31 de outubro de 2018

Roteiro no Centro Histórico de Salvador

O Pelourinho é o encanto mais conhecido do Centro Histórico de Salvador. Mas está longe de ser o único
Já fazia um tempinho que eu não passeava pelo Pelourinho e arredores. Pois tive uma agradável surpresa. Aproveitei a semaninha de férias (pra ver o espetacular show de Roger Waters, na Fonte Nova) e fiz um roteiro no Centro Histórico de Salvador. Adorei o reencontro.

O Centro Histórico é, como conjunto, é a maior atração turística de Salvador. E vai muito além dos elementos de pedra e cal que contam a trajetória da primeira capital do Brasil.

As ladeiras e ruelas do Centro Histórico de Salvador — com seu calçamento de pedras irregulares e margeadas por fachadas nos mais diversos graus de conservação — têm também uma imensa importância simbólica: foi lá, no coração da cidade, que muito da cultura que herdamos dos africanos sobreviveu e vicejou e se preserva ainda hoje.

Este roteiro tem aproximadamente 2,5 km e foi pensado para ser feito a pé — carro no Centro Histórico de Salvador é um transtorno. 

Salvador não chega a ter as 365 igrejas cantadas por Caymmi, mas elas estão por toda parte no Centro Histórico. O Rosário dos Pretos (esquerda) e São Francisco (à direita) estão entre as mais encantadoras
Pode ser dividido em dois (da Conceição ao Pelourinho e de lá até Santo Antônio Além do Carmo),  especialmente se você quiser visitar os museus e igrejas do trajeto com calma.

É um roteiro que também pode ser feito em um único dia, se você sair de manhã cedo (aproveite para almoçar no Pelourinho, que é o meio do caminho, e fugir da caminhada na hora mais quente do dia).

Segurança no Centro Histórico de Salvador
A segurança em todo o Centro Histórico de Salvador, durante o dia, me pareceu bem OK. Há policiamento por todo o percurso, caminhei bem tranquila, parando para fotos, sem qualquer incidente.

Uma reclamação frequente dos turistas em Salvador é o assédio dos vendedores de lembrancinhas. Eles estão lá, sim, mas lembre-se que é gente que está tentando trabalhar e sobreviver. 

Eu sei que pra mim é fácil falar: sou da cidade, aviso logo que não sou turista e desarmo os mais insistentes. Mas, em geral, um “não, obrigada”, dito de maneira firme e educada, costuma bastar. Se parecer intimidada ou vacilante, a chance de algum chato grudar em você é maior.

Em um roteiro pelo Centro Histórico de Salvador, prepare-se para clicar paisagens grandiosas e detalhes delicados. À esquerda, o Forte de São Marcelo e o azul da Baía de Todos os Santos, vistos da varanda do Palácio Rio Branco. À direita, uma fachada no bairro de Santo Antônio Além do Carmo
Preste atenção à bolsa, às câmeras e celulares. Não dê bobeira, prefira as ruas principais e movimentadas, não caia em conversa fiada — tipo alguém sugerindo que você acompanhe até alguma loja/restaurante ou seja lá onde for.

Atenção ao calor - vista roupas leves. Lembre-se que Salvador é sempre muito quente.

As temperaturas mínimas na cidade raramente ficam abaixo dos 23° C, com médias sempre namorando os 25°C ou 26°C.

Levar uma garrafinha de água também é boa ideia.

Como acabei de dizer, boa parte desse roteiro passa por ruas com calçamento de pedras irregulares, chamadas de “pé de moleque”.

Sapatos com salto, mesmo em alturas moderadas, vão ser sempre um estorvo. Prefira calçados com solado flexível, que fiquem bem presos no pé, como tênis ou papete.

E agora, bora passear, pois tem muito lugar lindo pra ver no Centro Histórico de Salvador. Todos os pontos citados no roteiro estão no mapa abaixo.



Conceição da Praia e Praça Cairu
A área da Conceição da Praia é muito antiga e tradicional — é uma ocupação que remonta à fundação da cidade, em 1549 — mas pede atenção à segurança.

Se você for de carro, a Rua da Conceição é uma excelente opção de estacionamento (o talão da Zona Azul para 6 horas custa R$ 6).

A Igreja da Conceição da Praia, do Século 18, foi construída
 no mesmo local da capelinha erguida por Tomé de Sousa,
quando chegou para fundar Salvador, em 1549 
⭐Igreja da Conceição da Praia
Aberta diariamente das 7h ao meio-dia e das 14h às 17 horas. Entrada gratuita.

Antes de subir o Elevador Lacerda para a Cidade Alta, onde estão as atrações do Centro Histórico, vale muito a pena visitar a bonita Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, do Século 18, que, com certeza, vai estar bem em frente à sua vaga de estacionamento.

A Conceição foi construída no mesmo local da capelinha de taipa erguida logo após a chegada de Tomé de Sousa, o primeiro governador-geral do Brasil, fundador de Salvador.

O interior da Igreja da Conceição da Praia
Um detalhe interessante sobre a construção da Conceição da Praia é que a igreja veio prontinha de Portugal. Suas pedras, já talhadas e numeradas, serviram de lastro para as embarcações que cruzaram o Atlântico da Metrópole até Salvador.

Nossa Senhora da Conceição é padroeira do estado da Bahia e no seu dia, 8 de dezembro, é feriado celebrado com uma tradicional festa de largo, com barracas de bebidas e comidas, muito samba, parque de diversões e procissão.

Tem que olhar pra cima e pra baixo: à esquerda, a decoração do forro do nave da Conceição. À direita, o piso em mármore
Também é da porta da Conceição que parte o tradicionalíssimo cortejo da Lavagem do Bonfim.

No interior da igreja, em castiço barroco, preste atenção à pintura do forro da nave central, ao órgão de tubos, à elegância do altar-mor e ao piso em mosaico de mármore.

Mercado Modelo: aproveite a vista do terraço, no primeiro andar
⭐Mercado Modelo
Praça Visconde de Cayru, s/n, Comércio. Aberto diariamente das 9h às 18 horas.

Uma caminhada de apenas 300 metros separa a Igreja da Conceição de um dos maiores hits turísticos da Bahia, o legendário Mercado Modelo, na Praça Cayru.

Eu confesso que tenho uma relação contraditória com o Mercado Modelo. Tenho carinho, acho importante que ele exista, mas a cada visita eu me interesso menos pela mercadoria à venda posando de “artesanato” — muita coisa industrializada, pasteurizada e sem personalidade.

O artesanato do Mercado Modelo já não é tão atraente, mas vale dar uma passada por lá
A visita ao Mercado Modelo, pra mim, vale mais pra sentir um certo clima de Bahia e para ver a vista linda para a Baía de Todos os Santos — no terraço do primeiro andar, compartilhado pelos restaurantes Maria de São Pedro e Camafeu de Oxossi.

A comida dos dois restaurantes não é grande coisa, os preços são salgados (um coco custa R$ 5, contra os R$ 2 cobrados pelos vendedores que ficam na porta do mercado).

O melhor ângulo para clicar o Elevador Lacerda está na Praça Cayru, em Frente ao Mercado Modelo
Outro ponto a favor do Mercado Modelo: da praça em frente você tem um dos melhores ângulos para fotografar o Elevador Lacerda e o “dente” da encosta da Cidade Alta, com suas construções históricas.

⭐Elevador Lacerda
Praça Cayru s/n. Funciona diariamente das 7h às 23 horas. A passagem custa R$ 0,15 (isso mesmo, apenas 15 centavos).

O Lacerda é o caminho mais rápido parar subir à Cidade Alta. À direita, a fila diante de uma das cabines do elevador
Depois da visita ao Mercado Modelo, atravesse a Praça Cayru a caminho da Cidade Alta. Sim, o Elevador Lacerda é um daqueles raros casos de meio de transporte que virou atração turística, um dos ícones mais reconhecíveis de Salvador.

O Lacerda funciona desde 1873 e ganhou suas formas art-déco em uma reforma de 1930.

Conheço um monte de gente que se decepciona com o “passeio” no elevador e, por isso, vou logo avisando: ele não é panorâmico e tem função estritamente prática: ajudar os baianos a subirem os 72 metros de desnível entre o Comércio e a Cidade Alta.

A vista da parte alta do Elevador Lacerda: o Palácio Tomé de Sousa e o conjunto arquitetônico da Misericórdia
Mas quando você chegar lá no alto do elevador, dê uma paradinha no corredor envidraçado que leva à saída. A vista é bem legal.

Quase 30 mil pessoas usam o Elevador Lacerda todos os dias, mas é raro encontrar uma fila grande para acessar uma das quatro cabines. Aproveite a passagem baratinha, a tradição e a praticidade: são apenas 30 segundos de percurso.

Tente não se apaixonar: essa é a Baía de Todos os Santos vista da balaustrada da Praça Municipal, em Salvador
Praça Municipal
Pronto, você já subiu o Elevador Lacerda e entrou oficialmente no território do Centro Histórico de Salvador, desembarcando na Praça Municipal.

Como primeira parada, é de rigueur debruçar na ⭐balaustrada sobre a encosta e babar por vários minutos diante da visão exuberante da Baía de Todos os Santos. Pelas manhãs, o sol está no melhor ângulo para as fotos.

A sede da Câmara Municipal de Salvador, do Século 16
Não conheço coração de pedra que não flutue de prazer diante daquele azul, com a Ilha de Itaparica no horizonte, a elegância minimalista do Forte de São Marcelo — que parece flutuar nas águas da baía —, os muitos barcos atracados e as construções do bairro do Comércio.

Depois, observe as três construções que se destacam na Praça Municipal:

A vista da varanda do Palácio Rio Branco
O ⭐Palácio Tomé de Sousa, sede da Prefeitura , é o prédio moderno (foi projetado pelo arquiteto João Filgueiras, Lelé) à esquerda de quem sai do elevador.

Em frente, o belo edifício maneirista da ⭐Câmara Municipal, do Século 16, sede da primeira casa legislativa do Brasil.

À direita de quem sai do elevador está o ⭐Palácio Rio Branco, antiga casa do governo-geral, nos tempos da colônia. Uma reforma de 1912 deixou o palácio com aquela cara de “bolo de noiva”.

A carinha "bolo de noiva" do Palácio Rio Branco
A entrada no Palácio Rio Branco é liberada e gratuita. Vale a pena dar uma passadinha para ver a linda escadaria que leva ao primeiro andar, os suntuosos salões e a vista das varandas laterais. Tem mais dicas neste post: 2 passeios no Centro Histórico de Salvador para ir além do Pelourinho.

Se o café da manhã reforçado que você tomou antes de começar esse roteiro já é apenas uma doce memória, é hora de reforçar as energias. O milk shake de chocolate com bolinho de arroz da Sorveteria Cubana, na parte alta do Elevador Lacerda, são patrimônio histórico com açúcar e muitas calorias. Eu não dispenso.

Monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça da Sé. Ao fundo, a Catedral Basílica
Praça da Sé
Seguindo a Rua da Misericórdia, cerca de 200 metros separam a Praça Municipal da Praça da Sé.

A atração mais interessante do caminho é o Museu da Misericórdia, instalado nos edifícios que já abrigaram a Santa Casa de Misericórdia, um conjunto arquitetônico deslumbrante.

Quando chegar à Praça da Sé, não espere encontrar a velha Sé Catedral da Cidade da Bahia, pois a veneranda igreja do Século 16 foi demolida em 1933, supostamente para “desatravancar” o espaço, que foi tomado por um terminal de ônibus.

Apesar desse gravíssimo desfalque, a Praça da Sé melhorou desde aquela “modernização”. O Belverdere da Sé, onde eu adorava tomar sorvete, quando criança, ainda oferece uma vista linda para o mar e a Cidade Baixa. 

É fácil encontrar o Belvedere: procure o monumento da Cruz Caída.

⭐ Museu da Misericórdia
Rua da Misericórdia nº 6. Aberto de segunda a sexta, das 8:30h às 17:30h.Aos sábados, das 9h às 17h. Aos domingos, das 12h às 17h. Entrada; R$ 6. Site: museudamisericordia

A Santa Casa de Misericórdia foi fundada junto com Salvador, em 1549. Essa irmandade leiga manteve um hospital por mais de 400 anos naquele local e a Igreja da Misericórdia, do Século 17 é considerada uma das mais bonitas de Salvador.

No museu estão expostas coleções de azulejos, peças sacras e mobiliário dos séculos 17 e 18.

A antiga Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus. O edifício agora abriga um memorial e o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBa
Terreiro de Jesus
A Praça da Sé desemboca em outra praça, o Terreiro de Jesus. No tempo da colônia, era no Terreiro que funcionava o Colégio dos Jesuítas, instituição importantíssima na velha Cidade da Bahia, fundada pelo padre Manoel da Nóbrega. Lá estudaram o padre Antônio Vieira e o escritor Gregório de Matos.

O edifício do Colégio dos Jesuítas foi incorporado às instalações da primeira instituição de ensino superior do Brasil, a Faculdade de Medicina, fundada em 1808.

O Terreiro de Jesus é um retângulo praticamente cercado por igrejas. A principal é a Catedral Basílica de Salvador, do do Século 17, em estilo maneirista. Essa igreja substituiu a velha Sé como sede da Arquidiocese e tem uma bonita decoração barroca.

Também estão no Terreiro  as igrejas de São Pedro dos Clérigos (Século 18) e da Ordem Terceira de São Domingos Gusmão (Século 18).

Terreiro de Jesus
⭐ Memorial da Faculdade de Medicina
Largo do Terreiro de Jesus, s/n. Aberto de segunda a sexta, das 9h às 17h. Entrada gratuita
⭐ Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBa
De segunda a sexta, da 9h às 17, entrada R$ 10. Site: Mae-Ufba
⭐Museu Afro-Brasileiro da UFBa
De segunda a sexta, das 9h às 17h. Entrada: R$ 6. Site: Mafro

Essa é uma visita que vale a pena. Logo ao lado da Catedral Basílica, a antiga Faculdade de Medicina foi fundada em 1808, quando a família real portuguesa chegou ao Brasil fugindo de Napoleão.

O edifício é muito bonito e passou por ma restauração cuidadosa para abrigar o Memorial da Faculdade de Medicina, Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal da Bahia (UFBa) e o Museu Afro-Brasileiro da UFBa.

Edifício da Antiga Faculdade de Medicina
No memorial estão guardadas mais de 5 milhões de páginas de documentos incluindo (teses, pesquisas e experiências). O acervo de livros raros (com obras desde o Século 16) inclui textos sobre alquimia e a coleção completa da Flora Brasiiliensis, do botânico alemão Carl von Martius, que veio ao Brasil na missão científica trazida pela futura imperatriz Leopoldina.

O Museu de Arqueologia exibe peças indígenas e material da época da colônia, retirado de escavações feitas no Centro Histórico de Salvador, assim como os vestígios arquitetônicos do Colégio dos Jesuítas. As visitas ao museu podem ser guiadas por um monitor.

Peças do acervo do Museu Afro-Brasieliro
O Museu Afro-Brasileiro exibe esculturas, máscaras, tecidos, cerâmicas, adornos, trajes, instrumentos musicais, jogos e tapeçarias oriundos de países africanos, especialmente da região do Golfo do Benin, de onde foi trazida a maioria dos africanos escravizados na Bahia.

O museu também tem um acervo significativo da cultura afro-brasileira, com destaque para a Capoeira, a religião e as artes. Na pinacoteca, trabalhos de Carybé, Emanoel Araujo e outros artistas. 

O Cruzeiro de São Francisco. Ao fundo, a famosa "Igreja de Ouro"
Cruzeiro de São Francisco
O Cruzeiro de São Francisco é mais uma praça do Centro Histórico de Salvador, quase um prolongamento do Terreiro de Jesus.

Seu nome vem da cruz esculpida em pedra que fica bem no meio desse quadrilátero cercado de belas e bem preservadas construções coloniais — e presidido por aquela que talvez seja a igreja mais linda da Bahia, São Francisco, também conhecida como a “Igreja de Ouro”.

O interior da Igreja de São Francisco é magnífico, não perca essa visita
A essa altura da caminhada, você já deve estar cansada e precisando de uma pausa. Aproveite, então, para conhecer a sorveteria que atualmente é apontada como a melhor de Salvador, antes de visitar a Igreja de São Francisco e o belíssimo claustro do convento.

A Le Glacier Laporte fica bem em frente à Igreja de São Francisco (largo do Cruzeiro de São Francisco nº 21, diariamente, da 10h às 19:30h). O sorvete de mangaba é de uivar para a lua, mas você pode experimentar outros 70 sabores, de frutas regionais ou clássicos. Imperdível.

Detalhe de um altar da Igreja de São Francisco
⭐Igreja e Convento de São Francisco
A Igreja de São Francisco é uma das coisas mais lindas que eu já vi na minha vida. Uma obra-prima do barroco no Brasil, com um interior de beleza hipnótica, inteiramente recoberto em ouro — calcula-se que uma tonelada de ouro tenha sido usada na decoração. A profusão de detalhes que deixa a gente flutuando.

O Convento de São Francisco foi fundado no Século 16, quando Salvador ainda engatinhava, mas o edifício atual é do Século 17. Seu claustro é encantador, recoberto em azulejos do Século 18.

⭐Igreja da Ordem Terceira de São Francisco
Rua da Ordem Terceira s/n. A Igreja e ao Museu de Arte Sacra ficam abertos de segunda a domingo, das 8h às 12h e das 13h às 17h. Entrada: R$ 5.

Deslumbrante é pouco pra definir a fachada dessa igreja, a única no Brasil em estilo plateresco, uma vertente do barroco espanhol, muito utilizada na América Espanhola. 

Única no Brasil, essa fachada em estilo plateresco é demais de linda
Ela foi construída no comecinho do Século 18 e é apontada como um dos exemplares mais importantes da arte religiosa colonial do país—e a bichinha é mesmo acachapante.

Mais acachapante ainda é imaginar que sua fachada, um delicado rendilhado esculpido em arenito,  passou algumas décadas recoberta por argamassa, favor prestado por uma “reforma” realizada no começo do Século 20.
Vale muito a pena visitar a igreja e seu Museu de Arte Sacra. Uma das grandes atrações é a decoração em azulejos portugueses de um pátio interior, conjunto de importância incalculável, já que retrata Lisboa antes do terremoto de 1755. 

O Restaurante Maria Mata Mouro continua sendo uma boa opção no Pelourinho
Pausa para o almoço?
A essa altura do roteiro, você já deve estar verde de fome. A oferta de restaurantes no Centro Histórico de Salvador é grande e variada.

Na minha visita mais recente (em meados de outubro/2018) almocei no Restaurante Maria Mata Mouro (Rua da Ordem Terceira nº 8), um velho favorito meu, que ainda está bem legal. Prefira uma mesa no jardim, que fica na parte de trás. Não é barato, mas é uma boa pedida.

Se quiser gastar pouco, a simplicidade sempre muito saborosa de Alaíde do Feijão está pertinho, na Rua 12 de Outubro, também conhecida como Ladeira da Ordem Terceira (não confunda com a Rua da Ordem Terceira) nº 2.

Um pouquinho mais distante (a 500 metros do Cruzeiro de São Francisco) está o tradicionalíssimo Mini Cacique (Rua Ruy Barbosa nº 29), que serve especialidades baianas muito além do dendê, sempre com sotaque caseiríssimo e preços bem camaradas. Saiba mais: Comer em Salvador: a tradição do Mini Cacique

Dois ângulos do Largo do Pelourinho, ou "Ladeira do Pelô", para os íntimos
Pelourinho
Nosso passeio, até agora, foi um ótimo prólogo para a visita ao que a maioria dos turistas entende como “Centro Histórico de Salvador”. Sim, finalmente chegamos ao Pelourinho, um dos mais espetaculares conjuntos arquitetônicos coloniais das Américas — bonito de fazer a alma levitar.

Os dois acessos mais comuns ao Pelourinho são a Rua Alfredo de Brito (que desce do Terreiro de Jesus, margeando o muro da antiga Faculdade de Medicina) ou a Rua João de Deus (que também começa no Terreiro, na esquina onde está a Igreja da Ordem Terceira de São Domingos).

Mas, como viemos até São Francisco, vamos entrar no Pelourinho pela Rua da Ordem Terceira mesmo.

O principal encanto do Pelourinho é seu conjunto arquitetônico e o astral que impregna esse cenário histórico. Eu gosto de bater pernas, subindo e descendo, olhando as lojinhas, curtindo o vai e vem. Mas o Pelô também tem museus, centros culturais e a bela e comovente Igreja do Rosário dos Pretos, construída por escravos, no Século 18.

Beleza e história no Rosário dos Pretos
⭐Igreja do Rosário dos Pretos
A Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Rosário começou a ser construída em 1704 por escravos e negros libertos para que pudessem ter um local de culto católico, já que não eram bem recebidos nas igrejas dos brancos.

É uma das minhas igrejas favoritas na Bahia, não só por sua beleza, mas também por sua história. A bênção das terças-feiras é um acontecimento no Pelô: começa com a missa onde se incorporam uma série de elementos africanos e, encerrada a parte sacra, a festa profana toma conta do Centro Histórico.

O Museu da Cidade (no casarão amarelo) e a Fundação Casa de Jorge Amado (casarão azul)
⭐Fundação Casa de Jorge Amado
De segunda a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, das 10 às 16h. Entrada gratuita

Instalada em um casarão azul que se destaca no conjunto arquitetônico do Largo do Pelourinho, a Fundação Casa de Jorge Amado foi criada sob a supervisão do escritor mais famoso da Bahia e abriga um acervo de 250 mil peças, entre documentos, fotos, vídeos e manuscritos, que ajudam a compreender a vida e a obra de Jorge — e seus personagens.

⭐ Museu da Cidade
Largo do Pelourinho nº, 3. Fecha às terças-feiras. Nos demais dias de semana, funciona 9:30h às 18:30h. Sábados, das 13h às 17h. Domingos, das 9h às 13.


Objetos e imagens do Candomblé e peças sacras católicas são o forte do acervo desse museu que conta um pouco da história de Salvador — uma trajetória que não pode ser dissociada do encontro entre os imaginários e as religiosidades herdadas de portugueses e africanos.

Uma parte do museu é dedicada ao poeta baiano Castro Alves, a maior expressão do Romantismo em terras brasileiras. O Museu da cidade também tem uma pinacoteca com obras de artistas baianos como Caribé, Jenner Augusto e Presciliano Silva.

A loja do Projeto Axé é um bom lugar para comprar lembrancinhas ou dar um toque no guarda roupa
⭐Loja Projeto Axé Design
Rua das Laranjeiras nº 7

Está a fim de umas comprinhas? Aproveite para dar uma passada na loja Projeto Axé Design, que ajuda a financiar esse projeto bacana, que leva arte e educação a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

A loja do Projeto Axé tem roupas e acessórios realmente interessantes e super usáveis. São peças de bom gosto, com design moderno, muitas delas feitas a partir de tecidos e outros materiais reciclados, produzidas por jovens atendidos pela ONG. Bom lugar para comprar aquele presentinho ou para dar um toque de Bahia no guarda roupa. E os preços são bem em conta.

A Escadaria do Passo
Carmo
Desde o início deste roteiro pelo Centro Histórico de Salvador, você ainda não tinha encarado uma subida. O percurso foi em terreno plano, com apenas uma descida, a “Ladeira do Pelô”. Mas, agora, prepare as panturrilhas: a partir do ponto mais baixo do Pelourinho — na altura da Casa do Benin, nós vamos escalar a Ladeira do Carmo. É uma subida de cerca de 200 metros.

Mais sossegado e menos grandioso que o Pelourinho, o Carmo manteve sua pegada residencial — no Pelô, as famílias foram retiradas na grande restauração dos anos 90.

O casario do Carmo não tem a mesma exuberância  do bairro vizinho, mas é um lugar perfeito para quem gosta de garimpar detalhes.

Uma fachada do Carmo e a Igreja do Passo, que acabou de passar por uma restauração
O “bairro do Carmo”, na verdade, se divide em diversas vizinhanças, identificadas pelas suas belas igrejas coloniais. Para quem vem do Pelourinho, a primeira é a Igreja do Passo, do Século 18, imortalizada em O Pagador de Promessas (Anselmo Duarte, 1962), o único filme brasileiro a ganhar a Palma de Ouro do Festival de Cannes.

A Igreja do Passo, famosa por sua escadaria, acaba de passar por uma longa restauração e foi reaberta ao público na última semana de outubro/2018.

Na sequência, você chega ao Carmo propriamente dito, um largo simpático onde estão alguns bons restaurantes (como o Pysco), o simpático e já tradicional Cafélier, e as igrejas do Carmo (do Século 16) e da Ordem Terceira do Carmo (Século 18). O antigo convento foi transformado em hotel de luxo, mas sempre é possível bisbilhotar seu pátio central.


Cerca de 180 metros adiante do Largo do Carmo fica um velho reduto boêmio, o Largo da Cruz do Pascoal, onde o tradicional Bar da Cruz do Pascoal mantém mesas ao ar livre para os clientes e serve petiscos baianos e cerveja gelada.

A igreja seguinte é a do Boqueirão, também do Século 18 — quando eu era uma jovem repórter, amava cumprir pauta naquelas imediações para aproveitar a vista para o mar que se tem de uma varanda que fica na parte de trás da igreja. Mas faz tempo que não vejo a Igreja do Boqueirão aberta à visitação.

Detalhe de uma fachada do Santo Antônio e o charme sossegado da praça do bairro
Santo Antônio Além do Carmo
Depois do Boqueirão, você estará no território de Santo Antônio Além do Carmo, ou apenas Santo Antônio, para os íntimos.

Os 450 metros da Rua Direita de Santo Antônio são um desfile de fachadas lindas, pequenos bares, algumas pousadas charmosas e um modo de vida desacelerado, onde vizinhos ainda botam as cadeiras na calçada para conversar.

Esse pedacinho tradicional de Salvador encantou muitos estrangeiros, que mudaram de mala e cuia para lá e abriram negócios voltados para o turismo, sem comprometer o clima residencial da área.

O final do nosso passeio é no Largo de Santo Antônio Além do Carmo, que tem uma vista linda para a Cidade Baixa (tente adivinhar a Igreja do Bonfim na paisagem) e o charme ingênuo de um coreto na pracinha, sempre movimentada pelas crianças do bairro.

Entre os edifícios da praça, destaque para a igreja onde a imagem de Santo Antônio aparece no lugar de uma das torres, que foi destroçada por um raio quando ainda estava em construção.

O Forte de Santo Antônio Além do Carmo é do Século 16. Durante a ditadura militar, nos anos 60 e 70, muitos presos políticos ficaram encarcerados lá. Hoje é chamado de Forte da Capoeira e funciona como centro cultural voltado para a preservação dessa luta que os baianos herdaram dos africanos.

Saiba mais sobre o bairro neste post: Salvador: Bonfim, Ribeira e Santo Antônio, três clássicos que não saem de moda

Todas as dicas de Salvador - post índice 

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2 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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