domingo, 24 de julho de 2016

Portugal: Castelo de Montemor-o-Novo

A Torre do Relógio do Castelo de Montemor-o-Novo
Quem resiste a um castelo? Eu sou fã desses senhores com séculos de vida, longo currículo de aventuras e recantos misteriosos. Visitar um castelo é sempre um mergulho na história, com o bônus da paisagem: por razões estratégicas, a maioria deles tem localizações espetaculares, de onde se vê o mundo de cima.

Um desses mirantes fica pertinho de Évora, o Castelo de Montemor-o-Novo, da época da Reconquista cristã (séculos 11 e 12). Lá no alto, pairando sobre a paisagem, suas muralhas oferecem uma vista deslumbrante para os campos ao redor e para a pequena cidade que cresceu a seus pés. Um passeio imperdível para quando você for ao Alentejo, uma região pródiga em castelos.

A paisagem do Alentejo é a grande moldura para as histórias contadas pelo castelo. Essa é a Torre da Má-Hora, de origem moura, por onde teriam entrado as tropas de D. Afonso Henriques para conquistar Montemor

Na verdade, a paisagem do Alentejo é tão bonita que os portugueses nem precisariam de razões militares para aproveitar cada elevação e plantar um castelo — bastaria o prazer de debruçar sobre a muralha e contemplar aquela terra ocre coberta pelas oliveiras e sobreiras até onde a vista alcança. Mas como as grandes obras humanas dificilmente se destinam primordialmente ao deleite, temos que agradecer à animada História da Península Ibérica pelos lindos mirantes talhados em pedra que ela legou aos viajantes do futuro.

Primeiro foi a luta contra os mouros, a chamada Reconquista, e a necessidade de consolidar o domínio sobre a região. Depois, os portugueses continuaram com razão de sobra para continuar plantando suas fortalezas de pedra Alentejo a fora, protegendo suas fronteiras contra a cobiça castelhana. Pelo menos 60 dessas construções ainda podem ser visitadas na região, algumas ainda bem preservadas, outras reduzidas a vestígios.

O castelo fica no alto de uma ladeira inacreditavelmente íngreme, mas dá para ir de carro até a entrada e poupar o fôlego
O Castelo de Montemor-o-Novo está na primeira categoria. Suas muralhas ainda impõem respeito e no seu interior algumas construções dão uma boa ideia de sua imponência original.

Antes de ir até lá, li muitas reclamações na internet sobre o estado de conservação do castelo e devo dizer que discordo das queixas. Não é possível imaginar que uma construção do Século 12, que já viveu aventuras do arco da velha, possa estar novinha em folha (mas tem quem reclame que o Fórum Romano é "muito detonado"...).

Do que senti falta em Montemor-o-Novo foi de sinalização e de informações sobre as diversas construções no interior do castelo. Um folhetinho com mapa seria perfeito, mas umas placas descritivas já ajudariam um bocado :). Num esforço de reportagem (risos) a Fragata vai tentar remediar isso com algumas indicações.

As duas torres em ruínas pertenceram ao Paço dos Alcaides, onde o rei D. Manuel teria tomado a decisão de mandar Vasco da Gama às Índias
Roteiro de visita ao Castelo de Montemor-o-Novo
O acesso ao castelo é por uma ladeira muito íngreme — cheguei a duvidar que o motor do carro fosse dar conta do trecho final, mas fiquei muito feliz de não ter que testar o meu fôlego subindo a pé. Não há qualquer controle de entrada no monumento e a visita é gratuita. Só é preciso pagar ingresso no Centro de Interpretação do castelo.

Logo na entrada do castelo está a Torre do Relógio, que defende a porta principal da muralha. O nome dessa construção vem dos sinos aí instalados, a partir do Século 17, para marcar informar as horas e marcar o ritmo da vida na cidade e no interior da fortaleza. Uma escada sem corrimão e com degraus irregulares permite subir nesse trecho das fortificações e dá acesso às torres voltadas para a cidade.

Esse pavilhão do castelo já abrigou um convento e um orfanato

Um passeio sobre as muralhas do Castelo de Montemor-o-Novo
De volta ao chão, uma trilha curta leva ao antigo Paço dos Alcaides ou Paço Real, do Século 15, hoje em ruínas. Em seus templos de esplendor, essa construção hospedou reis de Portugal e é possível que a reunião decisiva sobre a expedição de Vasco da Gama às Índias, com a presença de D. Manuel I, tenha acontecido em um de seus salões. A vista desse lado do castelo é muito bonita.

Próximo à Torre do Relógio está um pavilhão onde já funcionou um convento e um orfanato. Uma arcada no pátio do antigo convento dá acesso à esplanada, hoje usada como parque público.

Nessa esplanada também está a Igreja de Santiago, do início do Século 14 e que agora abriga o Centro de Interpretação do Castelo. Vale a pena pagar a entrada (€ 1) para ter acesso a alguns painéis explicativos sobre a história do lugar e, principalmente, para ver os vestígios de belas pinturas murais que adornavam o interior do templo.

A esplanada do castelo tem sombra, banquinhos e uma vista bonita. Dá até para pensar em piquenique
A esplanada em torno da igrejinha é realmente muito agradável, arborizada e com banquinhos para a gente retomar o fôlego à sombra. O trecho das muralhas nesse ponto do castelo está bem preservado (as escadas continuam sem corrimão ou qualquer proteção, mas a subida é tranquila) e vale muito um passeio sobre elas até a Torre da Má-Hora, acompanhada por uma vista deslumbrante para os campos alentejanos. 

Fiquei curiosa sobre o que teria levado a torre mais bonita do castelo a ser batizada com um nome tão aziago e, ainda durante a visita, São Google me salvou: conta a lenda que durante o cerco movido por D. Afonso Henriques à vila de Montemor — na época uma praça moura—a guarnição dessa torre comeu mosca e esqueceu de trancá-la, permitindo o acesso das tropas portuguesas e a conquista da fortificação. Em má hora (para os mouros). Se a história é verdadeira, não se sabe, mas o nome pegou.

Pinturas murais na Igreja de São Tiago, onde está instalado o Centro de Interpretação do Castelo

Um pouquinho de história 

O Castelo de Montemor-o-Novo é um senhor de alentado currículo aventureiro. Muito antes de haver Portugal, o morro onde ele hoje se assenta era ocupado por um castro (fortificação primitiva) dos primeiros habitantes da região. Os romanos, que chegaram para inventar a Lusitânia, aproveitaram a localização estratégica para instalar um forte que defendia as estradas para Mérida, capital da província, e para a Foz do Tejo.

A origem do castelo atual é uma povoação fortificada estabelecida no local, logo após a expulsão definitiva dos mouros — a vila acabaria transferida para o sopé do morro. Sabe-se que no Século 14 Montemor foi uma das recompensas dadas pela coroa portuguesa ao Condestável Nuno Álvares Pereira, comandante militar da Batalha de Aljubarrota.

A vila de Montemor-o-Novo teve origem entre as muralhas do castelo, mas seu crescimento levou à transferência da povoação para o sopé do morro que abriga a fortaleza
Ao longo do tempo, o castelo passou por muitas melhorias e foi pouso frequente dos reis portugueses, cuja corte era frequentemente instalada em Évora. Com a morte de D. Sebastião, Portugal caiu sob o domínio espanhol e os castelos de fronteira viveram longo período de decadência.

O velho castelo voltaria a ter importância estratégica na Guerra da Restauração, quando o país, mais uma vez, lutou contra os espanhóis para assegurar sua independência. Sua longa história de aventuras registraria, ainda, o assalto do exército napoleônico, em 1808 — suas muralhas resistiram às tropas comandadas por ninguém menos que Junot. Ainda no Século 19, a fortaleza foi usada como quartel do estado-maior das tropas liberais, na Guerra Civil Portuguesa.


Dicas práticas
Montemor-o-Novo está a 100 km de Lisboa, uma viagem tranquila pela Rodovia A2 e depois pela A6. Se você está indo para Évora (a 30 km), vai passar por lá.


A visita ao castelo rende um bate e volta bacana para quem está em Évora. Se estiver sem carro, a empresa de ônibus Rede Expressos liga Évora a Montemor-o-Novo em diversas viagens diárias, num percurso de meia hora. O bilhete ida e volta custa € 12.

Aproveite que está na cidade para dar uma olhada na Arena de Touros de Montemor, de 1882. 

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