23 de março de 2021

Os encantos de Mdina, Malta


Portão de Mdina (Mdina Gate), em Malta
O Portão de Mdina (Mdina Gate), entrada principal da cidade, foi construído no Século 18 e "interpretou" uma das portas de King's Landing em Game of Thrones

A 13 km de Valeta — meia horinha de viagem com transporte público — a milenar cidade de Mdina, primeira capital de Malta, é um passeio que, tenho certeza, você vai adorar.

Bastou dar uma olhada no resumo do currículo de Mdina pra que ela fosse para o topo das prioridades do meu roteiro em Malta.

Fundada pelos fenícios no Século 8 a.C. (quando se chamava Malet, origem do nome do país), Mdina foi a Mélite de romanos e bizantinos, esteve nas mãos dos árabes, que lhe deram o nome atual (medina, em árabe, dignifica cidade), foi praça forte normanda e aragonesa...

Catedral de São Paulo e Palácio Vilhena, em Mdina, Malta
Um altar da Catedral de São Paulo e o portal do Palácio Vilhena, edifício barroco que hoje abriga o Museu Nacional de História Natural de Malta

Esnobada como capital pelos Cruzados, chegados no Século 16 — eles preferiram ter sua sede em Birgù e, posteriormente, em Valeta — Mdina assistiu quietinha ao passar dos últimos 500 anos, fazendo jus ao apelido de “Cidade Silenciosa”.

Com a sabedoria de seus 2.700 anos de idade, Mdina continuou a contemplar o Mediterrâneo e as terras ao seu redor do alto de um platô bem no centro da Ilha de Malta, de onde até hoje se tem vistas espetaculares de quase 360 graus— como Malta é pequenininha, dá pra ver a ilha quase toda. Não é qualquer cidade que pode reivindicar o título de mirante de um país, né?

Muralhas de Mdina, Malta
Das muralhas de Mdina, dá pra ver quase toda a Ilha de Malta
 
Veja as dicas para explorar essa cidade tão especial:

Mdina, Malta

O que ver em Mdina

Catedral de São Paulo, Mdina, Malta
A Catedral de São Paulo é a atração mais famosa de Mdina

Catedral de São Paulo, Mdina, Malta

A atração mais famosa de Mdina é a Catedral de São Paulo. Ela foi construída do Século 12, mas passou por várias reformas até ganhar as atuais feições barrocas, simplesmente acachapantes.

No ano 60 de nossa era — quando Malta estava sob domínio romano e tinha Mdina (então chamada Mélite) como capital — o apóstolo cristão Paulo de Tarso naufragou na hoje chamada Baía de São Paulo, quase em frente às muralhas da cidade, que estão a 8 km de distância do mar.

Catedral de São Paulo, Mdina, Malta
A beleza barroca do interior da Catedral vale a viagem até Mdina

Catedral de São Paulo, Mdina, Malta

O futuro santo foi resgatado e acolhido em Mdina, onde teria feito muitas conversões ao cristianismo e acabou se tornando padroeiro de Malta — majoritariamente católica — e homenageado na Catedral.

Conta a lenda que a Catedral foi erguida no local onde Paulo de Tarso encontrou-se pela primeira vez com o governador romano Públio, um de seus primeiros seguidores em solo maltês, canonizado no Século 17 como o primeiro santo de Malta.


Catedral de São Paulo, Mdina, Malta

O certo é que só a Catedral de São Paulo já valeria a esticada até Mdina. Construída com as pedras douradas tão características de Malta, a igreja tem uma fachada discreta, onde se destacam os brasões de gãos-mestres da Ordem de Malta.

Mas é o interior coberto de belíssimos afrescos e entalhes, o piso de mosaicos em mármore (onde estão muitas tumbas de cavaleiros cruzados), as colunas de mármore e o teto magnificamente pintado que pagam o ingresso para ver a Catedral e a viagem a Mdina.

Catedral de São Paulo, Mdina, Malta

Catedral de São Paulo, Mdina, Malta

⭐Visita à Catedral de São Paulo

Endereço: 4 St Paul’s Square
Horário: de segunda a sábado das 9:30h às 17h. Domingos, somente das 15 às 17h

Ingresso: €10. Maiores de 60 anos e estudantes (com carteirinha) pagam €8. Menores de 12 anos têm entrada gratuita.

Museu da Catedral de São Paulo, Mdina, Malta
O ingresso para a Catedral de São Paulo também dá direito a visitar o Museu da Catedral, que fica logo ao lado 

O bilhete também dá acesso ao Museu da Catedral, que fica quase ao lado, na Pjazza tal-Arċisqof (Praça do Arcebispo/Archbishop Square) e abre de segunda a sábado, das 9:30h às 17h (última entrada às 16:15h).

Porta de Mdina, Malta
O Portão de Mdina oficialmente se chama Porta de Vilhena, em homenagem ao português António Manuel de Vilhena, grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros de Malta na época da construção

⭐Portão de Mdina/ Porta de Vilhena

A cidade amuralhada de Mdina é um encanto com cara barroca e corpinho medieval: tem menos de 80 mil metros quadrados de área, ruas muito estreitas e tortuosas e apenas 300 habitantes.

A entrada principal da cidade, o Portão de Mdina, fica a menos de 200 metros da parada dos ônibus regulares que vêm de Valeta ou Sliema, na moderna cidade de Rabat — antigo subúrbio fora das muralhas, hoje com 12 mil habitantes.

Os fãs de Game of Thrones (tipo eu, até assistir aqueles últimos capítulos muito mal alinhavados da derradeira temporada 😊) vão reconhecer o Portão de Mdina: ele fez uma ponta na série, “interpretando” uma das entradas de King’s Landing, capital de Westeros.

Portão de Mdina, Malta
Do lado de dentro da Porta de Vilhena estão esculpidas as imagens dos três padroeiros de Malta: São Paulo, Santa Ágata e São Públio

Acessível por uma ponte de pedra sobre o antigo fosso, o Portão de Mdina (ou Porta de Vilhena) é uma das três entradas na muralha da cidade — as outras são a medieval Porta dos Gregos, a mais antiga, e a Porta Gharreqin, do Século 19.

O Portão de Mdina foi construído em estilo barroco no começo do Século 18, quando Malta era governada pelo português António Manuel de Vilhena, grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros de São João, de quem herdou o nome.

Portão de Mdina, Malta
Vou logo avisando que vai ser uma canseira tentar fotografar o Portão de Mdina sem gente na frente 😊

Mesmo na baixa temporada (eu visitei Malta em outubro/2019), é possível que você encontre um certo engarrafamento de gente na ponte que dá acesso ao portão, que é, sem dúvida, o ponto mais fotografado de Mdina.

⭐Muralhas de Mdina

Muralhas de Mdina, Malta
Com cerca de 1,3 km, as muralhas de Mdina foram obra dos diversos povos que dominaram Malta

Muralhas de Mdina, Malta

Cada povo que dominou Malta, desde a Antiguidade, deixou seu tijolinho nas Muralhas de Mdina. Romanos, árabes, bizantinos, normandos e cruzados ampliaram, reduziram e remodelaram as fortificações da cidade, de acordo com suas necessidades.

O cinturão de muralhas, com 1,3 km, cerca completamente a velha cidade, acompanhado por um fosso — agora uma espécie de parque gramado e arborizado — e reforçado por bastiões que hoje servem de mirantes privilegiados para a paisagem ao redor.

É tudo tão bonito que a gente até esquece que as construções tiveram objetivo exclusivamente militar.

Rotunda de Mosta vista das muralhas de Mdina, Malta
A Rotunda de Mosta vista das muralhas de Mdina

Bastião Despuig, Mdina, Malta
A pracinha do Bastião Despuig
 
Quando digo que dá pra ver a Ilha Malta quase toda das muralhas de Mdina, não estou exagerando. Da parte Sul das fortificações, avista-se uma faixa de planície árida, meio salpicada de áreas verdes, que  serve de moldura para o azul do Mediterrâneo, a pelo menos 3 km de distância.

Do Bastião Despuig, logo atrás da Catedral, quem nos acena do horizonte é a famosa Rotunda de Mosta.

A gigantesca cúpula da Basílica da Assunção de Nossa Senhora tem 37 metros de diâmetro na parte interna, apoiada sobre paredes de quase 10 metros de espessura, para suportar seu peso. A igreja foi construída no Século 19, com um desenho inspirado no Pantheon de Roma.

Muralhas de Mdina, Malta

Fosso em torno das muralhas de Mdina, Malta
O fosso em torno das velhas muralhas de Mdina é agora um simpático jardim

A Rotunda é uma atração bem conhecida em Malta. Os ônibus que vêm de Valeta e Sliema para Mdina param na cidade de Mosta, bem em frente à igreja, o que facilita combinar os dois passeios.

Se você quiser fazer uma parada em Mosta no caminho para Mdina, saiba que ela está a cerca de 3 km de Mdina. A viagem entre as duas cidades leva cerca de 20 minutos, com ônibus partindo em intervalos de 10 minutos. 

Loja de souvenir em Mdina, Malta
Eu passei uma semana em Malta esperando a hora em que iria encontrar menções ao Falcão Maltês, um dos meus filmes mais amados, estrelado por Humphrey Bogart. O DVD e réplicas do falcão da história apareceram nesta lojinha de souvenir de Mdina

⭐"A Cidade Silenciosa"
A história e a poesia do apelido de Mdina

Os 2.700 anos de história de Mdina não passaram em linha reta. A cidade conheceu momentos de importância como capital, a turbulência de cercos e conquistas e períodos de absoluto abandono, despovoada e quase esquecida.

É desses hiatos de vida que vem o poético apelido de Mdina: “A Cidade Silenciosa”.

Mdina, Malta

Rua de Mdina, Malta
Ruas estreitas, paredes douradas e muito sossego: caminhar por Mdina é um imenso prazer

O sono mais longo de Mdina foi iniciado no final do Século 9: depois de uma ocupação mais ou menos contínua sob os fenícios, romanos e bizantinos, a cidade caiu diante dos árabes, saqueada e abandonada.

Somente no Século 11 ela voltaria a ser repovoada por colonos muçulmanos e, posteriormente (no ano de 1091), pelos normandos, que então dominavam a Sicília.

Como parte do Reino da Sicília, Mdina acabaria sob domínio aragonês até a chegada dos cruzados — que haviam perdido sua praça forte de Rodes para os otomanos, em 1522.

Rua de Mdina, Malta

Os cruzados — oficialmente, a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários de São João — chegaram a Malta em 1630 e preferiram transferir a capital da ilha para mais perto do mar, em Birgù (La Vittoriosa, uma das chamadas Três Cidades), dando início a um novo processo de despovoamento de Mdina.

Mas você nem precisa conhecer a biografia de Mdina para concordar com o apelido de “Cidade Silenciosa”.

Igreja da Anunciação, Mdina, Malta
Igreja da Anunciação, na Villegaignon Street

Mdina, Malta
Os automóveis dos moradores são raros lembretes de que estamos nos tempos de agora. Apenas os 300 moradores podem entrar de carro na cidade

Depois de atravessar a moderada aglomeração diante da porta de Vilhena e entrar na cidade murada, é perceptível a mudança de tom: o tempo passa mais devagar, a vista passeia sem pressa pelas paredes de pedras douradas e os decibéis parecem mesmo ter ficado do lado de fora das muralhas.

Com apenas 300 habitantes, a única coisa que parece conectar as ruas silenciosas de Mdina aos nossos tempos são os poucos carros estacionados diante das fachadas de quase 500 anos de idade — os cruzados podem não ter querido fazer sua sede principal em Malta em Mdina, mas praticamente tudo todas as construções que você vai ver no interior das muralhas leva a assinatura desse período.

Rua de Mdina, Malta

 
Rua de Mdina, Malta

O traçado das ruas, porém, é muito mais antigo, afilado e de meneio suave — o aparente desapreço pela linha reta que se associa às plantas das cidades árabes.

Eu adoro caminhar por esses labirintos e teria passado muito mais tempo explorando o enredo das ruas de Mdina. Mas a cidade é tão pequena — quase um quadrado que mal chega aos 300 metros de lado — que a brincadeira de tentar me perder rendeu pouco mais que um par de horas.

Rua de Mdina, Malta

⭐Mélite, a Mdina romana
Em 218 a.C., Malta foi ocupada pelos romanos, que ficaram por lá até a decadência de seu império. Os poucos vestígios da presença romana em Mdina, que permanecia como capital, podem ser vistos no Museu Domvs Romana, na atual cidade de Rabat, do lado de fora das muralhas. 

A Domus Romana era um palácio, descoberto em 1881. Lá foram escavados mosaicos muito bem preservados. Hoje, o museu exibe também outras peças do período romano encontradas em Mdina.

Villegaingnon Street, Mdina, Malta
Em 2020, partes do Templo de Apolo foram escavadas no subsolo da Villegaingon Street, a rua principal de Mdina 

➡️ O  Museu Domvs Romana fica na Museum Esplanade, a 400 metros do Portão de Mdina. Abre apenas às terças, sábados e domingos, das 10h às 16:30h. A entrada custa € 6 (€ 4,50 para estudantes e maiores de 60 anos e € 3 para crianças até 11 anos).

Outros testemunho da presença romana ainda visível são o Templo de Apolo, descoberto no Século 18, as Catacumbas de São Paulo e de Santa Ágata, em Rabat

As ruínas do Templo de Apolo foram pilhadas e parte de suas peças de mármore foram usadas em construções, inclusive na Catedral de São Paulo. Em 2002, novas partes do templo foram escavadas na Rua Villegaignon.

Capela de São Roque, Mdina, Malta
A Capela de São Roque, também chamada de Capela de Nossa Senhora da Luz, é do Século 18. Tão pequenininha que, se a gente passar distraída, corre o risco de não reparar nela 

Como chegar a Mdina

Em Valeta e Sliema, você vai encontrar uma grande oferta de excursões a Mdina, geralmente combinadas com outras atrações da Ilha de Malta. O ônibus hop-on hop-off também passa por lá.

Mas, se você quer o meu conselho, vá por conta própria, com transporte público, porque é fácil, barato e confortável. Se você tiver um Tallinja Card (o cartão do transporte público de Malta), não vai gastar nada pelo deslocamento. caso contrário, saiba que a passagem de ônibus em Malta custa € 1,50, de outubro a meados de junho, e € 2, durante a temporada de verão. 

Rabat, Malta
Rabat, antigo subúrbio fora das muralhas de Mdina, é hoje uma cidade com 12 mil habitantes (uma multidão, em escala maltesa 😁). É lá que chegam os ônibus que vêm de Sliema, Valeta e outras partes da ilha

Parque público em Rabat, Malta, diante das muralhas de Mdina
A parada de ônibus fica de cara para as muralhas

➡️ De Sliema até Mdina, o ônibus 202 faz o trajeto em 55 minutos (passado por Mosta, onde você pode fazer uma parada na ida ou na volta). 

➡️ De Valeta a Mdina, há várias linhas que fazem o trajeto, que dura cerca de 30 minutos. Simule seu itinerário com o planejador de rotas da empresa de transportes públicos de Malta, que ele indica direitinho em que parada você deve pegar o ônibus e calcula o tempo de percurso.

Parque público em Rabat, Malta
Antes de entrar em Mdina, aproveite um pouco do Ġnien Howard, parque público de Rabat diante das muralhas 

Charretes de aluguel no Ġnien Howard, parque público em Rabat, Malta
As charretes que fazem ponto no parque levam turistas para passear dentro das muralhas. Eu tenho pena dos cavalinhos e não costumo usar esse tipo de transporte

Mapa de Mdina e Rabat, Malta
Pra deixar bem explicadinho: Mdina (marcada em vermelho) e Rabat (em amarelo) ficam coladinhas

Um detalhe importante: a rigor, não existem ônibus para Mdina e sim para Rabat, a cidade moderna que praticamente engolfa a antiga capital. A parada fica em frente a um parque público muito agradável, do ladinho das muralhas (e com uma vista deslumbrante para a "Cidade Silenciosa").

Portanto, não se assuste se a rota de ônibus planejador lhe sugerir não citar Mdina entre as paradas. Vá pra Rabat, porque dá no mesmo 😉.

Mdina, Malta

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