terça-feira, 6 de setembro de 2016

O que fazer em Évora

O Jardim de Diana, debruçado sobre a muralha de Évora
Évora é uma das cidades mais lindas que já vi na minha vida. Preservadíssima e muito romântica, ela tem tudo que se busca em uma cidade histórica europeia: muralhas, palácios, ruazinhas medievais, jardins de sonho... Tudo isso cercado pela luz dourada do Alentejo, pelos campos de terra ocre cobertos pelos verdes suaves das oliveiras e sobreiras e a palidez dos trigais... De fazer o coração parar um pouquinho, só para não perturbar a contemplação.

O melhor de Évora é o conjunto, é andar pelas ruas sem um plano pré-definido, apenas virando a esquina quando o coração mandar. Cada passo é uma descoberta. Longe de mim querer estragar as surpresas, mas, para facilitar sua vida, listei algumas atrações imperdíveis na cidade.

As informações práticas pra organizar sua visita estão neste post: Évora - dicas práticas
Para ver como foi minha primeira visita à cidade: Bate e volta a Évora
Passeio bacana nos arredores de Évora: Castelo de Montemor-o-Novo

O chafariz da Praça do Giraldo, do Século 16

O que ver em Évora

As muralhas 
A Cerca Velha e o Palácio de Vimioso, sede da Universidade
O cinturão fortificado que contorna completamente o núcleo histórico de Évora é uma aula de história sobre a cidade e sobre Portugal, já que cada povo que controlou a cidade deixou sua mãozinha nas construções. A chamada Cerca Velha, iniciada pelos romanos, data do Século 3 e foi ampliada pelos árabes, que dominaram a Évora por 450 anos (entre o Século 8 e o Século 12). Ela contorna a antiga Acrópole da cidade, onde os romanos mantiveram seu Fórum, os mouros construíram sua Alcáçova (palácio/fortaleza que era sede do governo) e os cristãos ergueram a catedral.

A Cerca Nova (cinturão externo) expressa a expansão da cidade e começou a ser construída a partir da Reconquista Cristã (Século 12) e foi finalizada no Século 16.

Torres da Cerca Velha
A muralha externa de Évora (Cerca Nova) e o Aqueduto da Água de Prata
Para assistir ao vivo essa aula de história, basta disposição para caminhar. A Cerca Velha contorna um perímetro de menos de 2 km, no coração da cidade. Ela está incorporada a construções mais recentes em diversos trechos, mas seu traçado é facilmente desvendável pela presença de torres, velhos baluartes e portas (como a de D. Isabel, que data do período romano).

A Cerca Nova, o cinturão externo de muralhas, abarca um perímetro de cerca de 6 km, contornando todo o centro histórico. Os preguiçosos podem fazer esse trajeto de carro, já que esse conjunto de fortificações está cercado de avenidas. Mas é muito mais gostoso caminhar, descobrindo os agradáveis jardins que contornam a muralha.


Ruas medievais que parecem saídas de um romance
Os nomes das ruas de Évora contam a história da cidade
O Centro Histórico de Évora ocupa uma colina de inclinação suave, onde os ângulos das subidas e descidas são sempre amigáveis às caminhadas. O intrincado traçado medieval resulta em ruas estreitas, encantadas por passagens em arco que deságuam em pátios minúsculos e as delicadas decorações nas fachadas premiam o olhar mais atento.

Até os nomes das ruas parecem brincar com o caminhante—“Rua do Lagar dos Dízimos”, “Rua do Inverno”, “Travessa Torta”, “Travessa do Pocinho”...

Amo aquelas ruelas medievais e suas passagens em arco

Na minha primeira vez em Évora, me esbaldei explorando o rendilhado de ruas que desce a Oeste da Praça do Giraldo, até a Cerca Nova (a muralha exterior). Desta vez, repeti a dose e multipliquei por dois, com o mesmo prazer.

Também partindo da Praça do Giraldo e seguindo para o Norte ou para o Sul, o encanto são as arcadas mouras que protegem as calçadas e poupam o caminhante do calor abrasador do Alentejo.

As arcadas mouras, mais um encanto eborense
O Jardim Público e o Jardim de Diana
Jardim Público de Évora
Évora tem pelo menos dois jardins maravilhosos, lugares sossegados, cercados de beleza e preciosidades históricas.

O Jardim de Diana, debruçado sobre a Cerca Velha e de cara para o Templo Romano, é um pequeno (cerca de 3 mil metros quadrados) recanto, sombreado por árvores frondosas e com uma vista magnífica para os telhados da cidade e para os campos do Alentejo, ao longe. A pausa aqui combina com a visita às atrações da parte alta da cidade (Catedral, Templo, Capela dos Lóios, Universidade...).

O Jardim de Diana, de cara para o Templo Romano
O Jardim Público, ao lado da Cerca Nova, é um vasto espaço (mais de 50 mil metros quadrados) construído no Século 19, seguindo o estilo dos jardins e parques públicos em voga na época, na área que um dia abrigou as hortas do Palácio de D. Manuel (Século 16) e do Convento de São Francisco.

O Palácio usado pela corte portuguesa em suas temporadas alentejanas ainda está lá e pode ser visitado. Seus traços mouriscos e manuelinos rivalizam com as fontes, cantinhos sossegados e veredas do Jardim, onde sempre há um banquinho à sombra fornecida pelas árvores robustas, trazidas de diversas partes do mundo.

Uma atração curiosa do Jardim são as Ruínas Fingidas, um conjunto erguido no Século 19 com restos de construções antigas — o romantismo da época adorava esses revivals artificiais, como o texto medieval de Ivanhoe, romance de Sir Walter Scott.

A Pausa no Jardim Público combina com a visita à Igreja e ao Museu de São Francisco e à Capela dos Ossos.

O Templo Romano 
A construção está muto bem preservada
Apesar de conhecido como “Templo de Diana”, esse monumento do Século 1º d.C. era provavelmente dedicado ao culto do Imperador Augusto. Ele ocupa a crista da colina onde se assenta a cidade (a acrópole ou “ponto culminante”) e local do Fórum Romano.

O templo de Évora é uma das construções romanas mais importantes ainda de pé na Península Ibérica. A passagem do tempo e o maltrato dos homens tirou pouco da imponência da construção, que está bem preservada, com 14 de suas colunas coríntias ainda de pé.


Para vê-lo e toda sua beleza, programe uma visita em duas etapas. A primeira, de dia (evite o sol a pino), para observar a riqueza de detalhes, especialmente dos capitéis das colunas. A segunda visita deve ser feita à noite: o templo iluminado pairando sobre o Largo do Conde de Vila Flor é uma imagem para guardar a vida inteira.

A capela dos Lóios
Largo do Conde de Vila Flor. De terça a domingo, das 9h às 12h e das 14 às 18. Entrada € 3.

A Capela dos Lóios, em frente ao Templo Romano
A capela do antigo convento dos Lóios, do Século 15, é uma das preciosidades de Évora, com seu rico interior revestido de painéis de azulejos (acrescentados no Século 18) e de talha dourada. A igreja é dedicada a São João Evangelista e, com a extinção do convento, passou a integrar o conjunto arquitetônico do Palácio dos Duques de Cadaval, que também está aberto à visitação.

A Sé de Évora
Largo do Marquês de Marialva. Diariamente, das 9h às 12h e das 14h às 16:50h. Entrada € 1,50. Bilhete combinado Claustro + Catedral € 2,50.

A Sé de Évora, a maior catedral medieval de Portugal
A Sé de Évora é a maior catedral medieval de Portugal, construída na área da antiga acrópole romana com as características feições militares que marcaram a arquitetura religiosa ibérica da época da luta para expulsar os mouros.

Sua construção foi iniciada no Século 12, logo após a cidade ser tomada dos árabes por Geraldo Sem Pavor, mas como toda grande catedral, ela permaneceu como “obra aberta” ao longo dos séculos, recebendo intervenções que expressam o melhor de cada escola artística.


O portal da catedral, por exemplo, é do Século 14, com as esculturas dos apóstolos. Uma peça magnífica, que já tinha me encantado na primeira vista. Desta vez, vi a obra sabendo que ela saiu das mãos de Mestre Pero (Século 14), artista que conheci e me fartei de admirar na visita ao Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra. O interior da igreja tem um tom severo, mitigado pela riqueza dos altares barrocos. O púlpito e o órgão são renascentistas.

Além da igreja, não deixe de ver o claustro gótico e o coro, do período manuelino, com suas belíssimas cadeiras de carvalho ricamente entalhadas. Em um prédio contíguo, a Catedral mantém um Museu de Arte Sacra cujo acervo foi reunido a partir de igrejas e castelos alentejanos.

Praça do Giraldo
A Igreja de Santo Antão e o famoso chafariz da Praça do Giraldo
Construída no Século 16 e batizada em homenagem ao herói da cidade e do Alentejo — Geraldo Sem pavor, o cavaleiro que liderou a expulsão dos mouros da região — a Praça do Giraldo é o coração de Évora, sempre fervendo de gente nas mesas de bares, cafés e restaurantes que ocupam praticamente todo o espaço, mesmo no frio inclemente do inverno.

O longo retângulo da praça é dominado pela fachada sóbria da Igreja Matriz, dedicada a Santo Antão, padroeiro de Évora e adornada pela fonte de mármore do Século 16. No entorno, o conjunto harmônico das fachadas dos casarões e as arcadas mouras fazem uma moldura encantadora para a animação que parece não parar nunca por ali.

Bom lugar para uma pausa, uma bebidinha e para observar eborenses e turistas se divertindo.

Igreja e Museu de São Francisco
Praça 1º de Maio. Diariamente, das 9h às 12:45h e das 14:30h às 17:10h. Aos domingos, abre às 10H. Entrada gratuita. O ingresso para museu está incluído no bilhete para a Capela dos Ossos.

Portal manuelino da Igreja de São Francisco
Essa igreja é apontada como uma das mais bonitas de Portugal e está fortemente ligada à história das grandes navegações. Em estilo manuelino, ela expressa a pujança econômica e a euforia do reinado de D. Manoel — e seu estilo, claro, é manuelino.

O interior da Igreja de São Francisco impressiona pela beleza e grandiosidade

Confesso que só entrei nessa igreja porque queria visitar a famosa Capela dos Ossos, que faz parte do mesmo conjunto. O que vi, porém, me deixou de queixo caído. Sua nave muito alta e sua bela estrutura em pedra de cantaria são um contraste despojado com a riqueza dos altares dourados, pagos, muitos deles, pela bolsa dos reis e príncipes de Portugal. São dez capelas laterais ricamente decorados e um altar-mor esplendoroso, obra barroca do Século 18.

As dependências do antigo convento de São Francisco (o primeiro da Ordem Franciscana em terras portuguesas) abrigam hoje um interessante museu de arte sacra. Não deixe de visitar.

O altar-mor da Igreja de São Francisco
O espaço do antigo Convento de São Francisco abriga um interessante museu
Imagens sacras do Museu de São Francisco. Repare a Nossa Senhora (à esquerda) retratada como uma senhorinha portuguesa
Capela dos Ossos
Um mosaico bem lúgubre
A atração mais famosa de Évora é o tipo de lugar que eu geralmente evitaria, pela morbidez: uma capela decorada com os ossos dos frades franciscanos que viveram e morreram em Évora. A Capela dos Ossos, porém, tem um encanto estranho que acaba valendo a visita — lúgubre, sem dúvida, mas que não deixa de ser belo, mesmo com o recadinho na entrada: “Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”.

Apesar da nota mórbida, a Capela dos Ossos tem lá sua beleza

Essa construção do Século 18 parece mesmo ter sido concebida para dar friozinho na espinhados visitantes. O salão de 200 metros quadrados recebe iluminação apenas por algumas frestas. O pouco de sol que penetra por essas aberturas parece “colar” nas caveirinhas branquinhas dispostas num soturno mosaico. Brrrrrr.

Segundo o folheto explicativo distribuído pelo escritório de turismo de Évora, cerca de 5 mil esqueletos foram empregados na decoração. Tenho uma certa dúvida de que não estejamos diante de um caso de vilipêndio de cadáver, mesmo que o efeito seja plasticamente interessante. Eu gostei de ter ido, mas não creio que algum dia em repita a dose.

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5 comentários:

  1. Obrigado. A cada postagem eu me encanto com a beleza dos seu texto e a exatidão dos fatos históricos.Estive em Évora em dezembro e já estou com vontade de voltar.

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    Respostas
    1. Obrigada, Jacy :)
      Eu acho que Évora é um lugar pra se voltar (tanto que voltei e ainda não me fartei, rsss). Linda demais, ne?
      Abs

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  2. Post maravilhoso! Estamos indo para lá em dezembro e vou guardar o post com carinho.

    Clau
    @AsPasseadeiras

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    Respostas
    1. Oi,Claudia, obrigada :)
      Aproveite Évora, a cidade é um sonho.

      Excluir
    2. Oi,Claudia, obrigada :)
      Aproveite Évora, a cidade é um sonho.

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