e dançar nas llamadas (desfiles) de Candombe, o Bairro Sur tem uma pegada muito residencial, com casinhas térreas antigas — elas são mais velhas que suas feições atuais, claramente do início do Século 20 — alinhadas ao longo de ruas sossegadas, calçadas de paralelepípedos e sombreadas pelos onipresentes plátanos.

Os tradicionais conventillos do Barrio Sur já são cada vez mais raros, principalmente por conta da perseguição e desmantelamento de vários deles durante a ditadura uruguaia, nos anos 70.

A data escolhida para celebrar o Dia Nacional do Candombe, 3 de dezembro, lembra o despejo, dispersão e demolição do Conventillo Mediomundo, que ficava na Calle Cuareim e foi o berço da Comparsa Morenada.

Fachadas típicas do bairro de Cordón, em Montevidéu
Fachadas típicas do bairro de Cordón


Cordón

Boêmio e muito simpático, Cordón também tem uma gostosa carinha retrô que combina às mil maravilhas com bares sem nenhuma frescura, mas que parecem sempre muito animados por grupos de amigos, e com as livrarias e antiquários do eixo formado pelas ruas Paysandu e Tristán Narvaja que eu adorei fotografar pe

Como você já deve ter deduzido, é em Cordón que se realiza a imperdível Feira de Trsitán Narvaja, o mercado de pulgas mais divertido que já visitei.

Bairro de Condón, Montevidéu
Cordón é o lar da famosa Feira de Tristán Narvaja

O bairro é bem antigo, tem origem em uma povoação iniciada no Século 18 fora da cidade colonial amuralhada, misturando casas simples com propriedades rurais e os primeiros moinhos e olarias de Montevidéu.

Dessa origem plebeia, Cordón guarda o jeito desencanado. Ao longo do tempo, porém, seu cotidiano e espírito acabariam profundamente marcados pela instalação na área da Biblioteca Nacional e da Universidade da República, a mais importante do Uruguai.

O calor estudantil é bem evidente no bairro, assim como sua arquitetura marcada por balcões e detalhes em gesso e estuque nas fachadas.


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Um comentário:

  1. Dá vontade de ir rápido conhecer e desfrutar! Deliciosas impressões. Bjo, Campos. Caroll

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