25 de fevereiro de 2021

Hagar Qim e Mnajdra, templos megalíticos de Malta mais antigos que as pirâmides do Egito

Templo de Hagar Qim, Malta
Portal principal do Templo de Hagar Qim: vale muito a pena cabular algumas horas de praia pra ver essa maravilha maltesa


Hagar Qim e Mnajdra são dois templos megalíticos de Malta que podem olhar para as pirâmides do Egito e para Stonehenge, na Inglaterra, como a gente olha para primos caçulas que ainda não tiraram as rodinhas de apoio da bicicleta.

São quase 6 mil anos de idade e muita beleza feita de imensos blocos de pedra — o maior deles pesa 57 toneladas —, atestado do engenho construtivo dos povos ancestrais de Malta.

Monólito de 57 toneladas no templo megalítico de Hagar Qim, Malta
Monólito de 57 toneladas no Templo de Hagar Qim, o maior já encontrado em Malta

Templo megalítico de Mnajdra, Malta
Templo de Mnajdra

Cerca de 600 metros separam os templos de Hagar Qim e Mnajdra. O complexo arqueológico fica na Costa Sul da Ilha de Malta, a cerca de 2 km da vila de Qrendi.

É bem fácil organizar a visita: dá pra ir de transporte público, partindo de cidades como Valeta ou Sliema, ou com o ônibus hop on - hop off, combinando o passeio com outras atrações, como a Golden Bay e a vila de Marsaxxlok.

Parque Arqueológico de Hagar Qim, Malta
O Parque Arqueológico de Hagar Qim é bem organizado para as visitas turísticas

O Parque Arqueológico de Hagar Qim e Mnajdra é bem preparado para receber turistas, tem um centro de informações bacaninha e todo o percurso é sinalizado, com placas explicativas, pra a gente entender o que está vendo.

OK, Malta é mesmo um convite irrecusável ao hedonismo. A tentação de submergir no triângulo praias-farras-comilança é imensa. Mas recomendo que você reserve parte do seu tempo para explorar esses dois tesouros pré-históricos do país. Você vai ver que vale muito a pena.

Veja as dicas para visitar os templos megalíticos de Malta:

Cobertura de lona sobre o Templo de Hagar Qim, Malta
Os toldos foram colocados sobre os templos para protegê-los das chuvas e ventos que aceleram a erosão da pedra calcária das construções

Templos megalíticos de Malta

Quando as primeiras pirâmides do Egito começaram a ser construídas — em Sacará, perto de Mênfis, a capital do Império Antigo —, por volta de 2.600 a. C., o Templo de Hagar Qim já olhava para as águas do Mediterrâneo há mais ou menos 1.000 anos.

As primeiras pedras, gigantescas pedras, de Hagar Qim e Mnajdra começaram a ser assentadas por volta do ano 3.600 a.C. e a construção prosseguiu até cerca de 3.200 a.C.. A designação de templos megalíticos vem da dimensão dessas pedras (megálitos, do grego megalos/ grande + lithos/ pedra).

Grande menir do Templo de Hagar Qim, Malta
O Grande Menir de Hagar Qim (à esquerda) tem 5,2 metros de altura. Alguém aí lembrou de Obelix?


Templo de Mnajdra, Malta
Templo de Manjdra

Dois exemplos do significado de megalítico a gente vê logo na entrada do Templo de Hagar Qim: o Grande Menir, uma "coluna" de calcário que se estica em 5,2 metros de altura, e o famoso bloco de 57 toneladas e mais de 5 metros de largura que compõe uma das paredes externas da estrutura. É o maior megálito já encontrado em Malta.

Hagar Qim e Mnajdra parecem ter sido utilizados para a observação astronômica e marcação da passagem do tempo, além de rituais religiosos relativos à fertilidade e sacrifícios de animais.

Porta de acesso a uma das câmaras do Templo de Hagar Qim, Malta
Esta porta de acesso a uma das câmaras de Hagar Qim foi esculpida em um único bloco de calcário. Os arqueólogos acreditam que ela fosse fechada por placas de madeira ou uma cortina de couro de animal

Altar no Templo de Hagar Qim, Malta
Um altar do Templo de Hagar Qim. Esta peça é uma cópia. O original está no Museu Nacional de Arqueologia, em Valeta

Em Hagar Qim, uma espécie de “janelinha” — uma perfuração ovalada em uma das grossas paredes de calcário — permite a passagem dos raios do sol nascente exatamente no dia do solstício de verão no Hemisfério Norte, iluminando uma estela que poderia ter sido um altar. Em Mnajdra, o mesmo acontece no equinócio de outono.

Hagar Qim e Mnajdra não são os únicos templos megalíticos de Malta. Um exemplo é o complexo de Tarxien (datado de 3.250), que fica em área urbana, e também é muito visitado.

Altar no Templo de Hagar Qim, Malta
Altar no Templo de Hagar Qim

Os construtores dos templos megalíticos de Malta

Estudos recentes de DNA apontam que as ilhas maltesas foram originalmente povoadas por migrações provenientes das orlas do Mediterrâneo. Acredita-se que o solo pouco fértil de Malta e uma longa seca tenham levado à extinção dessa primeira civilização, cerca de 1.000 anos antes da chegada dos construtores dos templos megalíticos.

Esses chegaram a Malta por volta de 3.850 a.C., numa leva migratória provavelmente vinda da Sicília. Eles viveram da pesca e da agricultura, ergueram suas espetaculares estruturas de calcário e desapareceram por volta de 2.500 a.C. — talvez em decorrência de mais um longo período de estiagem.


Vênus de Malta, escultura neolítica típica dos templos megalíticos
As figurinhas humanas de largas ancas eram presença constante nos templos megalíticos. Segundo os arqueólogos, elas eram utilizadas em rituais de fertilidade

 
Vênus de Malta, Museu Nacional de Arqueologia, Valeta
A Vênus de Malta, encontrada em Hagar Qim está no Museu Nacional de Arqueologia de Valeta

A Vênus de Malta

A Vênus de Malta é uma figura de terracota encontrada na primeira câmara do Templo de Hagar Qim que, acredita-se, seria usada em rituais de fertilidade. 

A peça é pequenininha — tem apenas 13 cm de altura — mas domina completamente a sala onde está exposta, no Museu Nacional de Arqueologia, em Valeta (uma visita indispensável para quem se interessa por história e arqueologia).

Nos templos de Malta foram encontradas muitas as representações da figura humana, em geral, com largas ancas, como os antigos entendiam os corpos férteis femininos. Parte dessas figuras apresentam seios enormes e o abdome crescido, como na gravidez. 

Outras figurinhas, porém, apresentam formas ambíguas, sem características explícitas femininas ou masculinas. Por isso, os arqueólogos não arriscam afirmar que todas essas esculturas retratassem mulheres.

"A Dama Adormecida", figura feminina encontrada em um templo megalítico de Malta

A Dama Adormecida, figura de terracota encontrada no Hipogeu de Ħal Saflieni, uma antiga necrópole na atual cidade de Paola, ao lado de Valeta

"A Dama Adormecida", figura em terracota encontrada em um templo megalítico de Malta


 Uma figura muito bem preservada, A Dama Adormecida, foi encontrada no antigo centro ritual e cemitério hoje chamado de Hipogeu de Ħal Saflieni (3.300 a.C.- 3.000 a.C.), escavado na atual cidade de Paola, ao lado de Valeta. A peça também está no Museu Nacional de Arqueologia. 

A Dama tem apenas 12 centímetros e a delicadeza e a sofisticação de seus traços são impressionantes. 

Centro de Visitantes do Parque Arqueológico de Hagar Qim, Malta
Comece o passeio pelo Centro de Visitantes, onde peças arqueológicas, painéis explicados e um vídeo ajudam a compreender o que você verá nos templos

Visita aos templos de Hagar Qim e Mnajdra

➡️ Como chegar: o endereço do Parque Arqueológico é Triq Hagar Qim, vila de Qrendi. Várias linhas de ônibus regulares passam por lá (desça na parada Hagar) e a maneira de descobrir qual o melhor trajeto pra você é usar o planejador de rotas do site oficial do transporte público de Malta.

Eu fui aos templos de Hagar Qim e Mnajdra com o ônibus hop on-hop off pela praticidade. O passeio custou € 20 e achei que o preço compensou pelo conforto e ganho de tempo.

Se tivesse optado pelo busão comum, não teria gasto nem um centavo com o deslocamento, já que eu tinha um Tallinja Card, o passe do transporte público de Malta que é uma mão na roda. 

ônibus hop on - hop off em Malta
Eu visitei os templos megalíticos de Malta com o ônibus hop on-hop off e aprovei a alternativa

ônibus hop on-hop off em Malta
Uma coisa boa de viajar nos ônibus hop on-hop off é poder ver a paisagem 

ônibus hop on-hop off em Malta

ônibus hop on-hop off em Malta


Com o hop on-hop off, porém, pude fazer um passeio mais abrangente e mais relaxado, parando em Marsaxxlok para ver os lindos barquinhos chamados luzzu, que são a logomarca desse porto pesqueiro tradicional, e na Golden Bay, onde falésias, cavernas e torres medievais fazem companhia a um Mediterrâneo muito azul.

Se tivesse optado pelo transporte público, não teria dado tempo de ver tudo isso.

Templos de Hagar Qim e Mnajdra, Malta
Uma trilha liga os templos de Hagar Qim e Mnajdra. São só 600 metros, mas a caminhada sob o sol pode ser cruel. Leve chapéu e garrafinha de água na visita

➡️ Horário de visita aos Templos de Hagar Qim e Mnajdra
De junho a outubro: todos os dias das 9:00 às 18:00 horas.
De novembro a maio: todos os dias das 9:00 às 17:00 horas.

➡️ Ingresso 
Adultos: €10 (R$65,50)
Jovens de 12 a 17 anos, maiores de 60 anos e estudantes: €7,50 (R$49,10)
Crianças de 6 a 11 anos: €5,50 (R$36)
Menores de 5 anos: entrada gratuita.

Templo de Hagar Qim, Malta
Placas em maltês e inglês nas diversas áreas dos templos oferecem informações úteis durante a visita

 Ao chegar ao Parque Arqueológico de Hagar Qim, comece seu percurso pelo Centro de Visitantes, onde é exibido um vídeo sobre a história e a construção dos templos que, juntamente com painéis explicativos, ajudam na compreensão do que vamos ver a seguir, cara a cara com as construções. 

As diversas áreas do templo também são identificadas e explicadas em placas bilíngues (inglês e maltês).

Templo de Mnajdra, Malta
Detalhe do pátio externo do Templo de Mnajdra

Templo de Mnajdra, Malta


Uma caminhada muito curtinha leva ao Templo de Hagar Qim (em maltês Ħaġar Qim, pronuncia-se hadjar ‘im, com h aspirado). A construção está abrigada por um toldo em formato de cúpula, que a protege da ação do tempo — o material usado no templo, o calcário coralino, é muito sensível à erosão.

Por passarelas de madeira, é possível percorrer o interior do templo, suas diversas câmaras e o átrio. A planta de Hagar Qim, vista em desenhos, lembra um trevo, com os ambientes em forma de círculos e semicírculos.

Originalmente, havia blocos de calcário assentados horizontalmente sobre as paredes do templo para estruturar tetos em forma de cúpulas, mas os arqueólogos acreditam que essa cobertura jamais foi terminada — os arquitetos do neolítico devem ter se defrontado com um problema construtivo parecido com o que atormentou os construtores do Duomo de Florença, 4.800 anos depois, até que a intervenção de Bruneleschi resolvesse a parada.

Planta do Templo de Hagar Qim, Malta
Planta do Templo de Hagar Qim

Cerca de 600 metros de descida suave pelo morro levam ao Templo de Mnajdra (L-Imnajdra em maltês, pronuncia-se náidra), que está quase pendurado sobre o mar, na beira da falésia. Ele também está protegido por uma cobertura e pode ser explorado na parte interior.

No caminho entre os templos, preste atenção à Torre Ħamrija, que aparecerá à sua esquerda. Ela foi um posto de vigia construído no Século 17, ainda no tempo dos Cavaleiros da Ordem de Malta, e está aberta ao público 24 horas, recém restaurada, com entrada gratuita. Fica a cerca de 400 metros do Templo de Mnajdra. 

Ilha de Filfla, no Arquipélago de Malta
Filfla, uma das menores ilhas do arquipélago de Malta, vista do Templo de Mnajdra

Ilha de Filfla, no Arquipélago de Malta


Durante o trajeto, olhando para o mar, você vai ver a pequenina Filfla (60 mil m² de superfície, apenas), uma das muitas ilhotas do arquipélago de Malta. 

Filfla é desabitada, está a cerca de 5km de Malta e tem uma forma bem peculiar, com penhascos de até 60 metros de altura levando ao seu topo achatado. De longe, parece um chapéu flutuando no Mediterrâneo. 

Templos megalíticos de Malta
Minha dica: aproveite a descida e vá a pé do Templo de Hagar Qim ao templo de Mnajdra, pra não perder os detalhes do caminho. Na volta, poupe-se da subida e pegue o carrinho de golfe que faz o percurso

Templos megalíticos de Malta


Descer de Hagar Qim até Mnajdra é mole. Mas, no calor que faz em Malta (já perdi a conta de quantas vezes escrevi isso), a volta morro acima pode ser bem penosa, ainda que o aclive não seja dos mais íngremes. 

Para salvar a vida dos visitantes, um carrinho de golfe faz o trajeto entre os templos. A passagem custa € 1.




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2 comentários:

  1. Muitíssimo interessante! Não sabia que isso existia até agora! Mais vontade de ir pra Malta agora!

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  2. Fer, Malta tem muitas surpresas. Baita destino

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