26 de maio de 2014

O que fazer em Ronda, Andaluzia

A Ponte Nova, sobre o Desfiladeiro do Tajo,
a imagem mais forte de Ronda
Tem lugares que deixam a gente sem palavras. A única vontade é dizer: "Vá! E depois a gente conversa (confie em mim)". 

É o caso de Ronda, cidade que muita gente visita apenas em uma parada em roteiro de carro pela Andaluzia. 

Se eu fosse você, porém, esticava a estadia: tem muito o que fazer em Ronda e garanto que não vai se arrepender de dedicar mais tempo a ela.

Ronda é uma vertigem andaluza, cidade medieval cortada pelo impressionante Desfiladeiro do Tajo que o mundo associa a uma das cenas mais dramáticas escritas por Hemingway — em Por Quem os Sinos Dobram, embora ele jamais tenha identificado a cidade como cenário da ação. 

A Plaza de Toros de Ronda
Ronda, porém, é muito mais que o desfiladeiro. Ela tem um patrimônio histórico riquíssimo, herdado, principalmente, do tempo em que era a sede do reino mouro de Taifa de Ronda, que dominou aquelas montanhas por quatro séculos. 

Entre muralhas mouras, palácios mudéjares e casas anônimas penduradas no abismo, a gente se perde no encantamento que é andar por lá.

É claro que eu fui a Ronda para ver cara a cara o Desfiladeiro do Tajo, a imagem mais forte da cidade. Mas descobri que ela tem muito mais atrações.

Tentando ser objetiva, fiz mais uma listinha de visitas bem bacanas na cidade. Dá uma olhada:

⭐Arena de Touros de Ronda
(Praça de Touros e Museu Taurino de Ronda). Calle Virgen de la Paz nº 15. 
Visitas todos os dias, exceto quando há corridas de touros. 
Abre sempre às 10h e o horário de encerramento depende da estação do ano (18h no inverno, 19h na meia estação e 20 horas no verão). 
A entrada custa €6,50.

Na parte "nova" de Ronda, ao Norte de Puente Nuevo (a ponte do Século 18 sobre o Desfiladeiro do Tajo), não dá para perder a visita à Plaza de Toros.

Detalhes da entrada da arena e o Camarote Real

A arena é mantida pela Real Maestranza de Caballería de Ronda, uma sociedade com origens no Século 16, semelhante à existente em Sevilha. O berço dessa sociedade foi uma ordem de nobres treinados para combates militares.

A Arena de Touros de Ronda é uma das mais antigas da Espanha. Foi inaugurada no final do Século 18 e ainda está em plena atividade.

As arquibancadas são sustentadas por colunas da mesma cor da areia do piso da arena
Não sou admiradora de touradas (sorry, Papa Hemingway), mas acho importante entender o papel dessa prática na identidade espanhola.

Ronda é especialmente orgulhosa de ser a terra de uma escola de tauromaquia apontada como a mais clássica e refinada do país. As corridas de touros ainda estão muito presentes na alma e no dia a dia da cidade.

Pedro Romero, orgulhoso, na entrada da Plaza de Toros
Ronda também é o berço da Família Romero, uma autêntica dinastia de toureiros iniciada por Pedro Romero — nome de praça e homenageado com uma estátua em frente à arena — que foi um pop star do Século 18, ao ponto de ter seu retrato pintado por Goya.

No Século 20, os rondeños Cayetano e Antonio Ordoñez foram as grandes estrelas da arena. Eles eram amigos de Hemingway e de Orson Welles, responsáveis por apresentar Ronda aos dois artistas americanos e, certamente, grandes "culpados" pelo amor que ambos os gringos dedicaram à cidade.


A arquitetura da Praça de Touros de Ronda impressiona por sua elegância e harmonia.

A vasta arena circular (66 metros de diâmetro) é cercada por uma arcada perfeitamente simétrica que abriga as arquibancadas, sustentadas por colunas em arenito no mesmo tom do piso de areia.

Quando o sol cai, no final da tarde, a luz dourada que banha a Plaza de Toros de Ronda é indescritível — e impossível de fotografar com fidelidade.

A poule de treinamentos e o interior da escola de cavalaria
As cavalariças da arena de touros de Ronda
Na visita à Plaza de Toros também é possível conhecer as cocheiras e a poule de treino da escola de equitação que ainda funciona lá.

A arena também abriga um Museu Taurino, que é menorzinho que o de Sevilha, mas expressa o orgulho de Ronda por ser berço de uma célebre escola de grandes toureiros.

Olha só essa vitrine!! Tudo delicioso. Os piononos, meus favoritos, estão na segunda prateleira, de baixo para cima, no canto direito
⭐ Os doces de Ronda
Confitería las Campanas - Plaza del Socorro nº 3

Saindo da Plaza de Toros, logo em frente está a Calle (rua) Pedro Romero, uma ruazinha estreita que homenageia o célebre toureiro do Século 18.

Ela tem pouco mais que uma quadra e desemboca na Plaza del Socorro, com a igreja do mesmo nome (reduzida a cinzas durante a Guerra Civil Espanhola e reconstruída na segunda metade do século passado).

No feriado de Reis, a Praça do Socorro tinha footing no final da tarde, barraquinhas vendendo petiscos e, claro, doces de gema
A grande atração da Praça do Socorro é a Confitería las Campanas – Yemas del Tajo, uma confeitaria especializada nos famosos doces de gema de Ronda.

Confesso que fiquei viciada na primeira mordida (e qualquer coisa era desculpa para voltar lá).

Provei boa parte do “acervo” da Confitería las Campanas. Amei o pionono de gemas, rocambole de pão de ló recheado com um creme de gemas perfeito, com o açúcar no ponto. I-nes-que-cí-vel!!!!

O jardim do Palácio do Rei Mouro
⭐ O Palácio do Rei Mouro e a descida à mina de Ronda
Cuesta de Santo Domingo. Entrada €6

Atravessando Puente Nuevo na direção Sul (coisa que eu sempre levava duas horas para fazer: apesar de a ponte ter cerca de 100 metros, não conseguia parar de olhar para o o abismo do Tajo), a gente entra na parte mais antiga de Ronda, cheia de palácios encantadores, pracinhas que parecem pátios secretos e ruas estreitas.

A primeira grande atração dessa parte velha de Ronda é o Palácio do Rei Mouro, do Século 18, debruçado sobre o desfiladeiro.

O Palácio do Rei Mouro (a construção ocre à direita), debruçado sobre o Desfiladeiro do Tajo
Detalhes da fachada do Palácio. Abaixo, a imagem de um "rei mouro" que pode ter dado o nome ao casarão e uma fonte moura que fica em frente 

Ninguém sabe ao certo porque esse palácio tem esse nome. Uma das explicações seria a pintura que adorna uma de suas portas, retratando um mouro finamente vestido e com cara de rei 😊.

O certo é que o casarão jamais foi moradia de qualquer rei ou grande senhor mouro, mas o nome ficou.

O Palácio do Rei Mouro está muito maltratado pelo tempo e fechado para restauração. Mas os jardins do incio do Século 20, inspirados no paisagismo árabe antigo, continuam abertos.

Os jardins do Palácio Rei Mouro são do início do Século 20 e recriam o paisagismo tradicional árabe
Essa visita vale muito a pena, pois são jardins belíssimos, cheios de pequenos recantos quase mágicos —  e têm uma vista espetacular para Ronda e para o Desfiladeiro do Tajo.

O mais emocionante da visita ao Palácio do Rei Mouro é a descida à mina d'água árabe.

A mina é uma plácida "piscina" formada pelas águas do Rio Guadalevín, 100 metros abaixo do palácio, na base do desfiladeiro.

Para chegar lá, é preciso descer cerca de 250 degraus (eu até tentei contar, mas estava mais concentrada em não escorregar nem tropeçar no caminho, rsss) escavados pelos árabes na rocha nua.

Como num bom jardim árabe, as fontes não poderiam faltar

Essa escadaria que leva à mina, sim, é moura no duro.

Foi construída pelo rei Abomelik, no Século 14, para assegurar o suprimento de água potável da cidade em caso de cerco — se o relevo de Ronda já a tornava inexpugnável, imagine com a garantia de acesso à água reforçava essa condição.

A vista dos jardins do palácio. No cantinho inferior direito está Puente Viejo, a ponte mais antiga da cidade, ligando as duas margens do desfiladeiro
A mina moura vista do alto dos jardins (esq), a escadaria, construída no Século 14 e as águas cristalinas que abasteciam Ronda
A descida à mina exige joelhos em dia (pense no caminho de volta, escada acima...), mas é um programa tão sessão da tarde que não dá para resistir.

A escadaria vai se enroscando no coração da rocha, às vezes bem escorregadia, por causa da infiltração de água.

Em alguns pontos da longa escada, pequenas câmaras, também escavadas na pedra, serviam de arsenal e de salas de guardas.

Lá em baixo, além da vista impressionante do desfiladeiro, cujas paredes dão a impressão de chegar ao céu, o melhor é o silêncio.

Igreja de Santa Maria la Mayor, na Praça Duquesa de Parcent
A praça ocupa o o centro da antiga medina árabe
⭐ A praça Duquesa de Parcent e a Igreja de Santa Maria la Mayor
A igreja pode ser visitada de segunda a sábado, das 10h às 12:30h e das 14h às 19h. 
Entrada: €4

No coração da parte mais antiga de Ronda, a Praça Duquesa de Parcent é perfeita para aquela paradinha estratégica, quando tudo o que a gente quer é um banquinho e o silêncio, em um cenário de encanto.

Os conventos de La Merced e de Santa Isabel
A praça é sombreada por árvores frondosas e aconchegada entre as lindas fachadas dos conventos de La Caridad e de Santa Isabel de los Ángeles e o esplendor da Igreja de Santa Maria La Mayor.

O que vemos hoje na Praça Duquesa de Parcent é a versão da Reconquista Cristã para a antiga medina árabe, com os edifícios católicos substituindo importantes construções mouras.

Quando tudo que a gente quer é um banquinho e o silêncio...
Depois de descansar os pés, relaxar com o murmúrio da fonte no meio da praça e suspirar bastante com a beleza do conjunto, é fundamental visitar o interior da Igreja de Santa Maria.

Essa é a igreja mais importante de Ronda. Santa Maria la Mayor está construída sobre os restos de uma mesquita.

Detalhe do portal e o interior de Santa Maria la Mayor.
Abaixo, o coro e um altar lateral
O início da obra é do Século 15, período de grande fervor da Reconquista cristã, no reinado dos Reis Católicos. A igreja, porém só foi inaugurada 200 anos depois.

O detalhe mais curioso da Igreja de Santa Maria la Mayor são os dois andares de galerias da fachada principal, como uma loggia, sobre a arcada do térreo.

A função dessa galeria era permitir que os reis assistissem "de camarote" a procissões e outras celebrações religiosas realizadas na Praça Duquesa de Parcent sem precisarem estar no meio do povo.

O coro e um púlpito da Igreja de Santa Maria la Mayor
O interior da igreja de Santa Maria surpreende. Não só porque a igreja parece muito maior por dentro do que vista de fora, mas pela beleza das linhas que mesclam o gótico e o renascentista, com algum sotaque mudéjar, e da  sóbria imponência da decoração.

Logo na entrada, na sala onde funciona a bilheteria, preste atenção ao antigo mihab (nicho que indicava a direção de Meca), um dos elementos mouros que sobreviveram da velha mesquita sobre a qual foi construída a igreja.



⭐ As fachadas de Ronda
O maior encanto de Ronda é a harmonia do conjunto arquitetônico.

A maioria das construções que ocupam a área da antiga medina, que os rondeños chamam de La Ciudad, têm origem medieval, mas apresentam hoje as feições que ganharam em reformas dos séculos 16 e 17.

Em Ronda, a beleza não é monopólio dos palácios
Ronda é pródiga em suntuosos palácios, como os de Mondragón, Moctezuma e do Marquês de Salvatierra, com seus jardins e terraços sobre os abismos que cercam a cidade.

Mas a beleza, em Ronda, não é monopólio do alto pedigree. O casario anônimo da cidade também é belíssimo e se constitui numa companhia apaixonante em qualquer caminhada.

Olha o charme dessas "gaiolinhas" que protegem as sacadas de Ronda, sempre arrematadas por uma espécie de coroa no topo


Como toda cidade linda que se preze, Ronda tem suas marcas únicas, aquele "sinalzinho" só dela, adornando suas fachadas.

No caso, é um tipo de gradeado bem característico que serve de balaustrada às sacadas, sempre arrematado por uma espécie de "coroa" no topo.

E tudo ganha um arzinho mais especial com o capricho dos moradores, que sempre têm vasinhos de flores dando um toque de cor às suas fachadas, mesmo no frio de janeiro.


A Espanha na Fragata Surprise - post-índice


A Europa na Fragata Surprise

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6 comentários:

  1. Nossa !!!! Estou encantado com o seu post. Voce escreve muito bem, com muita leveza e paixão . As fotos são lindas. Parabéns . Estou indo pra Ronda em maio/2016 e seu post me ajudou bastante, li coisas que não havia lido em outros post. Continue viajando e escrevendo assim. Um abraço.Moadia.

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    Respostas
    1. Obrigada, Moadia :)
      Ronda em maio deve ficar linda. Aproveite muito sua estada por lá. É uma cidade de sonho. Fico feliz que a Fragata tenha ajudado no seu planejamento de viagem.
      Abs

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  2. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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