8 de abril de 2021

Três Cidades, Malta: o que fazer em Birgù, Senglea e Cospicua

Birgù e Senglea vistas do Upper Barrakka Gardens, em Valeta, Malta
As Três Cidades de Malta são muito fotogênicas — de perto e de longe. Na imagem, Birgù (La Vittoriosa, à esquerda) e Senglea encarapitadas em suas respectivas penínsulas, fotografadas dos Upper Barrakka Gardens, em Valeta

Já falei aqui que as cidades de Malta são tão pequenas e grudadinhas que parecem bairros, né? Pois Birgù, Senglea e Cospicua levam essa ideia muito a sério. Juntas e quase misturadas, elas se abraçam à beira do Grand Harbour ("Porto Grande") para formar um conjunto danado de fotogênico, que a gente logo aprende a identificar como “As Três Cidades de Malta”.

A beleza das Três Cidades de Malta é uma herança dos Cavaleiros Hospitalários da Ordem de São João — os Cruzados de Malta — que chegaram ao arquipélago em 1530, após perderem sua praça forte de Rodes para os otomanos.

Mapa das Três Cidades de Malta
Ao Sul de Valeta, diante do Grand Harbour, as Três Cidades de Malta rendem um ótimo passeio. Birgù e Senglea ficam nas duas penínsulas que parecem dedos que se esticam na direção da capital

Em Malta, os cruzados repetiram — e aperfeiçoaram — o prodígio de engenharia militar que já havia convertido seu quartel general anterior, a Cidade de Rodes, na principal fortaleza da cristandade na rota entre a Europa e a Terra Santa.

Eles transferiram a capital de Mdina, no centro do País, para a também milenar Birgù, construíram Senglea e Cospicua e as dotaram não apenas de muralhas e fortificações poderosas, mas de muitos palácios e igrejas — umas lindezas que hoje contemplam ruas estreitas e sossegadas das Três Cidades de Malta do alto dos encantadores balcões malteses.

A mais famosa fortificação dos cruzados nas Três Cidades é a Linha Cottonera (o nome é  homenagem ao grão-mestre Nicolas Cotoner), que cercava Birgù, Senglea e Cospicua. 

Balcões malteses em Birgù (La Vittoriosa), Malta
Se a ideia é namorar os encantadores balcões malteses, as ruas estreitas de Birgù são um banquete

Visitar as Três Cidades de Malta é um passeio delicioso, fácil de organizar e quase grátis — apenas os museus cobram ingressos. 

Veja as dicas para explorar o charme de Birgù, Senglea (La Isla) e Cospicua (Bormla):


As Três Cidades de Malta

Fui apresentada às Três Cidades de Malta, à distância, quando as pedras douradas das construções desse trio encantador resplandeciam ao sol quase poente, do outro lado das águas azuis do Grand Harbour. Que cena, leitor@s!!

Malta: Forte de Sant'Angelo, na ponta da península de Birgù, visto do Upper Barrakka Gardens
O Forte de Sant'Angelo, na ponta da península de Birgù, visto do Upper Barrakka Gardens

Naquela hora, debruçada na muralha dos Upper Barrakka Gardens, em Valeta, eu era capaz de apostar que as Três Cidades de Malta não tinham como ficar mais sedutoras.

Do Upper Barrakka Gardens você vai ver os emaranhados de construções de Birgù e Senglea assentados cada qual sobre suas península — que parecem dedos tentando tocar Valeta, do lado de cá do porto — e Cospicua se acomodando mais além, no fundo de um estreito canal onde está instalada uma movimentada marina.

Balcão típico de Malta em La Vittoriosa (Birgù)
Um típico balcão maltês em uma rua de Birgù

Birgù (La Vittoriosa), Malta
O braço de mar que separa Senglea (à esquerda) de Birgù (à direita) abriga uma concorrida marina

 A visão é realmente poderosa — e eu até recomendo que você comece a explorar as Três Cidades nesse contato à distância.

Mas se eu tivesse feito a tal aposta, teria perdido feio: se Birgù, Senglea e Cospicua formam um panorama arrebatador para quem as vê de longe, foi de pertinho, na profusão de detalhes, que elas avassalaram meu coração. 

Rua de Birgù (La Vittoriosa), Malta
Uma pacata rua de Birgù, à sombra das muralhas do Forte Sant'Angelo

Birgù, a Vitoriosa
Quando os cruzados chegaram a Malta, em 1530, Birgù já era uma povoação antiga. Assim como Mdina, de quem herdou o posto de capital, ela foi fundada pelos fenícios, que chegaram à ilha no Século 8 a.C.

As atuais feições de Birgù, porém, são herança dos cruzados, que trataram de dotar sua nova capital com diversos palácios, bastiões e fortes imponentes.

Você deve estar se perguntando porque eu insisto em chamar a cidade de Birgù, ao invés de trata-la pelo título de La Vittoriosa, como é geralmente chamada nos guias de viagem.

A resposta é simples: os habitantes de Malta, os letreiros dos ônibus e as placas de rua se referem a Birgù por seu nome maltês/fenício.

Fachada histórica em Birgù, Malta
As ruas de Birgù são cheias de detalhes encantadores
 
O apelido de La Vittoriosa, porém, não é para ser desprezado, porque conta um episódio muito importante da história de Birgù e do país. Ele se refere à tenaz resistência da cidade durante o Grande Cerco de Malta pelos otomanos.

Entre 18 de maio e 11 de setembro de 1565, cerca de 500 cavaleiros hospitalários (os cruzados de Malta), à frente de 2,5 mil soldados e 3 mil combatentes malteses, resistiram a 50 mil atacantes otomanos, que acabaram desistindo de tomar a ilha.

Colegiata de São Lourenço, Birgù, Malta
O passado guerreiro de Birgù desaparece no sossego de suas rua. À direita, a Collegiatta de San Lorenzo, do Século 17
 
Essa defesa encarniçada dos malteses aos otomanos é hoje apontada pelos estudiosos como a mais bem sucedida defesa de uma praça forte em toda a história bélica no Ocidente.

Segundo o diário do arcabuzeiro Francesco Balbi di Correggio, que combateu em Malta durante o cerco, a Birgù suportou mais de 130 mil balas de canhão, disparadas pela artilharia otomana. Por duas vezes, os atacantes conseguiram se infiltrar pelas brechas abertas nas muralhas da cidade foram repelidos pelos defensores.

Rua de Birgù, Malta
Uma "avenida", para padrões "birguenses"

Hoje, os 2.500 habitantes de Birgù aproveitam a paz e o silêncio que reina sobre sua península. 

Dos pouco mais de 500 mil metros quadrados da área da cidade, poucos são os espaços amigáveis ao tráfego de veículos — toda vez que eu via um carro estacionado na porta de uma residência, ficava procurando o guindaste 😊 usado para colocá-lo ali. Em geral, as ruas são tão estreitas e tortuosas que é difícil acreditar que um automóvel consiga circular por elas.

Birgù é a maior e a mais interessante das Três Cidades de Malta. É lá que você vai encontrar as atrações mais reconhecidas e recomendadas.

Couvre Porte, acesso a La Vittoriosa, Malta
A Couvre Porte, do Século 18, era um dos três acessos a Birgù. A porta fortificada hoje abriga o Malta at War Museum, dedicado à memória da II Guerra Mundial

Couvre Porte, acesso a La Vittoriosa, Malta

O que fazer em Birgù

⭐Forte Sant'Angelo
Xatt l-Assedju l-Kbir 1565, Birgu

🕒 Diariamente, das 9h às 17h
💲 Ingresso: € 8. Estudantes, jovens entre 12 e 17 anos de idade e maiores de 60 anos pagam € 5. Crianças entre 6 e 11 anos pagam € 3, Menores de 5 anos têm entrada gratuita.

Forte de Sant'Angelo, Birgù, Malta
Um velho canhão do Forte Sant'Angelo ainda vigia o Grand Harbour

Na ponta da península onde se assenta Birgù, é impossível não prestar atenção à estrutura grandiosa do Forte Sant’Angelo, guardando a entrada do Grand Harbour.

Sua estrutura original é anterior à chegada dos cruzados.

O velho Castrum Maris  (“castelo do mar”, como era chamado) data do Século 13 e foi construído por ordem do sacro imperador romano-germânico Frederico II Hohenstaufen.

Forte Sant"Angelo Malta
O pequenino luzzu cruza o braço de mar entre Senglea e Birgù observado pelas sisudas muralhas do Forte Sant'Angelo

O que você vai ver nos dias de hoje, porém, é obra dos cruzados, que fizeram do Forte Sant’Angelo uma de suas principais estruturas defensivas e quartel-general — era lá que vivia e despachava o Grão-Mestre dos Cavaleiros da Ordem de São João, até a construção e transferência da capital de Malta para Valeta, em 1571.

Para conhecer mais sobre a história do Cerco de Malta e da trepidante biografia do Forte de Sant’Angelo, vale visitar o pequeno museu que funciona lá mesmo, na fortaleza, onde se destaca a coleção de peças de artilharia.

O melhor da visita ao forte, porém, é a vista magnífica que se tem de suas muralhas e bastiões, debruçados sobre o Grand Harbour — e para visitar as muralhas externas não é preciso pagar ingresso.

⭐Palácio do Inquisidor (Museu de Etnografia)
Main Gate Street s/n


🕒Visitas apenas às terças, sábados e domingos, das 10h às 16:30h
💲 Ingressos: € 6. Estudantes, adolescentes entre 12 e 17 anos e maiores de 60 pagam € 4,50. Crianças entre 6 e 11 anos pagam € 3. Para crianças até 5 anos a entrada é gratuita.

Palácio do Inquisidor, Birgù, Malta
A Sala de julgamentos e o hall de entrada do Palácio do Inquisidor

Eu tenho calafrios em lugares assombrados por memórias de intolerância. Tive um ataque de asma depois de visitar o Museu da Inquisição de Cartagena — até hoje não sei se foi por causa da poeira e da umidade ou se foi pelo carma do edifício — e sequer consegui entrar no Estádio Nacional de Santiago do Chile, que foi transformado em campo de extermínio da ditadura Pinochet.

Por isso, limitei-me a dar uma olhadinha na fachada do Palácio do Inquisidor (Il-Palazz Tal-Inkwiżitur), construção do Século 16 que abrigou as atividades do Tribunal do Santo Ofício em Malta entre 1574 e 1798, quando a invasão napoleônica na ilha acabou com a farra dos queimadores de gente em nome da fé.

Palácio do Inquisidor, Birgù, Malta
Pátio central do palácio

 Ainda que os guias turísticos sobre Malta descrevam o palácio como um primor arquitetônico, resolvi pular a visita a seu interior, onde é possível percorrer ambientes luxuosos, a sala do tribunal, prisões e até a câmara de tortura — brrrr.

O Palácio do Inquisidor também é sede do Museu Nacional de Etnografia de Malta, onde está exposta uma coleção sobre as tradições religiosas do país reunida pela Inquisição.

Beira-mar de Birgù, Malta
Para chegar ao Museu Marítimo, é só seguir a beira-mar. Mas vá pela sombra, porque o sol de Malta é inclemente 😉

⭐Museu Marítimo de Malta
Ex-Naval Bakery, Birgu Waterfront s/n

🕒 Visitas: diariamente das 9h às 17h
💲 Ingressos: € 5

Imagine se a Fragatinha não se esbaldou nesse lindo museu maltês, repleto de memórias dos 7 mil anos da relação de Malta com o mar.

Museu Marítimo de Malta

O acervo do Museu Marítimo de Malta tem mais de 20 mil peças, que incluem muitos modelos de embarcações, exemplares originais dos luzzijiet — os típicos barcos pesqueiros coloridos de Malta —armamento, mapas e cartas náuticas... Pra mim, é uma senhora festa.

Para nós, brasileiros, um item da coleção ganha destaque especial: a enorme figura de proa do navio de linha britânico HMS Hibernia, que escoltou a família real portuguesa de Lisboa até o Brasil em 1808, na fuga da invasão napoleônica.

Figura de proa do HMS Hibernia, Museu Marítimo de Malta
A figura de proa do Hibernia, embarcação inglesa que escoltou a família imperial portuguesa na fuga para o Brasil, em 1808

Só uma notinha: “navio de linha”, no caso, não se refere a barco de passageiros que faz viagens regulares. É o termo náutico/bélico que descreve o maior tipo de embarcação de guerra da Era da Vela, destinado a compor a linha de batalha no mar.

O Hibernia tinha 110 canhões e esteve ativo na frota britânica no Mediterrâneo entre 1804 e 1855. Entre 1856, foi a nau capitânia da frota britânica em Malta, até ser aposentado em 1902.

Museu Marítimo de Malta
Timão de um barco a vapor. Abaixo, exemplares da bela coleção de modelos de embarcações do Museu Marítimo de Malta

Museu Marítimo de Malta

Museu Marítimo de Malta

Museu Marítimo de Malta
Nas duas fotos acima, modelos de luzzijiet (plural de luzzu), os encantadores barquinhos malteses

Museu Marítimo de Malta

Museu Marítimo de Malta
Modelo de um xaveco, embarcação movida a vela e a remos, muito usada por piratas berberes no Mediterrâneo a partir do Século 15

Outro capítulo interessantíssimo do Museu Marítimo de Malta é a reconstituição de uma sala de máquinas e ponte de comando de um navio a vapor, com peças originais.  

O museu está instalado na antiga padaria da Marinha Maltesa, que fabricava as famosas “bolachas de bordo” para abastecer a frota e também pão para o suprimento dos navios e da população. Era uma baita estrutura, chegando a produzir até 14 mil quilos diários de pães e bolachas.

Museu Marítimo de Malta
Os canhões de bordo eram montados sobre sua estrutura de trilhos para deslizarem para trás no coice do disparo. À esquerda, estandarte religioso que "abençoava" as expedições de uma embarcação

O edifício é do Século 19 e estava abandonado e bastante danificado quando foi escolhido para a sediar o museu, no final dos anos 80. A restauração deixou e velha padaria tinindo.

Os espaços amplos e a organização da exposição, bem didática e explicadinha, fazem do Museu Marítimo de Malta um programa muito bacana, mesmo pra quem não é fanática pelo tema, como eu. 

Senglea, Malta
A pequena Senglea e sua moldura azul

A invicta Senglea
Com apenas 14 mil metros quadrados de área, Senglea poderia ser o tipo de lugar que quando você viu, já passou. Mas a pequenininha é danadinha de bonita.

Seu nome maltês já diz tudo: L-Isla (“A Ilha”), Apesar de estar sobre uma península, o que mais se vê em Senglea é mar por todos os lados. E não qualquer mas, mas a moldura azul do Mediterrâneo.

Senglea, Malta
Com apenas 14 mil m² de área e 2.700 habitantes, Senglea tem a maior densidade populacional de Malta. Se fizerem um censo das embarcações na marina que ela divide com Birgù, com certeza será constatada muvuca semelhante 😊

Mirante de Il-Gardjola, Senglea, Malta
Na falta de um drone, vamos de Google Earth para mostrar a localização de Il-Gardjola, o mirante mais famoso de Malta

Mirante Il-Gardjola, Senglea, Malta
O olho e a orelha esculpidos na torre de vigia de Il-Gardjola não deixam dúvidas: a guarda está atenta

A principal atração da cidade é o mirante do Safe Haven Gardens, um antigo bastião em Senglea Point, onde está a torre de observação de Il-Gardjola.

Senglea também é chamada de Città Invicta, pois passou praticamente incólume pelo cerco turco.

Uma ponte de pedestres entre Birgù e Cospicua, Malta
Uma ponte de pedestres permite a travessia de Birgù para Cospicua

Ponte de pedestres entre Birgù e Cospicua, Malta

A notável Cospicua (Bormla)
O Grande Cerco rendeu títulos/apelidos para todas as Três Cidades de Malta. Cospicua significa “conspícua” ou “notável”, uma homenagem à brava resistência do povo local durante o assédio otomano de 1556.

As principais atrações de Cospicua são as fortificações da Linha Cottonera, conjunto de muralhas e bastiões do final do Século 17, e a Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.
 
Elevador do Upper Barrakka Gardens, Valeta, Malta
O elevador dos Upper Barrakka Gardens e, ao fundo, Senglea de corpo inteiro

Como chegar às Três Cidades de Malta

➡️ Birgù está na rota de diversas linhas de ônibus (1, 2, 3, 5 e 213, por exemplo) que partem do Terminal Central de Valetta.

As paradas em Birgù ficam na parte alta da cidade, o que é uma boa notícia: de lá é só ir descendo em direção à beira mar.

➡️ Mas o melhor jeito de ir às Três Cidades de Malta é de ferry, transporte público bem eficiente e barato — com direito a um visual maravilhoso durante o trajeto.

 
Ferry entre Valeta e Cospicua, Malta
O ferry é rápido e barato e ainda oferece uma baita paisagem no caminho. Mas não faça como eu, que deixei para regular a câmera fotográfica em cima da hora. A maioria das fotos do trajeto ficaram superexpostas 😪. Já falei que o sol em Malta é brabo?

Um elevador conecta os Upper Barrakka Gardens com o cais, em Valeta, que está 58 metros abaixo dos jardins. Saindo do elevador, o atracadouro do ferry é quase em frente. 

(E é bom você saber que os Upper Barrakka Gardens estão a apenas 600 metros do terminal central de ônibus de Valeta, onde chegam linhas de todas as localidades maltesas).

Apenas para subir e descer o elevador, você paga € 1. Mas se você tiver o tíquete do ferry para a travessia (€ 1,50) o elevador é grátis.

Birgù, Malta
Mas até que deu pra aproveitar uma fotinha ou outra... 😊

Três Cidades, Malta

 Se a ideia é ir às Três Cidades e voltar a Valeta pelo mesmo caminho, compre logo o bilhete ida e volta do ferry, com direito a usar o elevador, por €2,80.

A travessia é curtinha, menos de 10 minutos. A chegada é no cais de Cospicua, onde há uma ponte de pedestres para La Vittoriosa.
O ferry funciona diariamente das 6:45h às 19h (no verão, até meia-noite).



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