domingo, 30 de abril de 2017

Coyoacán, Cidade do México:
Frida Kahlo e seus vizinhos

As cores de Coyoacán, um bairro que guarda muito de sua alma de antiga aldeia e está profundamente marcado pela memória de Frida, uma de suas moradoras ilustres
Quando a gente pensa em México, Frida Kahlo é a primeira personagem que vem à cabeça. Artista profundamente ligada às tradições populares de seu país, feminista e socialista, ela virou um ícone pop cultuado em todos os cantos. E não tem lugar melhor pra se visitar o universo de Frida do que o lugar onde ela morou praticamente toda a vida, a Casa Azul, hoje convertida em museu.

Mas nem pense em passar pelo o bairro de Coyoacán, onde fica a célebre Casa Azul, apenas para ver o museu de Frida. A antiga aldeia engolida pela metrópole mexicana rende um passeio mais comprido e muito gostoso por suas ruas margeadas por casas térreas coloridas e algumas atrações interessantíssimas.

Cena domingueira em Coyoacán
Por exemplo, o Mercado de Coyoacán, onde você vai provar a autêntica culinária local, e a casa do revolucionário bolchevique Leon Trotski — amigo próximo da artista. Pra completar o passeio, o ingresso do Museu Frida Kahlo dá direito a visitar o imperdível Museu Anahuacalli, idealizado pelo marido da pintora, o genial muralista Diego Rivera, para abrigar sua coleção de arte pré-hispânica.

No extremo sul do bairro fica o legendário Estádio Azteca, onde em 21 de junho do longínquo ano de 1970, um time mágico que tinha Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivelino ganhou por 4x1 da Itália e conquistou o tricampeonato mundial de futebol.

Veja as dicas:


A Casa Azul, hoje Museu Frida Kahlo

Como chegar a Coyoacán

A estação de metrô mais próxima da Casa de Frida é Viveros/Derechos Humanos (Linha 3), a 1,4 km do museu. Ela fica bem pertinho do parque Vivero Coyoacán, um horto florestal onde são desenvolvidas mudas de árvores para replantio em toda a Cidade do México. O horto está aberto à visitação.

Como eu não estava muito animada para caminhar esse 1,4 km do metrô até a Casa de Frida (era meu segundo dia e eu ainda estava me aclimatando à diferença de altitude), peguei um táxi de Condesa, onde estava hospedada. Para uma distância de 7,5 km, a tarifa foi de 120 pesos mexicanos (R$ 20). Na volta, peguei o Uber na porta do Mercado de Coyoacán por 70 pesos (R$ 11,80).


Meu roteiro em Coyoacán 




Museu Frida Kahlo 
Calle Londres 247


Vocês já sabem que sou muito fã de casas-museu, espaços que permitem vislumbrar um pouquinho da existência mais íntima e trivial de pessoas extraordinárias. E eu amei a Casa Azul.

Foi lá que Frida Kahlo nasceu, viveu e morreu, mas o museu é muito mais que um imóvel onde estão preservados os objetos que povoavam o universo da artista. O casarão é personagem, testemunha e companheiro de vida. E ele conta sua história e a história de sua moradora em cada cantinho de jardim e cada detalhe da decoração. Uma obra de Frida, tão importante quanto as telas mais famosas que ela pintou.

O exterior do museu exibe uma série de peças pré-hispânicas da coleção de Diego Rivera

A cozinha de Frida, onde ela preparava pratos mexicanos para convidados do quilate de André Breton, Serguei Eisentein e Leon Trotski
Alguns dos quadros mais célebres da artista estão lá — Viva la Vida e Frida e a cesariana, por exemplo. Também estão lá seus vestidos, muitas fotografias, seus coletes ortopédicos, a cadeira de rodas em frente ao cavalete, em seu ateliê inundado pela luz...

O casarão pulsa com a vida sugerida nos pequenos objetos do dia a dia — uma almofada bordada, o pote de mantimentos vivamente decorado — e nas paixões de sua moradora, como a coleção de ex-votos, pinturas ingênuas encomendadas por fiéis descrevendo as graças alcançadas por intervenção divina.

Frida e a cesariana fala da frustração da artista, que não conseguiu levar adiante suas gestações por conta das sequelas de um acidente de bonde. À direita, a obra mais conhecida de Frida, Viva la Vida

Um retrato de família pintado por Frida, com os avós e pai alemão, a mãe e avós mexicanos e as irmãs Kahlo. À direita, ex-votos da coleção da artista
Frida era profundamente ligada à cultura popular de seu país. Seu casarão e amplo jardim são uma declaração de amor ao México escrita em cores fortes. Os móveis simples, o artesanato nativo e as peças de arte pré-colombiana da coleção de seu marido, Diego Rivera, expressam isso claramente.

Mais sobre Frida Kahlo: a exposição da artista em Brasília

Dicas práticas 
Horários
Museu Frida Kahlo funciona de terça a domingo, das 10h às 17:30 (às quartas, abre às 11h).
Quanto tempo
Descontada a espera na fila, reserve no mínimo uma hora e meia para curtir o museu com calma.
Ingressos
A entrada para estrangeiros custa 200 pesos mexicanos (R$ 33,7) em dias de semana e 220 (R$ 37) nos fins de semana e vale também para o Museu Anahuacalli. 

A Casa Azul é a segunda atração mais visitada do México. Compre ingresso com antecedência ou chegue cedo para pegar a fila da bilheteria, pois há limite diário de visitantes

O quarto que Frida dividiu com Diego
É possível — e recomendável — comprar os ingressos pela internet, assim você escapa da fila da bilheteria. Caso não tenha comprado a entrada com antecedência, procure chegar cedo, pois há o número de visitas é limitado.

Fotografias
Para fazer fotos
no interior do museu, é preciso comprar uma permissão — um adesivo que você deve colar na roupa ou na câmera. Durante a semana, custa 60 pesos mexicanos (R$ 10). No fim de semana, o preço é de 20 pesos (R$ 3,40). Essa permissão também é válida em Anahuacalli.



Fridabus
Se você vai visitar o Museu Frida Kahlo no final de semana, a melhor alternativa é comprar o combo do Fridabus. Por apenas 150 pesos (R$ 25), o bilhete lhe dá direito à visita (sem pegar a fila) à casa de Frida e a Anahuacalli e à viagem de ida e volta entre os museus, em um ônibus especial.

O combo do Fridabus é uma ótima pedida: o ingresso sai mais barato e oferece transporte ida e volta entre a Casa Azul e Anahuacalli
Por que o combo é tão mais barato que a entrada regular? Segundo explicou a funcionária que me “recrutou” na fila, o objetivo é estimular a visita a Anahuacalli, contribuindo para divulgar outras opções no cardápio de atrações turísticas.

São apenas três horários de partida do ônibus (12:30h, 14h e 15:30h) e o serviço está disponível apenas aos sábados e domingos. O programa começa obrigatoriamente na Casa de Frida. Depois da visita a Abahuacalli, o ônibus traz o grupo de volta.

Museu Anahuacalli
Calle Museo 150, San Pablo Tepetlapa – Coyoacán

Inspirado nas construções do povo de Teotihuacán, Anahuacalli é a materialização de um sonho de Frida e Diego
Anahuacalli foi a minha maior surpresa na Cidade do México. Eu tinha vagas informações sobre sua existência e só fui até lá porque comprei o combo Fridabus para escapar da fila inclemente no Museu Frida Kahlo. Hoje eu tenho convicção de que iria me chicotear um bocado se tivesse perdido essa maravilha.

Diego Rivera reuniu um acervo impressionante de mais de 50 mil peças pré-hispânicas
Diego Rivera foi um grande artista, mas também um colecionador aplicado da arte dos povos ancestrais que formaram o México. Ao longo da vida, reuniu mais de 50 mil peças de arte pré-hispânica e seu sonho — assim como o de Frida Kahlo — é que suas obras e suas coleções pertencessem e ficassem acessíveis a todos os seus compatriotas. O Museu Anahuacalli é a materialização desse sonho.

Nos três andares do museu, um mergulho na estética e no imaginários dos povos ancestrais do México


O museu, construído em pedra vulcânica, cita em sua arquitetura as formas e estilo das edificações de Teotihuacán. Diego não chegou a vê-lo pronto, pois morreu seis anos antes da inauguração, em 1963, mas participou ativamente de sua concepção e projeto, no que contou com a luxuosa assessoria do arquiteto americano Frank Lloyd Wright (que projetou o Museu Guggenheim de Nova York).


Detalhes da decoração dos tetos do museu, concebida por Diego Rivera. Abaixo, esboços de alguns murais do artista


São três andares de espaço expositivo, com as salas de cada piso dispostas sempre em torno de um grande salão central, nos quais estão expostas também obras de Rivera, principalmente esboços de seus alguns de seus murais . No quarto piso há um terraço panorâmico. A maior parte do acervo pré-hispânico é de peças da cultura mexica (asteca).



Dicas práticas
Horários
O museu Anahuacalli funciona de quarta a domingo, das 11h às 17:30h.
Quanto tempo
A visita com o Fridabus dura uma hora e quinze minutos. Eu teria ficado mais um pouco, pois o acervo é grande é há muita informação a ser “digerida”.
Ingressos
Entrada para estrangeiros: 90 pesos (R$ 15). Permissão para fotografar: 30 pesos (R$ 5).


Museu Casa de Leon Trotski
Entrada pela Avenida Rio Churubusco 410

Um pacato jardim e o posto de vigia sobre a fachada principal (à direita)
Mais uma casa-museu — desta vez para ficar cara a cara com as memórias de um dos personagens mais decisivos do Século 20. O frio na barriga foi inevitável, especialmente porque minha memória insistia em repassar, cena por cena, O assassinato de Trotski, (1972), o perturbador filme de Joseph Losey que me marcou profundamente, e que jamais tive ânimo de rever.


O quarto de Trotski e Natália Sedova. À direita, meu autorretrato no quarto do neto do casal, Sieva Volkov

A sala onde trabalhavam os assistentes e o escritório de Trotski

O líder comunista Leon Trotski morou nesta casa nos seus últimos quinze meses de vida, entre 1939 e 1940, o epílogo do exílio e da perseguição inclemente movida contra ele tanto pelo regime stalinista da União Soviética como das potências ocidentais que sistematicamente lhe negaram abrigo.


Uma torre de vigia e a casa do guardas (o pavilhão pintado de amarelo). À direita: depois de um primeiro atentado, a varanda foi vedada com tijolos e a fachada principal ganhou uma espécie de guarita de segurança

A cozinha de Trotski e a sala de refeições

Trotski se mudou para Calle Viena, esquina com Morelos, após ter permanecido como hóspede de Frida e Diego. Seu último lar, uma casa modesta, permanece como testemunha de seu cotidiano conturbado.

A varanda que se debruçava para a rua, na fachada principal, completamente vedada, o pequeno pavilhão no quintal, transformado em casa da guarda, e duas torres de observação, construídas sobre os muros, foram o resultado de um primeiro atentado contra a vida do bolchevique, em maio de 1940.

O banheiro e, abaixo, à direita, as gaiolas da criação de coelhos 


A sala onde seus assistentes datilografavam e revisavam seus escritos e seu escritório, no cômodo ao lado — onde ele recebeu o golpe fatal de um quebra-gelo, desferido por Ramón Mercader, em agosto de 1940— falam de sua dedicação à análise política e à observação dos acontecimentos do mundo ao redor.

O cômodo onde Trotski sofreu o atentado final permanece exatamente como estava, com livros e papéis na mesma posição.


As cinzas de Trotski e de Natalia Sedova estão depositadas no jardim
Cercando toda a tensão desse universo está o plácido jardim do revolucionário, onde ele se deleitava em criar coelhos e galinhas, colecionava cactus e onde repousam suas cinzas e as de sua companheira, Natália Sedova, sob uma lápide adornada pela foice e o martelo.

A entrada do museu fica, nos fundos da antiga casa

Dicas práticas
Horário: de terça a domingo, das 10h às 17 horas
Quanto tempo: dá pra ver o acervo com calma em menos de uma hora.
Ingresso: 40 pesos (R$ 6,80). Permissão para fotografar: 15 pesos (R$ 2,50).


Mercado de Coyoacán
Ignacio Allende, s/n (entre as ruas Xicoténcatl e Malintzin)

Um passeio a Coyoacán merece terminar com petiscos "de raiz"
Depois de visitar personagens ilustres de Coyoacán e de explorar as ruas tranquilas do bairro, é hora de completar o mergulho provando comida mexicana “de raiz”. E o lugar perfeito para isso é o Mercado de Coyoacán, a poucas quadras das casas de Frida e de Trotski.

Não espere encontrar um mercado hype e repaginado, como manda a moda mudo afora. O Mercado de Coyoacán é totalmente povão, no melhor sentido da expressão — na estética, nas instalações, frequência e cardápio.

Não espere um mercado gourmetizado, como manda a moda
Frida e Diego foram frequentadores assíduos das antigas instalações, inauguradas em 1921. Desde 1956, o mercado ganhou essa nova sede, construída sobre um antigo tianguis (uma espécie de mercado de pulgas típico do México), a pouca distância da original. Garantem os locais que ele mantém a mesma vibe e tradição. Uma prova disso é que o Mercado de Coyoacán é um dos lugares mais procurados para a compra dos produtos típicos de cada festa popular — dos ingredientes para os pratos aos enfeites.

O mercado ocupa uma quadra inteira. Em seu interior, entre barracas de verduras, carnes e temperos, você vai encontrar também roupas, artesanato, brinquedos — eu quase comprei uma piñata, aqueles recipientes em forma de bicho, muito enfeitados, que se enche de doces e prendas e que é explodido por fogos de artifício nas festas locais.

Carnitas feitas na chapa, à vista do freguês. Essa porção da foto era de costela de porco
No centro disso tudo, a versão roots da praça de alimentação oferece mesas coletivas cobertas por toalhas de plástico, banquinhos de pernas bambas, imensas travessas com temperos (pra você "customizar" seu prato) e a azáfama de atendentes das barracas, que se desdobram para servir antojitos (tira-gostos) de todos os tipos — inclusive os populares chapulines (gafanhotos tostados), sucesso de boteco desde tempos pré-hispânicos.

Eu me abanquei em uma mesa de El Guero de Coyoacán, restaurante popular instalado no mercado desde sua reinauguração, em 1956, para provar as tentadoras carnitas, porções de carne desfiada, passada na chapa, acompanhadas por tortilhas e um caleidoscópio de molhos — todos muito ardidos, naturalmente.

Merengue e tamarindo com pimenta: gosto de quermesse
Depois de me acabar nas carnitas (e gastar menos de 60 pesos, ou R$ 10) na pantagruélica refeição, tratei de explorar os tabuleiros de doces dos ambulantes que ficam do lado de fora. Ainda estou na dúvida se gostei mais do doce de tamarindo com pimenta ou do merengue com limão (servido em porções industriais, na casquinha de sorvete). Sei lá se foi o acolhedor e ingênuo clima de quermesse, só sei que com pimenta e tudo, eu me senti criança outra vez...

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