15 de maio de 2018

Festas juninas em Portugal - um jeito especial de conhecer a terrinha

Altar de Santo Antônio no Largo do Rossio: Lisboa leva a sério as homenagens a seu padroeiro
Junho está chegando e, com ele, a temporada perfeita para visitar Portugal. O país fica lindo nessa época, é tempo de muito céu azul, calorzinho ameno que faz o brasileiro se sentir em casa e muitas floradas colorindo as cidades.

É nessa época, também, que Portugal realiza algumas das suas mais expressivas festas populares, homenageando os santos do mês. Eu participei da Festa de Santo Antônio, em Lisboa, e da Festa de São Gonçalo, na fofíssima e Amarante, amei e recomendo as duas experiências.

Procissão de São Gonçalo, em Amarante
Além de comer muito bem, beber e dançar, as festas juninas de Portugal são uma forma adorável de entrar em contato com as tradições da terrinha e descobrir um pouco da alma lusitana mais profunda.

Se você está sonhando com uma viagem a Portugal, corra e aproveite os encantos de junho. Olha só o que você vai encontrar por lá:


Fogos de artifício saúdam São Gonçalo, padroeiro de Amarante, na festa que abre o calendário junino em Portugal 
☑️ As festas juninas em Portugal
Celebrar os santos de junho é uma tradição que os brasileiros herdaram dos portugueses. E a terrinha leva a sério as “festas dos santos populares” — o nome luso para as festas juninas. 

Prepare-se para encontrar arraiais bem parecidos com os nossos, enfeitados por bandeirolas, com muitas barraquinhas vendendo quitutes, animados pelos chamados bailaricos (bailes), onde se ouve uma música que lembra o nosso forró, e queima de fogos de artifício.

A fofa Amarante, no meio do caminho entre o Porto e Peso da Régua
⭐ O calendário dos santos de junho começa com São Gonçalo, homenageado em Amarante e região, sempre no primeiro fim de semana do mês (datas móveis) .

⭐ O Santo Antônio é celebradíssimo em Lisboa na véspera (12/6) e no seu dia (13/6), que é feriado.

⭐ O São João (23 e 24/6) tem festas famosas em BragaÉvora e, a maior de todas, no Porto.

⭐ São Pedro (28 e 29/6) ganha todos os anos uma festa concorridíssima em Porto de Mós (a 30 km de Nazaré) e também é muito celebrado em Évora (eita cidade linda e festeira 😊).

Tremoços para acompanhar o vinho e os picõezinhos de São Gonçalo, doce típico da festa do padroeiro - o formato de pênis foi herdado de rituais pagãos de fertilidade celebrados há séculos na primavera e verão
Na Igreja de São Gonçalo, o altar ganha um belo baldaquino de fitas de seda para homenagear o padroeiro
☑️ Como é a festa de São Gonçalo do Amarante
Ao longo de toda a semana que antecede os festejos, já tem quermesse e parque de diversões montados no Centro Histórico da linda Amarante, cidade que ainda guarda traços medievais e que teria sido fundada por São Gonçalo.

Monge dominicano do Século 13, Gonçalo viveu como eremita às margens do Rio Tâmega, onde hoje está a igreja dedicada a ele, construída no Século 16. A devoção do povo por ele naquela região de Portugal é enorme — o mais curioso é que ele nem é oficialmente santo: o Vaticano jamais o canonizou e "São Gonçalo" é, na realidade, o Beato Gonçalo.

Detalhe do baldaquino e, à direita, um andor pronto para a procissão
Na primeira quinta-feira de junho, começa pra valer a Festa de São Gonçalo do Amarante: tem alvorada com foguetório de manhãzinha, missas ao longo do dia e shows musicais à noite.

Os grupos de bombos (bandas de percussão e gaitas de foles, que também podem incorporar instrumentos de sopro) começam a fazer desfiles mais ou menos informais pelas ruas da cidade.

Os grupos de bombos disputam uma animada competição durante a festa de São Gonçalo

O Centro Histórico de Amarante fica fechado ao trânsito de automóveis e espere encontrar uma multidão por toda parte. São famílias passeando de braços dados, da bisavó ao netinho, gente de todas as partes de Portugal e portugueses emigrados, que voltam para a festa de seu torrão natal para rever amigos e parentes.

O clima de confraternização e reencontro acolhe até mesmo os estrangeiros, como nós.

Olha a muvuca na Ponte de São Gonçalo, que teria sido construída pelo santo, em pessoa, no Século 13

A igreja iluminada para a festa. À direita: tem coisa mais nostálgica do que bandas tocando em coretos? ❤️
A grande noite da festa de São Gonçalo é o sábado, com missa solene, concertos no coreto da praça e uma super queima de fogos de artifício.

No domingo, a manhã é dedicada ao desfile oficial dos grupos de bombos, que incorporam bonecos gigantes parecidos com os de Olinda. À tarde, a grande procissão de São Gonçalo encerra os festejos - mas a moçadinha ainda conta com shows e festas animadas, à noite.

A paisagem rural de Amarante é um encanto a mais
A comilança em Amarante é um capítulo à parte. Encontra-se de tudo nas centenas de barraquinhas da quermesse que toma todo o Centro Histórico nos dias da festa.

Os restaurantes ficam abarrotados e funcionam até muito tarde da noite, para dar conta de tantos fregueses. Nnós levamos quatro dia para conseguir, finalmente, uma mesa no legendário Zé da Calçada, que foi eleito na minha família como o melhor bacalhau que provamos em terras lusas. Quando você for, faça reserva e peça uma mesa na varanda, para aproveitar a linda vista do Rio Tâmega e das construções antigas da cidade.

A festa também é a oportunidade de rever os amigos que voltam à cidade para reverenciar o padroeiro
Entre os muitos doces típicos portugueses que você encontrará nas lojas e barraquinhas espalhadas por Amarante, o mais chamativo é o picãzinho de São Gonçalo, feito especialmente para a festa do santo. É um pão doce em formato de pênis (bem explícito, mesmo 😳), que as senhorinhas da cidade oferecem com as carinhas mais angelicais desse mundo.

Essa peculiaridade vem lembrar que as festas juninas portuguesas são todas tributárias de celebrações ancestrais, muito mais antigas que o cristianismo. Os habitantes daquela terras celebravam o solstício de verão (21/22 de junho) com rituais de fertilidade para a garantia das boas colheitas. O catolicismo sincretizou esses ritos, mas não conseguiu apagar todo o seu sotaque pagão.

E ainda deu pra curtir o conforto e aconchego da hospedagem rural 
Aproveitei a estada em Amarante para curtir o aconchego da hospedagem rural, uma experiência deliciosa e cuja oferta só faz crescer em Portugal. Passei as quatro noites em uma quinta adorável, a 20 km da cidade (estava com carro alugado), a Casa São Faustino, no distrito de Fridão.

Também fiz um passeio bacanérrimo pelo Vale do Rio Douro — Amarante fica bem no meio do caminho entre o Porto e Peso da Régua, a “capital” da Região do Douro Vinhateiro.

Quer saber mais sobre Amarante, como chegar lá e o que fazer na cidade? Tá tudo aqui, ó:
Amarante, um lugar para encontrar o coração de Portugal

Sobre a estadia na Casa de São Faustino de Fridão, este é o post:

Amarante – o charme da hospedagem rural

Pra saber mais sobre o passeio de barco de Régua a Pinhão, é só clicar nesta postagem:
Peso da Régua - um passeio pelo Rio Douro

Arraial do Bairro Alto, em Lisboa
☑️ Como é a Festa de Santo Antônio em Lisboa
Santo Antônio (António, para os portugueses) nasceu em Lisboa, no finalzinho do Século 12, em uma casinha cujos vestígios ainda podem ser visitados, no subsolo de sua igreja, na Alfama. Em 12 e 13 de junho, a cidade praticamente para pra homenagear esse santo de casa que, dizem, faz milagres e arranja casamentos.

O tradicional bairro da Alfama é o centro da festa. Mas a devoção e as celebrações se espalham por toda Lisboa. Ao longo de todo o mês de junho, os moradores enfeitam as fachadas de suas casas, participam dos concursos de tronos de Santo António (espécie de pequenos altares colocados nas ruas) e há arraiais por praticamente toda a cidade (veja a programação de 2018 aqui). Alguns são bem tradicionais, outros mais alternativos.

Mural homenageia o padroeiro em uma escadaria da Alfama. À direita, os cravos e manjericos, típicos da festa do santo
Janelas enfeitadas para Santo Antônio
Eu fui a dois desses arraiais, o da Alfama e o do Bairro Alto (no Mirador de São Pedro de Alcântara), enfeitados com bandeirolas, lanternas, cravos e manjericos — um parente próximo do manjericão que, plantado em vasinhos. Reza a tradição que os manjericos devem presenteados a um pretendente e que, depois disso, a conquista está garantida.

O movimento começa cedo na Igreja de Santo Antônio
Logo cedo, no dia 12 de junho, a Igreja de Santo Antônio já está lotada de devotos que arrumam a casa para celebrar o dono da festa. Gente de todas as idades ajuda a preparar os arranjos de flores, acender as velas e a organizar o incessante entra e sai de fiéis que vêm pagar suas promessas. 

No final da tarde, uma procissão deixa a Igreja de Santo Antônio e percorre as ruas e ladeiras da Alfama. À noite, na Avenida da Liberdade, há um grande desfile de Marchas Populares, enquanto os arraiais fervem em diversos bairros da cidade. O 13 de junho, consagrado ao santo, é feriado.

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Cidade do Porto: pense num show de fogos de artifício neste cenário...
☑️São João e São Pedro
Ainda não tive a chance de ver a festa no Porto, mas está super na minha lista. A celebração ao santo do carneirinho é a maior festa de rua da cidade (embora São João não seja seu padroeiro, posto que cabe a Nossa Senhora da Vandoma). Algumas semanas antes da data já há arraiais nos bairros e muita animação.

Na noite de 23 para 24 de Junho, as ruas do Porto ficam lotadas de gente celebrando o santo em torno das fogueiras. As barraquinhas de comida oferecem sardinhas assadas e o bolo de São João — uma versão do bolo rei da época de Natal, em formato de rosca, com muitas passas, frutos secos e frutas cristalizadas. A queima de fogos de artifício às margens do Douro deve ser um espetáculo inesquecível.

Outra que está na minha lista é a Festa de São Pedro em Porto de Mós, a "vila forte" citada por Camões em Os Lusíadas. A cidade, de pouco mais de 20 mil habitantes, chega a receber 100 mil turistas para os festejos, que incluem muita comilança, desfiles de marchas populares e shows musicais, em um período de 10 dias, a partir do 29 de junho.

Sardinhas? Esbalde-se
☑️ Sardinhas assadas - mais um encanto de Portugal em Junho

A principal memória que me ficou da festa do Santo Antônio foi a comilança sem fim, "culpa", principalmente, da infinita e onipresente oferta das irresistíveis sardinhas assadas, que são a cara de junho em Portugal.

O peixe, barato e abundante (embora fatores ambientais estejam assustando os portugueses com ameaça de redução dos cardumes), é praticamente sinônimo das festas juninas. Nessa época, é praticamente impossível andar uma quadra sem topar com um braseiro assando as bichinhas no meio da rua, nos diversos quadrantes de Portugal.

Barraquinhas de comidas típicas no Arraial de Santo Antônio, no Bairro Alto
Em Lisboa, então é uma febre: tem sardinhas nos restaurantes, nas praças, nas ruas. Tem até gente fantasiada de sardinha na festa de Santo Antônio. Elas são, no verão, o que as castanhas assadas são no inverno. Perfumam a cidade, acariciam o paladar e dão um ar de festa às vizinhanças, com sua nobre simplicidade.

As sardinhas são assadas inteiras e servidas sobre uma fatia de pão — o caldo que escorre delas deixa o pão inacreditável, de tão gostoso. Aproveite.

Em junho, já dá para pegar praia em Cascais e no Estoril
✅ Outras vantagens de ir a Portugal em junho 

O clima é uma delícia
Melhor do que um dia de céu azul, só mesmo um dia de céu azul que se estende até perto das dez da noite. Pois é bem isso que os junhos portugueses oferecem.

Esse finalzinho de primavera já tem cara de verão, mas as temperaturas ainda estão agradáveis, com as médias variando entre os 18ºC e 28ºC. As noites fresquinhas até pedem um casaquinho leve, mas nada mais do que isso.

Lisboa em junho
Na minha temporada junina em Portugal, há dois anos, só peguei calor pra valer no Alentejo, com temperaturas na casa dos 30ºC ao longo do dia. Faz sentido: segundo os portugueses, quanto mais longe do mar, mais quente será a região.

Nas alturas da Serra da Estrela — região que é famosa por seus invernos com neve — cheguei a pegar 16ºC, no finzinho da tarde.

Veja as dicas para dar um pulinho na Serra da Estrela
Portugal: um passeio pela Serra da Estrela


O Tejo em uma tarde de junho
Em junho ainda não é alta estação em Portugal
É verdade que Portugal já não tem mais baixa estação. A terrinha está na moda — e não só entre nós, brasileiros, cada dia mais apaixonados pelo país. Mas a muvuca de junho por lá é mais administrável que a lotação esgotada do altíssimo verão.

Isso significa não apenas filas menores nas atrações e maior facilidade de encontrar mesa em um restaurante mais badalado, mas também preços mais palatáveis na hospedagem. 

Há dois anos, a farra era assistir aos jogos da Eurocopa na "praia" da Praça do Comércio
⭐ Tem atrações ao ar livre e muitas opções gratuitas
Junho ainda não é verão, mas já tem todo o astral da estação mais animada do ano. Em Lisboa, no Porto e em outras cidades, a programação de eventos ao ar livre já começa a bombar. E o melhor que muitos desses eventos são gratuitos.

Se você estiver em Lisboa entre 25 de maio e 13 de junho, não perca a Feira do Livro, que terá sua 88ª edição este ano, no Parque Eduardo VII, ao lado da Praça Marquês de Pombal. Em 2016, era meu programa preferido de final de tarde, pois eu estava hospedada bem em frente sempre dava um pulinho depois dos passeios.

Lisboa vista do Castelo de São Jorge
Também neste mês de junho, a capital portuguesa vai ter apresentações de Fado no Castelo de São Jorge, o festival Outjazz, com apresentações gratuitas no Jardim do Campo Grande, o Atlantic Swing Festival, dedicado às big bands americanas dos anos 30 e 40, o Festival Internacional de Tango de Lisboa, no bairro Voz do Operário, entre outros programas bacanas. A dica é consultar a agenda cultural em publicações como a Time Out e se esbaldar.



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