terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Amarante: um lugar para encontrar
o coração de Portugal

Pequena, bonita e sossegada: Amarante vai conquistar seu coração
Bem no meio do caminho entre o Porto e Peso da Régua, a pequenina Amarante é um encanto português que tem tudo pra conquistar seu coração. Com apenas 11 mil habitantes e um centrinho histórico debruçado sobre o Rio Tâmega, a cidade tem o ritmo, a cordialidade e as feições de outros tempos.

Passei quatro sossegados e deliciosos dias em Amarante em junho, para ver sua famosíssima Festa de São Gonçalo, uma tradição que remonta ao Século 13 e faz a pequena cidade ferver de gente, celebrações religiosas e profanas e uma comilança que talvez seja até pecado. Oportunidade única de ver de perto um Portugal castiço, simples e encantador.

A Ponte de São Gonçalo enfeitada para a festa. À direita, uma Pietá na fachada da igreja do padroeiro
Fora do período de festas, Amarante pode ser curtida em um dia de visita — boa opção de bate e volta do Porto, 60 km a Oeste, ou Peso da Régua, que está à mesma distância, na direção Leste.

 Mas se você quiser descansar e mergulhar no gostoso clima rural da região, faça como eu e reserve alguns dias para se hospedar em uma quinta nos arredores da cidade. Eu fiquei na adorável Casa São Faustino de Fridão (que ganhou um post exclusivo, siga o link pra ver) e adorei a temporada.

As festas de Amarante

A procissão do domingo encerra as festividades dedicadas a São Gonçalo
São Gonçalo é tão importante para a cidade que ele é homenageado com duas grandes festas. No dia 10 de janeiro é lembrada a morte do santo, uma celebração mais estritamente religiosa.

A festa de junho (sempre no primeiro fim de semana do mês) é a apropriação cristã dos rituais de fertilidade ancestrais.

A cidade literalmente para (especialmente o trânsito, já que os automóveis são banidos do Centro Histórico). Tem quermesse, parques de diversões, shows musicais, procissões, queima de fogos e desfiles de bandas onde se destacam os bombos e as gaitas de foles, além  da presença de bonecos gigantes.

Os grupos de bombos desfilam todos os dias e competem entre si no "despique"


A origem pagã da festa está bem representada no doce típico da época, os quilhõezinhos de S. Gonçalo, pães em formato fálico e cobertos de açúcar que, manda a tradição, os rapazes devem oferecer às moças que querem conquistar — São Gonçalo tem fama de casamenteiro, como seu colega santo de junho Antônio, celebradíssimo em Lisboa. 

Pãezinhos fálicos são vendidos por toda parte
O chamado “despique de bombos”, uma competição de tambores realizada na noite de sexta-feira, é um dos pontos altos da festa — para vocês terem uma ideia, as montanhas e o vento ajudaram o som da “batucada” a viajar por cerca de 20 km de distância e eu ouvi o rufar dos tambores ao longe, sentada na janela do meu quarto...

Pensa que gaita de foles só tem na Escócia? Elas são bem populares em Portugal e na Galícia 
Um pouquinho de história
São Gonçalo e Amarante são indissociáveis. O santo — na verdade, ele jamais foi canonizado, sendo oficialmente um dos beatos da Igreja Católica — é uma espécie de inventor da cidade, que se originou da pequena capela à beira do Rio Tâmega onde ele se refugiou como ermitão, no Século 13.

Conta a lenda que foi de Gonçalo a iniciativa de construir a ponte sobre o Tâmega, orgulho amarantino.

Os bonecos gigantes animam o desfile das bandas
Os registros históricos apontam para a existência de uma povoação romana no local, nos primeiros séculos de nossa era, mas foi mesmo São Gonçalo quem colocou Amarante no mapa.

A famosa ponte fez do lugar um ponto de passagem de caravanas e tropas e em torno dela a vila cresceu e prosperou — a construção de pedra sustentou-se por quase 500 anos, até ser levada por uma enchente, no Século 18. A ponte que se vê hoje é uma reconstrução, concluída poucos anos após a catástrofe.

Lembrancinhas de São Gonçalo à venda no claustro da igreja
Durante as guerras napoleônicas, a ponte de Amarante voltaria a fazer história como palco da feroz resistência de militares e voluntários ao assédio das tropas do general Soult, comandante da segunda invasão francesa à Península Ibérica. Ao longo de 14 dias, os portugueses barraram o avanço dos invasores.

A ponte e a igreja iluminadas para a festa

Barraquinhas da quermesse de São Gonçalo
Quando a cidade caiu, os franceses aplicaram a regra que fez a má fama de seu exército por toda a Península Ibérica: quanto mais obstinada a resistência, mais cruel a pilhagem posterior.

Amarante foi barbaramente saqueada e a maioria de seus edifícios foram incendiados. Os franceses acabaram expulsos da cidade 10 dias depois de toma-la e as forças anglo-portuguesas, lideradas pelo Duque de Wellington, saíram em sua perseguição.

O que fazer em Amarante


A famosa ponte, que teria sido construída pelo patrono da cidade
O melhor de Amarante é o sossego, a desaceleração da frequência cardíaca decorrente de um jeito de viver que quase não existe mais — e que nem a concorridíssima festa consegue alterar.

Outro grande prazer da cidade é sua gastronomia, que transita do cabrito ao polvo, passando pelo bacalhau, e deságua em uma orgia de doces de gema, como os foguetes e os papos de anjo.

A comilança em Amarante está nesses posts:
Muito além do Bacalhau: o que comer - e onde comer - em Portugal
Doces portugueses: tentações com origem divina

Passeio de pedalinho, um jeito gostoso de ver a cidade
Os arredores da cidade são muito verdes e marcados pelas grandes elevações da Serra do Marão.

Eu tive o “prazer” de me perder pelas estradinhas feitas para cabritos e ovelhas dessa serra, na chegada à cidade. A paisagem é linda, mas não recomendo a ninguém dirigir à beira do abismo e sem sinal de celular para consultar o GoogleMaps. Com um bom guia, porém pode ser um passeio bem bacana.

O claustro principal da Igreja de São Gonçalo
No Centro Histórico de Amarante, a construção mais notável é a famosa Ponte de São Gonçalo. Um jeito bem legal de admirá-la é em um passeio de pedalinho pelo rio. A correnteza é bem forte, mas quem fez mais força nas pedaladas foram meus sobrinhos 😈.

A Varanda dos Reis

O baldaquino feito de fitas
ornamenta o altar para a festa do santo
Ao lado da ponte fica a Igreja de São Gonçalo, do Século 16, construída no mesmo lugar da ermida onde viveu o santo.

É um belo edifício com elementos renascentistas, maneiristas e barrocos. No alto da fachada há uma galeria aberta para a praça, a Varanda dos Reis (só tinha visto esse tipo de balcão em igrejas na Matriz de Santa Maria la Mayor, em Ronda, Andaluzia).

 No interior da igreja, numa capela ao lado do altar, está o túmulo de São Gonçalo. Não deixe de ver o lindo claustro principal.

A decoração do forro da sacristia 


O Convento de São Gonçalo, que foi ocupado pelos dominicanos (a ordem à qual pertenceu o santo) fica ao lado da igreja e hoje abriga o Museu Amadeo de Souza-Cardoso (entrada € 1,50) que exibe artistas amarantinos e foi assim batizado em homenagem ao maior deles, o pintor modernista que se destacou na virada dos séculos 19/20.

O Museu Amadeo de Souza-Cardoso está instalado no antigo convento beneditino

Como chegar
Amarante está a 360 km Lisboa pela Rodovia A-1. Do Porto, são apenas 60 km pela Rodovia A-4. As duas estradas são pedagiadas e estão em ótimas condições.

A empresa Rodonorte tem ônibus em diversos horários ligando Lisboa (Estação Oriente) a Amarante. Meu sobrinho fez esse trajeto e achou bem confortável. A viagem dura cerca de 5 horas e o bilhete custa € 20,90 para cada trecho.

A mesma empresa faz a rota entre o Porto e Amarante, também em diversos horários. A viagem leva 50 minutos e a passagem custa € 7,90.

Mais sobre Amarante
O charme da hospedagem rural na Casa São Faustino de Fridão


Roteiros da Fragata Surprise em Portugal
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6 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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  2. É sempre bom encontrar artigos de Portugal que fogem aos destinos tradicionais do eixo Porto - Lisboa. Parabéns.

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    1. Obrigada, Filipe. Portugal é um mundo - e merece muito ser descoberto em toda a sua beleza :)

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  3. Já conheço o Porto, Amarante e o Douro. Após visitar Coimbra e a Serra da Estrela - destinos que não conheço ainda - me sobrarão dois dias e duas noites antes de voltar a Lisboa de carro. Alguma sugestão para os dois dias "livres" ? Grato, Sérgio

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    Respostas
    1. Oi, Sérgio,
      No caminho entre Coimbra e Lisboa, dá para fazer alguns desvios interessantes. Por exemplo, para ver os três magníficos mosteiros de Alcobaça, Batalha e Tomar. Ou programar uma noite na fofíssima Aveiro, com seus canais e arquitetura Art-Nouveau. Ou ainda passar um dia adorável em Óbidos, explorando sua muralha e ruas medievais.

      Dá uma olhada nas dicas que estão aqui no blog:

      Alcobaça - http://www.fragatasurprise.com/search/label/Alcoba%C3%A7a

      Batalha - http://www.fragatasurprise.com/search/label/Batalha

      Aveiro - http://www.fragatasurprise.com/search/label/Aveiro

      Óbidos - http://www.fragatasurprise.com/search/label/%C3%93bidos

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