domingo, 31 de julho de 2016

Muito além do Bacalhau:
O que comer - e onde comer - em Portugal

Cataplana de mariscos e sapateira: a mesa portuguesa é maravilhosa
Nem sei como começar a contar a vocês o tamanho e a amplitude da comilança que foram esses 20 dias em Portugal, agora em junho. E vamos combinar que a terrinha é propícia a essas esbórnias, dona de uma das culinárias mais tentadoras que já seduziram os meus sentidos.

Começa com o incrível talento português para preparar o bacalhau (do qual falaremos em outro post), uma excelência que ofusca uma série de outras iguarias sublimes. E é dessas outras iguarias que vou falar neste post. Dos surpreendentes percebes, das açordas e dos arrozes caldosos. Das enguias, lampreias, e sapateiras — e de frutos do mar mais prosaicos, como lulas, polvos, sardinhas e ameijoas. Dos caracóis e da inacreditável bochecha de porco. E até dos sandubas portugueses: francesinhas, pregos e bifanas.

Portugal é um país cheio de encantos e a gastronomia é apenas um deles — mas já seria suficiente pra justificar uma vida inteira de viagens por lá.

Ah, e se você estranhar a falta dos doces neste post, é porque esse universo arrebatador também mereceu um post exclusivo — Doces portugueses: tentações com origem divina.

Percebes


Essas patinhas de dinossauro são boas demais! 
Com um nome tão peculiar, os percebes correm o risco de serem vistos mais como folclore do que como iguaria. Sempre tive curiosidade de prová-los, mas esses mariscos ainda não tinham cruzado meu caminho — o que reforçava a desconfiança de que eram lenda urbana culinária.

Mas eis que, finalmente, me vi cara a cara com eles. A aparência dos percebes só reforçou a ideia de lenda: os bichos parecem saídos de um desenho animado, têm cara de patinhas de dinossauro. Bastou prová-los — aferventados na água e sal, com um temperinho leve, que não identifiquei  para eu entender que, folclore à parte, o bichinho é danado de gostoso.

Balcão do restaurante A Casa, em Alcobaça. É só escolher e mandar preparar
Os percebes são crustáceos que crescem grudados às pedras, no mar. Sua “concha” cilíndrica é, na verdade, uma miríade de plaquinhas de calcário, arrematadas por uma “unha” pontuda (daí a cara de pata de dinossauro). Vivem na Costa Leste do Atlântico, do litoral da França ao Senegal, mas fazem sucesso mesmo em Portugal e na Galícia.

Parecem difíceis de comer, mas quando se pega a manha é facílimo devorar uma travessa cheinha deles: basta torcer a “casquinha” e sugar o bichinho lá de dentro. Meu veredito? A-do-rei!

Sardinhas e bacalhau: mais Portugal, impossível
Onde comi percebes
Provei os percebes no Restaurante A Casa (Praça 25 de Abril 51), em Alcobaça. Além dos bichinhos, que devorei como aperitivo, jantamos bem direitinho lá. Pedi um belo prato de sardinhas ao forno. Minha mãe e minha sobrinha Carolina foram de bacalhau ao forno, acompanhado por batatas fritas, que também estava ótimo. Pagamos € 56 pela refeição (três pessoas), com bebidas.



Açorda de ovas

Açorda de ovas com camarões, boa lembrança de Aveiro
Eu gosto muuuuito de açorda, prato originalmente alentejano que hoje é encontrado nos quatro cantos de Portugal. A receita básica é bem simples: é uma espécie de pirão mole, feito a partir de um caldo no qual se desmancham pedaços de pão, um prato de origem humilde e substancioso.

A açorda não é um prato elegante e geralmente chega à mesa na própria panela em que foi preparada, em porções pantagruélicas. Não faça cerimônias e ataque, pois o sabor é de fazer a gente levitar

Onde comi açorda
Já provei açordas de vários tipos (nunca vou esquecer de uma de mariscos que comi em um restaurante popular de Lisboa, aonde fui levada por minha amiga Dulce Ferrero), mas me apaixonei irremediavelmente pela açorda de ovas com camarões que jantei em Aveiro, no bom restaurante O Batel ( Rua do Tenente Rezende nº 21, Centro). O lugar é muito agradável, com atendimento caloroso e preços honestos. Nossa conta (para três pessoas), com bebidas, ficou em € 39.

Arroz de polvo


Os arrozes portugueses são bem mais molhados que os risotos
Quando você encontrar "arroz de qualquer coisa" em um cardápio português, saiba que o que virá à mesa é um prato bem mais "molhado" que um risoto. Os arrozes portugueses têm muito mais caldo, são quase uma sopa — e definitivamente deliciosos.

O arroz de polvo é um dos pratos mais populares da cozinha portuguesa, um ensopado que leva, além do molusco, cenoura, cebola, páprica, tomilho, louro, coentro, vinho e muito azeite. Uma receita rica, forte, cheirosa e irresistível.

Esse arroz de polvo que você vê na foto (uma porção que teria alimentado três pessoas) também foi servido no restaurante O Batel, em Aveiro.

Enguias


Restaurante O Batel, em Aveiro, e o prato de enguias ao escabeche
Essa foi mais uma estreia. Apesar da minha curiosidade, nunca tinha tido a oportunidade de provar esse peixe (sim, apesar da aparência, enguia é um peixe). Tem gente que se arrepia com a ideia, mas é bom saber que o bicho é considerado iguaria em diversas culturas, da Coreia à Saxônia, passando por Portugal.

Finalmente, pude me ver cara a cara com as enguias, servidas como entrada, ao escabeche, no jantar em Aveiro. Elas têm um sabor bastante peculiar, próximo aos dos peixes de couro (que não são a minha predileção) e muitas espinhas, o que obriga nos obriga a comer com atenção. Como aperitivo, são uma boa ideia, mas como prato principal eu acho que o trabalho seria grande demais, rsss.

O molho em que foram servidas lembrava o das sarde in saor, sardinhas marinadas típicas de Veneza. Gostei, mas não amei.

Sapateira


Quase dois palmos de caranguejo — receita de felicidade. na carapaça é servido o único acompanhamento, uma mistura de maionese, ovas e da gordura do crustáceo
Da próxima vez que eu precisar de um motivo pra ir a Portugal (como se isso fosse necessário...), vou lembrar das sapateiras. Gente, o que é aquele bicho?! Pense em um caranguejo saborosíssimo e enorme, quase dois palmos, contando a extensão das patas.

Uma receita de felicidade que chega à mesa com a casca já quebrada, para facilitar o trabalho do comensal no desmonte de sua labiríntica anatomia. Um quebra nozes e uma pinça, no lugar dos talheres convencionais, ajudam a gente a dar conta do resto do destrinche.

Cozida basicamente na água e sal, sem qualquer frescura, a sapateira é servida sem acompanhamento (nem precisa), exceto uma espécie de maionese misturada às ovas e à gordura que esses crustáceos acumulam no interior da carapaça. Simplesmente sublime!

Confraternização de sapateiras e lagostas no tanque da Marisqueira Costa Nova, em Ílhavo (esq) e as bichonas já prontas para a mesa. Repare nas tentadoras travessas de percebes e de camarões que completam a cena
Onde comemos sapateiras
Elas foram prato único do nosso almoço na Marisqueira Costa Nova (Avenida José Estevão nº 75), na praia do mesmo nome, em Ílhavo, cidadezinha no litoral próximo a Aveiro. O lugar parece ser bastante popular entre turistas e locais. O salão envidraçado da casa, de frente para o mar, estava cheio, com o burburinho que lembrava o de uma cantina italiana em um almoço de domingo. O serviço é eficiente, mesmo com a lotação máxima do restaurante.

Uma atração à parte é o tanque de mariscos vivos, logo na entrada da Marisqueira, onde a gente pode admirar a confraternização despreocupada de lagostas e sapateiras.

Cada sapateira custa € 20. Considerando que elas valem por uma refeição completa, o preço é justo.

Arroz de tamboril


O tamboril é um peixinho muito mal-encarado, mas o arroz preparado com ele é um clássico da cozinha portuguesa
Essa foi mais uma incursão no reino dos arrozes caldosos que os portugueses tanto apreciam. O tamboril (também chamado de peixe-sapo) é um popular nas costas da terrinha, feio de dar medo, com uma cara de fera pré-histórica. O arroz de tamboril com camarões, porém, não tem nada de feio e é um clássico da culinária lusitana.

O prato, no conjunto, é muito saboroso, os camarões estavam sublimes. Achei o sabor do peixe um pouco forte, lembrando os peixes da Amazônia — eu sou chata pra peixe, geralmente gosto deles crus, à moda japonesa, ou de escaldado, à moda baiana. Nem em moqueca eu sou muito fã. Se você curte peixes com personalidade, aposto que vai gostar.

Onde comemos arroz de tamboril
Essa terrina que você vê aí na imagem foi o nosso almoço em Batalha, no PapOliva (Praça Mouzinho de Albuquerque n° 8), um restaurante simples, mas arrumadinho, no centrinho em frente ao famoso mosteiro da vila. A refeição para três custou cerca de € 30.


Ameijoas


Sangria de espumante, ameijoas e vista para o Porto: a vida é bela
Outro reencontro feliz. Amo de paixão esses bichos de concha tipicamente portugueses. Muita gente "traduz" ameijoas como vôngoles, mas eu discordo. Elas são maiores, têm a casca mais fina e sabor diferente. Tão gostosas quanto seus primos italianos, elas são perfeitas nos arrozes portugueses, como complemento a algum ensopado de frutos do mar ou simplesmente como aperitivo, ainda mais se acompanhadas de uma sangria de espumante e da vista para a minha querida Cidade do Porto.

Esse prato que você vê na foto foi devidamente devorado no cais de Vila Nova de Gaia, no deque do restaurante Tapas e Buchas.

Francesinha


Francesinha: um X-tudo com charme
Um X-tudo jamais será apenas um X-tudo, se submetido ao apuro culinário português. Esse sanduíche típico do Porto até que se arrisca à comparação, afinal, como deveríamos chamar a reunião de linguiça, salsicha, presunto e bife debaixo do mesmo teto — no caso, dentro do mesmo pão — e, ainda por cima, coberta com muito queijo gratinado?

Mas a distância entre uma francesinha e um X-tudo é a mesma que separa um ogro de uma parisiense. A francesinha tem um charme que é só dela. Talvez seja por causa do molho espesso e generoso, à base de tomate, cerveja e pimenta, que arremata o prato. Ou talvez seja culpa da Cidade do Porto, mesmo, essa linda que transforma qualquer coisa em um espetáculo.

O deque do Tapas & Buchas oferece uma vista linda para o Porto
Onde comemos francesinha
Eu provei algumas, mas a melhor foi a do restaurante Tapas & Buchas (Avenida Ramos Pinto, Cais de Gaia), em Vila Nova de Gaia. Só a vista do lugar já vale a pausa no deque de frente para o Douro e de cara para a beleza da Cidade do Porto, na outra margem. Almoçamos lá num começo de tarde lindíssimo, curtindo a sombra, a brisa e o visual. O atendimento é simpático e os preços não assustam. Nossa conta (para três), com bebidas, ficou em € 35.

Bifanas e pregos


Bifana alentejana e pregos à everywhere: Portugal e seus sandubas gostosos
Por falar em sanduíches portugueses, preciso recomendar duas pequenas obras-primas da comida rápida, as bifanas, típicas do Alentejo, e os pregos, sandubinhas despretensiosos que você vai encontrar por toda parte.

As bifanas são sanduíches de carne de porco, que passa por uma vinha d’alhos antes de assar, e que ganha um molho picante na hora de ir para o pão. Excelsa simplicidade que torna qualquer fominha entre as refeições em um pretexto para um luxo baratinho e delicioso.

A melhor bifana que comi nesta viagem foi em Évora (no Alentejo, é claro), no Bifanas de Vendas Novas (Rua Romão Ramalho nº 11). Vendas Novas, a 60 km de Évora, é apontada como o berço desse sanduba e essa lanchonete eborense jura que faz a receita castiça, embora algumas opções do cardápio venham com aqueles acréscimos que lembram a salada e o caruru no acarajé. Como sou ortodoxa, pedi a minha sem alegorias e adereços. Custou €1,90 e valeu por uma refeição.

Já o prego é um bife (de carne bovina) no pão francês, geralmente com molho picante. Um belisco com sabor da casa da gente, que pode vir acompanhado por batatas fritas (acho um exagero). Gostoso e baratinho, pode substituir uma refeição. Encontrei pregos de diversos preços, dependendo do lugar, mas você dificilmente vai pagar mais de €3 no sanduba.


Polvo e lula na brasa


Restaurante Quelha, em Amarante, uma grata surpresa
Eu já falei aqui na Fragata que jamais vou conseguir me decidir sobre quem prepara polvo melhor: gregos, espanhóis ou portugueses. Enquanto eu me dedico a encontrar uma solução para esse enigma, vou provando as diversas preparações do bicho e ficando cada vez mais enredada nessa deliciosa perquirição.

Pois se graças ao polvo na brasa do Restaurante Quelha, em Amarante (Rua de Olivença, no Arquinho), os patrícios, neste instante, estão levando o troféu. Essa casa simples, com quartos de presunto pendurados no teto e serviço informal, foi uma das grandes e boas surpresas gastronômicas dessa viagem.

Entramos lá por acaso, na noite da Festa de São Gonçalo de Amarante, quando todos os restaurantes da cidade pareciam estar explodindo de gente e nossa esperança de conseguir jantar já era mínima. Sem grandes expectativas, escolhemos a lula e o polvo na brasa e o que chegou à mesa foi um pequeno banquete.

Vão tratar bem dos moluscos assim lá em Amarante: carne macia, saborosa, com tempero na medida (com esses bichos, menos é sempre mais)... Um jantar inesquecível a € 40 (quatro pessoas), com bebidas.


Polvo ao forno


Esse polvo do Chez Lapin estava dos deuses
E já que o assunto é polvo, permita que eu recomende o bichinho ao forno, acompanhado de sublimes batatinhas, como o que comemos no Chez Lapin (R. Canastreiros 40-42), um dos muitos restaurantes que se acotovelam ao longo do Cais da Ribeira, no Porto. Sabe uma experiência celestial? Pois...

Tenho experiências variadas com os restaurantes do Cais da Ribeira, área excessivamente turística – com toda justiça, porque é um dos lugares mais bonitos que já vi. Como sói acontecer em points assim, há muitas casas pega-turista, mas também é possível comer muito bem por lá. Nosso almoço no Chez Lapin é a prova.

Chez Lapin: boa comida no Cais da Ribeira

Sardinhas na brasa
Durante os festejos dos santos de junho, Lisboa tem uma grelha assando sardinhas em cada esquina
Lisboa em junho é all about sardinhas. Tem até fantasia do peixinho, gorros divertidos usados por adultos, sem a menor cerimônia. É que essas bichinhas são a grande estrela culinária das celebrações dos santos do mês, especialmente Santo Antônio, padroeiro da cidade onde nasceu, no Século 12. Basta dar dois passos pelo Centro da capital portuguesa para encontrar um braseiro assando sardinhas, que são servidas no pão — uma experiência sensorial de primeiríssima linha.

A Festa de Santo Antonio estava animada no Morador de São Pedro de Alcântara, no Bairro Alto, em Lisboa
Aliás, bendita mania dos lisboetas de assarem coisas nas ruas. No inverno, são as castanhas, no verão, as sardinhas. Além dos peixinhos anônimos de que dei cabo pelas ruas, recomendo as sardinhas da Estalagem dos Capotes Brancos (Rua do Diário de Notícias 151), no Bairro Alto, onde jantamos muito bem na noite do 12 de junho, quando as festas juninas fervem, antecipando as celebrações religiosas de Santo Antônio, no dia 13.

A Estalagem é um restaurante popular, simpático e com ótima comida. O caldo verde estava perfeito e as sardinhas ao forno estavam ótimas. Nossa conta (para quatro pessoas, com vinho) ficou em € 76.

Caracóis


Caracóis? Adorei!
Não faça essa cara: se você ainda não provou caracóis, não tem a menor ideia do que está perdendo. Esses bichinhos podem não ser tão refinados como seus primos escargots (que eu amo!), mas batem um bolão. Têm um sabor peculiar, entre marisco e cogumelo, e são cozidos em um molho bem temperado com bacon, chouriço, alho, cebola, pimenta, louro e orégano — e muito azeite, claro.

Parecem complicados de comer, mas saem fácil da casca, basta puxá-los com um palitinho e suga-los junto com o molho. Eu amei!


O cais turístico de Peso da Régua: enquanto espera o barco, aproveite para bebericar e petiscar

Onde comi caracóis

Minha sublime experiência com os caracóis ainda teve uma paisagem à altura, no bar que funciona no cais turístico de Peso da Régua, cidadezinha encantadora do Vale do Douro, famosa como ponto de partida de passeios de barco pelo rio. Enquanto aguardava a partida do nosso barco, aproveitei para provar os bichinhos, devidamente acompanhados por alguns cálices de vinho do porto. Recomendo tudo: os caracóis, a cidade, a vista, o passeio e o vinho.

Cataplana de mariscos


Cataplana é essa panela mágica. Quando a gente abre, voilá...
Falando friamente, cataplana é uma panela típica do Algarve, uma espécie de wok com tampa. A descrição objetiva, porém, sequer chega perto de dar uma ideia da mágica por esse artefato. Eu sou testemunha: quando o garçom soltou os fechos da panela para nos revelar o encantado preparo que reunia lagostas, camarões, mexilhões, peixe, ameijoas — e uns vegetaizinhos de coadjuvantes... Se eu tiver que atravessar o Atlântico a nado para repetir a experiência, tô dentro.

Perguntei qual era o segredo da panela, fui informada de que era “o tempero” (tomates, pimentões, alho, cebola, pimenta, muito azeite, louro, vinho do porto, coentro). Fingi que acreditei. Mas ando achando que a cataplana é a versão culinária da cartola do mágico. Por falar nisso, como será que fica um coelho cozido nessa maravilha?

Esse é o "resultado" da cataplana no prato
Onde comemos cataplana de mariscos
O Restaurante Nacional (Rua Mário Pais 12, 1º andar, Santa Cruz), em Coimbra, foi responsável por uma das melhores refeições que fizemos nesta viagem a Portugal. É uma casa tradicional, fora do miolo turístico, com atendimento simpático e muito profissional.

Restaurante Nacional, classicão, frequentado por locais e serviço simpático
Na chegada, os painéis de madeira escura que revestem a escada e o salão do restaurante dão a impressão de que estamos entrando em um sisudo escritório de advocacia (e há vários no prédio), mas a conversa animada nas mesas ocupadas por legítimos coimbrões desmente rapidamente essa sensação.


Na chegada, a sensação é de estar indo a um escritório de advogados. Mas que causídico ofereceria uma mesa assim?
Jantamos muitissimamente bem no Nacional. Além da decantada cataplana, que eu dividi com meu sobrinho Bruno ( e teria dado facilmente para mais duas pessoas), minha sobrinha Carolina repetiu a sapateira que já tinha provado na Costa Nova e minha mãe foi de caldo verde. A conta para quatro, com bebidas e sobremesas, foi de € 90. Veredito? Mega, hiper recomendo.

Arroz de lampreia
Lampreia: achei o meu peixe!
Eu falei que sou chata pra peixe? Pois deixem a lampreia fora disso. Que descoberta fantástica! Assim como as enguias, tem quem ache que lampreias são “cobras do mar” ou algo assim, por conta de seu corpo alongado. Não importa, o que vale é que a bichinha é gostosa demais. Ela tem a carne escura, o que é acentuado pelo preparo do arroz, que leva vinho tinto e o sangue do peixe. O prato chega à mesa com um leve perfume de louro e limão e o sabor é fantástico. Meu conselho? Experimente!


Meus sobrinhos adoraram esse bacalhau ao forno servido com batatas fritas. O do Calado&Calado estava muito gostoso

Onde comi arroz de Lampreia

A Rua da Sota e suas transversais, na Baixa de Coimbra, estão cheias de restaurantes simpáticos e sem frescura, alguns mais turísticos, outros mais castiços. Na nossa temporada na cidade, usamos os aplicativos Yelp e Foursquare para escolher onde íamos comer e foi assim que chegamos ao Calado&Calado (Rua da Sota 14-16), uma casa com jeitão bem tradicional e sem qualquer frescura, onde jantamos muito bem.

Além do arroz de lampreia, os sobrinhos pediram bacalhau ao forno, que vem acompanhado de batatas fritas e minha mãe foi de sopa de legumes. Com sobremesas e bebidas, nossa conta ficou nos € 50.



Cabrito 


Cabritinho ao forno com batatas. Eu não resisto
Quando eu morava em São Paulo, uma das minhas grandes alegrias gastronômicas era comer perna de cabrito com brócolis em algum dos inúmeros restaurantes italianos da Bela Vista e Bixiga. Nessa viagem, acabei descobrindo que os portugueses também mandam muito bem no cabritinho assado — mais um motivo para a lista infindável de motivos para volta sempre à terrinha.

O tempero do cabrito é minimalista: vinho branco, alho, louro, sal e azeite e um pouco de banha de porco. A conta justa para realçar o sabor da carne tenra. O segredo é deixar a carne pegando gosto desde a véspera. Uma vez no forno, é importante regar o cabrito com o vinho branco enquanto a carne é assada, e também com o molho que vai se formando na assadeira. Um processo lento, meticuloso e de resultados sedutores.


O restaurante Zé da Calçada, em Amarante, tem uma varanda debruçada sobre o Rio Tâmega
Meu feliz encontro com o cabrito ao forno português foi no Restaurante Zé da Calçada (Rua 31 de Janeiro 83), um dos mais tradicionais de Amarante, no nosso último almoço na cidade, em pleno domingão de procissão e missa de São Gonçalo — já tínhamos tentado comer lá em outras ocasiões, mas a casa sempre estava até à tampa de gente.

O restaurante tem um trunfo insofismável, que é varanda (ou esplanada, como se diz em Portugal) debruçada sobre o Rio Tâmega e com uma vista maravilhosa para a Ponte de São Gonçalo, do Século 18, e a igreja dedicada ao santo que viveu e pregou na cidade. 


Entradinha de mexilhões e a varanda do restaurante

O lombinho de porco e o bacalhau também foram aprovados
A casa é elegante, tem serviço muito profissional e a comida é ótima. Antes dos pratos serem servidos, os comensais são tentados por diversas entradinhas oferecidas de mesa em mesa. É preciso tomar cuidado para não contentar o apetite nesses beliscos—e os mexilhões que eu aceitei até mereciam ter virado prato principal.

Além do cabrito (delicioso), minha mãe pediu lombo de porco e Carolina pediu bacalhau. Com bebidas e sobremesas, nossa conta foi de € 80.

Presunto
Presunto português pra acompanhar uma taça de vinho? Sabe-me bem...
Os espanhóis têm lá suas razões para se reivindicarem como os reis do jamón, mas os fenícios, que andaram um bocado por toda a Península Ibérica, legaram essa arte também aos portugueses, que produzem presuntos de responsa, alguns deles com denominação de origem protegida, como os produzidos no Alentejo, ou com indicação geográfica protegida, como os de Vinhais, no Trás-os-Montes.

E tem horas que a felicidade se resume a um prato com travessas de presunto português cortadas bem fininhas para acompanhar uma taça de vinho. Um bom lugar para aproveitar esse pequeno grande prazer é a Taberna Dom Rodrigo (Rua 31 de Janeiro, 39), em Amarante.


Taberna Dom Rodrigo, em Amarante: cartas, bilhetes e recados
O lugar é muito simpático, um misto de armazém e bar de vinhos, frequentado por moradores da cidade que discutem política debruçados no balcão. A decoração usa velhas cartas, bilhetes e recados para dar um clima íntimo e aconchegante à casa e as mesas são velhas escrivaninhas — lugar perfeito para sacar o bloquinho e repassar as anotações de viagem bebericando sem pressa.

A taverna não serve refeições, só tapas de responsa, como presuntos selecionados e queijos com pedigree, como o de Azeitão e o famosíssimo queijo da Serra da Estrela. Dá pra fazer uma boa farrinha por lá gastando € 10.

Bochecha de porco
Jack Aubrey tem toda razão: bochecha de porco é um espetáculo
Jack Aubrey, o capitão da HMS Surprise dos livros, é fã de bochecha de porco, iguaria que o deixa no melhor dos humores sempre que se apresenta à mesa de sua cabine na popa da velha fragata. Eu, capitã desta Surprise, morria de curiosidade para provar esse prato, com uma certa desconfiança de que a predileção por ele fosse coisa do paladar britânico. Pois, Capitão Aubrey, eu dou a mão à palmatória: bochecha de porco é uma delícia, ainda mais feita no vinho e servida sobre uma caminha de purê de batatas, como a que comi em Lisboa.


Café no Chiado: o lugar é bonito e a comida é ótima

Essa descoberta que me deixou saltitante aconteceu em um ótimo restaurante que resolvemos experimentar ao acaso. O Café no Chiado (Largo Picadeiro 10 a 12, Chiado) é um lugar bonito e elegante, em frente ao Teatro Nacional São Carlos. Se a cara charmosa do lugar nos atraiu, a comida correspondeu com sobras às expectativas, pois almoçamos muitíssimo bem.

Gostei de tudo—ambiente, serviço, apresentação dos pratos—e recomendo. Não é um lugar barato. Nosso almoço para quatro pessoas ficou na casa dos € 100, com bebidas e sobremesas (que serão devidamente louvadas no post doce que vem por aí). Mas foi uma graninha bem gasta. 

Cozido à portuguesa
Com arroz e feijão: o cozido à portuguesa é um pouquinho diferente do nosso, mas é bom de chorar
Como boa baiana, sou fã de um cozido, herança genuinamente portuguesa que persiste nas mesas da minha terra. Eu ainda não tinha provado o prato em Portugal e já estava até conformada de voltar para casa com essa lacuna na minha cultura gastronômica, mas a terrinha é tão generosa que colocou um belo cozido no meu caminho, aos 48 minutos do segundo tempo, quando eu voltava de umas compras de última hora e já convencida a catar as malas e ir almoçar no aeroporto.

Gente, que surpresa boa!


Restaurante Caprilia, pertinho da Praça Marquês de Pombal, em Lisboa: simpático, barato e ótima comida
O cozido português é um pouquinho diferente do que fazemos na Bahia. O nosso tem pirão, um acréscimo típico da colônia, onde se descobriu a virtude da farinha de mandioca misturada aos caldos para aumentar a saciedade dos escravos. Outra diferença é a presença do feijão e do arroz no prato servido na terrinha—pode parecer estranho, mas combina direitinho. No mais, é a mesma festa de vegetais (batata, cenoura, couve). Um prato delicioso e imperdível.

Onde provei o cozido à portuguesa
O Restaurante Caprilia (Avenida Duque de Loulé nº 79-A) é um achado. Simpático, bem arrumado e frequentado por moradores das redondezas e pelo pessoal que trabalha no entorno da Marquês de Pombal. Simples e sem frescura, o lugar bate um bolão no que interessa: como almoçamos bem! 

Provamos o cozido e também a sopa do cozido, que é outra tradição portuguesa da gema. Ambos estavam de chorar, de tão gostosos. E quer saber do melhor? A conta, para três pessoas, com refrigerantes, foi €15.

Quer mais dicas de onde comer em Portugal? Dá uma olhada neste post
Surpresa: hambúrguer português bate um bolão. Três lugares para praticar o sacrilégio


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3 comentários:

  1. Oi, Cyntia. Tudo bem? :)

    Seu post foi selecionado para o #linkódromo, do Viaje na Viagem.
    Dá uma olhada em http://www.viajenaviagem.com

    Até mais,
    Bóia – Natalie

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  2. Que delícia de post, menina. Tenho um irmão em São João do Estoril e sempre que vou a Europa dou uma paradinha na terrinha. Algumas das iguarias citadas eu já provei e outras já estão devidamente anotadas para a próxima (agora em Setembro).

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